CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, novembro 06, 2021

FAMÍLIA PAULA & SOUZA (2)

 A busca pela origem da família Paula e Souza no território amazonense, presente no ostentoso sobrenome do falecido Ramayana de Chevalier, já me trouxe alguns sucessos. Aos poucos vão aparecendo outros familiares, que foram esquecidos pelo apelido familiar. As mais conhecidas expressões literárias da família estão ligadas àquele Chevalier: são dois de seus filhos (Ronald Wallace, o “Roniquito”, e Scarlet Moon) e seu irmão Carlyle.

Scarlet Moon de Chevalier

No entanto, certamente estimulada por esse desafio, venho de receber a produção de uma Paula e Souza, que assina sob pseudônimo. O poema aqui compartilhado foi “dedicado a Ramayana de Chevalier (o grande poeta e boêmio amazônico)”.

 

RIO DAS ILUSÕES

Lizza Moon


Não quero fama. Nem ouro, nem glória,

Somente provar o sabor dessa vida ilusória.

Nem tanto na terra, nem muito nas estrelas.

Com a cabeça divagando, vou consumindo as tristezas.

A mente inquieta e o corpo inerte,

sinto volver em meu corpo um espírito errante.

 

Rio, rio das ilusões, como não te amar ao saber das solidões?

Navegando sobre ti e das almas que engolistes...

Como não falar em meus versos das saudações?

 

Rio, rio Solimões,

Por quem aqui passar, um Adeus,

um Olá até a outra Margem do Rio!

Volta! Volta cabocla bonita!

Teus pensamentos vão longe, mas a lida é contínua.

Pês no chão e cabeça feita

Do outro lado do Rio é que a vida é feita.

Deixaste essa floresta, mas teu espírito vem me atormentar...

 

Se queres tanto falar...

Pedes a Shiva para te deixar reencarnar...

Roda, roda, gira, gira...

Rema, rema, sob águas frias...

Faz ressurgir o Monstro das poesias...

Cataventos girando sob o manto verde à beira rio...

Que visão é essa que fez-me querer beber vinho?

Agora sob águas negras, avisto a orla da cidade...

Luzes brilhando, vento soprando, tudo gira...

A mente, um redemoinho,

Desperto sozinho...

Vem a mim...

E pega em minhas mãos frias,

Ó gigante caboclo das boemias.


segunda-feira, outubro 25, 2021

ACERCA DE RAMAYANA(S)

A busca pelos ascendentes de Ramayana de Chevalier tem-me levado a repetir este nome onde me encontre. Foi num papo festivo, na noite de sexta-feira (21), que fui presenteado pelo autor deste texto expressivo, aqui compartilhado, sobre o distinto manauara. Agradeço a citação ao meu trabalho.

A publicação original de autoria de Pedro Lucas Lindoso ocorreu no Jornal do Commercio, edição de 6 de janeiro de 2015.

 

Detalhe da crônica de Pedro Lindoso, circulada no JC (6 jan. 2015)

Importante obra literária da Índia antiga, o Ramayana é um épico sânscrito atribuído ao poeta Valmiki. O belo texto tem profundo impacto na arte e na cultura da Índia. O poema Ramayama não se reduz a um simples monumento literário. É destaque na tradição do hinduísmo. A reverência é tal que o mero ato de lê-lo ou ouvir tem o poder de libertar os hindus do pecado. E mais. A sua leitura pode garantir todos os desejos do leitor ou de quem ouve o magnífico poema.

Um dos mais ilustres membros do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), do qual tenho a honra de ser membro efetivo, foi o Dr. Ramayana de Chevalier. Imortalizado no IGHA onde têm sala com seu nome e outras honrarias, Chevalier foi médico e escritor. Produziu livros sobre a Amazônia e possuía destacada oratória.

Segundo Roberto Mendonça, outro nosso confrade no IGHA, Chevalier "graduou-se em medicina na Bahia, sem que exercesse a profissão, pois optou pelo jornalismo em sua forma mais abrangente, de redator contundente a polemista por vocação". Ramayana de Chevalier, que foi morar com a família no Rio de Janeiro, com certeza transmitiu essa verve, esse "savoire faire", a pelo menos dois de seus quatro filhos. Ronald de Chevalier e Scarlet Moon.

