CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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terça-feira, novembro 25, 2025

DR. MOURA TAPAJÓS NA PMAM

 Uma cata nos arquivos da corporação objetivando revelar a história do Serviço de Saúde na Polícia Militar do Amazonas permitiu-me relacionar alguns saudosos médicos bem cotados na cidade. Agora foi a vez do Dr. Raimundo Moura Tapajós, que frequentou o quartel da Praça da Polícia em1943, ainda que por 2 meses. Entre julho e setembro com a autoridade de 1º tenente, óbvio para marcar o soldo, substituiu o titular encarregado da Educação Física. Não creio que o doutor tenha se aplicado nesse mister, mas sim no atendimento aos policiais.

Registro arquivado na corporação

Alterações (registros pessoais do militar)

Ano de 1943 Julho: Por decreto do dia 8 do corrente, o Exmo. Sr. Interventor Federal nomeou o médico Dr. Raimundo Moura Tapajós para exercer o cargo e posto de 1º tenente médico de Educação Física desta Força, durante o impedimento do titular efetivo. (Diário Oficial 14.367, de 8 de julho de 1943). Agosto-setembro: a 10, foi público que, a 8 do corrente, o Exmo. Sr. Interventor Federal no Estado exonerou de acordo com o art. nº 90 e § 1º, letra “a”, do Decreto-lei 693, de 28 de outubro de 1941, o médico Raimundo Moura Tapajós do cargo e posto de 1º tenente médico de Educação Física desta Força.

Em consequência, seja o referido oficial excluído do estado efetivo da Força e E.M. [Estado Maior]. Nesta mesma data apresentou-se por ter sido exonerado a pedido do posto e cargo de 1º tenente médico de Educação Física (Boletim Interno 206, de 10-9-43)

Consultando um sebo na praça da Polícia, revirei o livro Encontro de sonhos: história do PCB ao PPS no Amazonas. Para minha surpresa, confesso, estava lá a figura deste médico. E copiei sobre ele este parágrafo: “Considerado um militante importante e chave no processo da luta e que não poderia ser submetido a processo de queimação (exposição), o Partido guardava severas reservas e sigilo com respeito à sua militância”.  

A propósito, doutor Moura Tapajós (1915-2005), nascido em Manaus, dedicou-se ao tratamento da tuberculose, que era uma praga àquela época. Formado em Recife-PE, em 1938, após concluir a pós-graduação, retornou a Manaus, onde compôs a equipe da Associação pro-tuberculose, formada por voluntários. Evoluindo, foi criada a Liga Amazonense Contra a Tuberculose, sendo diretor da Liga de 1945 a 1952. Quando o Sanatório Adriano Jorge foi inaugurado em junho de 1953, tornou-se o Chefe Clínico e médico por 10 anos. Aposentou-se aos 82 anos. Faleceu em Manaus aos 90 anos.

quarta-feira, janeiro 13, 2016

ITINERÁRIO TRANSANDINO (4)

Na metade do século passado, os médicos Djalma Batista e Moura Tapajós empreenderam uma viagem por países andinos, saindo de Manaus (AM) e passando por Iquitos e Lima (Peru). Concluído o périplo, o primeiro publicou em jornal o relato dos acontecimentos. Adiante, foi transformado em impresso, sob o título: Itinerário transandino (1951), que o autor dedicou ao companheiro de viagem.

                  
LIMA, SUAS FLORES E SEUS ENCANTOS

Lima é positivamente uma cidade de destino piedoso: tem também um Beato, Frei Martino de Porras, de cor escura, em cuja imagem o vemos sempre agarrado a uma vassoura... Certamente daí proveio toda a sua santidade: vasculhava os desvãos para a limpeza, ao mesmo tempo que removia as poeiras do entendimento e as dos corações, para aumentar a seara de Cristo...

