CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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terça-feira, abril 01, 2025

L. RUAS: 25 ANOS DE FALECIMENTO (2)

 Hoje (1º de abril), completam-se 25 anos do falecimento do padre-poeta L. Ruas (Luiz Augusto de Lima Ruas), autor de Aparição do Clown, longo poema religioso, editado em 1958. Intentei realizar uma homenagem pública ao poeta, porém, fracassei. Lamento, mas a direção da arquidiocese de Manaus – procurada - não acolheu minha pretensão. A fim de reverenciar ao poeta, reproduzo (com ligeiras correções) o texto próprio que incorporei ao livro L. Ruas: poesia reunida (2013).

Minha paixão por L. Ruas

Possuo um raro privilégio: o vínculo escolar com o padre Luiz Augusto de Lima Ruas (L. Ruas), quando matriculado no Seminário São José, de Manaus. Ali, em 1956, alcancei o padre Ruas no frescor de sua juventude, ordenado sacerdote dois anos antes. Sapiente e entusiasmado demais com sua vocação, liderança comprovada em qualquer reunião de seminaristas. Versado em diversas matérias curriculares, ensinou aos futuros padres ou não de línguas vivas e mortas (latim e grego), passando por Gramática e Literatura Brasileira, Filosofia e Teologia. Seus inúmeros alunos da Universidade Federal do Amazonas lembram-se dele como mestre em Psicologia. No Seminário, ainda adolescente, não tive capacidade de auferir a ciência que dele emanava. Recebi de suas mãos o majestoso livro — Aparição do clown, longo poema religioso, quase indecifrável, de certo um marco na literatura amazonense. Mas, tudo isso somente compreendi décadas depois.

Em 2004, a cidade comemorava vários cinquentenários: de sua ordenação sacerdotal; da criação do apagado Instituto Christus; da inauguração da Rádio Rio Mar e da fundação do Clube da Madrugada. Para minha admiração, em todas estas organizações, Ruas havia participado, e de forma categórica.

L. Ruas morreu em 1° de abril de 2000, há vinte e cinco anos, portanto. A fim de homenageá-lo no limite de minha competência, projetei e estou cumprindo o recolhimento de sua obra literária dispersa nos jornais de Manaus. A propósito deste empreendimento, o saudoso Renan Freitas Pinto designou-me com a incumbência esdrúxula de "curador da massa literária” de L. Ruas. Devo confessar que a faina foi dificultosa, emperrada e, às vezes, desanimadora. Foi-me, porém, benevolente, por ter-me permitido comprovar a sapiência e a erudição do meu saudoso mestre.

Enfim, ainda encontro, aqui e ali, fuçando em jornais da época, alguma contribuição dele. A Poesia Reunida de L. Ruas, aqui organizada, objetiva não somente assinalar sua morte. Mas, e principalmente, revitalizar a arte otimamente praticada por ele. Espero ter cumprido satisfatoriamente o ônus assumido, e que o leitor se satisfaça com este conjunto de "estrelas e de pérolas".

segunda-feira, março 31, 2025

L. RUAS: 25 ANOS DE FALECIMENTO

 Amanhã (1º de abril), completam-se 25 anos do falecimento do padre-poeta L. Ruas (Luiz Augusto de Lima Ruas), autor de Aparição do Clown, longo poema religioso, editado em 1958. Intentei realizar uma homenagem pública ao poeta, porém, fracassei. Lamento, mas a direção da arquidiocese de Manaus – procurada - não acolheu minha pretensão. Assim, vou republicar algumas páginas do mestre, para cumprir meu desígnio.

Nesta homenagem, começo com as palavras do professor Marcos Frederico (doutor em Literaturas de Língua Portuguesa), expostas no livro L. Ruas: Poesia Reunida (Manaus: Travessia, 2013):

“Luiz Augusto de Lima Ruas (L. Ruas) é, sem qualquer favor, uma das mais expressivas vozes da poesia do Clube da Madrugada, essa agremiação que renovou as letras amazonenses da década de 50, no século passado.

Sem exagero, diria que seu livro de estreia, Aparição do clown, cuja primeira edição consta ter sido em 1958, o coloca entre os poetas com participação eficaz na literatura brasileira. Entretanto, não é conhecido nos meios acadêmicos brasileiros, porque poucos são os artistas locais que conseguem “furar” o bloqueio dos meios de comunicação e ser divulgados nacionalmente.

Graças a Roberto Mendonça, esse pesquisador incansável da obra de L. Ruas, temos agora a totalidade da produção lírica desse vigoroso artista. Além dos poemas de Aparição do clown, encontram-se também reunidos neste livro aqueles que constituíram o Poemeu, livro que, tendo sido premiado em 1970, só encontrou a luz de uma publicação em 1985.

Afora estes, encontram-se os textos que, circunstancialmente, foram inseridos em outras obras. Se não bastasse este trabalho, Mendonça ainda coletou produções inéditas do grande poeta, um dos quais – o poema “Mar” – nos mostra uma faceta original de seu trabalho: as técnicas do Concretismo.”

A seguir, um dos poemas coletados em Poemeu ou O (meu) sentir dos outros. 

SONETO (*)

Estas aves vêm sempre, ao fim da tarde,

Descansar seus remígios agourentos

No pomar de onde colho doces frutos

Com que faço meus vinhos suculentos.

Elas vêm de bem longe. Me olham sempre

Com desdém. E nas asas trazem ventos

Que uma vez, já faz tempo, naufragaram

Minha nave que nautas desatentos

Dirigiam. E estas aves que me espiam

Lá de cima das árvores crescidas

No pomar irrigado com águas verdes.

