CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

11 de junho de 2013

INVASÃO DA MANÁOS IMPROVEMENTS (I)

Recorte do Jornal do
Commercio, 2 junho 1913 
De certo, não haverá celebração. Afinal, quem ainda se recorda da revolta contra a Manáos Improvements, que completa seu centenário dia 15? Os ingleses administravam diversos serviços em Manaus, e esta empresa era a concessionária de águas e esgotos. Na capital, qualquer estudante de ensino médio aprende que a rede de esgotos não chegou a ser implantada, apenas algumas ruas e avenidas foram beneficiadas. Do que se herdou, conhece-se pela alcunha de “galeria dos ingleses”, com muitas lendas cercando sua secular existência.

A parte mais proeminente, a central elevatória construída às margens do igarapé dos Educandos, na desembocadura com o rio Negro, ainda existe servindo de referência. Depois de anos de abandono ou de utilização fora do projetado, a central foi transformada em Centro Cultural Chaminé, marcada pela enorme tubulação, pela chaminé ali edificada.

Detalhe: catava subsídios para a postagem, quando encontrei no Google, à venda, ações da Manáos Improvements Limited. Quem se habilita?

Apólice da Manáos Improvements, 1910
 
No Amazonas, o governador Silvério Nery (1900-04) contratou com esta empresa a instalação do serviço de esgotos na capital. O empreendimento levou anos para ser construindo, ainda assim, faltou somente concluir a estação elevatória.

Ocorre que esta mesma empresa detinha a concessão do serviço de distribuição de água. Os preços, todavia, acabaram por sair do previsto e, num crescente, atingiu a população em geral. A falta de pagamento foi combatida com a suspensão do fornecimento. Mas, para ser consumado, o Governo permitiu que policiais militares protegessem os funcionários encarregados do corte.

Em 2 de junho, o secular Jornal do Commercio publicou uma entrevista com o popular empresário Bernardo Ramos, que explicou a situação enfrentada pelo povo de Manaus. Em síntese, disse que

“não bastou a concessão gratuita feita por aquele governo (Silvério Nery) a feliz empresa, da considerável soma superior a seis contos de réis, custo das obras e materiais da rede adutora da canalização das águas de Manaus; o aumento progressivo das taxas que passaram ao domínio da empresa e continuar a cobrar desde o momento em que firmou o maquiavélico contrato”.

E prossegue o fundador do IGHA, em março de 1917, “quanto a esgoto, propriamente dito, subsistiam apenas naquela época (1904), um contrato firmado com um feliz mortal, a que pagou o governo a titulo de indenização, a soma de 500 contos de réis, e os bueiros que ainda existem, levados a efeito as expensas do Estado e que nos têm valido”.

Para concluir, salienta que “a taxa de água é cara e leva-nos a assim pensar muitos motivos, entre eles o que na prática vamos evidenciar, além dos positivos exemplos com as devidas relatividades que de sobejo nos tem demonstrado as casas dos contribuintes da Vila Municipal (hoje Adrianópolis).”

Portanto, já desde o início de junho, a insatisfação na cidade avolumava-se, alcançando toda sociedade, basta analisarmos o discurso de um dos homens abonados de Manaus. Juntou-se a esse descalabro a insatisfação engajada na Força Policial, vinda de janeiro com a posse de Jonathas Pedrosa.  

De regresso à sedição. À tarde de 15 de junho, o movimento armado irrompeu no interior do Quartel da Praça da Polícia, o qual escapando ao controle superior alcançou aos transeuntes, e se estendeu pelo Centro Histórico. Mais especificamente, investindo contra os escritórios desta empresa, situado à rua Miranda Leão, os quais foram depredados. Foi um dia de cão.

Estava na memória recente da cidade semelhantes tumultos, pois, em dezembro de 1912, fora conturbada por motim bem mais grave, também promovido pela Força Policial. É preciso, portanto, que se relembre a dezembrada policial para se entender a junina. Ambas se vinculam, como se verá. No centro da questão duas entidades dinâmicas e impulsivas: os políticos e os policiais militares. (segue)