Lima ainda é uma cidade nascida para a sabedoria: pouco depois dela surgiu uma das primeiras universidades do continente — San Marcos — ninho de estudiosos, matriz da formação cultural na América do Sul. Não sei se a Universidade de Santo Domingo é mais idosa: sei que San Marcos completou a 12 de maio deste ano o seu 4° centenário. Penetrámos com veneração nas suas salas e anfiteatros, nos seus laboratórios e corredores, e vimos com alegria a fonte onde muitos decanos têm sido justiçados com banhos memoráveis...
Presentemente está sendo construída uma Cidade Universitária, no caminho de Callao. Mas, não é tudo... Ainda um momento para visitarmos os museus, em Madalena Vieja, na companhia do distinguido colega Lopez.

No Museu Antropológico, primeiro as culturas pré-incaicas: Chavi, Paracas etc. Depois o mundo dos inkas reconstituído com amor, paciência e grande conhecimento: cerâmica, tecidos, contabilidade, instrumentos guerreiros, trajes, as figuras dos guerreiros; as múmias desvendadas pelo famoso arqueólogo Dr. Tello, envoltas em vários tecidos simbólicos, conservadas de cócoras, com os seus alimentos; os crânios trepanados, mostrando reconstituição perióstica e portanto uma alta perícia em técnica operatória, e as deformações cranianas estarrecedoras, — trepanações e deformações que obedeciam de certo a um sentido religioso propiciatório; representação em pedra e cerâmica de enfermidades e defeitos físicos, dando notícia de sua capacidade de observação e da extensão de seus conhecimentos.

Tudo isto, guacos e atestados de uma cultura adiantada, datando de milênios, até o início da colonização espanhola, em 1 500. Ao lado do Antropológico está o Museu Bolivariano. San Martin declarou a independência peruana, mas Bolívar consolidou-a: por isto seu culto é maior e sua glória mais admirada.
O Museu está instalado na casa em que residiu o próprio Libertador, e que havia sido construída para retiro do último ou dos dois últimos vice-reis. Em cento e poucos anos estão porém esmaecendo as pegadas de Bolívar: seus autógrafos já estão amarelecendo, seus móveis estão perdendo a resistência, as salas em que dava audiências, comia, dormia, orava e amava a famosa Manoelita, estão desprendendo o pó fatal...

Nas paredes quadros do grande soldado idealista, que deu a liberdade a cinco nações, vencendo batalhas ferozes, para morrer ingloriamente, cheio de apodos, lançados pelo seu próprio povo.

Bolívar ao lado de seus lugares-tenentes, no Museu da Madalena Vieja, já parece mais velho que os incas e seus antepassados. Só nos pareceu viçosa, mesmo, a figueira que suas mãos plantaram no quintal de solar.

Ao lado do Santuário Bolivariano está uma galeria de presidentes da República, alguns até com seis dias de exercício do poder...

No fim da visita, pus-me a meditar: daqui a cem anos, que restará dos museus da nossa idade? Do que fizeram os antigos, muito resistiu ao tempo, e o Dr. Tello pôs sua imaginação e sua ciência a decifrar os achados. E que restará da nossa civilização, regada com o sangue dos vencidos e com o suor dos fracos e dos humildes? Só uma coisa jamais se poderá esquecer da coroa de glórias de Bolívar, como da de San Martin e José Bonifácio: o espírito libertário, que é expressão mesma da santa, da bendita, da inigualável Liberdade!

Foi essa Liberdade que vimos paradoxalmente endeusada no Peru. Desde nossos primeiros contatos com a terra irmã ouvíamos falar com entusiasmo no "câmbio livre", fruto de uma política renovadora do governo Odria, que seguira de corpo e alma as sugestões da Missão Econômica Americana, vinda, a exemplo da famigerada Missão Abbink no Brasil, que tivemos o bom-senso de mandar embora, com um sardônico "muito obrigado", para estudar e orientar a política econômica do país.