Bem conhecem meu fim. Vencido nauta

Pus-me, agora, a plantar frondosas copas

Que sugerem veleiros em meu canto.

 

(*) Também publicado na Seleta Literária do Amazonas, de José dos Santos Lins (1966).

quarta-feira, fevereiro 19, 2025

L. RUAS EM A CRÍTICA

 O matutino A Crítica, fundado em Manaus em 1949, ao completar 60 anos resolveu homenagear seus colaboradores. O padre-poeta L. Ruas foi colunista deste jornal entre 1957-58, porém falecido em 2000. A par desta constatação fui à direção do matutino, que publicou em novembro de 2009 o tributo aqui postado.

A Crítica, 24 novembro 2009
Recém ordenado padre, o jovem Luís Ruas (1931-2000) ingressou no mundo das letras como membro do mais importante grupo literário do Amazonas, o Clube da Madrugada, na década de 50. O exercício da escrita está presente em vários artigos que publicou em jornais locais e em quatro livros - o mais conhecido deles é “Aparição do Clown”, reeditado pela editora Valer.

Estreia

A estreia do padre escritor, que assinava como L. Ruas, nos jornais ocorreu nas páginas de A CRÍTICA, em agosto de 1957. A passagem de L. Ruas pelo jornal foi curta - ele parou de escrever em março de 1958 -mas o suficiente para deixar saudades nos leitores e admiradores, que ficaram inconformados com o fim (voluntário) de suas publicações. “Os leitores reclamaram sua ausência. Duas ou três dessas cartas foram publicadas após sua saída”, diz o pesquisador e escritor Roberto Mendonça, que, atualmente, realiza uma investigação sobre os textos de L. Ruas nos jornais de Manaus e que nunca chegaram a ser reunidos em livros.

A coluna mantida por L. Ruas foi batizada de “Ronda dos Fatos”. O autor tinha liberdade para escrever o que quisesse, seja em prosa ou em verso. Mendonça diz que L. Ruas escrevia sobre problemas urbanos e sociais, mas também transitava no mundo das artes, versado sobre cinema e literatura. A publicação era diária, mas não seguia um cronograma permanente. Houve um momento em que ele escrevia apenas uma vez por semana.

Apresentação

L. Ruas foi “apresentado” ao fundador do jornal, Umberto Calderaro, pelo professor Orígenes Martins, que na época iniciava sua bem-sucedida carreira como proprietário de escola particular. “O jornal estava em fase de crescimento. O professor Orígenes era colega de seu Calderaro e sugeriu o nome do padre para a coluna”, conta Mendonça. Para Mendonça, L. Ruas, porém, não conseguiu encontrar disponibilidade para desenvolve suas atividades na Igreja, no magistério, no Clube da Madrugada e na coluna do jornal.

Despedida 

Em seu último texto no jornal, publicado no dia 28 de março de 1958, L. Ruas justifica (ou tenta justificar) o fim da coluna, após se deparar com os protestos dos leitores. O autor, em um estilo introspectivo, diz em determinado trecho: “Bem que eu poderia jogar a responsabilidade do desaparecimento da Ronda as costas desse velho larápio que nos rouba tudo. Tudo. Rouba-nos os amigos, as coisas, as paisagens, a preciosa mocidade, a própria vida. Mas seria injusto com o famigerado ladrão. Daria, sim. Não, não era o tempo. Seria antes falta de disposição. Cansaço talvez. Falta muitas vezes aquela disposição orgânica indispensável. E a gente cede aos reclamos do corpo. Não é possível roubar este mínimo de recreação das forças despendidas".

“Universal”

Antes de escrever para A CRÍTICA, L. Ruas possuía uma coluna em um semanário da Igreja Católica chamado “Universal”. Ele ainda manteria, nas décadas seguintes, outras colunas, escrevendo, ocasionalmente, em veículos como “O Jornal” (já extinto) e “Jornal do Commercio”. O padre e escritor voltaria a escrever em A CRÍTICA nos anos 80, segundo Roberto Mendonça, mas em períodos esparsos.

Coletânea

Roberto Mendonça, que possui uma coletânea dos textos de L. Ruas –“jornais, incluindo “Tempo e Disposição”, conta que o autor escrevia com “competência e destemor”. “Ele procurava levar ao leitor informações diversificadas. A condição dos ônibus, a situação dos bairros, com destaque para o de São Jorge, onde era pároco, literatura, cinema, fazendo apreciação dos filmes em exposição. Também falava de teatro, do qual participou como ator e diretor e debates políticos, como o que travou com o saudoso Jeferson Péres, então dois jovens intelectuais. E também noticiava assuntos da Igreja, da qual era sacerdote”, diz Mendonça, que estima um total de 800 textos escritos por L. Ruas nos jornais de Manaus.

Seminarista

L. Ruas era o nome artístico de Luiz Augusto de Lima Ruas. Nasceu em Manaus, em 1931, na avenida Joaquim Nabuco. Foi filho de Horizontino e Emília Ruas, e sobrinho do pintor e decorador Branco Silva. Ruas ingressou no Seminário São José, aos 12 anos, onde concluiu o curso de humanidades, conhecido hoje por ensino médio. O curso de filosofia encerrou no seminário da Prainha, em Fortaleza e, no Seminário do Rio Comprido (RJ), inicia o de teologia (1952-53). Foi ordenado padre em 1954, na Catedral de Manaus.

