CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, fevereiro 19, 2023

EDIFICAÇÕES EM MANAUS

 

(sentido horário) Biblioteca Pública | Beneficente Portuguesa
| Faculdade de Medicina UEA | Atlético Rio Negro Clube |
Colégio Dom Bosco e Colégio Militar de Manaus  

(cima) Largo São Sebastião e (ao fundo) hotel Taj Mahal e 
Yara monumentalizada em prédio.
(abaixo) Policlínica Gilberto Mestrinho

segunda-feira, julho 12, 2021

PADRE AGOSTINHO CABALLERO MARTIN

A fim de comemorar o jubileu de ouro das Missões Salesianas no Amazonas (agosto de 1915-65), a Prelazia do Rio Negro editou o livro De Tupan a Cristo (sem identificação catalográfica), que serviu para prestar homenagens aos seus padres e freiras, as autoridades, e ainda para registrar a marcha desta atuação, que se tornou respeitável capítulo da História do Amazonas.

Entre os reverenciados, está o padre Agostinho Caballero que marcou presença na condução dos jovens no Colégio Dom Bosco. A postagem presente compartilhei do referido volume.

Capa do livro

PADRE AGOSTINHO MARTIM CABALLERO (sic)

 É um nome aureolado de simpatia e saudade, que recorda na história destes cinquenta anos de missão como uma das mais belas figuras de salesiano no Amazonas.

Chegando em julho de 1921 a Manaus para aí permanecer, segundo a vontade dos Superiores, pelo prazo de um ano, devendo seguir logo depois para a Missão do Rio Negro, o Padre Agostinho, tendo concluído os seus estudos na Espanha e na Argentina, onde se formou brilhantemente, permaneceu quarenta anos na cidade de Manaus, como orientador dos estudos e da disciplina do Colégio de D. Bosco, recém fundado, onde passaram e se renovaram gerações e gerações de alunos, aos quais distribuiu sempre, com o afeto e a simpatia de seu coração de educador, as energias de sua alma sempre jovem, conhecedora dos anseios da infância e juventude que o venerou e o amou, porque compreendeu sempre que o Padre Agostinho havia dedicado a ela todos os sentimentos de seu coração e de sua inteligência de escol.

Era conhecida e ainda é lembrada a “campainha mágica" com que impunha e obtinha disciplina e silêncio nas longas filas de estudantes: tornou-se assim, uma figura lendária, presente sempre em toda parte, animado sempre de entusiasmo, revelando sempre amor a D. Bosco, criando gerações de filhos espirituais, que ainda circundam a sua memória de veneração e de saudade.

Era conhecida a sua "fraqueza", para não dizer, a sua "força" para com seus antigos alunos: o Padre Agostinho tinha um imã especial para aglutinar ao seu coração a alma da infância e mocidade. Filas de antigos alunos o procuravam em toda

a parte e, quando em algumas cidades, mesmo S. Paulo e Rio de Janeiro, era conhecida a sua presença, espontaneamente, quase por uma adivinhação espiritual via-se ele circundado de antigos alunos, que aproveitavam sua rápida passagem para matarem as saudades de seu antigo mestre e superior. Deputados, magistrados, professores, homens de comércio e indústria, homens do trabalho, iam à porfia para visitá-lo, revê-lo, ouvir uma vez ainda a sua voz e a ressonância do seu coração.

Quem escreve esta página, ficou mais de uma vez comovido vendo o espetáculo desta mocidade que o procurava, o idolatrava, renovando os sentimentos e os afetos dos anos transcorridos sob a sua direção.

Quando vítima de um desastre na Capital Federal de outrora, foi conduzido ao Posto de Socorro da Cruz Vermelha, onde permaneceu em tratamento mais de um mês, médicos e enfermeiros, declaravam surpreendidos, nunca terem visto tamanha multidão que procurasse um enfermo naquela casa. De fato, desde Vivaldo Lima, Senador e Presidente da Cruz Vermelha, uma ininterrupta série de visitas dia e noite, em

horas regulamentares e fora delas iam ver o Padre Agostinho, que tinha para com todos sua palavra sempre acolhedora, com o amável bom humor de que ele tinha o segredo, manifestando sua gratidão por tantas e espontâneas provas de carinho e

dedicação.

Eleito cidadão honorário da cidade de Manaus, poucas vezes, ou talvez nunca, esse diploma de benemerência foi tão consciente e perfeitamente outorgado, pois o Padre Agostinho trabalhou, sofreu, esforçou-se, dedicou mais de quarenta anos de sua vida para o progresso intelectual e moral da "cidade risonha" que ele tanto amou. Nestas palavras palidamente expressa-se e resume-se a merecida saudade da juventude amazonense a seu inesquecível mestre, de seus Irmãos e de seus superiores. 

O Padre Nonato Pinheiro brindou-nos com esta pequena joia literária, que publicamos - com especial exceção - como lembrança saudosa do missionário que "de pequena estatura" agigantou-se pelo seu apostolado e pelo seu amor à juventude e infância amazonense.