Dizia-se: baixou o custo de vida, não há mais câmbio negro, o Peru é um dos poucos países em que há liberdade comercial e bancária... O assunto era sugestivo e passámos a inquirir todo mundo sobre ele: uns estavam entusiasmados, outros faziam restrições, e a nossa curiosidade crescia, à medida que deparávamos com artigos de importação de toda sorte, baratos, é verdade (automóveis de luxo por 70, 80 mil cruzeiros; rádios de mil cruzeiros; tudo muito, bom e por bom preço).

Demos afinal, com a ajuda de um médico experimentado e sagaz, no nó da questão: câmbio livre representa a morte da indústria no Peru, que se tornará progressivamente, mais e mais, em exportador de matérias primas brutas (economia colonial típica); representa o desemprego para o operariado; representa a constante sangria nas finanças nacionais, que nunca produzirão bastante dinheiro com que pagar dólares, mesmo fixado em 15 soles cada um; significa, em última análise, o jogo mais descarado dos poderosos, que ganham nas exportações e nas importações, ganham na compra de divisas com que abarrotam os bancos, e ganham na utilização de artigos de primeira, por preço relativamente baixo, mesmo assim elevado para o poder aquisitivo da massa.
Plaza das Armas, Lima - Peru

Vede, pois, que às flores e aos encantos de Lima se juntam espinhos e pedregulhos, que ferem o espírito e perturbam a caminhada do viajante que quer ver, pelo prazer spinoziano de conhecer...

segunda-feira, dezembro 28, 2015

ITINERÁRIO ANDINO (3)

Na metade do século passado, os médicos Djalma Batista e Moura Tapajós empreenderam uma viagem por países andinos, saindo de Manaus (AM) e passando por Iquitos (Peru). Concluído o périplo, o primeiro elaborou a publicação em jornal do relato dos acontecimentos. Adiante, foi transformado em impresso, sob o título: Itinerário transadino (1951), que o autor dedicou ao companheiro de viagem.

                  
Plaza das Armas, com a igreja no conjunto




LIMA, SUAS FLORES E SEUS ENCANTOS

A sala de visitas da capital peruana é magnífica: um palácio de mármore e pórfiro, onde o viajante admira majestosa obra de arte, com uma perfeita distribuição de serviços. Do Aeroporto de Limatambo, numa tarde friorenta e sem sol, começamos a mirar a cidade, cercada de morros nublados e se estendendo para todos os lados.
 Em Lima chama logo a atenção o aspecto alegre e sossegado da terra e da gente. Todos amáveis, bem humorados, vivendo a sua vida entre flores e jardins. Pelo menos os burgueses...

Seu desenvolvimento é um caso curioso: em torno do núcleo central, a velha cidade dos Vice-Reis, onde se vêm as ruas estreitas da época colonial, com a sua arquitetura característica, de balcões nas fachadas (há quadras inteiras de casas desse estilo, que traduz uma reminiscência mourisca), com persianas que quase nunca se abrem, se desenvolveram numerosos pueblos, que se foram reunindo, para formar a extensa metrópole de hoje, de quase um milhão, onde convivem quatorze municipalidades independentes, dentro de duas províncias, que vão do mar (Callao, o porto, foi uma cidade isolada e é hoje uma cidade autônoma) até as Serras, para lá de Chosica.
San Isidro, Miraflores, Herradura — bairros situados a cavaleiro do mar — são uma maravilha e um encanto. Serenos como só eles. Amplas ruas ajardinadas, onde os olhos se deleitam numa policromia de estarrecer. E que casas! quanto bom-gosto! quanta beleza!
Obrigado, querido amigo Lucho Ibañez, que nos levaste pela pitoresca cidade que tanto nos encantou, mostrando-nos tudo com uma solicitude paciente e cativante! A ti e a Eduardo, autênticos representantes da estirpe arequipeña dos Ibañez, com os seus 14 ramos...

