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segunda-feira, abril 20, 2026

MEUS OITENTANOS (2)

No início dos anos 1950, a travessia entre Manaus e a então Capital Federal, Rio de Janeiro, era uma epopeia de vinte a trinta dias. Aos três anos, o convés imenso do navio Almirante Alexandrino se abria diante de mim como um parque encantado, cheio de redes penduradas, embora sempre vigiado pelo olhar atento de Luzia, nossa babá, já que minha mãe, Francisca, dedicava seus cuidados ao meu irmão mais novo, auxiliada pela sogra, a vovó Victoria. O espaço físico era vasto, mas o que se gravou em minha memória foi o aroma da comida — tão diferente do que se servia em nossa casa — e o espetáculo dos portos em construção no Nordeste. Em alguns trechos, animais marinhos escoltavam o navio, como se fossem guardiões de Netuno, atraídos pelos restos de alimento lançados ao mar.

Foto da família informando 
a viagem ao Rio - 1950 -
Roberto, em pé, diante do genitor

A longa jornada trouxe também o inesperado: Luzia encontrou no navio o seu par. O namoro com um tripulante floresceu durante a viagem e, ao desembarcar, se transformaria em compromisso de casamento. Resolveram fixar residência na então Capital Federal. Porém, deduzo que esse relacionamento contribuiu para melhorar a situação de acomodação da família na embarcação, pois viajávamos em terceira classe.

Em meados de abril de 1950, finalmente desembarcamos. O tio Francisco, irmão de meu pai, nos acolheu em Irajá, num puxadinho contíguo à sua casa na rua Cláudio da Costa. Mas o modelo e a estrutura familiar ali encontrados pouco favoreceram nossa convivência; ao contrário, trouxeram desencontros, como relato em meu livro Entre Duas Viagens, escrito em 2016, para prestar homenagem póstuma ao centenário de meu pai, Manuel “peruano”.

O bairro de Irajá, com suas ruas sem asfalto e esgoto a céu aberto, parecia um “fim de mundo”. O escritor amazonense Hilton Rego descreveu bem essa precariedade em seu livro, Com a Cara e a Coragem: os bondes e lotações circulando, o Maria-Fumaça arrastando-se pela avenida Automóvel Clube, enquanto meninos jogavam bola entre os trilhos. Essas imagens resgatam a memória da inospitalidade que vivemos: a casa improvisada, a ausência de escola, a rotina extenuante de meu pai, que trabalhava nos arredores do Maracanã sem jamais ter tempo de entrar em seu interior.

Cartão Postal do Maracanã - 1950

Em janeiro do ano seguinte, retornamos acompanhados, como na vinda, da avó paterna Victoria Malafaya, de quem o filho era extremamente apegado. Por coincidência, foi no mesmo navio, mas sem Luzia. Na caravana, embarcava uma nova vida: a gestação de Dona Francisca. Voltamos ao bairro dos Educandos, à rua Inácio Guimarães, novamente na esquina com o beco São José, em uma casa de madeira com a frente reservada para uma taberna. Ali, assistimos à construção do Cine Vitória, inaugurado apenas em 1954. Nesse contexto de readaptação nasceu Pedro Renato, batizado pelo santo do dia, São Pedro, em junho de 1951.

Até hoje não sei dizer como a sombra de uma enfermidade tão grave se abateu sobre minha mãe. Apenas guardo na memória sua convalescença, os dias em que a acompanhei ao paraná do Cambixe, no distrito do Careiro — seu berço de nascimento —, onde parentes a acolheram como quem recolhe uma ave ferida. Era uma busca por ar mais puro, remédios fitoterápicos e uma esperança de que o alento da floresta pudesse devolver-lhe o vigor. Para mim, porém, aqueles deslocamentos eram também ensejos para travessuras de infância: corria com os primos pelos quintais das casas suspensas em pilotis, como se fossem píeres habitados à espera da cheia do Solimões.

No nosso bairro, o esteio que sustentava nossa família vinha da solidariedade da tia Raimunda e, em especial, de suas filhas, já quase moças. Meu pai, responsável e firme, dedicava-se ao labor diário, arrancando do seu emprego o “pão nosso de cada dia”.

O ano de 1952 trouxe consigo o agravamento da doença de minha mãe. Entre desvios e incertezas, creio ter iniciado o curso primário, embora a lembrança da primeira escola tenha se dissolvido com o tempo. Restam, contudo, três cenários que ainda se iluminam em minha memória: o Grupo Escolar Machado de Assis, público e resistente — perdura até os dias de hoje —, na rua Amâncio de Miranda; a Escola Paroquial do cônego Antônio Plácido, destinada aos meninos e regida pelo zelo do vigário; e a Escola Particular da dona Ester, discreta e determinada, instalada em sua própria casa na avenida Leopoldo Peres. Cada uma dessas instituições foi como um pequeno aporte para um grande projeto pedagógico que me habilitou, em 1956, ao internato do Seminário São José.

A última lembrança que guardo de minha mãe é a de um corpo exausto, franzino, suspenso na fragilidade de uma rede, como se o próprio tecido fosse o divisor entre a vida frágil e o chão que iria recebê-la. O ar lhe faltava, e ao redor, parentes e vizinhos cumpriam o ritual antigo de “fazer quarto”, velando em silêncio a despedida iminente. Era início da noite de 17 de julho, e eu, menino de seis anos, fui conduzido até ela. Segurei sua mão macilenta, fria como a bruma da madrugada, e beijei-a, pedindo sua bênção. Mas sua voz já não alcançava o sopro divino: o “Deus te abençoe” ficou suspenso no vazio, como uma prece interrompida.

Naquela idade, não havia espaço para compreender a gravidade da doença, nem a dimensão da perda. A morte era apenas um enigma, uma ausência que se instalava sem explicação, inexoravelmente. Por décadas, carreguei esse silêncio, sem buscar respostas, até que, já adulto, censurei minha própria consciência: por que nunca procurei no cartório a certidão de óbito de minha mãe? Talvez porque, em mim, a ferida sempre foi maior do que qualquer documento poderia traduzir. Nem poderia trazê-la de volta. (segue)

 

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