CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, outubro 25, 2026

POEMA DOMINICAL (155)

 

O poema postado nesse domingo é de autoria do poeta Álvaro Botelho Maia (1893-1969), circulado no Pathé Journal,  para comemorar o Natal de 1922. 


BANHISTA

Dança no mar a célere banhista,

roupão de seda, sob um sol de praga...

Ao marulho, áureo tango que embriaga,

abre a boca, ergue o ventre, o seio enrista...

 

Mergulha, emerge, nada à nossa vista...


O oceano, amante que a perturba e afaga,


esconde uma perfídia em cada vaga


para o instante supremo da conquista. 

No leito verde, que estremece e estronda,

soluça a carne da mulher robusta,

ao teu beijo, espuma, ao teu abraço, onda!

 

E, enquanto aperta os vagalhões em fúria,


ao lençol brando da estação adusta,


solta o vento lamentos de luxúria...  


domingo, outubro 18, 2026

POESIA DOMINICAL (49)

São dois poemas centenários de Jonas da Silva (1880-1947), circulados no Pathé Journal, inaugurado em 1921 em Manaus. As obras ilustram a edição de Natal de 1922, segundo ano de existência do periódico.

Pathé Journal nº 63, 25 dezembro 1922

Hoje, por ser domingo, eu de casa não saio,

Dando trégua ao labor, às lutas, à canseira:

Falo ao Alberto, o meu, não o Alberto Oliveira,

Proíbo-lhe o “foot-ball”, a rua, o “papagaio”.

 

-- “É nesta rua aqui, só na Treze de Maio”

Diz-me a Jandira – “Não! que é medonha a soalheira

(E os aviões de papel, uns, com a nossa bandeira,

Cruzam no ar, uns de “banda”, uns de “centro” e uns de “raio”...)

 

Ouço em cochicho os três e vem a pequenita,

É a caçula, é a que manda, é a que impera, é a realeza.

-- Ora deixe, papai, me diz a Sulamita;

 

Fosse a “mamãe deixava!” —Ó Força, Ó Tempestade!

Ó... essa razão final, que mata de tristeza,

                Ó argumento cruel que mata de saudade!... 

domingo, outubro 11, 2026

POEMA DOMINICAL (55)

 

Circulado em Jornal do Commercio, 28 março 1955


            Senti de perto, bem de perto

o drama dilacerante de tua vida.

Acompanhei, no silêncio prolongado

de minha dor,

a noite angustiosa, sem alvoradas,

que cercara os teus últimos dias!

O teu destino se fizera um látego

e te suplicou

impiedosamente...

Mas, como foste grande em teu padecimento!

Como soubeste contar as tuas lágrimas

que deveriam queimar tua face pálida,

transfigurada pelo sofrimento...

Acompanhei teus dias sem sol,

tuas noites sem estrelas...

Senti a angústia de teu isolamento...

No entanto, volvendo o olhar

às brumas do passado,

a esse passado de sonhos e de rosas

eu te revejo, na tortura

de uma evocação comovida,

como sendo a nota musical

de pompeante alegria, que se fora,

para nunca mais voltar!...

 

Eras alegria!

A alegria de muitos corações!

Flor que desabrochou entre carinhos

– como um sonho de ternura –

Eras a flor da bondade,

eras a flor da alegria...

 

Teus dias de luz,

teus dias de festa!

Tudo fugira como por encanto!...

Porém, o teu sorriso costumado

jamais deixara de aflorar aos teus lábios

sentidos!

Foste grande! Foi grande e inquietador

teu estoicismo. Eis porque tu tiveste

a serenidade quase angélica

quando a hora final do alto te acenou

e tranquila a Jesus tua vida deste

na tragédia da dor!...

domingo, outubro 04, 2026

POEMA DOMINICAL (80)

  

Jornal do Commercio, março 1959

 

Os pinheiros tranquilos da colina

equilibram no céu as verdes palmas.

Elevando no azul de nuvens calmas

os braços trescalantes de resina.

 

O gado lentas orações rumina

perto da ermida dedicada às almas.

Cai rápida geada (prata e sal) mas

mio lhe perturba a devoção bovina.

 

Cessa a neblina. Ao sol brilha o granito

da branca torre-columbária do horto.

Súbito rasga a tarde áspero grito.

 

No ar mergulha o falcão. Com um pombo morto

preso às garras se eleva no infinito.

Como se eleva um pensamento absorto.

 

luiz  bacellar

 

* escrito em 14.3.59

Chácara de São Bento

Bairro de Pinheiros

São Paulo

domingo, setembro 27, 2026

POESIA DOMINICAL (27)

 

                            Pereira Barroncas 

“Das curvas da noite imensa,

Surgiram caminhos loiros...”

— Estradas da inspiração,

Que só os gênios palmilham,

Em versos líricos dedilham,

dos aedos que se perfilam,

Ao Grêmio da Madrugada...

 

Eu sei, o estro é Aurora,

Que se esconde e se enflora,

Nos cílios da Primavera...

-- Que seu cabelo, não o era,

Nem seus braços, -- quem lhe dera,

Nem sua boca e

nem nada...

Eram apenas devaneios,

Do vate em seus anseios,

Áureos filões d'almos veios,

No cântico da Madrugada...

 

Que de cuidados ao poeta,

— Em sua alma de esteta,

— A poesia, — ao eleito,

Qual jovem núbil, em seu peito.

Dá-lhes abrigo, em seu leito...

Nem um engano e

nem nada...

“Caminhos loiros, o orvalho,

Pingando nos olhos, e, mudo,

— Qual Rosicler da Alvorada,

É do Farias de Carvalho,

A alma, o sentimento, é tudo...”

domingo, setembro 20, 2026

POEMA DOMINICAL (67)

A postagem reproduz o poema de Elson Farias, circulado no Jornal do Commercio, de 12 de setembro de 1976, há exatamente 50 anos.