Currículo

É considerado o fundador da paróquia de São Jorge. Também lecionou na Faculdade de Filosofia, antes de ser absorvida pela Ufam. Era seu diretor, quando foi preso pelo Governo Militar (1964). Ingressou no Clube da Madrugada em 1955, convidado pelo poeta Jorge Tufic. L. Ruas também esteve envolvido no movimento cinematográfico e teatral da Cidade.

domingo, dezembro 22, 2024

POESIA DOMINICAL (6)

 
A postagem foi compartilhada do livro de Assis Brasil - A Poesia Amazonense no Século XX. Apenas acrescentei o ano de falecimento do padre-poeta L. Ruas, como se identificava literariamente. Esta preocupação foi necessária diante do trabalho que venho desenvolvendo na divulgação da obra deste mestre. Além de pequena biografia, dele organizei Cinema e Crítica Literária (2010) e Poesia Reunida (2013), e ainda há trabalhos no prelo, aguardando bons tempos.
L. Ruas



L. Ruas (1931-2000)

Como poeta é dono de uma sensibilidade artística e um domínio da palavra que nos lembram Jorge de Lima e Carlos Drummond de Andrade.

Carlos Eduardo Gonçalves

 Integrante do Clube da Madrugada, “na linha de frente de seus mais ativos animadores”, Luiz Augusto de Lima Ruas nasceu em Manaus no dia 28 de novembro de 1931. Estudou as primeiras letras com uma tia e depois se matriculou no Grupo Escolar Farias Brito. A carreira religiosa o atrai e, em 1943, entra para o Seminário São José, onde termina o curso de Humanidades.

Transferindo-se para Fortaleza, faz o Curso de Filosofia no Seminário Metropolitano, iniciando ainda o Curso de Teologia, que vai concluir no Seminário São José do Rio Comprido, no Rio de Janeiro. Volta à terra natal para se ordenar sacerdote na Catedral Metropolitana de Manaus, no dia 31 de outubro de 1954.

Capa do livro

L. Ruas, como passou a assinar suas crônicas e poemas, em colaboração permanente em vários jornais de Manaus, desenvolve então intensa atividade como professor de várias disciplinas, em destaque Psicologia na Faculdade de Filosofia do Amazonas, onde chegou a ser diretor da entidade. Foi assessor ainda da Fundação Cultural do Amazonas e membro do Conselho Estadual de Cultura, caracterizando-se seu ministério pastoral em ação nas comunidades carentes onde foi vigário.

O primeiro livro de poesias de L. Ruas sai em 1958, Aparição do Clown, prefaciado por André Araújo. Um livro emblemático, na paráfrase do homem e do palhaço: “O que o Padre Luiz Ruas procura é a face verdadeira, a que se parte, desse palhaço eterno que é o homem em si, artista, poeta, músico ou dançarino”.

O poeta é um dos muitos intelectuais que vão pagar tributo ao famigerado golpe de 1964. A acusação generalizada de subversão o leva ao cárcere onde permanece por 40 dias, quando aproveita para fazer a tradução do livro de Rimbaud Une saison en enfer. O livro, entre outros, lhe tinha sido enviado pela sua mãe. A segunda coletânea de poemas é publicada em 1985, Poemeu, que já tinha conquistado o Prêmio de Poesia Governador do Estado do Amazonas em 1970. Belo livro, onde se destacam os “Estudos Barrocos em tom menor”.

domingo, julho 05, 2020

L. RUAS: LEITURA COMPARTILHADA

L. Ruas (1954)

Ontem, o Portal Entretextos promoveu mais um Círculo Literário Virtual: nomeado de Leituras compartilhadas: a poesia de L. Ruas, poeta amazonense morto em 2000. Escrevi para participar do evento o relatório aqui postado.

20 ANOS SEM O CLOWN

Luiz Augusto de Lima Ruas,
Padre Ruas, para a Igreja Católica, e, L. Ruas, para a literatura amazonense