 

Vão te esculpir, Padre Agostinho, um busto,

Que te lembre no bronze e no granito,

E represente um poderoso grito

Proclamando ao porvir que foste um justo!

 

Assim terás no monumento augusto,

Desafiando o tempo e o infinito,

O teu vulto de paz, suave e bendito,

Que dominou os corações sem custo.

 

Pelos anos além virão meninos

Alegres a cantar, junto à peanha,

Patrióticas canções, festivos hinos...

 

O teu nome imortal de ouro se banha,

E já bimbalham carrilhões de sinos,

Glorificando o Anão que foi Montanha!...

sexta-feira, julho 24, 2020

MANAUS DE HELIANDRO MAIA

Pouco sei sobre Heliandro Maia (desta vez, o Google não me auxiliou). Todavia, lembro de sua atuação em órgão de Turismo do Estado e de suas visitas ao quartel da Praça da Polícia, onde trocamos algumas conversas. Sei ainda que pertencia a família de Álvaro Maia, governador do Estado, e escritor consagrado na planície. A família de Maia provém de Goiabal, seringal nas proximidades de Humaitá (AM). 
Heliandro foi educado pelos padre salesianos do Dom Bosco, e, quando encerrou o ensino médio, foi levado para a capital paulista, onde completou sua formação acadêmica. De volta a Manaus, empregou seus conhecimentos em órgãos estaduais.
Alguns dados sobre o autor e a cidade de Manaus estão no texto aqui postado, de sua lavra, que compartilhei de O Jornal (24 janeiro 1965).

Recorte de O Jornal, 24 janeiro 1965
Heliandro Maia

- Heliandro, passa pra dentro! Olha o carro! Quando teu pai chegar vou contar!

Era a Bita, cabocla do Madeira, o meu anjo da guarda. Hoje, a boa Bita está no seringal, lá para as bandas do Goiabal, duas horas depois de Humaitá, cheia de filhos e com certeza esquecida daquele moleque travesso e malcriado. Vou ai, Bita. O meu abraço terá a quentura desses anos de ausência. Pois olha! Nunca te esqueci. Ainda tenho os olhos úmidos das lágrimas derramadas da partida, criança ainda, para o Sul. Em 58 não te encontrei. Estavas no interior do município e eu permaneci poucas horas em Humaitá, tempo suficiente para beijar minha velha avó. Lá vou eu fixando-me em Humaitá. Volto a Manaus, aquela infância querida está lá.

Cachoeirinha cresceu, já vai sozinha a última sessão do Ipiranga. Como eu, tem saudades daquela época. A minha "chácara" — onde levei, recordo-me bem, tremenda surra de meu pai — perdeu sua liberdade, mas, em compensação, parece que para lhe proteger, Deus plantou um templo ao seu lado. As orações ali rezadas conservam-na pura como é a infância de todos nós.
Heliandro, tua avó chegou do seringal. Vem passar uns dias conosco.
 Exultava com essa notícia. Significava que teria a tapioca e o mingau de banana no café da manhã, preparados pelo carinho que só as avós têm. Veria, também, minha irmãzinha. Ana Maria, a caçula, veio do seringal na véspera de nossa partida para o Sul. Tinha seis anos.

Praça da Saudade, outro degrau da caminhada. Agora, não posso mais correr no quintal de meu “templo”, os diplomatas não deixarão. E' contra o protocolo.
Epa! Antes da Praça tão saudosa — iluminada agora, também não é mais a minha namorada — deixei outras peraltices ali perto, na rua Monsenhor Coutinho. Gostava da sirene da ambulância.
Março. Aulas à vista. Mais três meses de especialização na arte de pular de “bonde andando”. Fui bom nisso. Em pegar, não era lá essas coisas, apesar de não ser o último da “classe”.
— Pessoal! Espia só ali... O padre Agostinho vem pra cá.
Era mais um banho de igarapé interrompido.
O grande mestre “acarinhou-me” — certa vez. Condecoração eterna do meu Colégio D. Bosco.
O Guarany, o meu cinema preferido. Fecho os olhos — estou na casa da [rua] Joaquim Nabuco — e ouço o “bang-bang” da matinal de domingo. Não havia santo que impedisse o meu encontro com o Tom Mix. De repente tudo acabou.
— Meu filho, temos que ir para São Paulo. Fui transferido.

Não podia acreditar. Ia separar-me, tinha certeza, de minha infância querida. Voltei e reencontro um pouco da Manaus de minha infância. 

quinta-feira, outubro 24, 2019

DR. JAUARY MARINHO

Recorte do jornal

Em homenagem ao tricentenário de Manaus – hoje reverenciado, compartilho a publicação do Jornal do Commercio (16 agosto 1970), em que salienta a obra do Dr. Jauary Guimarães de Souza Marinho, Reitor da então Universidade do Amazonas, cuja atuação se expandiu de 1965 a 1970. Neste ano, ingressei na Faculdade de Direito do Amazonas, a sempiterna “Jaqueira”, onde ouvi o nome deste Reitor ressoar pelos corredores e escadas daquela extinta Casa de Ensino Superior.
A reduzida biografia deste Reitor estava encartada em coluna jornalística (cujo autor deixei de copiar) de título simpático: DIZ QUEM É.

