CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

Mostrando postagens com marcador Iquitos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Iquitos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, outubro 19, 2026

MEUS OITENTANOS (22)

 

FASCÍCULO 22

         1981

A aventura prosseguiu com a viagem à capital peruana. Com o apoio funcional de um parente que trabalhava na Cruzeiro, adquiri passagens com desconto na condição de nacional. O vendedor aconselhou que eu falasse o mínimo possível para não ser identificado, não transportasse encomendas de terceiros e carregasse um agasalho, já que o inverno de Lima prometia chegar. No aeroporto de Iquitos – Francisco Secada Vignetta, inaugurado em 1979, embarquei no DC-3 ou 4 da Faucett Perú; ao tomar assento junto à janela aproveitei a paisagem para notar a transformação da selva em serras enevoadas dos Andes e, finalmente, as praias do Pacífico. Um amigo da família me recepcionou no aeroporto Jorge Chavez, na província do Callao, no domingo (26), antevéspera das “Fiestas Patrias”; e próximo do almoço ao chegar à casa onde me hospedei. Estava frio; o anfitrião, atencioso, ofereceu-me de imediato um copo de “leche del tigre”. A mim e ao jovem cicerone Carlos, que de pronto bebeu um largo gole; achei curioso um drinque temperado, contendo até cebola. Olhei para o Carlos e vendo sua desenvoltura, não duvidei, bebi ainda que com parcimônia. Não houve como escapar: a pimenta brotou por todos os poros e afugentou o frio. Desse modo, conheci o ceviche. Esclareço que o coquetel inicial nada mais era que o caldo desse prato.

Aeroporto de Iquitos (acima)
Bairro do Callao, onde se localiza o aeroporto
de Lima (abaixo)



Antes de deixar Lima, repassei algumas recordações aos amigos; porém, uma delas me afligiu: três jovens desejavam a única revista masculina Ele & Ela que dispunha. Resolvi aplicar uma solução salomônica: partilhei-a em três partes. Ao embarcar no aeroporto Jorge Chavez, fui assaz assediado para levar encomendas, mas, lembrando-me do conselho, cerrei os ouvidos. Em Iquitos, providenciei a passagem para Manaus, enquanto me despedia de tia Laura e dos primos Gil e Pepe e das primas Lita e Laurita. Meu filho Roberto havia permanecido em Tabatinga e, como não tivemos contato, eu desconhecia sua situação até o pouso do avião da Cruzeiro em Tabatinga. Ocupando o assento da janela, observava o embarque dos passageiros e, para meu prazer, vejo o filho na fila de embarque. Um amigo havia presenteado o garoto com a passagem. No dia seguinte ao desembarque em Manaus, compareci ao quartel para efetuar os registros de praxe; nessa ocasião soube que a corporação estava sob novo comando desde 04 de agosto.

O tenente-coronel EB Guilherme Vieira assumira a chefia, sendo o oitavo ocupante do cargo desde 1964. Aproveito para avaliar o desempenho da corporação, considerando a subordinação à Força Terrestre por quase vinte anos. O problema, entretanto, tinha contornos mais amplos: o movimento militar já dava sinais de enfraquecimento, indicando um distanciamento do Poder; como consequência, faltavam iniciativas no quartel, que passou a cumprir apenas rotinas. Para enredar ainda mais, no ano seguinte estavam marcadas as eleições para governador. Frente a esse cenário, o coronel Guilherme buscou se adaptar – desconhecia a região e os atores políticos locais – precisando formar uma equipe de oficiais que lhe oferecesse suporte. O comandante passou a residir em uma casa reservada à Polícia Militar, situada no Conjunto dos Secretários, próximo à rua Paraíba.

Entre as negociações imobiliárias que conduzi, comprei um apartamento no Conjunto ICA Paraíba, onde passei a morar, nas imediações da residência do comandante. Comecei esse processo vendendo a casa do Tiradentes, que ainda não estava totalmente quitada, mas situada fora do eixo central da cidade, distante do quartel central e de outros dois já existentes no bairro de Petrópolis. Além disso, a casa revelou-se excessivamente grande para um homem “solteiro”. Não me lembro se anunciei a venda, guardo apenas a lembrança do corretor Pantoja que, depois da negociação, tornou-se meu amigo. Ele tocou toda a transação, em 1981, a ponto de sequer ter conhecido pessoalmente o comprador. Sabendo de minha situação financeira, Pantoja propôs-me, em 1982, a compra de uma casa no Conjunto Santos Dumont, empreendimento erguido em 1980 que ainda carecia de infraestrutura básica, localizado na avenida Torquato Tapajós. O imóvel situava-se no cruzamento das ruas Comandante Theofilo Matos, 31, e Comandante Paulo Lasmar. Realizei esse negócio diretamente com a proprietária Elba Carvalho, solteira e funcionária do Tribunal de Contas, que demonstrou grande interesse no comprador, que renderia um casamento. Nesse endereço, ainda que por pouco tempo, passei a residir com a CVC.

quinta-feira, outubro 15, 2026

MEUS OITENTANOS (21)



