CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

23 de junho de 2013

GETÚLIO VARGAS (1882-1954)

 

Adriano Jorge, 1929
Há 70 anos, este artigo, publicado no ensejo do aniversário natalício do presidente Getúlio Vargas, foi escrito pelo saudoso Adriano Jorge. Adriano era alagoano, mas fez sucesso em Manaus na primeira metade do século passado, seja no exercício da medicina, seja na presidência da Academia Amazonense de Letras, seja como legislador municipal.
Contudo, foi com suas manifestações em diverso ambientes que se notabilizou, apesar de não ter deixados qualquer livro. Raros são os trabalhos literários impressos.
O personagem que Adriano Jorge homenageia sempre me intrigou. Sabido que foi o único ditador pessoal no país, no período que vai de 1930 a 1945, apesar disso, deixou seu nome benquisto na história. Raros são os que se referem a ele mencionando seu governo dominador. Apesar dos excessos promovidos em sua governança, não há Comissão da Verdade que pretenda tocar no saudoso “velhinho”.
A exposição do falecido Adriano Jorge me permitiu entender o carisma de Getúlio Vargas.
 
A LIÇÃO GETULIANA (*)


Um grande poeta, que ainda foi maior depois que a loucura lhe substituiu a ambiência das realidades triviais por uma atmosfera convulsa de radiações e policromias desabrochadas no seio túrbido de sua alma doente, disse que “não devemos consentir se esbata em nossa nobreza o desejo de modelar essa porção do infinito, que existe dentro de nós”.
Há de fato uma luminosa argila transcendente, de cujos silicatos imponderáveis a alma humana plasma, em ato de quase divina criação, aquela essência de ideal e de transfiguradora beleza, a que Holderlin chamou “essa porção de infinito, que existe dentro de nós”.
É quase sempre um bruxuleio tênue, o pirilampejar intermitente e talvez imperceptível; mas há nesse levíssimo hálito de magnética inspiração, a identificá-lo com o infinito, o latejar insuspeito, mas sempre heroico e sobre-humano, de todas as nossas aspirações de glória. 

Para que se desencadeiem, porém, todas as energias potenciais dessas fontes interiores de entusiasmo e de fé, é imprescindível o advento orientador e polarizador de uma ideia, no sentido hegeliano do termo, isto é, de um símbolo sobrecarregado de formidáveis energias criadoras, de um “mito”, para empregar a expressão daquele selvagem gauleiter dos territórios da Ucrânia conquistados temporariamente aos russos, Alfred Rosenberg, que é o místico depravado do nazismo e que escreveu um livro, que é um crime inexpiável: “O Mito do século XX”.
É, pois, um impulso exógeno que ateia os grandes incêndios humanos, porque a chama íntima da alma do homem poderia, sem esse motivo exterior, permanecer apenas uma pobre fagulha semidormida, como o dinamismo heroico de Paulo de Tarso até antes da deslumbradora explosão da estrada de Damasco.

Apareceu um homem, no Brasil de hoje, erigido em almenara do país, com a enorme porção de infinito de sua grande alma a estuar na ansiedade de uma remodelação nacional, que fosse a correção eficaz dos erros monstruosos de que se abeberara a nossa democracia.
Esse foi o presidente Getúlio Vargas, surgido como um mensageiro do Destino, portador do símbolo, do mito, da ideia renovadora, a cujo clarão o panorama de nossa história atual havia de iluminar-se, como realmente se iluminou, numa imprevista pirotecnia de centelhas.

Os primeiros gestos desse homem foram rigidamente realizados por um braço firme na sua musculatura de ferro. Apenas, esse braço não pesou sobre o país nem muito menos anulou no povo a confiança no Bem, a consciência de todos os seus direitos e a fé na Justiça; antes, concentrou o seu glorioso esforço no afã maravilhoso de amparar este povo.
De um belo e grande livro de Barrés disse Ortega y Gasset que “é tao singelo e radiante como se fora escrito em cristal”. Assim a obra colossal do presidente Getúlio Vargas. Era preciso demonstrar ao Brasil que “liberdade” e “democracia” não podiam ser sinônimos de anarquia e licenciosidade... Para consegui-la, porém, a lição que se impunha seria a destruição de um regime, no qual sobrepairavam, consternadoras e impatrióticas, as forças do Mal.

E o presidente Getúlio Vargas abriu naquela floresta trevosa as clareiras ensolaradas do civismo e da verdadeira Democracia, sem nunca asfixiar, tiranizar ou esmagar.
Porque a “verdadeira Democracia” é a participação direta – isto é, sem procuradores mais ou menos infiéis – do povo na Coisa Pública, numa interpenetração, feita de amplas compreensões, do governo e das massas, a amparar-se mutuamente, num clima de alegria e confiança.

Isso, que sempre se afigurou impossível aos empreiteiros e encenadores da avelha tragicomédia das democracias; isso, que, no entanto a singular estrutura psicológica dos britânicos vinha pouco a pouco exibindo e revelando como uma promessas da “verdadeira Democracia”, a germinar numa gleba espiritual ainda inadequada e ingrata pelo adubo inadaptado das ambições efervescentes; isso o presidente Getúlio Vargas semeou e cultivou, realizou e agigantou, propagou e ensinou, fazendo frutificar em convicções intensas através do mundo, aquilo que, no Brasil, a sua grande alma cristã, nutrida da beleza intrínseca da Rerum novarum e Quadragesimo anno, entregara ao povo, numa doação real de real felicidade.
O espirito do Brasil de hoje, iluminado pelo dinamismo do presidente Vargas, lá está na Carta do Atlântico – semente rútila do mundo novo do Após-Guerra; e a prodigiosa lição getuliana irrompe e transuda das entrelinhas do Plano Deveridge – documento indisfarçável da sede de cristianização dos povos, palpitante na alma, já evidentemente fatigada da tragédia horrenda, dos dirigentes da política internacional no período novo e estranho da história do mundo, rompendo enfim dos Círculos do Inferno.

Assim, o presidente Getúlio Vargas, polarizador magnífico das energias brasileiras e símbolo vivo da bravura americana, surge como um apóstolo de beleza, na sua esplendida predicação realística da bondade feita força construtiva.
Na hora tremenda das atitudes decisivas, na encruzilhada da guerra, no momento crucial da escolha entre o Bem e o Mal, o presidente Vargas, sem precisar apontar ao Brasil o caminho da honra, disse sem hesitações aos Aliados que o Brasil estava pronto para investir pela estrada, já povoada dos passos gloriosos dos povos livres e belos e nobres, porque só são nobres e belos e livres os povos que se defendem contra a (ilegível) de sangue e lama extravasada sobre o mundo da alma bichada dos escravos...

No dia do aniversário natalício do Grande Presidente, o Brasil está a revelar ao mundo inteiro o culto fervoroso, e às vezes quase paroxístico, que lhe merece o seu maior homem atual. Nunca um chefe – ainda quando se considerem os caudilhos mais intensamente dominadores – foi tão amado e tão admirado.
Dentro dos brilhos maravilhosos do Pan-Americanismo, que hoje não é apenas uma ideia e um ideal, mas é uma enorme consciência coletiva em marcha para a luta e para a vitória, a glória maior do Brasil armado e resplandecente é Obra sobre-humana do Presidente Getúlio Vargas.

(*) O Jornal – Manus, 19 de abril de 1943