Recorte da coluna do Jornal do Comercio,
12 setembro 1976

    

Canta o verso e sua música

como o remador do rio.

não importa que esse canto

venha quente ou venha frio

 

o que importa é que haja estrela

e haja fogo no pavio

da lamparina na trempe

dando luz à cumieira

 

e as marrecas se anunciam

voltando para os poleiros

lá onde os olhos não chegam

quer sejam de bons mateiros

 

tal e qual um vagalume

nas moitas da ribanceira

quando cai a noite nova

sem a lua e sua estrela

 

e a safra do rio se faça

de modo menos vasqueira

como a luz da lamparina

dando luz à cumieira

 

e os carapanãs se escondam

com medo da luz do dia

que se faz por trás da faixa

da mata, como fatia.

 

domingo, setembro 13, 2026

POEMA DOMINICAL (45)

 A arte deste domingo pertence à Violeta Branca, a poetisa amazonense, publicada na revista Rionegrino nº 14, de novembro de 1929.



domingo, setembro 06, 2026

POEMA DOMINICAL (13)

 O poema é de autoria do saudoso poeta Alencar e Silva, e circulou em O Jornal, circulado em 15 de dezembro de 1962. Na véspera, ocorreu um acidente fatídico em Manaus: a queda do Constellation PP-PDE, da Panair do Brasil, matando todos os 52 ocupantes.

  

Recorte de O Jornal, 15 dezembro 1962

NESTE BARCO PASSAGEIRO

                                                                        ALENCAR E SILVA


Neste barco passageiro

mal disposto a viajar

eu me invento rotas novas

rotas de nunca chegar 

marinhando esse meu gosto  

acre e ázimo de mar

vou-me impondo amargas provas

sem com elas me importar 

que este barco de noturnas

solidões vai-se a errar

sob luas e astros doidos 

que os bem sei como inventar

quando embarco e ao barco imprimo

rotas de nunca chegar.

domingo, agosto 16, 2026

POESIA DOMINICAL (87)

 De autoria de João Crisóstomo de Oliveira (1914-97), pertencente a Academia Amazonense de Letras, o poema foi publicado no Jornal do Commercio.

Recorte do Jornal do Commercio, 17 setembro 1983

Meu sonho é bem grande... /  Nas asas de um querer árdego se expande! 

/ É uma luta incessante dentro de meu ser / É um combate incompreendido

/ Obscuro mesmo e por todos desprezado / É um sonho que vai além de um sonho

/ É um debater supremo / De aspirações estranguladas / Por criaturas malvadas

/ Que não sabem querer, / Que não sabem sonhar... / Aspirações asfixiadas

/ Pela diferença esmagadora / Daqueles que destroem castelo no ar

/ Daqueles que vivem do banal, / Das horas secas do Algarismo

/ E do interesse grotesco e material...

 

II

Meu sonho é bem imenso

Enche todo o meu ser

Transborda todo o meu pobre viver

Sufocado no soluço interior...

É um mar sereno que se deixa singrar

Pelas brancas velas da bondade...

É, porém, um mar tempestuoso

Cheio de ventos esfuziantes e ondas revoltas

Contra as bordas do orgulho e da arrogância

Contra as belonaves do Terror e da Maldade...

 

III

Meu sonho... uma esperança leve / Que o vento humano não descreve

Uma esperança pequena! ...tímida! ...criança! / Que vai correndo,

Vai crescendo / E toma o porte colossal /

De aspirações supremas de grandeza, / Para a grandeza dos pequenos,

Dos humildes que choram, / Dos humildes que padecem

E de Deus nunca esquecem!... / Meu sonho... / Quero te ver altaneiro

Resoluto e vitorioso / Quero te ver garboso!...

Meu sonho... / Luta! / Cresce! / Vence!

Não temas:

NAS MÃOS DE DEUS EU TE DEPONHO

domingo, agosto 09, 2026

POESIA DOMINICAL (34)

 São dois poemas de AMÉRICO ANTONY (1895-1970) publicados em A Crítica, em dezembro de 1957. Meus abraços aos Pais de minha casa. 

Américo Antony

A Crítica, 7 dezembro 1957

 

Nas divinas cisternas de astros louros

Meu pensamento vai bebendo a Vida

Daquelas sendas da manhã vivida

Nas peregrinas vozes dos tesouros;

É dele o sonho em fontes, bebedouros

Onde a alma se alimenta, já ferida

Como ave triste, sem pousada, caída

Dos temporais, dos torvos sorvedouros;

Lá, das almeias das estrelas, sente

Dos êxtases, radiar o mais silente

Universo, em libélulas de opala:

São faúlhas incriadas de infinitos

A povoações de mundos mais benditos

Onde, o Silêncio, adormecendo, fala...

 

 

A Crítica, 4 dezembro 1957

 

A Saudade se fez um íntimo da Mata:

Foi viver nos cristais, de igarapés, no alfombra,

Fez da Floresta a voz dos seus lábios de sombra,

Da auriflama nos trons dos longes da cascata.

Fez-se o exílio da luz, crisálida em sonata,

Solar da Tradição que em séculos se ensombra. 

Batentes do alcantil que pouco a pouco encombra

A escalada do ideal dos astros de oiro e prata:

Fez-se flor de remanso adorando a penumbra, 

Renúncia do presente a suspirar, res umbra

De idades através reconstruindo um ninho:

Tecido de ansiedade à Paz que ela gorjeia

Como Ave do Silêncio onde emoções semeia

Para o eterno florir do Encanto e do Carinho!