Fascículo 21 

 1981

Ingressei naquele novo ano com a vida profissional em acentuado declínio, visto que, apesar de integrado numa seção do comando-geral, me encontrava no “corredor”, no jargão militar. E, na vida sentimental, ocorria outra turbulência. Fui transferido para os Bombeiros, porém, a maior complicação foi me desentender com o comandante-geral – coronel Wilson Raizer; o episódio mais grave foi minha presença na inauguração do quartel em Itacoatiara acompanhado de funcionárias civis. Em coisa nenhuma prosperou minha explicação: agi na condição de divorciado, disse-lhe; todavia, o comandante era evangélico convicto, por isso, não adiantaram minhas explicações. Outro disparate: Raizer costumava visitar a residência dos oficiais; quando comunicou a visita à minha família, reagi de forma descortês, ao cancelar a recepção alegando minha formação católica.  E mais. O inferno prosperava na Auditória, com a demanda que poderia me excluir da Polícia Militar. Para agravar, outra adversidade: a família de meu pai mudou-se da residência no Tiradentes para a rua Urucará, 1181-B, na Cachoeirinha, subúrbio com amplos recursos e ocupar uma casa que, apesar de geminada, dispunha de mais conforto. Intentei me manter na minha casa, para isso contratei alguns reparos, o principal foi a construção de mais um quarto, que não passou dos alicerces.

A bordo do catamarã, era
julho, e fazia friagem

Para usufruir as férias de julho, consegui com o governo passagens de barco para Tabatinga; segui em companhia do meu filho Roberto.  Saiu numa quarta-feira a excursão, que durou uma semana, pois era a viagem experimental do protótipo de embarcação, tipo catamarã, encomendado pelo governo Lindoso, e carecia conhecer o beiradão. Além da maleta, ao embarcar, reuni dois livros e os quatro jornais diários. Acomodado em um beliche, viajava com mais privacidade. E o catamarã subiu o rio Solimões, demorando-se em cada sede municipal, a fim de exibir a embarcação. A cada dia, após o café, com os mesmos jornais, me abancava na popa do barco, onde plagiava a leitura. Mas sempre se achegava um passageiro pedindo emprestado o jornal, para ler seu horóscopo; afastava-se sorridente com o diário, para logo voltar tristonho me recriminando pela desatualização do matutino. Passei aquela semana sem conhecer qualquer notícia do país, dada a inviabilidade de sintonizar o rádio – o único meio de comunicação – naquele fim de mundo.

Durante o trajeto conheci um negociante de Tabatinga que, muito prestativo, nos acolheu – a mim e meu filho Roberto – ao final da viagem. Ao atingir a cidade de Benjamin Constant, entrei em contato com a guarnição policial local, que me prestou uma acolhida calorosa. Afinal, na semana seguinte, ao atravessar o rio Solimões, desembarquei em Tabatinga. Decidi alcançar Iquitos, no Peru, na transição entre o Solimões e o Marañon – rio considerado a cabeceira do rio Amazonas – e consultei meu amigo, que me informou tratar-se de uma viagem efetuada apenas pela FAP (Força Aérea Peruana) em hidroavião. E me repassou instruções: não existe horário fixo – os voos chegam e partem imediatamente; o embarque ocorre no flutuante em Santa Rosa, já em território peruano na margem oposta; o pagamento é realizado nesse próprio flutuante e é obrigatório esperar ali pela chegada da aeronave. Enquanto aguardava o transporte, comi e bebi à vontade, como os demais passageiros. O avião chegou cerca das quatro horas da tarde, o embarque foi rápido e, após a decolagem, a tripulação informou ser impossível chegar em Iquitos. No ar, começou nova aventura para eu alcançar a pátria de meus antecessores peruanos. 

Roberto filho (à esq.) na travessia de Benjamin
Constant para Tabatinga, com direito à "segurança"

    O problema não estava em alcançar Iquitos, mas na proibição de aquela aeronave pousar – única alternativa – no lago Moronacocha, em razão da cor escura da sua superfície; o toque era autorizado até às dezessete horas, informou a tripulação. No entanto, passageiros brasileiros, estimulados pelos aperitivos, tentaram subornar aos militares, oferecendo uma contribuição coletiva. Nada feito. Pouco depois o avião aterrissou no leito do rio Marañón, próximo ao ancoradouro de um pelotão do Exército, que nos conduziu de lancha até a cidade de Pebas, então um lugarejo “perdido na selva”, desprovido de local para acomodar aproximadamente vinte passageiros e, para resumir a penúria, a energia elétrica foi desligada às 22 horas. Dormi bem, em razão do meu estado etílico e do silêncio que tomou a cidade; não reclamei do colchão, nem das carapanãs (mosquitos). De manhã, fui cobrado pela hospedagem; felizmente o cruzeiro (moeda brasileira) estava valendo bastante no câmbio. Até paguei a parte de um brasileiro que – sem grana – seguia a Iquitos para “aventurar a vida”. Enfim, cerca das 10 horas, o hidroavião de fabricação canadense me apresentou à cidade dos meus precursores.

quinta-feira, agosto 20, 2026

PRIMEIRA VIGEM AO PERU

Aproveitei as férias de julho de 1981, para viajar a Iquitos, no Peru, terra natal de meu pai. À época, José Lindoso exercia o cargo de governador do Estado e recebera um protótipo de barco – um catamarã – para emprego na região.  Como a viagem inaugural subiria o rio Solimões, vivenciei a prova de funcionamento. Parti de Manaus numa quarta-feira e só desembarquei na semana seguinte; sem recursos de comunicação, levei a semana sem qualquer notícia sobre o restante do país.

