CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quinta-feira, abril 20, 2023

REVISTA UBE/AM: 40 ANOS

Não necessito acrescentar mais que isso: compartilhei o texto abaixo da extinta Revista UBE/AM, que circulou em maio de 1983, portanto, há 40 anos. 



EXPOENTES LITERÁRIOS DO PASSADO


Padre Nonato Pinheiro, orador emérito de raro fulgor, cronista exímio, epistológrafo de inexcedível valor, é gramático e estilista como poucos no Amazonas. Membro da Academia Amazonense de Letras, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, do Clube da Madrugada e da União Brasileira de Escritores do Amazonas.

Padre Nonato é um dos mais ilustres pesquisadores da História da Igreja no Amazonas.

 

 

As comemorações do centenário de nascimento do escritor Péricles Moraes despertaram-me a evocação do grandes figuras literárias do passado, oradores, prosadoras e poetas de opulentos cabedais de cultura e requintada sensibilidade artística, homens egrégios, que tiveram, como os Varões Insignes do Livro do Eclesiástico, o instinto e a preocupação da beleza: "pulchritudinis studium habentes"!.

Péricles Moraes integrou essa plêiade gloriosa de caravaneiros da arte e magos do pensamento, que depositavam com rara elegância no altar da beleza o incenso, o ouro e a mirra de suas produções literárias e erupções oratórias. Dominando de pleno a língua e a literatura da França imortal, a Hélade dos novos tempos, encontraram nessa castália inesgotável os brilhos siderais e as tintas multicoloridas para as iluminuras de suas páginas mitológicas. Fascinavam-no os grandes mestres do estilo, que faziam do esplendor e da policromia uma constante obsessiva, entre os quais, Chateaubriand, Flaubert, Anatole France, Victor Hugo, Paul de Saint-Victor, Saint-Beuve, Remy de Gourmont, Bourget, Mauclair, Mirabeau e outros. As estantes de sua biblioteca não davam abrigo a escritores medíocres, que considerava "escrivinhadores de água chilra"...

Adriano Jorge, Agnello Bitencourt, Álvaro Maia e
Ribeiro da Cunha (a partir da esq.)

Adriano Jorge foi outro cimo daquela orografia mental. Caneta de ouro, cravejada de brilhantes, que escreveu páginas de rara beleza, mas talento tão dispersivo, a ponto de nunca se ter preocupado em publicar um livro. Entretanto, suas frequentes produções literárias nos jornais e revistas da terra dariam matéria para numerosos volumes. Além de suas teses de concursos, profundas e lapidares, deu à estampa duas primorosas alocuções: uma conferência sobre a luz e o discurso com que saudou o Núncio Apostólico Dom Bento Aloisi Masella no memorável 1° Congresso Eucarístico Diocesano de Manaus, em 1942. Dom Milton Pereira e eu, então seminaristas, ouvimos essa maravilhosa oração, que provocou na assistência alvoroçados aplausos. Fui empossado na Academia de Letras na presidência de Péricles Moraes (1950), mas não perdia as memoráveis sessões dos dois últimos anos da presidência de Adriano Jorge (1974-1948). Empolgava a assistência com o fulgor de sua oratória estonteante, como se arrebatasse do céu, para o recinto da Academia, a grandeza sideral da via láctea! ...

Benjamim Lima e José Francisco de Araújo Lima foram os irmãos Goncourt de nossa Academia. Benjamim foi o seu primeiro presidente e brilhou como teatrólogo. José Francisco, além de homem de letras de rútila cepa, foi cientista de proclamados méritos.

Leopoldo Peres brilhou com luz própria. Tive a alegria e o privilégio de receber suas luzes quando seu aluno de Literatura no Colégio Dom Bosco. Relevo que foi esse príncipe da inteligência que me espevitou a chama do amor às letras. Prosador cintilante e orador de eloquência magnificente.

Álvaro Maia foi um dos mais refulgentes brasões literários de nossa terra: professor, orador, prosador, poeta e político. Uma das inteligências mais fulgurantes do Amazonas, que deixou, seguindo orientação de Horácio, para a maturidade da vida a publicação de suas melhores obras.

João Leda era filólogo. Exímio cultor da vernaculidade, lia os clássicos da língua portuguesa com diurna e noturna mão, sobretudo Camilo e Rui Barbosa.