1.      Sua morte aconteceu em 1° de abril de 2000, neste ano, a pandemia impediu uma melhor lembrança.
2.     Conheci padre Ruas no Seminário São José, em 1956, quando ali cheguei. Ele, jovem padre, de batina branca e de cabeleira esvoaçante, era professor dos alunos de teologia, de filosofia e dos iniciantes. Seu currículo eclesiástico começou a construir no seminário em Manaus, adiante, passou pelo da Prainha, em Fortaleza, e pelo do Rio Comprido (RJ). Ao fim, retornou a Manaus, onde foi ordenado sacerdote em outubro de 1954.
3.     Sua competência com as letras ele demonstrou bem cedo. Deu início antes da ordenação sacerdotal, publicando no extinto Universal, tabloide dominical da Igreja, diversos artigos sem obedecer a qualquer periodicidade. Ao menos um se tornou bastante polêmico: A inutilidade do padre (outubro de 1955). Após a publicação dessa “heresia”, seu concurso no periódico foi escusado. Todavia, essas publicações serviram para ele cinzelar sua marca literária: L. Ruas.
4.    Em 1958, L. Ruas produziu o Aparição do Clown, um longo poema religioso, de penosa interpretação, daí os contados intérpretes. Topei com apenas cinco. O parágrafo final do prefaciador, desembargador André Araújo, católico sob todos os perfis, saudoso “bispo leigo” da catolicidade de Manaus, orientava o leitor:
Falando desse mundo que é poético, no universo, o padre Luiz Ruas publica algo de profundo, de excelso, de magnífico. Que o entendam os que mergulharem no profundo de sua dialética; que tenham ouvidos aqueles para quem o poema é dirigido; que vejam os olhos d’alma daqueles que devem ver os símbolos e os mistérios que estão contidos nos versos áureos do imortal poeta de Aparição do Clown.5.     Na ocasião, recebi de L. Ruas um exemplar. Nada entendi, e ainda hoje me atormenta sua leitura. Todavia, verbalizei entre colegas uma “crítica”: a de que o poema fora escrito em toda sua extensão com letras minúsculas. Afinal, aprendia que a letra maiúscula deve ser empregada nos nomes próprios, no início da frase e depois do ponto (.).
6.    Outra ressalva sobre este livro. A capa, elaborada pelo artista Óscar Ramos, com quem conversei sobre, foi concebida de forma artesanal. Basta observar as letras, que foram recortadas na tesoura (photoshop da época). Não obstante, a capa marcou uma nova quadra na editoração de livros na cidade.
7.     Ruas participava, então, ativamente da vida cultural de Manaus. Escrevia em jornais, atividade fácil de exercer. Estava em A Crítica, com a coluna Ronda dos Fatos, e em O Jornal, na página do Clube da Madrugada.
8.    Eclesiástico de distintas atuações: além do múnus sacerdotal, era professor dos principais colégios, com relevância do Instituto Christus, do qual fora um dos fundadores; e professor de Psicologia e Sociologia na Universidade Federal do Amazonas.
9.    Tem mais: Ruas conhecia Cinema e Teatro, possuía ótima voz, com a qual encantava os fieis na Semana Santa, com o canto gregoriano. Escreveu sobre Cinema (veja a revista Cinéfilo, de José Gaspar) e atuou no Teatro. Na ribalta, foi também marcante, pois, em 1959, interpretou o “palhaço” do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Desse modo, o clown, novamente ou em definitivo, estava consagrado por L. Ruas.
10.                       A despeito de tantas atividades, padre Ruas envolveu-se com tenacidade na conjuntura política que atravessava o país, cujo resultado desabou no Governo (ou ditadura) Militar. Em 1964, ele era diretor da Faculdade de Filosofia, pertencente a arquidiocese de Manaus, quando foi preso pela repressão e recolhido junto com outros “comunistas” ao quartel do 27 BC, onde permaneceu por 40 dias.
11.  Ainda falando da atividade teatral. Na Semana Santa de 1963, padre Ruas que operava na Rádio Rio Mar, escreveu e dirigiu o Auto da Paixão, realizado no estádio de futebol em duas apresentações. Foi o primeiro no país, pois o de Nova Jerusalém (PE) é de 1968. Porém, o único em Manaus, porque o autor passou a Semana Santa de 64 encarcerado.
12. Nessa temporada, tomei a decisão de sair do seminário. Passei pelo serviço militar obrigatório e engajei-me na Força Estadual, de onde sou aposentado. Em suma, troquei a batina pela farda. Ao tempo, a casa de formação sacerdotal fechou as portas, liberando padre Ruas para suas atividades, agora com menor engajamento político. Esporadicamente o encontrava, seguia-o pelas páginas literárias de jornais.
13. Os quatro livros de L. Ruas têm histórias: o primeiro, de 1958, foi Aparição do Clown, já referido, representou seu “cartão de visitas” excepcional, marcante. A 2ª edição, em 1998, pertence a Editora Valer, para comemorar 40 anos de existência; o segundo, de 1970, é Linha d’Água, constituído de crônicas e poemas selecionados de publicações jornalísticas. Trata-se de um “livro legendário”, pois esteve perdido em gráfica da Guanabara, até ser recuperado cinco anos depois. O terceiro, de 1979, intitulado Os Graus do Poético, traz uma seleção de ensaios já publicados. Serviu para ilustrar as comemorações das bodas de prata da Rádio Rio Mar; enfim, o quarto, de 1985, Poemeu ou o (meu) sentir dos outros, que, sendo vencedor de um prêmio estadual em 1970, esperou 15 anos para ser publicado.
14. Disse antes que padre Ruas, fechado o seminário, foi cuidar de seu dever religioso. No entanto, desentendeu-se com o governo eclesiástico, afastando-se dos compromissos sacerdotais. Não lhe foi salutar essa decisão, pois caiu em relaxamento social, aprofundando o consumo da bebida, acompanhado do fumo. Seu amigo, padre Tiago Braz, diretor da Rio Mar, conseguiu mantê-lo minimamente ligado à Igreja. A presença do papa João Paulo II em Manaus, em 1980, realizou um “milagre”: o retorno de padre Ruas ao serviço pastoral, incumbido então da paróquia de Nossa Senhora dos Remédios, a segunda mais antiga de Manaus.
15. Em 1992, na sacristia dessa igreja, o vigário sofreu um agudo AVC. Cuidado com extremo zelo pela Igreja e pelos amigos, salvou-se com pesadas sequelas: imobilizado na cama e impossibilitado de falar e de escrever (terrível para a ação de um escritor). Nessas condições, visitei-o um dia, tornando-se a despedida. L. Ruas morreu em abril de 2000.
16.Quatro anos depois, decidi homenageá-lo. O mote seria o cinquentenário de sua ordenação sacerdotal. Como fazê-lo? Resolvi buscar dele o material publicado nos periódicos de Manaus.
17. Ao me dedicar aos papeis amarelados de jornais e revistas, desvendei outros motivos para ampliar esse tributo. Em 1954, ano de sua ordenação, Manaus assistiu à fundação de três entidades: a Rádio Rio Mar; o Clube da Madrugada e o Instituto Christus. Nas três instituições, L. Ruas transitou com eficiência.
18.                       Recolhi dos jornais, para dimensionar a produção de L. Ruas, em cálculo imaginativo, um montão de papel, onde ele inseriu uma infinidade de caracteres. Escreveu de 1953, desde o tempo de Seminário, até 1992, portanto, quase 40 anos de atividade literária. Ao lado desse material, recebi do falecido padre Luís Souza documentos pessoais e outras anotações pertencentes ao padre Ruas. Com essa matéria-prima em mãos, tornei-me por admiradores o “fiel depositário” desse acervo.
19.Para bem cumprir a função, organizei e já publiquei: 1) L. Ruas: itinerário de uma vocação (2004); Cinema e Crítica Literária (apoio da Ufam) 2010; Intérpretes de Aparição do Clown (com ajuda do poeta Jorge Tufic) 2010; Poesia Reunida (2013).
20.                      Aguardando o apoio cultural estão: Os contos de L. Ruas, e, ainda, Ronda dos Fatos. Enfim, um vasto material dele tenho publicado em meu Blog do coronel Roberto.
21. L. Ruas nasceu e morreu na mesma casa, na mesma rua (avenida Joaquim Nabuco), com curto intervalo em outro endereço. Ao falecer, lembrava uma árvore que tombara emocionando a rua tão doméstica. Ruas, porém, emocionou a cidade. Ainda jovem sacerdote publicou Palavras à árvore morta, que sugere seu epitáfio. Constituem repetida conversa entre o vento e uma árvore que nasceu e cresceu à beira da calçada. Vamos ao encerramento.
22.                       Anos depois, isto é, há dois dias, ele [o fícus] sentiu que algo estranho sucedia dentro de si. Uma espécie de tristeza, uma agonia, uma angústia. O vento, novamente, sussurra-lhe aos ouvidos de folhas, já agora ásperas, que umas árvores haviam sido destroçadas, decepadas, mutiladas.
E o fícus desprovido da inadvertência da mocidade, o fícus, abalado por tantos males, não resistiu à notícia. Sentiu que a seiva estacava dentro de seu tronco calejado pelas pedras duras do calçamento, sentiu que alguma coisa estava se rompendo e... com estalo de dor, tombou, abraçando sua rua, acariciado pelo vento que, absolutamente, não compreendia a razão do colapso. Mas, assim mesmo, chorava. Agradeço ao mestre Dilson Lages, do Portal Entretextos, pela promoção de mais esse resgate do padre-poeta L. Ruas.