Autor no Callao - Peru, em julho de 1981

Em Tabatinga, procurei informações sobre a viagem até Iquitos; além do serviço aéreo da Cruzeiro do Sul, existia um hidroavião da FAP (Força Aérea Peruana), cujo atrativo era o preço da passagem.  Na margem peruana, o hidroavião embarcava os passageiros junto a um flutuante, onde também se comprava a passagem. Sem horário fixo, passei a tarde aguardando e tomando “umas e outras”. Por razões logísticas, o avião pousou num pelotão militar próximo à cidade de Pebas, onde pernoitei. Na manhã seguinte, desembarquei em Iquitos, sendo calorosamente recebido pelos familiares.

A família de tia Laura e filhos e nora na recepção,
em Iquitos, julho de 1981

Queria ir mais longe: a ida e volta à capital Lima foi encaminhada pelo parente Miranda, funcionário da Cruzeiro, que me adquiriu passagem como se fosse nacional. Em 26 de julho, embarquei em um DC-3 ou 4 da Faucett Perú, no aeroporto – Francisco Secada Vignetta, inaugurado em 1979; assentado à janela observei a mudança da selva amazônica para os picos nublados dos Andes e, por fim, as ondas do Pacifico. Um amigo da família me recepcionou no aeroporto Jorge Chavez, na província do Callao.

Avião da Faucett Peru, no aeroporto de Iquitos,
em 26 julho 1981.

Celebrei as “Festas Patrias” em Lima, junto aos amigos da família, ocasião em que visitei as principais atrações turísticas. No retorno a Iquitos, ainda pela Faucett Perú, fui assediado no aeroporto por inúmeras pessoas pedindo para levar uma “encomenda”. Lembrando a recomendação do Miranda: nada de transportar pacotes. Assim fiz. Em Iquitos, tomei passagem na Cruzeiro para Manaus, cujo voo fazia escala em Tabatinga e Tefé. Somente voltei a Iquitos em 2015.

terça-feira, agosto 04, 2026

AEROPORTO DE TABATINGA

 Há 50 anos (2 de agosto de 1976), a Comara concluiu a construção do aeroporto de Tabatinga (AM); na ocasião, o Boeing da Cruzeiro do Sul fez a inauguração da pista. Até então, o pouso era efetuado em Letícia (Colômbia), que implicava mais custos aos passageiros, como taxa de embarque e transporte para o município brasileiro. Aquele voo, desde 1965, era operado pela Cruzeiro entre Manaus e Iquitos (Peru). Em 1981, tomei esse voo em Iquitos, ao visitar os parentes naquela cidade, escalando em Tabatinga e Tefé, antes de desembarcar em Manaus. Poucos anos depois, esse voo foi suprimido. 

Recorte do jornal A Crítica, 02 agosto 1976
(acima e abaixo)

Desde ontem, os aparelhos “Boeings”, da Cruzeiro, estão fazendo escala em Tabatinga,             pouso este que há 11 anos vinha sendo feito em Letícia, na Colômbia, fronteira com o             Brasil. O pouso pioneiro do “Boeing” ocorreu às 11 horas, quando uma comitiva de                 autoridades convidadas pela diretoria da Cruzeiro do Sul se fez presente àquela viagem.

A chegada do aparelho em Letícia (?) foi festiva, e a multidão superlotou todas as dependências daquele campo de aviação, construído pela Comara, com o apoio do Exército, através do Comando de Fronteira do Solimões. As autoridades, ao desembarcarem do “Boeing”, foram cumprimentadas pelo Comando do CF-SOL e por diversas outras autoridades presentes ao aeroporto. 

Viagem

O “Boeing 737”, de prefixo PP-CJN, partiu de Manaus por volta das 9 horas e 30 minutos, levando passageiros comuns da rota, autoridades civis e militares convidadas pela diretoria da Cruzeiro do Sul, como o coronel Alfredo Menescal, comandante da Base Aérea de Manaus, o coronel João Baptista Storino, diretor da INFRAERO; Dr. Lauro Gedeão, delegado da Receita Federal; Walmores Barbosa, superintendente da Polícia Federal, todos acompanhados de suas respectivas mulheres. O Comando Militar da Amazônia se fez representar por uma comitiva de oficiais superiores, o coronel Saraiva — do Serviço Militar; tenente-coronel Salvio — da 3ª Seção; tenente-coronel Lisboa da 6ª Seção; tenente-coronel Araripe — comando do QG e o coronel Walmir — Ajudante-Geral. Representando a imprensa amazonense, foram os jornalistas Mário Jorge Costa (A Crítica), Epaminondas Barahuna (J. Comércio) e Maria de Lourdes Archer Pinto (O Jornal).

Após os cumprimentos iniciais no aeroporto de Tabatinga, a comitiva chefiada pelo agente local da Cruzeiro do Sul, Sr. Ítalo Bianco, deslocou-se até à sede do Círculo Militar de Tabatinga, onde foi oferecido um coquetel. Enquanto o aparelho seguiu a viagem de rota para Iquitos, e no seu retorno apanhou a comitiva chegando a Manaus por volta das 17 horas.

quinta-feira, janeiro 30, 2025

CENTENÁRIO DE MANUEL MENDONÇA (1916-2016)

A fim de comemorar o centenário de nascimento de Manuel Mendonça ou Mendoza, em janeiro de 2016, fiz o lançamento de um selo personalizado. Todavia, o livro que havia escrito juntamente com meu irmão Renato Mendonça – Entre duas viagens – para esta celebração, somente viria a público em junho seguinte. O jornalista Evaldo Ferreira, conhecedor do empreendimento escreveu no Jornal do Commercio (26 jan. 2016) o artigo que aqui compartilho. Sem que imaginasse, ocasionou um atrito familiar. Explico: o nome de Henrique Mendonça, autor do prefácio, foi omitido pelo articulista, e essa omissão a família do mano não acolheu, daí a fricção.