No centro de Lima, entre a Plaza San Martin (benditos fotógrafos ambulantes que nos fixastes ao lado da estátua do grande General, e ainda nos encravastes numa cédula de 10 soles!) — entre a Plaza de San Martin e a Plaza de Armas, está o grande comércio de Lima: no Jiron Union estão as casas de moda e de artigos regionais, as platerias e perfumarias; estão também as calçadas pisadas pelas limeñas elegantes, de olhos e cabelos negros, geralmente bem envolvidas em costumes de lã e peles vistosas, que eu asseguro muito em segredo — dão uma imponência agradável às mulheres...

Detalhe da fachada da Catedral de Lima-Peru
A Plaza de Armas é típica em todas as cidades de origem espanhola: Palácio do Governo, Municipalidade, Catedral... Na de Lima, porém, há uma particularidade: todas as construções obedecem a um estilo próprio, rigorosamente colonial, com portales e fachadas magníficos. No Palácio da Municipalidade fomos admirar uma das preciosidades artísticas limeñas: salões ricamente decorados, sem exibição nem demasia, com telas assombrosas de Merino e Montero (guardo profunda impressão de La venta de las acciones, Las Tapadas e La Loca, em que Merino culminou a sua capacidade de fixar tipos e expressões). E que assombro a Biblioteca, toda talhada em madeira!

Também na Plaza de Armas está Francisco Pizarro — o Conquistador entre monstruoso e glorioso — montado no seu cavalo de bronze, para contemplação dos séculos, e guardado no seu esquife de mortal, dentro da Igreja, para que os homens meditem no "memento" eterno...
O Palácio de la Torre-Tagle, onde hoje está instalado o Ministério do Exterior, é uma autêntica relíquia de alto preço, com os seus 200 anos de existência, dois balcões, salões, quadros, móveis, espelhos e pátios. Corramos às igrejas: entremos na Basílica Jubilar e não nos impressionemos com a riqueza dos altares e a imponência das imagens. Fixemos o ponto para onde mais se dirigem os fiéis: lá está uma simples cruz de madeira desbotada pelos beijos que nela são depositados; uma placa assinala o lugar onde a parede se abriu para que um frade em cuja santidade o povo acredita, como em Manaus se crê fervorosamente na “Santa Etelvina”, perseguido pelo demônio, pudesse passar incólume!
Depois visitemos a Igreja de S. Pedro, da Companhia de Jesus (La Iglesia Jubilar). A 1 da tarde se rezava missa. Imensa e grandiosa obra de arte, com altares em ouro ou madeira, pinturas impressionantes e sobretudo com aquela quietude dos templos, com o seu quê de mistério e de atração! Detenhamo-nos porém no Santuário de Santa Rosa de Lima, — único sul-americano que já mereceu canonização, e isto 30 anos depois de seu falecimento, ocorrido em 1631. Lá estava a sua cadeira e a sua cama tosca; a imagem diante da qual rezava os lugares onde recebeu as aparições e onde impôs em si própria flagícios e martirizações; algumas pinturas chucras com os seus milagres. Lá ouvimos também a sua história: a renúncia do amor de um noivo que provavelmente a adorava, em troca do amor divino; os 30 e poucos anos de vida heroica. E dizer que olhares profanos se detiveram diante de tudo aquilo, buscando uma interpretação psicológica para o caso da famosa Santa limeña! (continua)



segunda-feira, novembro 23, 2015

ITINERÁRIO ANDINO (2)

Na metade do século passado, dois médicos amazonenses empreenderam uma viagem por países andinos. Concluído o périplo, Djalma Batista, saudoso cientista extremamente conhecido, fez publicar o relato dos acontecimentos.
Foi transformado em impresso, sob o título: Itinerário transadino (1951), que o autor dedicou ao companheiro de viagem – doutor Moura Tapajós, cujo nome designa a maternidade municipal instalada na avenida Brasil, bairro da Compensa.