quarta-feira, abril 01, 2020

20 ANOS SEM PADRE RUAS

Costuma-se usar o eufemismo "desaparecer" para indicar a morte de alguém, porém, quando escrevo isso sobre o padre Luiz Augusto de Lima Ruas, de fato, ele desapareceu. 

Há algum tempo nada se publica sobre ele. De minha parte, cansei da peleja de anunciar os feitos do amigo, obrigado a tanto pela guarda de vasto material por ele produzido em jornais. 
L. Ruas (1931-2000)

Sobre o reverendo, que a comunidade literária conhecia por L. Ruas, publiquei ligeira biografia (2004) e, com o acervo retido, organizei quatro livros. E anuncio a existência do próximo, vencido o coronavírus. 
Hoje se completa o vigésimo ano da morte do autor de Aparição do Clown (1958), ocorrida em sua residência na avenida Joaquim Nabuco, depois amargar por longo período as sequelas de um AVC. 
Seu nome crisma uma Escala Estadual no bairro do Zumbi, mas não creio que a direção saiba desse fato. Que, apesar de ser "dia da mentira", se trata de uma triste verdade.

Compartilho o texto do finado poeta Jorge Tufic, sobre o amigo de tantos encontros, publicado em Intérpretes de Aparição do Clown (2010).



Esse ponto longínquo de nossa vida, o janeiro de 1959, se constitui num dos mais altos da literatura amazonense, em particular do movimento Madrugada. L. Ruas, tal como assinava os seus livros, artigos e crônicas, surpreende a todos com este seu longo poema, ao mesmo tempo estranho e revolucionário, mas no fundo mesmo uma projeção corajosa da personalidade do autor.
O clown de Ruas é o ator ou o dançarino do universo que ele consegue libertar das amarras sociais e dos preconceitos irremovíveis, um corpo astral de silêncios e coisas que se transformam, ao menor toque de um bastão luminoso. Basta dizer que até hoje ninguém soube interpretá-lo, seja como texto, seja como fosse a partitura volátil de uma confissão transbordante, plena de movimentos em busca de uma unidade de sons e palavras, afinal conquistada.
Terá sido difícil a esse religioso evitar uma prática antiga daqueles que, embora poetas, se devotam a Deus ou a Krishna, e acabam por esquecer que à poesia não cabe o papel de servir, mas de ser servida. Pois eu considero o Aparição do clown uma batalha entre a cruz, como dever a Deus, e a liberdade, como dever à Deus e à poesia. Uma forma terrena e divina de conciliação dos extremos, mas onde, graças à poesia, os extremos também desaparecem, enquanto libertam.
Jorge Tufic (1930-2018)
Meu testemunho sobre L. Ruas abrange esse largo período de nossa existência, que vai da fundação do Clube da Madrugada, em novembro de 1954; atravessa os anos selvagens da ditadura militar; sangra nos tempos em que o poeta esteve longe de nosso convívio; termina com o seu falecimento e a minha transferência domiciliar de Manaus para Fortaleza.
Foram memoráveis os nossos encontros de final de semana! 
Memoráveis os seus discursos ao pé do mulateiro, na Praça da Polícia Militar!