Jauary Guimarães de Souza Marinho

Do aço da melhor têmpera, forra-se a personalidade do velho Superintendente da Manáos Harbour Limited, que encaneceu na luta do cais flutuante desta soberba Manaus — o nosso querido amigo Hildebrando de Souza Marinho, esposo da veneranda mestra, dona Leonila Guimarães de Souza Marinho, estrela de primeira grandeza na constelação do magistério da Planície. Estes são os pais de nosso biografado de hoje, o Doutor Jauary Guimarães de Souza Marinho, Magnífico Reitor da Universidade do Amazonas. Nasceu, Jauary, em plena efervescência da primeira guerra mundial — a 9 de maio de 1917, nesta metrópole cabocla, que foi o palco permanente de suas atividades desde a infância.
No Colégio Dom Bosco, sob a orientação de Lourenço Gatti, o bondoso velhinho santo que dirigiu o vetusto educandário salesiano; de Stelio D’Allison, líder de várias gerações, simpatia irradiante, orador sacro demostênico da época; do inolvidável e queridíssimo padre Agostinho Caballero Martin, o ídolo da juventude planiciária, figura de santo e de pedagogo imorredoura na lembrança de muitas progênies desta terra — o guri, depois adolescente e mais tarde rapaz feito, cursou a etapa da faixa primária e a de Humanidades, diplomando-se Perito Contador pela Escola de Comércio Dom Bosco, anexa ao mesmo educandário salesiano desta cidade. 

Três anos mais tarde, Jauary se formava em Farmácia, pela Faculdade de Farmácia e Odontologia da antiga Universidade Livre de Manaus, e mais três anos — 1939 – quando estouravam as primeiras explosões das mortíferas armas bélicas na velha Europa, incendiada pela Segunda Conflagração Universal, recebia o jovem caboclo seu diploma de bacharel em Direito, grau que lhe colou a tradicional Faculdade do Amazonas.
No ano imediato ao de sua formatura no curso de bacharelado, ingressou na magistratura, passando, a atuar como Juiz Substituto, lotado na Primeira Vara Cível da Capital; em 1943, desempenhou as funções de Juiz de Direito da mesma Vara, cargo que ocupou durante longo tempo; posteriormente, ocupou idênticas funções nas Segunda, Terceira e Quarta Varas Cíveis da comarca metropolitana, tendo, ainda, exercido as funções do cargo de Juiz Tutelar de Menores e da Vara da Família.  

Data de 1951, seu ingresso no magistério superior. Foi, primeiramente, nomeado para exercer, em caráter interino, as atividades pertinentes à cadeira de Direito Judiciário Civil em nossa FDA. Em 1954, professou a cátedra de Direito da Família, na Escola de Serviço Social de Manaus, da qual é titular até hoje. Pelos idos de 1958, doutorou-se em Direito, defendendo a tese: Do saneamento na lide, passando a atuar, em função do concurso que deu lugar aquele fato, como Professor Catedrático de Direito Judiciário Civil, de nossa Faculdade.
Jauary Marinho foi membro do Conselho dos Advogados do Brasil, secção do Amazonas, e membro do Conselho Técnico Administrativo da Faculdade de Direito do Amazonas. É correspondente do Instituto Brasileiro dos Advogados, no Rio de Janeiro, cargo que assumiu, por indicação do presidente do sodalício, Doutor Otto de Andrade Gil, tendo sido, como recipiendário, juntamente com o Doutor Rego Monteiro, recebido em solene reunião da Casa, saudado pelo eminente mestre Eliezer Rosa. Foi eleito, juntamente com figuras de relevo da juriscultura pátria, entre elas citando-se os Professores Doutores Alfredo Buzaid, Moacir Lobo da Costa, Luís Machado Guimarães, Luís Bueno Vidigal e outros; membro do Conselho Consultivo da Revista de Direito Processual Brasileiro, função que exerce ainda atualmente.

Nosso biografado representou a Universidade do Amazonas e a Faculdade de Direito da mesma UA, no Congresso de Direito Processual, em Campos do Jordão, quando se debatia o projeto do Código de Processo Civil Brasileiro, de autoria do provecto mestre Alfredo Buzaid, em abril de 1965, tendo tido atuação destacada, oferecendo inúmeras sugestões integralmente aceitas pela Comissão Central dos Trabalhos. (...)
Em junho de 1965, o Conselho Diretor da Fundação Universidade do Amazonas, por unanimidade de votos, sufragou o nome de nosso biografado de hoje, para o importante e altilocado cargo de Magnífico Reitor da mesma Universidade, cargo para o qual, em junho de 1967, foi reeleito, à unanimidade do CD da FUA.O mesmo colegiado, a 20 de junho do ano em curso, mais uma vez elegeu o benquisto homem público para exercer as funções do cargo que vem desempenhando com singular eficiência e indiscutível dinamismo, para o quatriênio 70/74.

