No início dos anos 1950, a travessia entre Manaus e a então Capital Federal, Rio de Janeiro, era uma epopeia de vinte a trinta dias. Aos três anos, o convés imenso do navio Almirante Alexandrino se abria diante de mim como um parque encantado, cheio de redes penduradas, embora sempre vigiado pelo olhar atento de Luzia, nossa babá, já que minha mãe, Francisca, dedicava seus cuidados ao meu irmão mais novo, auxiliada pela sogra, a vovó Victoria. O espaço físico era vasto, mas o que se gravou em minha memória foi o aroma da comida — tão diferente do que se servia em nossa casa — e o espetáculo dos portos em construção no Nordeste. Em alguns trechos, animais marinhos escoltavam o navio, como se fossem guardiões de Netuno, atraídos pelos restos de alimento lançados ao mar.
A longa
jornada trouxe também o inesperado: Luzia encontrou no navio o seu par. O
namoro com um tripulante floresceu durante a viagem e, ao desembarcar, se
transformaria em compromisso de casamento. Resolveram fixar residência na então
Capital Federal. Porém, deduzo que esse relacionamento contribuiu para melhorar
a situação de acomodação da família na embarcação, pois viajávamos em terceira
classe.
Em meados de abril de
1950, finalmente desembarcamos. O tio Francisco, irmão de meu pai, nos acolheu
em Irajá, num puxadinho contíguo à sua casa na rua Cláudio da Costa. Mas o
modelo e a estrutura familiar ali encontrados pouco favoreceram nossa
convivência; ao contrário, trouxeram desencontros, como relato em meu livro Entre
Duas Viagens, escrito em 2016, para prestar homenagem póstuma ao centenário
de meu pai, Manuel “peruano”.
O bairro de Irajá, com
suas ruas sem asfalto e esgoto a céu aberto, parecia um “fim de mundo”. O
escritor amazonense Hilton Rego descreveu bem essa precariedade em seu livro, Com
a Cara e a Coragem: os bondes e lotações circulando, o Maria-Fumaça
arrastando-se pela avenida Automóvel Clube, enquanto meninos jogavam bola entre
os trilhos. Essas imagens resgatam a memória da inospitalidade que vivemos: a
casa improvisada, a ausência de escola, a rotina extenuante de meu pai, que
trabalhava nos arredores do Maracanã sem jamais ter tempo de entrar em seu
interior.

Cartão Postal do Maracanã - 1950
Em janeiro do ano
seguinte, retornamos acompanhados, como na vinda, da avó paterna Victoria
Malafaya, de quem o filho era extremamente apegado. Por coincidência, foi no
mesmo navio, mas sem Luzia. Na caravana, embarcava uma nova vida: a gestação de
Dona Francisca. Voltamos ao bairro dos Educandos, à rua Inácio Guimarães,
novamente na esquina com o beco São José, em uma casa de madeira com a frente
reservada para uma taberna. Ali, assistimos à construção do Cine Vitória,
inaugurado apenas em 1954. Nesse contexto de readaptação nasceu Pedro Renato,
batizado pelo santo do dia, São Pedro, em junho de 1951.
Até hoje não sei dizer como
a sombra de uma enfermidade tão grave se abateu sobre minha mãe. Apenas guardo
na memória sua convalescença, os dias em que a acompanhei ao paraná do Cambixe,
no distrito do Careiro — seu berço de nascimento —, onde parentes a acolheram
como quem recolhe uma ave ferida. Era uma busca por ar mais puro, remédios
fitoterápicos e uma esperança de que o alento da floresta pudesse devolver-lhe
o vigor. Para mim, porém, aqueles deslocamentos eram também ensejos para
travessuras de infância: corria com os primos pelos quintais das casas
suspensas em pilotis, como se fossem píeres habitados à espera da cheia do
Solimões.
No nosso bairro, o esteio
que sustentava nossa família vinha da solidariedade da tia Raimunda e, em especial,
de suas filhas, já quase moças. Meu pai, responsável e firme, dedicava-se ao
labor diário, arrancando do seu emprego o “pão nosso de cada dia”.
O ano de 1952 trouxe
consigo o agravamento da doença de minha mãe. Entre desvios e incertezas, creio
ter iniciado o curso primário, embora a lembrança da primeira escola tenha se
dissolvido com o tempo. Restam, contudo, três cenários que ainda se iluminam em
minha memória: o Grupo Escolar Machado de Assis, público e resistente — perdura
até os dias de hoje —, na rua Amâncio de Miranda; a Escola Paroquial do cônego
Antônio Plácido, destinada aos meninos e regida pelo zelo do vigário; e a
Escola Particular da dona Ester, discreta e determinada, instalada em sua
própria casa na avenida Leopoldo Peres. Cada uma dessas instituições foi como
um pequeno aporte para um grande projeto pedagógico que me habilitou, em 1956,
ao internato do Seminário São José.
A última lembrança que
guardo de minha mãe é a de um corpo exausto, franzino, suspenso na fragilidade
de uma rede, como se o próprio tecido fosse o divisor entre a vida frágil e o
chão que iria recebê-la. O ar lhe faltava, e ao redor, parentes e vizinhos
cumpriam o ritual antigo de “fazer quarto”, velando em silêncio a despedida
iminente. Era início da noite de 17 de julho, e eu, menino de seis anos, fui
conduzido até ela. Segurei sua mão macilenta, fria como a bruma da madrugada, e
beijei-a, pedindo sua bênção. Mas sua voz já não alcançava o sopro divino: o
“Deus te abençoe” ficou suspenso no vazio, como uma prece interrompida.
Naquela
idade, não havia espaço para compreender a gravidade da doença, nem a dimensão
da perda. A morte era apenas um enigma, uma ausência que se instalava sem
explicação, inexoravelmente. Por décadas, carreguei esse silêncio, sem buscar
respostas, até que, já adulto, censurei minha própria consciência: por que
nunca procurei no cartório a certidão de óbito de minha mãe? Talvez porque, em
mim, a ferida sempre foi maior do que qualquer documento poderia traduzir. Nem
poderia trazê-la de volta. (segue)
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