Memoráveis as missas que celebrava! 
E os porres, também, com muita dignidade!

domingo, março 22, 2020

QUARENTENA & FESTA

Aproveito o retiro imposto pelo vírus para rearrumar meus arquivos. Hoje, porque amanhã se completam 10 anos de atividade no Blog do Coronel Roberto, foi expor algumas fotos próprias, que me agradam. Perdão pela pavulagem.
 
Pela ordem: a família; os cabelos, ainda; no Sete de
Setembro (1978), e ao lado do governador Henoch Reis.

Já reformado, nos jornais da cidade e os livros lançados;
e comemorando o 64º aninhos.

sábado, agosto 03, 2019

MÁRIO YPIRANGA: SUAS CRÍTICAS




Vasculhando a “Biblioteca Mário Ypiranga Monteiro existente no CCPA (Centro Cultural Povos da Amazônia), encontrei em livros e revistas ali examinados notas críticas expressas pelo formador desta coletânea. Ou seja, ali se encontram apreciações do saudoso mestre Mário Ypiranga em compêndios manuseados pelo próprio. Anotações nem sempre elogiosas, quase sempre tóxicas.
Folha de rosto do livro

Dou partida à série com a observação inserida no livro Aparição do Clown, de L. Ruas (padre Luiz Augusto de Lima Ruas), de 1958, mas com lançamento em fevereiro de 1959, vide a data manuscrita pelo apreciador. Este livro se constitui de um longo poema religioso, bastante controverso, que segue desafiando sua interpretação. Já relacionei meia dúzia de intérpretes e, em parceria com o saudoso Jorge Tufic, publiquei-os em Intérpretes de Aparição do Clown. (Fortaleza: Realce, 2010)

O prefácio deste livro-poema pertence ao acadêmico André Araújo (da Academia Amazonense de Letras), desembargador e católico atuante, portanto, o primeiro a encarar a difícil trajetória do “pássaro ferido”. Sua análise se encerra com esta sentença: “ Que o entendam os que mergulharem no profundo de sua dialética; que tenham ouvido aqueles para quem o poema é dirigido; que vejam os olhos d’alma daqueles que devem ver os símbolos e os mistérios que estão contidos nos versos áureos do imortal poeta de APARIÇÃO DO CLOWN”.

Texto final do Prefácio, com a observação do leitor

Pois bem. Mario Ypiranga grifou “... versos áureos do imortal poeta...”. E à margem da página, sintetizando sua leitura e descrença, escreveu somente um palavrão: Porra!

sábado, dezembro 10, 2016

APARIÇÃO DO CLOWN: INTÉRPRETE


Alencar e Silva
O poeta Jorge Tufic ajudou-me bastante na publicação da plaqueta Intérpretes de Aparição do Clown, que apreciava o livro-poema de L. Ruas. A publicação ocorreu em 2010. Havia eu organizado os textos de quatro “intérpretes”; eis que surgiu o quinto.

Trata-se do falecido poeta Alencar e Silva, autor de Quadros da Moderna Poesia Amazonense (2011). Este post foi dali retirado.


A primeira amostra da poesia de L. Ruas (Pe. Luiz Augusto de Lima Ruas) foi-nos dada em 1958, ano de grande significação para a poesia amazonense, com o aparecimento da Pequena Antologia Madrugada, em que o poeta Jorge Tufic, seu organizador, nos oferece, nos sete poetas ali reunidos, a primeira visão de conjunto dos novos quadros da poesia amazonense, ou, como se lê em sua apresentação, "uma nítida visão do que tem sido o trabalho deste grupo que, há aproximadamente três anos, se organiza sob a égide do Clube da Madrugada".

L. Ruas está ali representado por quatro poemas — Versos à Margem de Um Poema de Rainer Maria Rilke, Sinos, Possível Noturno em Lá Menor e Evocação da França — aos quais retornei, muitos anos depois para, com brilho nos olhos, constatar quão pura, quão autêntica e definitiva me parece essa pequena amostra de sua poesia! Poesia que conserva inalterado o mesmo primitivo frescor e o mesmo sopro de eternidade que lhe infundem os valores que informam todo o labor intelectual de seu autor.

L. Ruas forma na linha de frente do modernismo amazonense, já em razão da participação no movimento madrugada, desde as primeiras horas, já pela notável contribuição expressa em sua poesia. Como ocorre com todos os verdadeiros artistas, poetas e escritores, L. Ruas deixa impresso, definitivamente, em toda a sua experiência convertida em expressão artística, o selo pessoal da identidade própria, chancela sem a qual ninguém pode aspirar à cidadania universal que as letras e as artes conferem a seus representantes.

Quer isto significar que estamos, efetivamente, diante de um grande poeta e escritor. Diante de um dos temperamentos intelectuais mais notáveis e mais completos/complexos já surgidos entre nós. (...)

Também de 1958 é o livro de estreia de L. Ruas: Aparição do Clown, poema cristão — ou crístico — dos mais belos que já se escreveram e que o autor quer que seja "um ato de adoração ao Cristo quando Herodes o chamar de louco". Poema que considero o seu magnum opus e de cujo foco luminoso ouso aproximar-me agora, dezessete anos depois, e não sem uma ponta de temor.

Não de que se possa trair em exagero e superestima a admiração que voto ao extraordinário texto, mas, sim, de que a tarefa esteja além do meu alcance, dada a realidade estonteante e quase inabarcável desse poema verdadeiramente belo e majestoso, e de brilho arrebatador.