É inescondível que Jauary de Souza Marinho haja sido o grande benfeitor da Universidade do Amazonas e indiscutível amigo da mocidade estudiosa de sua terra de berço. Por essa mesma razão, foi agraciado pelo Conselho Universitário, com expressiva condecoração, consubstanciada na Medalha do  Mérito Universitário, insígnia que lhe foi conferida em sessão solene da Assembleia Universitária, realizada em nosso belíssimo Templo de Arte — o Teatro Amazonas — a 1º de março de 1968, tendo sido, então, carinhosamente saudado pelos corpos docente e discente da Universidade, cujos destinos comanda com equilíbrio, espírito de iniciativa e idealismo e fabulosa combatividade, há mais de cinco anos.

Foi em sua gestão à frente da Reitoria, com apenas cinco meses de atuação no desempenho do honroso cargo, que se instalavam, solenemente, as Faculdades de Medicina, Engenharia e Farmácia e Odontologia, cristalização de um sonho acalentado da mocidade glebária, que enfrentara sérias lutas, objetivando a consubstanciação daqueles superiores desiderata, inutilmente, durante muitos anos. Os derrotistas e os inimigos do progresso cultural da planície, aqueles mesmos que se opuseram, à sorrelfa, à luta inglória de um punhado de moços desta terra, entre os quais se contam Alexandre Trindade, Maury Bringel, o signatário deste trabalho, e outros cujos nomes nos escapam à memória, tacharam a iniciativa do corajoso Reitor da UA, de a "incurável loucura". Mas o idealismo venceu e a primeira turma de médicos amazonenses, feitos em faculdade idealizada, realizada e dirigida por caboclos autênticos, deverá sair no ano porvindouro, fato que realça, de modo soberbo, a obra deste índio teimoso e obstinado, que se alimenta de ideal, com a raça e o ímpeto de um legítimo filho da Taba dos Manaus, o vontadoso e implacável Reitor Jauary Guimarães de Souza Marinho!
E este trabalho agigantado cresce de vulto, quando consideramos que nossas Faculdades de Ensino Superior dão guarida a excedentes vindos do Sul do país para, aqui, corporificarem seus sonhos – numa bonita e inobnubilável colaboração da Universidade do Amazonas, à cultura brasileira e ao Ministério da Educação e Cultura e espetacular e comovente lição de atuação objetiva pela grandeza da Pátria, e de fidelidade aos princípios de integração e unidade nacional.
Graças ao desprendimento e ao trabalho exemplar de Jauary Guimarães de Souza Marinho, hoje, nossa Universidade, em franco e irreversível desenvolvimento, em funcionamento pleno e fecundo, sete Faculdades de Ensino Superior, instaladas em nossa metrópole:
Faculdade de Direito; de Ciências Econômicas; de Filosofia, Ciências e Letras; de Engenharia; de Medicina; de Farmácia e Odontologia e a Escola de Serviço Social “André Araújo”, com seus vinte cursos, de cuja existência muito pouca gente sabe em nossa terra: Direito, Estágio Profissional; Ciências Econômicas; Ciências Contábeis, Administração, Filosofia, Pedagogia, Química, Matemática, Letras, Ciências, Biblioteconomia, Jornalismo, Educação Física, Engenharia Civil (opções: Estruturação e Transportes), Medicina, Odontologia, Biofarmácia, Assistente Social, Estágio Profissional.

Dando cumprimento ao seu vasto programa desenvolvimentista, no plano cultural, mantém nossa Universidade cinco Centros:
de Estudos Portugueses;
de Estudos e Pesquisas Socioeconômicos;
de Estudos Americanos;
de Estudos Franceses;
e de Psicologia Aplicada.

Jauary Marinho, da galeria
dos Reitores da Ufam
Há, ainda, localizados em dois edifícios próprios, os Institutos de Histologia e o de Anatomia e um Laboratório de Eletrônica de Línguas, com 36 cabines, para atender ao curso de Letras, e aperfeiçoar os conhecimentos da mocidade universitária da planície. (...)
O Magnífico Reitor Jauary Guimarães de Souza Marinho assinou vários convênios com o MEC, todos eles de real utilidade para a Universidade sob sua sábia orientação. Conseguiu obter, em tempo muito curto, a aprovação do Estatuto da Universidade, enquadrando-a na Reforma Universitária Brasileira (Decreto nº 66.810/1970).
Fato digno de registro, para enfatizar o crescimento do Ensino na faixa universitária, em nossa área: quando Jauary Marinho apanhou as rédeas UA, possuía ela, apenas, 833 estudantes; hoje — 1970 — cinco anos depois de sua investidura, possui a Universidade o expressivo número de 3.321, devidamente matriculados. Estes dados estatísticos falam bem alto da vitória de uma luta e têm o poder estimulante de tonificar um ideal.
Nosso biografado de hoje recebeu, no corrente ano, o Diploma Honorífico do Corpo Discente da Faculdade de Medicina da Universidade do Amazonas, que, igualmente, o escolheu como Patrono de sua Primeira Turma, num justo prêmio ao trabalho que o revolucionário Reitor vem realizando a favor da juventude amazonense, principalmente na esfera da Saúde. Em janeiro do ano fluente, foi diplomado pelos Companheiros da Aliança para o Progresso. Sua luta continua. E muito dela espera ainda o Amazonas.
O futuro fará justiça ao muito que Jauary Marinho tem feito pela terra comum, ele que está escrevendo, talvez, a mais bela página da sua vida útil – a mais bela página, sem dúvida, da História do Ensino Superior do Amazonas!