Heliodoro Balbi brilhou como orador. Suas produções literárias foram escassas, mas de raro brilho, entre as quais um primoroso soneto.

Jonas da Silva ficou glorificado na literatura nacional. Poeta de soberanos voos e joalheiro de maravilhosos sonetos, entre os quais "Coração" e "Santa Teresa".

Ribeiro da Cunha, médico e homem de letras, foi um grande humanista, mas de modéstia quase doentia. Jamais esquecerei uma observação de Péricles Moraes: "Padre Nonato: o Ribeiro da Cunha era tão extraordinário, que se revestia de profunda modéstia, dando-nos a impressão de nos pedir desculpas de ser grande"....

Waldemar Pedrosa faiscou com labaredas impressionantes. Cultura polimorfa e caráter sem jaça. Jurista, advogado e professor supereminente, conhecia profundamente a língua francesa e era um príncipe na arte da conversação. Fui eu o orador na sessão de saudade que a Academia fez realizar no 30° dia de seu decesso, quando afirmei: "Não só da vida, mas da própria morte fez uma obra de arte".

Agnello Bittencourt não pode ser esquecido na pulcritude de seu caráter e na grandeza de sua cultura. Pesquisador beneditino e pedagogo notável, encontrou na transmissão de seus opulentos conhecimentos um dos encantos da vida.

É limitado o espaço de que disponho, e infelizmente, fico privado de escrever sobre Arthur Virgílio do Carmo Ribeiro, Huáscar de Figueiredo, Vivaldo Lima, Félix Valois Coelho, Ramayana de Chevalier, André Araújo, Mitrídates Corrêa, Anísio Jobim, Aristóphano Antony, Djalma Batista e outros, que deixaram de seu contubérnio com as letras vestígios inapagáveis!.

domingo, março 12, 2023

SILOGEU AMAZONENSE & ACADÊMICOS

 

Sede (ontem e hoje), Adriano Jorge, Jorge de Moraes e
Moacir G. Rosas (abaixo) 

(Sentido horário) Violeta Branca, Álvaro Maia, Ribeiro da Cunha,
 Agnello Bittencourt, Almir Diniz e Zemaria Pinto

Antisthenes Pinto (acima), Alencar e Silva e
Tenório Telles 

domingo, fevereiro 04, 2018

REVISTA "AMAZONIDA"

Efigênio Sales



No encerramento do governo de Efigênio Sales (1925-29), a revista Amazonida, de Carlos Mesquita, publicou as fotos aqui postadas.


Esposa do governador 

Senhora do Senador, que viveria seu último mandato, pois a
revolução de Vargas extinguiu o Legislativo



segunda-feira, novembro 14, 2016

CLUBE DA MADRUGADA: 62 ANOS (2)

Sede da Academia Amazonense
Terceira parte da avaliação elaborada pelo poeta Alencar e Silva sobre esta agremiação cultural, que completa 62 anos no próximo dia 22.
Esta avaliação encontra-se no livro deste poeta, Quadros da Moderna Poesia Amazonense, publicado pela Editora Valer (2011).

PRELUCIDAÇÃO (2)

A Academia Amazonense sempre abrigou em seus quadros grandes luminares, como — para referirmos só alguns dos que já não estão entre nós — Heliodoro Balbi, Agnello Bittencourt, Leopoldo Péres, Nunes Pereira, Ramayana de Chevalier, Genesino Braga, Aristófano Antony, André Araújo, Djalma Batista, Mavignier de Castro, Pe. Nonato Pinheiro, João Mendonça de Souza, Mário Ypiranga Monteiro, entre outros tantos.