Disse que se trata de um poema crístico. Mas ficou implícito, também, que não se trata de um poema fácil, que logo se entregue à nossa fruição. Ao contrário. Diria mesmo ser este um texto tremendamente difícil e labiríntico em seu maravilhoso hermetismo, visto que os seus vários segmentos luminosos podem, com efeito, confundir-nos (numa leitura menos atenta) e fazer-nos caminhar por seus desvios, afastando-nos, consequentemente, de seu núcleo, de seu tema fundamental, de sua significação humana e divina, assim como se, em vez da estrada real, tomássemos por atalhos que apenas nos deixassem perceber, ao longe, o rumor e as luzes da festa...

E é este o grande desafio que o poema nos propõe. Ou lhe identificamos os símbolos, ou sua chuva não nos molhará.

Começa pela circunstância de que por ele perpassa inominadamente o espírito do Cristo, que é a um tempo sua respiração e seu mistério fundamental.

Como identificá-lo, se seu nome não é uma só vez modulado? Na alusão dos signos? Nos símbolos? Na atmosfera prestigiosa do poema? Certamente que sim. Inclusive porque uma tal forma de mostrar-se — a um tempo incógnita e inconfundível — era/é, porventura, a mais consentânea com o feitio e a doce índole do Mestre. Não foi assim, porventura, na antemanhã da ressurreição? E assim também na estrada de Emaus? E no caminho de Roma? E no episódio da pesca milagrosa (E nenhum dos discípulos ousava perguntar: Quem és? sabendo que era o Senhor [João, XXI:12])?

Tenho para mim que é assim também que ele perpassa pelo poema. E que podemos adivinhá-lo na figura do pássaro ferido, vagando antes que surja a madrugada. Na hora em que não é dia nem é noite. No lusco-fusco crepuscular. Na hora da luz azul.

L. Ruas, autor de Aparição do Clown
É bom que se tenha presente, no entanto, que a poesia é também um pássaro, estrela ou fonte. E que o poema é também um hino à poesia. Da mesma forma que é um ato de adoração ao Cristo.

Temos, aí, portanto, as duas intenções, os dois segmentos ou impulsos básicos do poema — polos cuja distinção se impõe à atenção e sensibilidade do leitor interessado na compreensão plena do texto, porquanto uma leitura meramente hedonística, além de ser chuva que não molha, poderá, com efeito, fazer-nos tomar, equivocadamente, aquelas com realidades por uma só.

Dir-se-á que para isso concorrerá a própria complexidade do poema. Sem dúvida. Mas deve-se ver que, no caso, a complexidade e seu teor de mistério são positivamente elementos consubstanciais ao poema, à falta dos quais este não se consumaria, da mesma forma que a impossibilidade do perfume frustraria a perfeição da rosa.

É claro que um poema é o que é, e até o que não é; nunca, porém, o que poderia ser. Assim, no primeiro caso, o poema é (o que é): o que a compreensão plena do seu texto nos revela. No segundo, ele é (o que não é): o que o mistério da leitura nos sugere. No terceiro, ele não é (o que poderia ser): o que não está expresso nem sugerido no seu texto. Ou, ainda: No primeiro caso, teremos mergulhado em sua realidade. No segundo, apenas vivido a ilusão do mergulho. No terceiro, porém, teremos ficado completamente por fora da realidade do poema, circulando-lhe à volta, longe da possibilidade ou da ilusão do mergulho, a tentar impossivelmente captar-lhe uma realidade que não é a sua.

Donde se infere que somente uma leitura eficiente nos possibilitará a compreensão verdadeira do poema de L. Ruas, seguidas as indicações subliminares que ele mesmo nos fornece. Será preciso, por exemplo, atentarmos duplamente para a advertência do poeta, num dos pontos culminante do poema:
“lê de novo o poema. desce. vai ao fundo. / (...) não te afadigues. / o ritmo do meu nome é longo. majestoso. / quando souberes quantas rosas floriram / na paisagem perdida e de novo descobrires / o sonho inquieto e a aurora prateada /alegra-te, então, pois caminhas certo / rumo ao mistério inexprimível do meu nome.”

Quem fala assim é ainda a poesia, por cujos pés misteriosos (de fauno grego ou de arcanjo bizantino) o espírito humano movimenta-se no ritmo apolíneo ou na dança dionisíaca.

Símbolo do Clube da Madrugada
Nesses dois mistérios, o da poesia e o do Cristo, estarão os polos do poema de L. Ruas. E é por ambos que nos virá a salvação: pela condição de cativos do pássaro ferido (ser livre em essência é ser cativo) ou pelo incessante modelar daquela chama que nos queima a alma e as mãos, sem deixar que se perca uma só de suas fagulhas: “pois uma delas pode ser a luz que salvará tua face passageira quando raiar o sempiterno dia.”
A salvação — eis o sentido profundo da aventura do espírito. Eis o supremo anelo da condição humana. Eis o substrato do poema de L. Ruas.

Creio que muito se há de escrever sobre esse grande e torturante poema, cuja extraordinária plasticidade, aliás, não faria senão a fortuna do artista que se decidisse a transpô-la para a linguagem das tintas. Ou recriá-la em seus traços.


A obra de L. Ruas, longe de esgotar-se nesse poema, estende-se pelo ensaio, gênero em que já nos deu os volumes Linha d'água e Os Graus do Poético, e prossegue com Poemeu, coletânea de poemas em que nos reencontramos com a sua grande poesia e de cuja apresentação fomos o privilegiado subscritor e cujo texto transcrevemos a seguir, por refletir com precisão o nosso pensamento acerca do Autor — pássaro de altos remígios silenciado quando ia em pleno voo.



terça-feira, setembro 10, 2013

POESIA REUNIDA: L. RUAS


No próximo sábado 14, às 10h, na Livraria VALER, farei o lançamento do livro que organizei com a poesia do saudoso padre-poeta Luiz Ruas. O objetivo foi reunir em único volume as publicações Aparição do Clown (1958) e Poemeu (1985), e mais, o material que catei em jornais e revistas locais, enfim, os poemas em poder de homenageados e os hinos religiosos.