segunda-feira, abril 04, 2016

ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS (7)

Duas notas sobre a posse do acadêmico padre José Pereira Neto, então diretor do Colégio Dom Bosco, na Academia Amazonense de Letras, vão aqui postadas. A solenidade aconteceu há 60 anos, sob a presidência de Péricles Moraes.
Registro da solenidade, com o presidente (à dir.) e o
padre Pereira Neto
O imortal era bem conhecido em Manaus, devido sua função em estabelecimento de ensino frequentado pelos filhos de famílias bem afortunadas.
Não durou muito a presença deste sacerdote na Casa de Adriano Jorge, pois apenas dois anos depois, foi transferido para outra região ocupada pelos salesianos.
A colunista social, que assinava Thaís, foi a responsável pelas anotações.



THAÍS

O Jornal, 26 fevereiro 1956

Conforme foi antecipado por esta coluna, teremos amanhã às 20 horas, no suntuoso recinto da Academia Amazonense de Letras, um acontecimento de grande expressão intelectual. Trata-se da posse do novo acadêmico Padre José Pereira Neto, proeminente filho de Aracaju - Sergipe e figura paradigmária em nossos meios sociais e Intelectuais, onde alicerçou o seu prestigio com o trabalho construtivo e profícuo que vem realizando como Diretor do Colégio Dom Bosco, em que sua fulgurante inteligência e seu agudíssimo senso de justiça, se revelam em toda a plenitude, na perfeita administração desse afamado estabelecimento de ensino, onde pontificam a fina flor dos moços amazonenses. 
Assim, somos concordes em que a Academia Amazonense de Letras, na pessoa de seu preclaro Presidente, prof. Péricles Moraes, figura das mais brilhantes da intelectualidade brasileira e centro de harmonia em torno do qual gravitam os espíritos cultos de nossa terra, praticou um ato digno de louvor ao tio designar para ocupar uma de suas cadeiras, à essa alma de escol, sacerdote emérito que é o Padre Pereira Neto, inteligência lucida e orador sacro dos mais notáveis, realmente digno de figurar entre os imortais de nosso Silogeu por seus incontestáveis méritos. 
O novel acadêmico, depois de ser saudado pelo desembargador André Araújo, que proferirá uma notável oração, reveladora de sua extraordinária cultura clássica e enciclopédica, positivará com seu brilhante discurso, a refulgência de sua inteligência e de sua erudição. 
Após o ato, a União dos ex-alunos Salesianos, recepcionará a todos os acadêmicos e demais convidados, nos aristocráticos salões do Ideal Clube, em regozijo a posse de seu insigne Diretor. Ao que tudo indica, será uma reunião brilhantíssima, a qual comparecerão as mais expressivas figuras da sociedade manauara, e que ficará nos anais de nossa terra, como um fanal de luz a espargir beleza e saber.
 O Jornal, 3 março 1956
 O dia 27 do mês transato, foi altamente festivo para a Academia Amazonense de Letras, por motivo da posse do novo imortal, Padre José Pereira Neto, que na ocasião pronunciou uma brilhante conferência em torno das figuras de Bento Tenreiro Aranha, Otavio Sarmento e Leopoldo Péres, conferencia esta, que pela dialética aurilavrada do orador, veio consubstanciar o imperativo de sua presença entre os imortais daquele sodalício.
Saudando o novo imortal, ouvimos a fulgurante palavra do des. André Araújo que em magnifica peroração, onde positivou vasta cultura de homem de letras, dando vasa a seus incontestáveis méritos de homem de estudos e pesquisas, disse da satisfação da Academia em receber no seu meio, a essa figura paradigmária de sacerdote e intelectual — Padre José Pereira Neto.
Abrindo a sessão, tivemos a satisfação de ouvir o verbo de inusitadas e aurifulgentes filigranas do presidente da Casa, prof. Péricles Moraes, cuja oração siderante, transformou aquelas horas vividas na espiritualidade imorredoura das coisas do pensamento, em fugazes momentos em que a nossa imaginação balouçava nos devaneios lítero-filosóficos dos maiorais da grande oratória acadêmica. 
Nesse recinto augusto da intelectualidade de nossa terra, notamos pela ordem de suas cadeiras, os ilustres acadêmicos prof. Péricles Moraes, Aristófano Antony, João Mendonça de Souza, Mitridates Correa, Padre José Pereira Neto, Dom Alberto Gaudêncio Ramos, Padre Raimundo Nonato Pinheiro, Leôncio Salignac e Souza, Djalma Batista, Félix Valois Coelho, André Araújo, Moacir G. Rosas, Washington Melo, Genesino Braga e Mavignier de Castro.
 Após a cerimônia do Silogeu a Associação dos Ex-alunos Salesianos, regozijada pelo grato acontecimento, ofereceu no Ideal Clube, uma elegante recepção, que transcorreu brilhantíssima em todos os seus detalhes. Já pelas palavras sonoras e elegantes dos oradores: dr. Edson Stanislau Afonso, pelos ex-alunos, e des. Leôncio Salignac e Souza, pela Academia – onde a flor da retórica desabrochou irisados e diamantinos esbanjamentos de lapidar vernáculo, já pela presença ilustre dos acadêmicos, presididos pela figura ímpar do prof. Péricles Moraes, que com sua digníssima esposa, muito concorreu para aumentar o brilho dessa belíssima festa de galanteria. 
E ainda, pelo apuro das “toaletes" das damas presentes e pelos primores de afabilidades e riquezas de atenções com que os ex-alunos, nas pessoas do dr. Mário Jorge Couto Lopes e dr. Alberto Daou e Padre Agostinho Caballero, dispensaram a todos que estiveram presentes nessa festa de esmero encantador e raro, que transcorrendo em ambiente de peregrina distinção, fixou indelevelmente na memória dos que tiveram a ventura de assisti-la.