Ambos como o pai, jornalistas, polêmicos e de aguçada inteligência e sofisticação intelectual. Segundo conta Ruy Castro, no livro "Ela é Carioca", o economista Roniquito de Chevalier, irmão da jornalista Scarlet Moon, às vezes entrava num botequim e se anunciava: "Senhoras e senhores, aqui Ronald de Chevalier. Dentro de alguns minutos... Roniquito!". E tudo podia acontecer. Scarlet Moon foi casada com Lulu Santos por quase três décadas. Rita Lee escreveu a música "Scarlet Moeu", gravada por Lulu Santos para ela. Scarlet é citada na letra da canção "Língua" de Caetano Veloso.

Conheci pessoalmente outra filha de Ramayana, Barbara de Chevalier. Foi diretora de Eventos da Embratur, no início dos anos 90. Também brilhante como todos os Chevalier, foi minha dileta colega de trabalho. À época exercia o cargo de Procurador-Geral da Embratur.

O outro grande Ramayana foi meu tio avô Salim Daou. Assinava seus trabalhos jornalísticos com o pseudônimo de S.D. de Ramayana. “S”, provavelmente de Salim e “D” do sobrenome Daou. Também de inteligência sofisticada e personalidade cativante, Salim Daou, o Ramayana libanês, gaúcho, não ficou em Manaus. Seus irmãos Philippe Daou e José Daou ficaram por aqui. O primeiro, meu avô materno e o outro pai do Dr. Philippe Daou, presidente da Rede Amazônica de TV, primo de minha mãe, Amine Daou Lindoso.

A única irmã dos Daou sêniores, que também era Amine, seguiu com o marido para Nova Zelândia, do outro lado do mundo. Tio Salim, S.D. de Ramayana, publicava crônicas e poesias semanalmente no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre. Também era responsável pelo noticiário do interior do Rio Grande do Sul. Tio Salim teve dois filhos com tia Maria: Salim Junior e Daniel.

Ramayana de Chevalier faleceu no Rio de Janeiro em 1973. S.D. de Ramayana, Salim Daou, em Porto Alegre, em 1986. Ambos, homens de letras, jornalistas, intelectuais brilhantes e de forte personalidade. Portavam esse peculiar e sonoro nome: Ramayana, nome de herói, de divindade. A Enciclopédia Britânica ensina que ramayana é uma encarnação de um deus, partícipe da Trindade no hinduísmo. O principal propósito da sua encarnação é demonstrar o caminho correto, que eles intitulam de dharma, na vida na Terra.

Ambos os Ramayana, tanto o Chevalier quanto o Salim mostraram um caminho, não só correto, mas cheio de sabedoria, de belos e inesquecíveis textos jornalísticos e literários. Ambos encantaram sobremaneira àqueles que tiveram o privilégio de conhecê-los e saborear de suas verves, seus escritos e ensinamentos.

segunda-feira, maio 30, 2016

RAMAYANA DE CHEVALIER

Há 55 anos, este saudoso acadêmico e jornalista, além de oficial médico da Polícia Militar  do Amazonas, escreveu no periódico A Gazeta (29 maio 1961) o artigo aqui postado. Com a capacidade que lhe era peculiar, descreve os três amores de sua vida.
Scarlet Moon de Chevalier



Confidências suaves

TENHO diante de mim meus dois amores. Não é bem assim. Dois dos meus inúmeros amores. Elas se chamam Bárbara e Scarlet. Têm segredos como as outras, são misteriosas e lânguidas, gostam da vida. Observo-as, detidamente, como os meninos o fazem às bonecas, através das vidraças dos magazines luxuosos. Tenho sempre surpresas, quando as contemplo, sem que elas me vejam. Que universo existe no íntimo das flores? Gostaria de ser botânico, para apreciá-las melhor. Um desesperado e honesto botânico, como Ducke, para convertê-las em rainhas vegetais, destacando-as no meu herbário interior.

Sou um viciado do sentimento e não posso viver sem amar. Elas duas me dão emoções tão doces, tão suaves, que eu me transfiguro com o seu convívio. E há um segredo nessa convivência. É que eu descobri o mistério de Narciso, dentro dos olhos de Bárbara e Scarlet. Pelos crepúsculos mais vivos do Posto 6, ponho-me a mirar-me nesses lagos sonâmbulos, que contam histórias do meu passado, que me afagam como pelúcias, que me convidam à divindade.
O que vejo dentro deles? Serão iguais as suas paisagens? Não, meus dois amores são diferentes, uma da outra. São estrelas que fulgissem em céus diversos. Uma é morena, tostada de sol, de passo elástico como o dos antílopes, uma expressão comovente e uma tristeza distante sob as pálpebras. Assim é Bárbara. Muitas vezes a surpreendo mirando as nuvens, perdendo o olhar entre as estrelas, como se decifrasse o futuro das coisas. É a minha sibila. Quando quero adivinhar se há bom tempo no meu destino, é com ela que me consulto. Seus olhos de veludo, de uma expressão de mágoa simples, me conduzem à meditação e à prece.
Com Scarlet é diferente. Viajo nos seus olhos. Vejo asas de gaivotas, velas brancas, horizontes marítimos, palcos iluminados onde se dança a Ifigénia de Gluck, onde deslizam “ballerinas” mais leves do que pensamentos, mais puras do que sândalos. Não há presságios dentro dos olhos claros de Scarlet. O sonho, a beleza da vida, a placidez das horas ternas, tudo isso eu encontro dentro dos seus olhos vivos e alegres como festas juninas.