Conquistei a colaboração prestimosa do professor Marcos Frederico, que fez uma leitura da poesia de L. Ruas, passado mais de cinquenta anos desde o surgimento do primeiro poema. E do poeta Max Carphentier que, diante das composições poéticas, elaborou uma nova missa para o sacerdote. Devo registrar ainda a atuação do poeta Sergio Pereira, que assinou as orelhas da obra. Por fim, e tão importante quanto, agradecer ao padre Paulo Pinto que, em sadia homenagem ao velho amigo sacerdote – L. Ruas, morto em 2000, ultimou a publicação.
Preço promocional do livro: R$ 15,00 – quinze reais.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

ALENCAR E SILVA: INTÉRPRETE DO "CLOWN" (2/3)


Alencar e Silva
E prossegue Alencar e Silva examinando a obra de L. Ruas: Aparição do clown (1958).

Em 1964, já integrado à linha de frente do Clube da Madrugada, como um dos seus mais brilhantes animadores, é preso por 40 dias, sob acusação de  subversão, tempo em que, não obstante o sofrimento causado pela usurpação da liberdade, realizou a tradução de Une Saison en Enfer, de Arthur Rimbaud, que sua mãe lhe fizera chegar às mãos.
Sua obra literária, além do livro de estreia - e que estreia! - Aparição do Clown,poesia (1958), inclui crônicas e ensaios. (...)

Sua linhagem espiritual, tanto quanto nos é possível vislumbrar por meio de  exame fragmentário de suas obras, é a que vem dos grandes pensadores e artistas cristãos, desde o maravilhoso Vidente de Patmos até aos mais próximos  de nós, como um Léon Bloy, um Charles Foucauld e um Jacques Maritain, um  Claudel e um Exupéry, um Tristão de Athayde e um Antônio Carlos Villaça, um Jorge de Lima e (sob um outro aspecto) um Carlos Drummond de Andrade - que são, os dois últimos, entre os poetas brasileiros, os que, segundo penso, terão  exercido, por assim dizer, sobre a sua poesia as influências (se de influências se  trata) mais salutares, a eles vinculando-se o poeta amazonense por aquela  espécie de parentesco ou afinidade eletiva que aproxima determinados espíritos e os faz falar o mesmo idioma.

Difícil é resumir em poucas linhas a multiplicidade de traços que lhe compõem a personalidade. Difícil e, ao mesmo tempo, providencialmente desnecessário,  posto que ele mesmo, em tudo o que escreve, se encarrega de revelar-se por inteiro ao leitor, como síntese acabada do tremendo e solitário combate em que se esculpem e se estruturam as personalidades humanas definitivas. (...)


Também de 1958 é o livro de estreia de L Ruas: Aparição do Clown, poema cristão - ou crístico - dos mais belos que já se escreveram e que o autor quer que seja “um ato de adoração ao Cristo quando Herodes o chamar de louco".  Poema que considero o seu magnum opus e de cujo foco luminoso ouso aproximar-me agora, dezessete anos depois, e não sem uma ponta de temor.

Não de que se possa trair em exagero e superestima a admiração que voto ao  extraordinário texto, mas, sim, de que a tarefa esteja além do meu alcance,  dada a realidade estonteante e quase inabarcável desse poema verdadeiramente  belo e majestoso, e de brilho arrebatador.

Disse que se trata de um poema crístico. Mas ficou implícito, também, que não  se trata de um poema fácil, que logo se entregue à nossa fruição. Ao contrário.  Diria mesmo ser este um texto tremendamente difícil e labiríntico em seu maravilhoso hermetismo, visto que os seus vários segmentos luminosos podem, com efeito, confundir-nos (numa leitura menos atenta) e fazer-nos caminhar por  seus desvios, afastando-nos, consequentemente, de seu núcleo, de seu tema  fundamental, de sua significação humana e divina, assim como se, em vez da  estrada real, tomássemos por atalhos que apenas nos deixassem perceber, ao longe, o rumor e as luzes da festa...

E é este o grande desafio que o poema nos propõe. Ou lhe identificamos os símbolos, ou sua chuva não nos molhará. Começa pela circunstância de que  por ele perpassa inominadamente o espírito do Cristo, que é a um tempo sua  respiração e seu mistério fundamental. 

Capa do livro de L. Ruas
Como identificá-lo, se seu nome não é uma só vez modulado? Na alusão dos signos? Nos símbolos? Na atmosfera prestigiosa do poema? Certamente que  sim. Inclusive porque uma tal forma de mostrar-se - a um tempo incógnita e  inconfundível - era/é, porventura, a mais consentânea com o feitio e a doce índole do Mestre. Não foi assim, porventura, na antemanhã da ressurreição?  E assim também na estrada de Emaús? E no caminho de Roma? E no episódio da pesca milagrosa (E nenhum dos discípulos ousava perguntar- Quem és? sabendo que era o Senhor. [João, XXI: 12])?
Tenho para mim que é assim também que ele perpassa pelo poema. E que podemos adivinhá-lo na figura do pássaro ferido, vagando antes que surja a  madrugada. Na hora em que não é dia nem é noite. No lusco-fusco crepuscular.  Na hora da luz azul.