domingo, julho 19, 2015

IGREJAS CATÓLICAS EM MANAUS

NOVA SÉRIE DE IGREJAS E CAPELAS DA CIDADE

Capela do Dom Bosco, hoje desaparecida. No mesmo lugar foi construída nova
com entrada pelo colégio.

Capela de São João Batista, existente no cemitério do
mesmo nome

Igreja de Nossa Senhora de Fátima, no bairro da
Praça 14 de Janeiro

Cartão Postal da igreja, existente nas proximidades do
Teatro Amazonas 

Matriz de Nossa Senhora da Conceição, quando de sua última reforma,
ano 2002

terça-feira, novembro 12, 2013

À SOMBRA DOS IGAPÓS (2)


 
Capa do livro
Waldir Garcia, juiz e educador, nascido em Silves (AM) registrou no livro de crônicas À sombra dos igapós (Manaus: Imprensa Oficial, 1987) uma série de fatos não apenas de sua cidade natal, mas igualmente de sua atividade em Manaus. O livro traz ilustrações do competente artista Edemberg Jr.
Catei deste livro a crônica abaixo, para relembrar o saudoso professor e eminente magistrado.

O NOSSO VELHO GYMNASIO
Ginásio Amazonense D Pedro II, 1936
Domingo passado fiquei algum tempo observando o prédio do nosso velho Gymnasio Amazonense Pedro II, venerável monumento arquitetônico da avenida 7 de Setembro, onde fiz o curso ginasial. Corroído pela ação deletéria do tempo, com acentuados ares de abandono, grades circundantes quebradas e até um pé de apuizeiro nascente em uma de suas paredes verifiquei, há algum tempo atrás, e fiquei parado, estático, passando a recordar principalmente o ano de 1936, quando era secundarista, e o Gymnasio tinha a dirigi-lo a figura nunca esquecida de mestre e amigo: o professor Carlos Mesquita, que nesse ano promoveu uma festa maravilhosa comemorativa do cinquentenário de sua fundação.

Evoquei, então, meus colegas do 2º ano ginasial, com os quais mantinha maior ligação de companheirismo e estudos: Alípio Meninéa Netto, Antero Riça, Adiles e Lais Galvão Bivar, Asdrubal Pedrosa de Oliveira, Carlos Lopes Rodrigues, Claudio Coelho, Friné Benayon, Guilherme dos Santos Ferreira, Graciliano Muniz, Hugo Garcia, José Bezerra, Lúcio Cavalcante, Manoel de Leiros Garcia, José Alonso, Mário Fernandes da Costa (o Mário Broa), Moisés Benarrós Israel, Murilo Gama Rodrigues, Rodolfo Guimarães Vale e Yolanda Pinto.

Recordei nossas equipes desportivas de futebol e basquete, aguerridas e sempre triunfantes. No futebol pontificavam: Yano Monteiro, goleiro já famoso, seguido de José Bezerra, Manoelito, Hugo, Claudio Coelho, Zé Bento e, sobretudo, René Monteiro e Minos Azevedo, famosos goleadores da época.

No basquete brilhavam Clóvis e Clodomir Coelho, Jurandir Costa (o Bacurau), Silvio Tapajós, Paulo Saldanha e muitos outros. Recordei a rivalidade então existente entre os alunos do Colégio Dom Bosco e do Gymnasio e lembrei a briga havida entre Geraldo Coimbra, do Dom Bosco, e Mário Broa, do Gymnasio, dois gigantes, que se defrontaram de igual para igual sem haver vencido nem vencedor.
Mas evoquei, sobretudo, a figura de nossos velhos Mestres, que saudosamente passo a enumerar: Álvaro Botelho Maia, Pe. Manoel Monteiro, Carlos Mesquita, Vivaldo Palma Lima, Antônio Teles de Sousa, José Joaquim Martins Santana, Ricardo Mateus Barbosa de Amorim (o velho Buda, como respeitosamente o chamávamos), Pe. Israel Galdino de Sousa, Aurora Ramos de Moraes Rego, Augusto Rocha, Maria Augusta Bacelar, Maria Nogueira Marques, Manoel Bastos Lira, Arthur César Ferreira Reis, Antônio Conte Teles de Sousa, Pedro Silvestre da Silva, Maria Luiza de Saboya, Paulo de Mello Rezende, Alcides Nogueira, Maria do Carmo Samico, o instrutor militar Sandoval Amorim e, sobretudo, o inefável Agnello Bittencourt, o qual, de todos os mestres que tive nessa época, foi o que me deixou a mais nítida recordação e exemplo, pela sua postura elegante e sóbria, educador paradigmático, cuja presença em sala de aula ou fora dela, por si só, imprimia respeito e veneração de todos seus alunos.