Detalhe do artigo de Evaldo Ferreira

 Autor dos livros “Cândido Mariano & Canudos” (1997); “As artes de Genesino Braga”, prêmio literário da Academia Amazonense de Letras (2006); “Administração do coronel Lisboa”, prêmio literário Cidade de Manaus (2008); “Bombeiros do Amazonas” (2013); e organizador de “Cinema e Crítica Literária de L. Ruas” (2010) e “L. Ruas: Poesia Reunida” (2013), o escritor e historiador Roberto Mendonça acaba de concluir aquele que, possivelmente, será o mais importante livro de sua obra, “Entre duas viagens”, no qual relata a história de Manuel Mendonça Malafaya, seu pai.

“Em 2014 a família se preparava para comemorar o centenário do patriarca neste 17 de janeiro de 2016, mas ele resolveu partir antes, em maio daquele ano, então, eu e meu irmão Renato achamos por bem escrever o livro contando a saga do nosso peruano. Foi uma forma de homenageá-lo”, contou. Por mais de um ano Roberto Mendonça seguiu os caminhos do pai em Manaus, Rio de Janeiro, Santos e até em Iquitos e Lima, no Peru, onde Manuel Malafaya nasceu. “Mendoza, mais conhecido por Manuel peruano”, nasceu em Caballococha, uma povoação situada nas vizinhanças da fronteira Brasil-Peru, em “hermosa orilla” à margem esquerda do rio Amazonas”, disse.

Victoria Malafaya, a mãe de Manuel, era uma índia ticuna nascida na mesma localidade, em 1890. Na época do ciclo da borracha, acabou se envolvendo com um caucheiro, possivelmente um homem rude, pois num dia qualquer de 1927, ela fugiu em direção ao Brasil, trazendo os dois filhos: Manuel e Francisco. Em 1939, Manuel retornou ao Peru, visitou Iquitos e se inscreveu no serviço militar, mas logo voltou a Manaus onde obteve o primeiro emprego de carteira assinada, de balconista, depois gerente, na Fábrica Rosas, a padaria da cidade, instalada na avenida Sete de Setembro defronte à praça da Polícia. A ... com a noiva Francisca, viajou para Iquitos, onde se casaram.

“Os dois até pretendiam se fixar na capital de Loreto, pois chegaram a organizar um comércio, porém, no início de 1946 voltaram para Manaus, com dona Francisca gestante. Então, posso garantir que sou “hecho en Perú”, todavia, nascido em Educandos, à rua Inácio Guimarães, onde mais adiante surgiria o Cine Vitória”, relembrou. Manuel frequentou assiduamente a paróquia do padre Antonio Plácido. “Esse vigário colaborou para que eu ingressasse no Seminário São José, instalado à rua Emílio Moreira, onde pretendia me tornar padre, e conclui o curso de humanidades. Mas achei melhor seguir a carreira militar, servindo ao Exército e depois à Polícia Militar, onde cheguei a coronel. Hoje estou na reserva”, explicou o historiador.


Descobertas históricas

“Voltando a falar de meu pai, o mesmo padre Antonio Plácido realizou o casamento dele com Doroteia, em 1958. Minha mãe havia morrido de tuberculose algum tempo antes. A nova união gerou cinco filhos (Zemanoel, Jorge, Luís, Ricardo e Carlinhos). Com minha mãe foram eu e meu irmão, Renato. No ano seguinte, a nova família de Manuel mudou-se para o Morro da Liberdade e, mais adiante, migrava para Santos”, recordou.

Novamente viúvo, Manuel passou os derradeiros anos de sua vida entre Manaus e São Paulo, visitando os filhos e netos, até morrer, em maio de 2014. “Para marcar o centenário do peruano, no último 17 de janeiro, mandei confeccionar dois selos personalizados. Dois selos porque o homenageado possuiu dois sobrenomes: a certidão de nascimento registra — José Manuel Mendoza; todavia, ao desembarcar em Manaus, aportuguesou o sobrenome, refez o nome, incluindo o sobrenome materno. Desse modo, con mucho orgullo, sou filho de Manuel Mendonça Malafaya”, comentou.

Roberto Mendonça contou que começou a escrever “Entre duas viagens”, junto com o irmão Renato, em janeiro do ano passado. Realizou pesquisas, conversou com parentes mais antigos, viajou pelas cidades onde Manuel vivera e vasculhou fotos. “Conseguimos garimpar algumas raridades, como a da casa onde minha avó, mãe de Manuel, vivera no Peru, ainda no século 19. Acredito que o livro terá umas 50 fotos. A ideia era colocar mais imagens e menos texto, tipo uma linha do tempo. Esse trabalho me rendeu mais algumas descobertas históricas, como o racionamento de produtos, na época da Segunda Guerra, na padaria onde ele trabalhou. O racionamento era rigidamente controlado pelos militares, mas, por baixo dos panos, o dono da padaria sempre conseguia liberar alguma coisa a mais para os seus amigos", entregou.

O livro só será lançado em junho, mas os dois selos o serão no próximo dia 30, sábado, na Agência Filatélica Ajuricaba.

quinta-feira, abril 27, 2017

CENTENÁRIO DE FRANCISCA LIMA

Francisca, em Iquitos
Em homenagem ao centenário de nascimento de Francisca Lima Mendonça, minha saudosa mãe, que se completa amanhã, publico a segunda nota para contar sua curta existência.