UM VOO DO AMAZONAS AOS ANDES

Nós brasileiros andamos designando mal o nosso tuxaua hidrográfico, chamando-o de Amazonas, Solimões e Marañon. Em frente a Iquitos, por exemplo, olhando o belo panorama do rio a deslizar sereno, carregando detritos andinos, galhadas do baixo-plano e aluviões quaternários das terras aquém dos Pongos; olhando o rio banhado pelos últimos reflexos do crepúsculo planiciário, de que me estava a despedir, e recordando as minhas tinturas de geografia, exclamei: "Miremos al Marañon!" Esclareceu logo o amável acompanhante que estávamos defronte do Amazonas e que o Marañon estava muito longe.

Debrucei-me então sobre a monografia do sábio [Antonio] Raimondi, que consagrou sua vida ao Peru e palmilhou Loreto: aprendi que o Amazonas se forma pela união do Marañon com o Ucayali, da mesma forma que o [rio] Madeira nasce do abraço do Mamoré com o Beni, e o rio Branco da fusão do Maú e do Tacutu.
Cancelemos a nossa homenagem ao rei Salomão, concentrando-a na outra lenda, muito mais simpática e sugestiva, das guerreiras do Nhamundá, que arrebataram ao próprio Orellana a designação onomástica do rio-grande descoberto!
Matriz de Iquitos,
foto de julho passado

De Iquitos para Lima há três vias de comunicação: uma pelo ar, coberta pelas possantes e confortáveis unidades da Cia. Fawcett, que transportam tudo, gente e bichos, encomendas e cargas; outra por terra, a partir do porto de Pucallpa, até onde chegam embarcações fluviais, e início da grande estrada transandina, que substituiu a picada terrível de 20 anos atrás, pela qual, em caravanas aventurosas, que enfrentavam os gentios, as feras, o frio e a aspereza do terreno, se mantinha a unidade territorial do Peru; uma terceira via é toda por água: descendo o Amazonas, navegando o Atlântico, cruzando o canal do Panamá e costeando o Pacifico, até Callao...

Por uma das três vias sai a produção loretana: borracha, petróleo, sorva, madeiras e couros. Como se vê tudo coisa que a terra dá por si: nada criado pela mão do homem, tal qual sucede com os irmãos amazônicos do lado de cá da linha divisória...

Em 1955 será o centenário de Iquitos. Portanto, apenas sete anos mais nova do que Manaus, embora afastadas as duas capitais por mais ou menos 2.000 quilômetros...

Depois de uma animada e proveitosa conversa com os nossos anfitriões Planas e Vidurrizaga, na qual tanto podemos admirar a vivacidade de espírito do último, conhecedor minucioso do Norte e Nordeste do Brasil, onde amassou o pão do exílio, aqui lançando raízes afetivas imperecíveis e fruir o encanto da companhia do primeiro e de sua família, — começou a bater-nos forte o coração : fazia um calor supermanauense assim pelo meio-dia, no aeroporto iquiteño da CORPAC, e em pouco estaríamos sobrevoando os Andes e jogados no inverno da orla do Grande Oceano! (continua)

sábado, novembro 21, 2015

ITINERÁRIO ANDINO

Recorte da capa do impresso
Na metade do século passado, dois médicos amazonenses empreenderam uma viagem por países andinos. Concluído o périplo, Djalma Batista, o saudoso cientista extremamente conhecido, fez publicar o relato da experiência.
Primeiro, expos os acontecimentos em conferência na Academia Amazonense de Letras, da qual era membro, em 29 de setembro de 1951. Logo, o periódico A Gazeta a reproduziu nas edições de 15, 16 e 17 do mês seguinte.  
Enfim, foi transformada em impresso, sob o título: Itinerário transadino, que o autor dedicou ao companheiro de viagem – Moura Tapajós, outro finado médico competente de nossa cidade.