Sua voz mansa, paternal, explicações objetivas e pragmáticas, sem contar com os recursos pedagógicos de hoje, eram suficientes para um proveitoso aprendizado da matéria que lecionava. Foi professor de duas gerações de Garcia, de meu pai, formado em 1912, e da minha geração. Tornei-me amigo de seus filhos Mário, que militou comigo na Magistratura, Agnello Filho e Ulisses, a quem devoto sincera admiração pelos trabalhos intelectuais que produz, e pelo amazonismo que defende e venera.

À época do cinquentenário do Gymnasio Amazonense Pedro II, em 1936, seu então diretor, professor Carlos Mesquita, publicou a seguinte Mensagem:

"Ao comemorar o Ginásio Amazonense Pedro II o seu cinquentenário, eu quero saudar os trezentos e cinquenta ginasianos que cursam suas aulas, animando-os, incentivando-os ao estudo que eleva, ao bom comportamento que enobrece. Unamo-nos todos – professores e alunos – e visemos a defesa do Ginásio, que é a do Amazonas, que é a do Brasil. Trabalhemos, estudemos, legando, assim, às gerações ginasianas futuras, o exemplo dignificante dos amazônidas de hoje.
Avante, ginasianos amazonenses! Pelo Ginásio! Pelo Amazonas! Pelo Brasil!
a) Carlos Mesquita - Diretor
A Mensagem do professor Carlos Mesquita, supratranscrita, anima-nos a lutar pelo soerguimento do velho Gymnasio Amazonense Pedro II. Anima-nos e conforta-nos, sobremodo, a alvissareira notícia que nos foi transmitida pela atual secretária de Educação e Cultura e presidente do Conselho Estadual de Educação, Dra. Freida Bittencourt, de que o dinâmico governador Gilberto Mestrinho mandará, em breve, soerguer o prédio do nosso velho Gymnasio Amazonense Pedro II.

sexta-feira, julho 26, 2013

PADRE ESTÉLIO DÁLISON

Padre Nonato Pinheiro (*)

Padre Nonato Pinheiro, 1952
Padre Estélio Dálison continua vivo no meu coração. Não consigo esquecê-lo, tão fortes foram os laços que nos uniram em vida. Nascido no Uruguai, na Colônia do Sacramento, veio para o Brasil no vigor da mocidade assimilando tão bem o português, que o falava e escrevia como se fosse sua língua materna, o harmonioso idioma de Cervantes. Em 1922, ano do meu nascimento, padre Estélio Dálison recebia o sacerdócio em Roma, com outros três salesianos. Em 1930, chegava a Manaus, logo dominando os círculos sociais e intelectuais com o esplendor de sua eloquência. O verbo caía-lhe dos lábios em cascatas de prata, em catadupas de ouro. Nesse mesmo ano recebia eu de suas mãos a primeira comunhão.

Tive duas convivências com o famoso filho de Dom Bosco. A primeira é concernente à quadra de estudante, de 1933 a 1938, no diretoriado do padre Lourenço Gatti, que sucedeu ao santo padre Pedro Ghislandi. Ensinava-nos Religião. Apesar da austeridade da disciplina, se nos instruía com segurança e profundeza na doutrina cristã, sabia divertir-nos com o seu bom humor, que era simplesmente fabuloso. De uma feita ouvi-lhe dos lábios: “No Brasil, para tudo se usam selos de educação e saúde, e não há saúde nem educação”... Doutra vez, assistindo a uma algarraza de colegiais, assim falou: “Na bandeira brasileira está escrito Ordem e Progresso. No coração do brasileiro leio Desordem e Regresso...”
Na segunda convivência já era eu sacerdote. Estávamos sempre juntos, como também pela circunstância do cargo que desempenhava, de secretário do Bispado, na administração diocesana do saudoso Dom João da Mata Andrade e Amaral. Quando este foi transferido para Niterói, lembro-me de que fui eu quem lhe deu a notícia da eleição episcopal de Dom Alberto Gaudêncio Ramos. Padre Estélio não conhecia o novo bispo, saído do clero secular da Arquidiocese de Belém. Aproveitou os nomes dos dois antístites para um trocadilho, que provocou risos ao próprio Dom Alberto: “Olhe, padre Nonato: para fazer uma mata, só muitos ramos...”