Com o retorno de Manuel do seringal, Francisca retomou o noivado, com uma decisão incomum: casar-se, prontamente. O desacordo com a família ainda pesava, e muito contribuía para essa disposição. Diante do impasse, Manuel, necessitando regularizar sua situação militar, convenceu a noiva a, no início de 1943, juntos viajarem para Iquitos (Peru). Ao final desse ano, contraíram o matrimônio na igreja de San Juan Bautista, patrono daquela cidade.

Entusiasmada ou para dar satisfação, Francisca remeteu uma foto do enlace, anunciando a boa nova à família. Em Iquitos, o marido enveredou pelo comércio, cuja condução conhecia com bastante aptidão, chegando a estabelecer-se com uma taberna. Era intenção do casal permanecer na cidade.

Entretanto, Francisca ao anunciar a chegada do primeiro filho, levou Manuel a retornar à capital amazonense. Era início de 1946. Em fevereiro, o casal desembarca em Manaus, agora apoiado pela família. Adquirem uma casa na rua Inácio Guimarães esquina do beco São José, a qual depois de reparos serviu de moradia e de comércio.

Casa onde nasceu Francisca, foto de 1917 

Em junho, nasceu o primogênito: Manoel Roberto (este que vos escreve). A Mercearia São José, o comércio prosperava e a família também. Dois anos depois veio outro filho: Henrique Antonio (detalhe, todos os filhos terão dois nomes próprios).

Todavia, em 1950, seu Manuel toma uma determinação estapafúrdia: aceitando um convite de um irmão, radicado no Rio de Janeiro, vende os bens do casal e com a família embarca no navio Almirante Alexandrino. Em fevereiro estamos no Rio, que ultimava os preparativos para a Copa do Mundo. O estádio do Maracanã estava em construção.  

Francisco morava no subúrbio, em Irajá (rua Claudio da Costa). Para receber a parentada amazonense, o anfitrião construiu às pressas um “puxadinho” de madeira, bem acanhado comparado com o casarão deixado em Educandos. Dona Francisca deve ter experimentado uma dose severa de dificuldades: começando pela casa sem mobília, passando pelo cunhado que, separado da mulher, cuidava de três filhos. Havia ainda a distância do trabalho do esposo e, certamente, as dificuldades financeiras.

Ao final desse ano, Francisca anunciou ao esposo a chegada do terceiro filho, que se chamaria Pedro Renato. A gestação da esposa deve ter acelerado o desejo de Manuel em retornar com a família para Manaus. Assim aconteceu. Creio que em março de 1951, estávamos de volta para o mesmo bairro, para a mesma rua, contudo sem a taberna. Em junho nasceu o terceiro filho, que foi para ela o derradeiro. (segue)    

terça-feira, janeiro 17, 2017

MAIS QUE CENTENÁRIO DE NASCIMENTO

Manuel Mendonça e netos, em 1980
Meu pai, se vivo fosse, completaria hoje 101 anos. Ano passado, intentei celebrar da melhor maneira seu centenário. Por motivos estranhos, não deu. Uma das iniciativas programadas era publicar um livro narrando esta epopeia. Colaborei com vigor para a publicação, que restou acabada sob o título Entre duas viagens. Falta apenas a impressão, mas neste próximo mês estará na praça.

Aproveito o ensejo para reproduzir alguns de meus escritos sobre o saudoso homenageado, começando com o texto abaixo.   


CONVERSA INICIAL

Não me recordo a data integral, ainda assim, inauguro esta narrativa pela segunda viagem. Em 1995, tive a oportunidade de, viajando com meu pai, atravessar de Cometa (empresa de ônibus) a Via Dutra (ligação do Rio-São Paulo), partindo do Terminal Rodoviário do Tietê. Nessa ocasião, ouvi dele a descrição de sua primeira viagem, navegada entre sua cidade natal, Caballococha (na margem direita de uma “hermosa lagoa”, que desemboca no rio Amazonas, a cerca de 50 quilômetros do trapézio amazônico) no Peru, e a cidade de Manaus-AM (plantada à margem esquerda da foz do rio Negro).

Outros desdobramentos de sua vida também vieram à tona e serão aqui relembrados. Talvez tenha sido esta – lamentavelmente, a última conversa aberta e direta entre mim e ele, sem os ressentimentos que me angustiaram nos derradeiros anos da existência dele.

A segunda viagem findou na Rodoviária Novo Rio (RJ). Ali fomos alcançados pelo Renato Mendonça (meu irmão), que organizou comigo a publicação doe livro.
Vou atrasar o relógio, cujo movimento bem distingue esta retrospectiva. Meu pai assegurou-me que a “viagem” em direção a Manaus aconteceu quando ele possuía onze anos de idade. Nascido em 1916, a viagem sucedeu em 1927. Quanto ao seu natalício, cujo registro ele guardou religiosamente, e foi revelado entre suas relíquias somente após seu falecimento, soube-se então que aconteceu el lunes 17 de janeiro de 1916.

A empreitada rumo ao Brasil teve a iniciativa de sua mãe, Victoria Malafaya, mulher que requer respeitosa e compreensível apresentação. Todavia, quase nada se sabe sobre sua origem, somente que nasceu no Peru, em Caballococha, hoje capital da província de Ramon Castilla, pertencente ao Departamento de Loreto, na Amazonía peruana. Era filha de Geraldo Malafaya e de Olinda Barsallo Malafaya, trazendo como pude aferir sobrenomes fartamente espalhados pela região.