UM VÔO DO AMAZONAS AOS ANDES
 Na manhã venturosa de 7 de julho, dois médicos manauenses desenharam no céu um ângulo reto, olhando pela janela do Catalina, ao infletirem para o oeste, com o pensamento no roteiro seguido por Pedro Teixeira, durante doze meses, a partir de outubro de 1 637, para cobrir a distância até Quito, — réplica heroica dos portugueses à expedição pioneira de Pizarro-Orellana, um século antes, desvirginadora do mundo amazônico. 
Apenas trezentos e tantos anos depois do notável capitão luso mudaram os meios e os caminhos, passando os meses a serem contados em horas... O que aqui vai relatado reflete o pensamento e a observação dos dois itinerantes, dos quais me estou arvorando a intérprete, avisando de antemão que o sal da história foi sempre posto pelo meu companheiro, com muita finura e extraordinário espírito clínico e crítico. 
À medida que o avião remonta o [rio] Solimões, vai-se tendo uma impressão oposta à da viagem a jusante de Manaus: a água diminui de volume e não ocupa tanto espaço, e a floresta é mais densa, parecendo até mais verde... 
Em frente a Benjamin Constant, quando se dá adeus à pátria, olhando a margem peruana fronteiriça (o povoado de Ramon Castilla não fica ao alcance da vista), o "real rei dos rios do Universo" como que perde a sua majestade, nesta época de vazante; e a cidade distante, comburida pelo sol e asfixiada pelo mormaço, erguida sobre giraus semelhantes aos de meu Togar natal, no Acre remoto, dá uma pena terrível ao brasileiro que a pisa pela primeira vez: não parece ter a seus pés um monstro líquido cuja correnteza atinge às vezes a milhas por hora. 
Benjamin Constant como que reflete a psicologia de um lago...Decolado o anfíbio da Panair [do Brasil] divisam-se riscos amarelos fendendo a superfície verde: verde e amarelo como que a traduzirem o destino brasileiro de guardião daqueles pagos distantes, onde três povos irmãos disputam ou mantém uma cunha de seus próprios territórios: peruanos, colombianos e equatorianos. E sobrepairando a tudo — interesses, ambições, desejos de hegemonia — um senhor todo-poderoso, que é o deserto! 
Quando se chega a Iquitos [Peru], duas horas depois de Benjamin Constant (500 ou 600 quilômetros de distância!), o espírito como que se abre, depois de se ter contraído a meditar sobre a pequeneza do homem em face ao mundo amazônico. Porque Iquitos já é uma cidade!
Basta dizer que possui luz e água... O Palace Hotel Malecon, instalado em bonito prédio azulejado, está longe porém de ser um palace hotel. Em compensação está pronto para ser mobilado e funcionar um bem apresentado estabelecimento, que integrará a cadeia da Corporação Nacional de Hotéis de Turismo, do governo peruano. 
Na capital do Departamento de Loreto há cerca de 45.000 almas, 10.000 das quais devem ser contadas como corpos: são soldados... Não esquecer que as geografias equatorianas incluem Iquitos na Província Oriental da pátria de Garcia Moreno... 
Em verdade muito mais afinidade existe, na região, com o Brasil, que com qualquer das repúblicas irmãs do lado de lá dos Andes: e é pena que esta afinidade, decorrente naturalmente da proximidade geográfica, da identidade de problemas e da semelhança das populações nativas, não seja aproveitada largamente pelo comércio, pela indústria e pela cultura, para formação de um necessário espírito panamazônico, que não deve ser interpretado como expansionismo do Brasil, país líder e senhor da chave da bacia, pelo próprio destino histórico. 
Neste sentido, vale a pena não esquecer as sugestões e observações argutas de Napoleão Bezerra, que já escreveu, primeiro com gasolina e depois com óleo cru, crônicas de sensação sobre o Médio Amazonas. (continua)