Adoro estudar o contraste dos meus dois amores. Saltitam dentro deles os sentimentos, lembrando imagens poéticas ou gestos de idílio. Quando me falam, elas mergulham nos meus nervos com a sabedoria dos pescadores de esponjas. Sabem onde me doem as feridas do destino, sabem onde me sorriem as saudades, sabem onde estão guardadas as minhas emoções mais vivas. E são imperativos esses meus dois crucifixos. Eu as ensino a querer uma das artes mais difíceis que há na Terra. Elas já sabem traçar esquemas, para conseguir o que desejam. Batem à porta do templo com segurança. E trazem sempre, de volta, o que aspiram.

Bárbara é líder, de nascença. Sabe comandar tão jeitosamente, que até eu obedeço, cabisbaixo. Prende-me pelo pescoço, gruda os olhos nos meus, fala baixinho, com um código secreto que ela aprendeu com os anjos. Scarlet é sonora, farfalhante, recorda um vestido de baile, luminoso e brilhante. Pede como quem é indiferente às coisas, como quem tem certeza de que eu não posso negar-lhe nada, nem mesmo as minhas horas de fadiga e de meditação. Quem pode recusar uma alegria a um amor profundo? Quando viajo pela Antiguidade Clássica, penso que certos tipos foram copiados dos meus dois amores. A ciranda dos minutos, a criação do mundo, a loucura dos heróis, o vaticínio dos oráculos, o determinismo dos frutos e das searas, a vaga corrida do sol na quadriga das nuvens, tudo isso foi copiado dos olhos e das almas de Bárbara e Scarlet.

Tenho um grande orgulho nelas, porque sempre me vejo espelhado na superfície mansa do olhar de uma, na manhã vibrante do olhar da outra. No silêncio do meu apartamento, vejo-as na parede, como pinturas murais. Uma, decisiva e franca, com um ar de sacerdotisa; a outra, leve e esvoaçante, como o pássaro azul de Maeterlinck. Gostaria que o coração da gente tivesse o destino das gaiolas, e elas nunca mais escapassem da minha adoração. Não tenho inveja de ninguém, por isso. Sou um milionário, tenho tudo o que desejo, sorrio com elas, entristeço ao seu lado, quando uma notinha má no colégio fez o de bruxa no seu teatrinho íntimo. Quem vale mais que duas alegrias sinceras e espontâneas?

Tenho uma tamanha fé em Deus, que estou sempre pronto a perder meus dois amores. Seria como se apagassem, da face da Terra, a luz que nos consola. Seria como se amputassem de todos os jardins, a rosa eterna. Seria como se roubassem à vida o seu sentido místico e delicado. Compreendo a dor dos que sentiram assim. Sei de como é penoso ficar sozinho, vendo o nosso amor partir, sem explicações, sem acenos, sem endereço, sem promessas.

Estou preparado, diante de Deus, para esse golpe. Se acontecer, ficarei buscando só nos olhinhos de uma. Se perder as duas voltarei às origens. Sim, porque elas vieram de um jardim humano, que as fecunda todos os dias com sua imensa ternura. Elas são minhas filhas. E há, no olhar de sua mãezinha, o segredo que as fez tão belas e tão meigas. Não sei se as amo porque sejam uma metade do meu sangue, ou se é porque são a metade do sangue dela, minha companheira incomparável. Talvez seja só por isso.


No fundo, sou enfeitiçado pela minha esposa, até hoje. Vivo procurando-a em todos os corpos, em todas as almas. Vejo-a em todas as conversas, em todos os destinos. Meus amores, que são três, terminarão sendo um no infinito da mulher que Deus me deu. Ou será que ela é que resume todas as outras? Será, mesmo? Sou um cara meio burro, pois passei vinte e sete anos para descobrir isso, essa verdade tão simples e tão universal. Afinal, agora eu sei porque vivo numa permanente lua de mel. Bolas! *