A data de seu nascimento se mantinha incógnita, nem o filho sabia, e pior, quando do falecimento dela, em Manaus, o Cartório (2º ofício) registrou-a como viúva de 56 anos(!), isto em 12 de dezembro de 1961. Recorrendo ao registro de nascimento dos filhos Manuel e Francisco, pude estabelecer proximamente o ano do nascimento dela.
Nascida em 1890 ou 91, era analfabeta e identificada por mestiza (designativo de grande número de indígenas da região), Victoria, além disso possuía a cútis morena e baixa estatura, e teve quatro filhos de três relacionamentos. Os dois primeiros filhos: Laura Torres (1910-2000), que viveu em Iquitos, casada com Manuel Miranda (excelente marceneiro) com quem teve seis filhos; Grimaldo Torres (datas desconhecidas), que foi morador de Pucallpa; o terceiro (que utilizou dois nomes) foi José Manuel Mendoza / Manuel Mendonça Malafaya (1916-2014) e, por fim, Francisco (Malafaya) Saens (1918-1997), pai de quatro filhos. Os dois últimos viveram no Brasil.
El cholo, también llamado mestizo, es la mezcla entre un mestizo y una mestiza, un mestizo y una indígena, un mestizo y una blanca o un blanco y una indígena. Esta mezcla fue muy frecuente en los estados o provincias de países latinoamericanos donde la población nativa terminó siendo más del tercio de la población.

Nascida e sofridamente criada em Caballococha, numa noite de fevereiro de 1927, depois de esquematizar a viagem, Victoria reuniu os filhos Manuel e Francisco e, depois de se apoderar de uma canoa, sumiu do porto em direção à tríplice fronteira, distante cerca de 50 quilômetros. O preceito inicial era viajar somente à noite, para despistar a escapada e evitar uma possível busca pelo “marido”. Como navegava rio abaixo, contava com a forte correnteza para avançar.

Para melhor entender o fluxo de loretanos em direção ao Amazonas, em especial, para Manaus, convém ressaltar que estes dois centros habitacionais bem aproveitaram a exploração da hevea brasiliensis. No entanto, Manaus obteve mais recursos, creio eu, pelo tamanho da área explorada e pela proximidade com os países importadores da borracha.

Os moradores de Iquitos (fundado em 1757), sofriam à época intensa atração de Manaus (estabelecido em 1669), atração ainda hoje sentida e mantida, tanto que são consideradas cidades-irmãs. Ambas estão locadas na floresta amazônica, exuberante vegetação que cobre grande parte de nove países sul-americanos, constituindo a Amazônia Continental.

Meu pai seguiu relatando: não podíamos nos expor, como pedir ajuda aos ribeirinhos, devido nossa situação de fugitivos. Daí nos contentarmos em aqui e ali “passar a mão” em algum tubérculo encontrado em plantação isolada, ou pescar, utilizando rudimentar instrumento de captura, com soe ser um anzol improvisado com um alfinete ou um prego.

A fartura de peixes amazônicos facilitava a pesca e a lenha, para a cozedura ou o “assamento”, segue abundante. Ainda assim, apenas o rio não permitia uma alimentação capaz à tropa em retirada. Certamente, por isso e por outras, meu pai recordava de ter passado fome e sono.

A mudança de hábitos, a ausência de cômodos e, fortemente, a tensão de quem enfrenta o incógnito em condições precárias, tudo isso pesava, em especial, sobre as crianças. Tantos anos depois, lembra-se meu pai da passagem por uma fazenda de gado e por uma plantação de feijão-de-metro (mais conhecido por feijão-de-corda, próprio para o baião-de-dois). Do que, e se, aproveitaram, não conseguiu recordar.


Apesar das dificuldades iniciais, avançaram tanto que, é crível, a comitiva esquecendo-se dos “delitos” cometidos remou com mais afinco em direção à fronteira, que se avizinhava. Cabe lembrar que, na região amazônica, na medição entre dois pontos fluviais leva-se em conta a variante da corrente de água. Ou seja, quando se navega de subida, contra a correnteza, gasta-se claramente mais tempo. Dessa medida, como os peruanos desciam o rio, a favor da corrente, eram beneficiados. Vantagem que veremos adiante, quando se descrever a maneira sutil empregada pelos viajantes para enfrentar o turbilhão produzido pelo rio Solimões, e ultrapassar a fronteira brasileira. (segue)

domingo, outubro 30, 2016

TAXI OU UBER? EIS A SOLUÇÃO

Cidade de Iquitos - Peru


domingo, janeiro 17, 2016

MMM - CENTENÁRIO DE NASCIMENTO

Manuel, Francisca e os
dois primeiros filhos
A minha família organizava-se para celebrar o centenário de seu patriarca, quando um fato natural alterou os preparativos do festejo. A morte de Manuel Mendonça ou Mendoza, em maio de 2014, foi a causa dessa variante. Passada a surpresa e reclusas as lágrimas, decidimos (eu e meu irmão Renato) elaborar um livro para contar a saga do nosso peruano. A previsão era entregar o trabalho nesses dias, quando do centenário, porém, “o tempo e o vento” não permitiram. Intitulado de Entre duas viagens, o livro sairá em junho, composto de fotografias sobre uma extensa linha do tempo, em prosseguimento a celebração da centúria.

A elaboração deste publicação exigiu esquadrinhar os registros pessoais em Manaus, no Rio de Janeiro e em Santos (SP), e mais, com os mesmos objetivos, a circular por Iquitos e Lima, no Peru, a fim de rematar certas lacunas junto aos parentes.

