CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

13 de junho de 2013

INVASÃO DA MANÁOS IMPROVEMENTS (III)

Há um século, em 15 de junho, a cidade de Manaus assistiu a um entardecer trágico, com a invasão dos escritórios da Manáos Improvements, concessionária de águas e esgotos. A desordem começou, por estranho que pareça, dentro do quartel da Polícia Militar, ainda situado na (hoje) praça Heliodoro Balbi. O dia seguinte foi de expectativa, a própria imprensa parou, não circulou temerosa de empastelamento.

Somente a 17, com a Força Policial subjugada ao controle do Exército e enterrados os mortos e socorridos os feridos e protegidas as instalações da Improvements, os jornais voltaram às ruas. Dos que então circulavam, resta-nos o centenário Jornal do Commercio, do qual reproduzo os detalhes desse movimento.  A agitação teve repercussão nacional, a meu ver, por três motivos: o emprego da Força Terrestre; a cobrança judicial interposta pela concessionária inglesa; e a peculiaridade da revolta.

Deu no Jornal do Commercio, de 17 de junho de 1913.
 
Recorte do jornal, de 17 de junho


Sejam as nossas primeiras palavras uma condenação formal a tudo quanto se passou nesta cidade nos dias 14 e 15 do corrente.
Somos perfeitamente coerentes. Censuramos acremente o bombardeio de Manaus e verberamos os tristes fatos de que foi teatro esta cidade em dezembro do ano passado. Não podemos, portanto, deixar de profligar esta revolta e os atentados contra a imprensa, isto é, contra os quatro jornais que aqui se publicavam.

Estamos numa terra com foros de civilização e tais acontecimentos, perturbadores da ordem, aniquiladores da paz das famílias, são deprimentes, geram anarquia e colocam-nos em posição muito mesquinha diante dos que nos olham de fora.

Não sabemos, nem queremos saber, a origem de semelhantes fatos. Seja qual for eles merecem a nossa decisiva repulsa, agrade ou desagrade a gregos ou troianos, a desvairados ou a loucos.

x-x-x 

Só hoje que a calma voltou à cidade, circula o Jornal do Commercio, não o tendo feito ontem, pois a atmosfera de incerteza e de dúvidas que pairavam sobre a população, impedia que nos manifestássemos, com segurança, sobre os tristíssimos e lamentáveis sucessos ocorridos no dia quinze, à tarde, tendo princípio no quartel do batalhão militar de segurança do Estado.

Vamos, porém, recapitular ligeiramente os fatos, procurando dar quanto possível a verdadeira súmula dos acontecimentos, de acordo com os informes que nos pareceram mais acreditáveis.

Assim, no dia 15, cerca de 13h30, correu célere pela cidade a notícia de que praças do batalhão militar do Estado se haviam revoltado. De fato, tiros de carabina se ouviam, partidos do quartel e, pouco depois, em debandadas, passavam praças em todas as direções, alguns feridos.

Procurando sindicar de quanto havia, fomos informados de que parte dos praças, comandados por inferiores (sargentos), se havia revoltado, atirando sobre os companheiros de uma das companhias que tinham ficado fieis ao Governo, ferindo a vários e alvejando alguns oficiais que avisados de que alguma coisa de anormal se passava no quartel, para lá tinham ido a fim de dominar a soldadesca indisciplinada.

No dia 15, depois da revista regulamentar do meio-dia, em lugar de se retirar, os praças foram para as reservas, arrombando as arrecadações, armando-se e municiando-se e, ao mando de sargentos, formando no patamar superior do quartel.

A esse tempo, o tenente-coronel Adolfo Cavalcante, comandante interino do Batalhão, já avisado de que se tramava qualquer movimento sedicioso, dirigia-se ao quartel, mandando prevenir a oficialidade, comparecendo, pouco depois, os capitães Severino Corrêa da Silva, Raimundo Sinésio Benevides, este ajudante do Batalhão e aquele comandante da Companhia de Bombeiros; 1º  tenente Benedito Martins de Souza e o 2º tenente Francisco Marques Evangelista e mais alguns outros, cujos nomes não conseguimos apurar.

O comandante Adolfo Cavalcante, tendo sido recebido pelo oficial de estado (de dia), tenente Raimundo (Eduardo) Rocha, ia chegando ao patamar da escada, que dá para o andar superior, quando nos alojamentos desse andar rompeu grande alarido, ouvindo-se alguns tiros.

Punha o pé no primeiro degrau o comandante Cavalcante, quando um praça, aparecendo no topo da escada, apontou-lhe a carabina, fazendo fogo. O comandante imediatamente caiu, com um ferimento no pescoço, tendo a carótida quase atingida pelo projetil. O capitão Severino, vendo-o cair e correndo em seu auxílio, foi alcançado por uma bala que lhe esfacelou o antebraço direito.

A esse tempo, acorreu também o tenente Raimundo Rocha, oficial de estado, que ao chegar junto a um grupo de soldados amotinados, foi por um deles enfrentado, recebendo um tiro que lhe penetrou o crânio, prostando-o mortalmente ferido e sucumbindo poucos minutos depois.

O capitão Raimundo Sinésio Benevides, intervindo, recebeu um tiro que lhe atingiu um dos pés, sendo agredido pelos soldados que bastante o maltrataram, a couces de arma.

Saíram também feridos o tenente Francisco Marques Evangelista, com um projetil no braço direito, e o 2º tenente Arthur Martins, consta ter sido também baleado o tenente Benedito Marques de Souza.

O tiroteio então se tornou medonho. Uma das companhias, conservando-se fiel à ordem e ao Governo, foi atacada pelos praças revoltados, resultando sair um dos soldados morto e vários feridos. Vendo que não podiam resistir aos amotinados, fugiram os que os enfrentavam, tomando então os sediciosos conta do quartel, e perseguindo à bala seus companheiros, que saltavam o muro ou tentavam sair pelo fundo do edifício.

Dentre os feridos estão os soldados José Maciel de Melo, no braço direito; Pedro Cruz de Araújo, vulgo Macaco, no quadril esquerdo; Francisco Pacheco, na perna esquerda, todos com ferimentos leves. Foram ainda feridos, Lino José de Oliveira, nº 22 da 2ª companhia, com duas balas, uma que o atingiu no rosto e outra no ombro direito; Manoel Paes da Cunha, nº 8 da 3ª companhia, com um ferimento no ombro esquerdo.

Disse este praça a um de nossos companheiros que, estando no Mercado (Adolfo Lisboa) pela manhã, foi chamado por um ex-oficial que lhe dissera ir ocorrer um levante no quartel, pois contava com cerca de 100 praças para esse fim, acrescentando que morreriam todos os que não aderissem ao movimento. De posse dessas informações, Cunha foi até a casa do comandante Cavalcante, narrando o que ouvira.

Este oficial, porém, segundo ouvimos dizer, parece não ter dado crédito ao denunciante, mandando-o para o quartel, o que fez, vendo pouco depois de uma hora romper o fogo, que partia da 2ª companhia, sendo atingindo quando subia a escada.

O soldado José Felipe Neto, do esquadrão (de cavalaria), foi ferido no peito, lado esquerdo, saindo a bala pelas costas, sendo seu estado considerado gravíssimo. José Claudino Braz e Raimundo Corrêa de Moraes foram atingidos, o primeiro com uma bala na perna, e o segundo também por bala na coxa direita. Ao que nos disseram, foi este último soldado que fez fogo sobre o comandante Adolfo Cavalcante. (segue)