CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

12 de junho de 2013

INVASÃO DA MANÁOS IMPROVEMENTS (II)

Elevatória inconclusa da Improvements,
hoje Centro de Artes Chaminé
No final de 1912, Jonathas Pedrosa estava eleito governador e aguardava a posse no primeiro dia de janeiro. Os vencidos na eleição amazonense, as vivandeiras políticas, conforme definição do general Castelo Branco, bateram no portão do quartel da Praça da Polícia. Logo atendidos, conseguiram aliciar alguns oficiais que, descontentes por motivos que nunca faltam em quartel e outras repartições públicas, fizeram e aconteceram. Na história do Amazonas, três deles gravaram seus nomes, ao constituir o triunvirato policial que a 22 de dezembro usurpou do coronel Pedro José de Souza o comando da Força Policial, e, seguidamente, no Palácio dos Governadores, escorraçaram o governador Antônio Bittencourt, em fim de mandato.

Pedro e Antônio congregam desditosa coincidência: o coronel Pedro de Souza foi três vezes comandante da PM e em todas foi destituído pela força (em 1910, no Bombardeio de Manaus; neste episódio de 1912; e na rebelião de Ribeiro Junior, em 1924). O governador Antônio Bittencourt foi duas vezes alijado do Poder (no Bombardeio e nessa passagem).

O mencionado triunvirato constituía-se do coronel José Onofre Cidade e dos majores João Fragoso Monteiro e Amâncio Clementino Fernandes. E a insurreição perdurou 48 horas, encerrada quando o ardiloso vice-governador Sá Peixoto tomou providências militares e recebeu um “certificado de coragem” para assumir o cargo. Devidamente inerente à legalidade, oportunizou o regresso do governador, que se homiziara no interior do Estado. No entanto, na Praça da Policia, a corporação seguia sob o comando do rebelado coronel Onofre Cidade.
Quartel da praça da Polícia Militar, 1935

Empossado, o novo governador do Estado obviamente deparou com a Força Policial desestabilizada, fracionada e debaixo de enormes suspeitas. Pedrosa, ainda em 23 de janeiro, promove uma reorganização desta corporação, expurgando os elementos sediciosos e nomeando um chefe interino. Tem mais. Incentivou novo atentado à disciplina ao nomear comandante ao tenente intendente do Exército, Flaviano Gastão, que se encontrava fora de Manaus. Gastão, somente desembarcou aqui após esta rebelião, que arrastou à destruição da Improvements e à brutal repressão consumada pelo general Belo Brandão, comandante das forças federais, em Manaus.

Comentam as calçadas do quartel e as da avenida 13 de maio, hoje Getúlio Vargas, que grande parte dos amotinados foram fuzilados no interior do aquartelamento. Coronel Alcides Costa, estudioso deste conflito, mantém a convicção de que foram, sim, mortos os policiais que não se renderam. Outra fonte, a do “boletim de soldado”, insinua que os rebelados presos foram deportados para o Nordeste. Em ambas as ventilações, nem há números, nem nomes para se consultar ou reverenciar.

Espero em breve ter respostas para essas divergências. Penso encontrá-las nos registros constantes dos “livros de assentamentos” da corporação, hoje mantidos no CCPA. Confio de que vou manter neste arquivo meu sucesso de catador de papeis. Outra fonte que não pode ser desprezada: o arquivo do Cartório do 1º Ofício, o único existente naquela oportunidade. Se ainda assim, não obtiver êxito, volto ao cemitério São João Batista, onde devem ter sido enterrados os corpos.

Descrevo sucintamente a sedição do dia 15 porque, no próximo post, vou reproduzir o texto do Jornal do Commercio presente ao atentado à Manáos Improvements. No início dessa tarde, dentro do quartel da Praça da Polícia a peleja teve início quando uma fração armada, devidamente incentivada por oficiais afastados em janeiro, investiu contra outra que, desarmada, se conservava acorde com o comando da Força e do chefe do Poder Executivo. Isso basta para demonstrar a separação existente, o fracionamento do corpo policial e da ausência do comandante, tanto o titular quanto o interino.

Há um ponto pacífico: a refrega seria integralmente dirigida por sargentos, não havendo oficiais. Até então nada indicava que se pelejavam exclusivamente contra os desmandos da concessionaria de águas e esgotos. No entanto, quando os primeiros soldados feridos ou não alcançaram a praça, o movimento tomou outra extensão. A informação que circulou pela cidade indicava que a policia avançava contra aquele administrador inglês. Com o estopim curto e aceso, não houve quem controlasse a população, que avançou sobre a administração da Manáos Improvements.

Os oficiais presentes no quartel e, portanto, os primeiros a intervir foram atingidos por tiros. O oficial de dia, tenente Eduardo Rocha, foi morto e outros dois oficiais alvejados gravemente. O comandante interino, tenente-coronel Adolfo Cavalcante, foi posto fora de combate com ferimentos graves.

Acionado pelo governador do Estado, o general Belo Brandão intimou os sublevados, que retrucaram negativamente. A tropa de artilharia e de infantaria do Exército partiu do 27º BC, hoje Colégio Militar de Manaus, desceu pela avenida Getúlio Vargas, antes 13 de Maio, onde se posicionou. Nova intimação aos rebeldes, e nenhum resultado. Diante disso, ocorreu a primeira ofensiva: o canhoneio do quartel da Polícia Militar. Ainda assim, houve resistência, afinal esta corporação possuía canhões e outras armas pesadas, mas, finalmente na madrugada os subordinados do general Belo sobrepujaram os rebelados.  

No dia seguinte, a cidade amanheceu assustada. Estacada. A imprensa idem. Somente no dia 17, Manaus começou a voltar à atividade, tanto que é desse dia o relato jornalístico. Na Força Policial, assumira outro oficial interino, pois o comandante titular somente desembarcou no final de julho. (segue)