Mendoza, também conhecido como Manuel peruano, nasceu em Caballococha, uma povoação ainda em assentamento, situada nas vizinhanças da fronteira Brasil-Peru, em “hermosa orilla”, à margem esquerda do rio Amazonas, em 17 de janeiro. Há exatos cem anos!  Sua mãe, Victoria Malafaya, nascida na mesma localidade em 1890, era mestiza e descendente de ticunas, de cútis morena e baixa estatura era, comum na época, analfabeta. O vilarejo, todavia, cresceu alcançado pelo ciclo da borracha, mas Victoria, sucumbiu ao assedio dos caucheiros. Tanto, que certo dia de 1927, depois de impiedosa surra do companheiro, fugiu para o Brasil, trazendo dois filhos: Manuel, meu pai, e Francisco, que se finou no Rio de Janeiro.

Depois de custosa viagem pelo rio Solimões, desembarcam em Manaus. Sem outros recursos, foram ao trabalho: a mãe, como doméstica, e Manuel, na taberna de seu Abade, um comerciante na rua Dr. Almino. A evolução financeira da família possibilitou a mudança para a Pensão Vaticano (um prédio de três andares que existiu até o início da Zona Franca, na rua Dr. Moreira), pertencente à família Balbi, onde fizeram amizade com Dolabela, filho do legendário Heliodoro Balbi.

Em 1939, Manuel retornou ao Peru, visitando Iquitos, onde efetuou sua inscrição no serviço militar. Logo retornou a Manaus, quando obteve o primeiro emprego de carteira assinada. O de balconista (atendente junto ao balcão), depois gerente, na Fábrica Rosas, a padaria chique da cidade, inaugurada em novembro de 1940 e instalada na avenida Sete de Setembro, 129, defronte à Praça da Polícia. A edificação ainda se mantém de pé, onde funciona uma loja da TV Lar, tendo sido renovada nestes dias. Nesse emprego, Manuel permaneceu por quatro anos, quando se mandou com a noiva Francisca para Iquitos, onde casaram. 
O casal pretendia se fixar na capital de Loreto. Até organizou um comércio, pois meu pai aprendera comerciar, ao menos era um bom vendedor. Contudo, no início de 1946 com dona Francisca gestante (deste que escreve), a família zarpou para Manaus. Assim, posso garantir que sou “hecho en Peru”, todavia, nascido em Educandos, à rua Inácio Guimarães esquina do beco São José, onde como referência mais adiante surgiria o Cine Vitória. Vieram mais dois filhos: Henrique Antonio (1948) e Pedro Renato (1951), antes do falecimento de minha mãe, vitimada pela tuberculose. 
Nesse tempo, o vigário de Educandos colaborou para meu ingresso no Seminário São José, instalado à rua Emilio Moreira, onde conclui o curso de humanidades. Deste instituto religioso passei ao militar, servindo ao Exército e à Polícia Militar, onde me aposentei. Aposentado, interessei-me pela história do Amazonas, tendo como resultado elaborado os livros: Candido Mariano & Canudos (1997); As artes de Genesino Braga, prêmio literário da Academia Amazonense de Letras (2006); Administração do coronel Lisboa, prêmio literário Cidade de Manaus (2008); Bombeiros do Amazonas (2013). E, como organizador: Cinema e Crítica Literária de L. Ruas (2010) e L. Ruas: Poesia Reunida (2013). 
Morador de Educandos, meu pai frequentou assiduamente a paróquia do padre Antonio Plácido, sacerdote que o casou com “Dona” (a forma carinhosa como era tratada pelos enteados) Doroteia, em 1958. Esta nova união gerou cinco filhos: Zemanoel, Miguel Jorge, Luís Carlos, João Ricardo e Carlinhos).

No ano seguinte, a família mudou-se para o Morro da Liberdade e, mais adiante migrava para Santos (SP). O chefe da família, que trocara a profissão de comerciante pela de carpinteiro, trabalhou em vários locais, devendo registrar sua presença no complexo da Refinaria de Cubatão (SP). 
Novamente viúvo, com a morte de Dona acometida de câncer, seu Manuel passou os derradeiros anos de vida entre Manaus e São Paulo, visitando os filhos e netos. E vez ou outra, curtindo uma relação afetiva. Aos 98 anos, morto na capital paulista, seu corpo como se despedindo atravessou o Brasil para ser sepultado na cidade de seus amores: a capital do Amazonas. Sua sepultura encontra-se no cemitério de São Francisco, no Morro da Liberdade, junto com a segunda esposa. 
Mandei confeccionar dois selos personalizados objetivando marcar este domingo, 17 de janeiro, quando se celebra o centenário de Manuel. Dois selos porque o homenageado estranhamente possuiu dois nomes. Explico: a sua certidão de nascimento registra – José Manuel Mendoza, com o qual se casou com Doroteia Mendoza; todavia, quando ao desembarcar pela primeira vez em Manaus, por motivos controversos, aportuguesou o sobrenome, refez o nome, incluindo o sobrenome materno. 
Desse modo, con mucho orgullo, sou filho de Manuel Mendonça Malafaya (MMM). 

Victoria Malafaya e a filha Laura
Manuel e Doroteia Mendoza


Manuel e Francisca Mendonça

segunda-feira, dezembro 28, 2015

ITINERÁRIO ANDINO (3)

Na metade do século passado, os médicos Djalma Batista e Moura Tapajós empreenderam uma viagem por países andinos, saindo de Manaus (AM) e passando por Iquitos (Peru). Concluído o périplo, o primeiro elaborou a publicação em jornal do relato dos acontecimentos. Adiante, foi transformado em impresso, sob o título: Itinerário transadino (1951), que o autor dedicou ao companheiro de viagem.