Ouvi magníficos sermões e panegíricos do padre Estélio Dálison. Os noivos da aristocracia social procuravam-no para abençoar as núpcias. Essas alocuções matrimoniais eram sempre cintilantes. Nos últimos anos de vida, proferiu duas soberbas orações gratulatórias: nas bodas de ouro sacerdotais do seráfico frei Domingos de Gualdo Tadino, capuchinho, e na 1ª Missa Solene do padre Mário Balbi, salesiano amazonense. Funcionei como diácono, e ainda retenho o texto da alocução: “Sacerdos – sacer dos, sacra dans” (Sacerdote  -- dote sagrado, dador de sacralidades).

Se no púlpito empolgava, na conversação fascinava. Era um encanto a palestra do padre Estélio: pela viveza, pelo humor, pela ironia. Quando completou 60 anos, anunciou que havia descoberto um meio de não passar dos 60. No ano seguinte, ao raiar o dia 24 de setembro, sua data genetlíaca, declarou: “Estou descendo. Hoje festejo meus 59 anos. Para o ano, 58...”. Padre Agostinho recebeu a notícia com uma boa risada.

Seus últimos anos foram de intenso trabalho. Além de diretor, era também o prefeito ou ecônomo do estabelecimento. E muitas vezes o vi na livraria do colégio, a vender o material escolar e as guloseimas. Um dia fui celebrar na igreja de Dom Bosco. Ao dirigir-me para o refeitório, surpreendi-o na livraria. Chamou-me: “Tenho um presente para você. É a pastoral do bispo X. Não sou lá grande admirador de Sua Excelência, e sei que o Espírito Santo às vezes se engana, leve a Pastoral para o seu arquivo eclesiástico”.

Padre Estélio foi um grande apreciador de laranjas. Gostava de saboreá-las pela manhã, antes do café. Enalteceu-me mais de uma vez o teor vitamínico da laranja, sua fruta preferida.

Já devo atingir o objetivo dessas linhas: revelar o poeta padre Estélio. Para muitos, sei que será realmente uma revelação. Padre Estélio foi poeta, e poeta primoroso. Poetava, porém, clandestinamente, sem exibir a ninguém a prata de copela e o ouro fulvo de sua finíssima inspiração. Transcreverei uma joia de seu estro poético, uma linda poesia sacra, cujos originais me foram confiados pelo meu dileto padre Agostinho, logo depois das exéquias solenes em sufrágio de sua alma, em que tive a honra de proferir a Oração Fúnebre.

Guardo a poesia desde 1949. Doze anos decorridos, tive a ideia luminosa de publicá-la, para maior conhecimento da inspiração e sensibilidade do autor, revelando ao Amazonas o poeta, pois só o conheciam como palestrador cintilante e orador primoroso.

Eis a formosa poesia, que demonstra e documenta a delicadeza de sua alma de esteta e a mira de seus sublimes ideais:

ASPIRAÇÕES

Ardem gotas de luares
nos altares
onde se esconde Jesus;
e luzem nos peitos crentes,
resplentes,
as alvoradas da Cruz.
 

Não quero a festa obscena,
que envenena,
como o beijo do traidor.
Quero o prazer puro e calmo,
como o salmo,
que rezo aos pés do Senhor.


Não quero os fátuos clarões
de ilusões
que matam para viver.
Quero afetos sem escória,
quero a glória,
quero vencer ou morrer!

 
Teria sido a única poesia do padre Estélio, em língua portuguesa? Não o creio. O artista certamente lapidou outras preciosidades para depois destruí-las num rasgo de insatisfação e humildade. Como quer que seja, Adriano Jorge e Péricles Moraes sabiam-no primoroso homem de letras. Este último revelou-me, mais de uma vez: “Tê-lo-íamos eleito para a Academia se o português fosse sua língua materna”.

Essas linhas são de comovida homenagem à sua prefulgente memória, cujo clarão jamais se extinguirá.

(*) O Jornal. Manaus, 31 de dezembro de 1961.

domingo, outubro 07, 2012

Cine Manáos


 

Para matar a saudade: (à esq.) a igreja do Dom Bosco (demolida),
o colégio e faculdade e, à direta, o Cine Manáos
Este cinema foi uma iniciativa dos padres salesianos, que dirigiam o Colégio Dom Bosco. Funcionou em prédio existente ao lado deste colégio (veja ilustração). Deve ter iniciado para atender os jovens frequentadores do “catecismo” ofertado pelos padres nas tardes de domingo.

Um dos frequentadores, o artista plástico Moacir Andrade, conta que a direção do cinema cabia ao padre Agostinho Caballero Martin. Esse argentino que conquistou os jovens de sua época, tanto os soube conduzir que deixou sua indelével marca na educação regional.

Recorda este nosso artista, que padre Agostinho acompanhava a projeção dos filmes e, sempre que surgia uma cena mais tórrida, ele ordenava ao operador que a cobrisse. Obviamente sob os apupos dos seus pupilos.

Depois o Manáos virou comercial, como bem demonstram os anúncios publicados em O Jornal, da cidade.
 

O Jornal, 19 setembro 1937