                  
Plaza das Armas, com a igreja no conjunto




LIMA, SUAS FLORES E SEUS ENCANTOS

A sala de visitas da capital peruana é magnífica: um palácio de mármore e pórfiro, onde o viajante admira majestosa obra de arte, com uma perfeita distribuição de serviços. Do Aeroporto de Limatambo, numa tarde friorenta e sem sol, começamos a mirar a cidade, cercada de morros nublados e se estendendo para todos os lados.
 Em Lima chama logo a atenção o aspecto alegre e sossegado da terra e da gente. Todos amáveis, bem humorados, vivendo a sua vida entre flores e jardins. Pelo menos os burgueses...

Seu desenvolvimento é um caso curioso: em torno do núcleo central, a velha cidade dos Vice-Reis, onde se vêm as ruas estreitas da época colonial, com a sua arquitetura característica, de balcões nas fachadas (há quadras inteiras de casas desse estilo, que traduz uma reminiscência mourisca), com persianas que quase nunca se abrem, se desenvolveram numerosos pueblos, que se foram reunindo, para formar a extensa metrópole de hoje, de quase um milhão, onde convivem quatorze municipalidades independentes, dentro de duas províncias, que vão do mar (Callao, o porto, foi uma cidade isolada e é hoje uma cidade autônoma) até as Serras, para lá de Chosica.
San Isidro, Miraflores, Herradura — bairros situados a cavaleiro do mar — são uma maravilha e um encanto. Serenos como só eles. Amplas ruas ajardinadas, onde os olhos se deleitam numa policromia de estarrecer. E que casas! quanto bom-gosto! quanta beleza!
Obrigado, querido amigo Lucho Ibañez, que nos levaste pela pitoresca cidade que tanto nos encantou, mostrando-nos tudo com uma solicitude paciente e cativante! A ti e a Eduardo, autênticos representantes da estirpe arequipeña dos Ibañez, com os seus 14 ramos...

No centro de Lima, entre a Plaza San Martin (benditos fotógrafos ambulantes que nos fixastes ao lado da estátua do grande General, e ainda nos encravastes numa cédula de 10 soles!) — entre a Plaza de San Martin e a Plaza de Armas, está o grande comércio de Lima: no Jiron Union estão as casas de moda e de artigos regionais, as platerias e perfumarias; estão também as calçadas pisadas pelas limeñas elegantes, de olhos e cabelos negros, geralmente bem envolvidas em costumes de lã e peles vistosas, que eu asseguro muito em segredo — dão uma imponência agradável às mulheres...

Detalhe da fachada da Catedral de Lima-Peru
A Plaza de Armas é típica em todas as cidades de origem espanhola: Palácio do Governo, Municipalidade, Catedral... Na de Lima, porém, há uma particularidade: todas as construções obedecem a um estilo próprio, rigorosamente colonial, com portales e fachadas magníficos. No Palácio da Municipalidade fomos admirar uma das preciosidades artísticas limeñas: salões ricamente decorados, sem exibição nem demasia, com telas assombrosas de Merino e Montero (guardo profunda impressão de La venta de las acciones, Las Tapadas e La Loca, em que Merino culminou a sua capacidade de fixar tipos e expressões). E que assombro a Biblioteca, toda talhada em madeira!

Também na Plaza de Armas está Francisco Pizarro — o Conquistador entre monstruoso e glorioso — montado no seu cavalo de bronze, para contemplação dos séculos, e guardado no seu esquife de mortal, dentro da Igreja, para que os homens meditem no "memento" eterno...
O Palácio de la Torre-Tagle, onde hoje está instalado o Ministério do Exterior, é uma autêntica relíquia de alto preço, com os seus 200 anos de existência, dois balcões, salões, quadros, móveis, espelhos e pátios. Corramos às igrejas: entremos na Basílica Jubilar e não nos impressionemos com a riqueza dos altares e a imponência das imagens. Fixemos o ponto para onde mais se dirigem os fiéis: lá está uma simples cruz de madeira desbotada pelos beijos que nela são depositados; uma placa assinala o lugar onde a parede se abriu para que um frade em cuja santidade o povo acredita, como em Manaus se crê fervorosamente na “Santa Etelvina”, perseguido pelo demônio, pudesse passar incólume!
Depois visitemos a Igreja de S. Pedro, da Companhia de Jesus (La Iglesia Jubilar). A 1 da tarde se rezava missa. Imensa e grandiosa obra de arte, com altares em ouro ou madeira, pinturas impressionantes e sobretudo com aquela quietude dos templos, com o seu quê de mistério e de atração! Detenhamo-nos porém no Santuário de Santa Rosa de Lima, — único sul-americano que já mereceu canonização, e isto 30 anos depois de seu falecimento, ocorrido em 1631. Lá estava a sua cadeira e a sua cama tosca; a imagem diante da qual rezava os lugares onde recebeu as aparições e onde impôs em si própria flagícios e martirizações; algumas pinturas chucras com os seus milagres. Lá ouvimos também a sua história: a renúncia do amor de um noivo que provavelmente a adorava, em troca do amor divino; os 30 e poucos anos de vida heroica. E dizer que olhares profanos se detiveram diante de tudo aquilo, buscando uma interpretação psicológica para o caso da famosa Santa limeña! (continua)