Ontem, como hoje, e como qualquer outra de suas congêneres, terá passado, naturalmente, por períodos luminosos e sombrios, não havendo, por isso, qualquer boa razão para se obscurecerem fatos que lhe sejam desfavoráveis (ou, mais provavelmente, a algum de seus membros), pois mesmo destes podem-se extrair preciosas lições. Por exemplo: que não se pode nem deve empecer os passos aos mais jovens, na tentativa (inglória e inútil) de impedir o advento do novo. 
Todo artista sonha abrir o seu próprio caminho na floresta dos signos. Não pode conformar-se a soluções que não sejam as suas, a despeito de todas as disposições em contrário.
Efetivamente, nada do que se diz aqui a respeito da nossa Academia é fruto do maldizer ou malquerer, até porque muito nos honra ostentar o colar acadêmico e participar da ilustre companhia dos confrades. Em verdade, não falamos senão do que conhecemos. E conhecemo-la praticamente desde o início da nossa adolescência, quando, residindo nas suas proximidades, lá comparecemos várias vezes, fazendo companhia a nosso avô (Joaquim de Barros Alencar), homem culto e frequentador habitual dos saraus acadêmicos.
Dr. Adriano Jorge
Numerosas são as lembranças que guardamos das sessões a que assistíamos. E de uma, em especial, presidida por Adriano Jorge, em razão do comentário ali feito por meu avô. Era a sessão de posse do acadêmico Félix Valois Coelho. Ia o Dr. Adriano conduzindo a sessão com certa mornidão, quando, de súbito, resolve mudar de tom e, abandonando as anotações protocolares, encara o auditório e diz: "Acabemos com essas frioleiras e falemos linguagem de gente!". Comentário risonho que nos foi soprado ao ouvido pelo avô: "Pronto, Neto, agora que ele perdeu a compostura, o seu discurso vai ganhar em brilho". E assim foi.

O Dr. Adriano Augusto de Araújo Jorge era médico humanitário, brilhante conferencista, cuja obra não foi retinida em livro, salvo, ao que se saiba, apenas um opúsculo, de cunho científico, sobre as propriedades da luz, e artigos publicados em periódicos locais.

Assistimos a outras daquelas sessões, presididas pelo mestre João Leda, o calepinista de Vocabulário de Ruy Barbosa e vernaculista de Os Áureos Filões de Camillo, e por Péricles Moraes, o ensaísta de grandes méritos de Figuras & Sensações e Legendas & Águas Fortes, e biógrafo de Coelho Neto e sua obra, Leopoldo Péres e A Vida Luminosa de Araújo Filho.

À porta de sua residência, na rua Henrique Martins, ostentava uma placa (única por mim vista ao longo da vida) esmaltada, com letras azuis sobre fundo branco: “Péricles Moraes Escriptor público". Esta é, a meu ver, uma das glórias que distinguem esse ilustre homem de letras (como ainda se dizia): a de ter-se erigido em escritor em seu meio e ter vivido honrada e exemplarmente do seu oficio. Escritor público!
Quantos, antes ou depois de mestre Péricles Moraes, terão tido tão alta consciência da própria benemerência e da importância e validade dos serviços prestados ou postos à disposição de quem deles necessitasse, como qualquer profissional liberal?

Estas notas preambulares não se teriam concluídas se não as aproximássemos do ponto em que se daria a nítida ruptura ou separação entre dois tempos: 1954 ano da fundação do Clube da Madrugada.

Antes dessa data, a poesia que se praticava ou cultuava em Manaus era em tudo igual ao que sempre se fizera ao longo de toda a nossa insipiente civilização, como se nada de mais importante fora feito pelos centros mais adiantados do país. Era o mesmismo. E ninguém queria ou buscava mudar coisa alguma.  (Segue)

quinta-feira, março 17, 2016

REVISTA DA ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS

Em sua maioria, as associações culturais sem fins lucrativos padecem de recursos, por isso, as publicações prometidas sempre circulam fora do período. A Academia de Letras amazonense enfrenta semelhante quebra-cabeça, e a dificuldade não é de tempos correntes. Basta lembrar que a dois anos de seu centenário, apenas 31 revistas foram editadas pela AAL.
Como disse, esse fato vem desde a fundação dessa agremiação. Pequena amostra disso encontra-se no matutino O Jornal (edição de 4. fev.1946), portanto, há 70 anos, quando saúda o lançamento de número da Revista.  




Revista da Academia Amazonense de Letras

Após um interregno de 10 anos, volta a aparecer, gloriosa, a Revista da Academia Amazonense de Letras. Dela temos sobre nossa mesa de trabalho um elegante exemplar, que nos trouxe, numa carinhosa deferência, o seu diretor, esse espirito luminoso que é Péricles Moraes.

Mesmo tomado dos múltiplos afazeres de sua espinhosa função de secretário-geral do Estado, mestre Péricles Moraes, num de seus gestos cativantes, quis trazê-la pessoalmente aos seus devotados confrades da redação de O JORNAL e do DIÁRIO DA TARDE, o que ainda mais singulariza a oferta, já por si generosa.

A Revista da Academia Amazonense de Letras, nesta madrugada auspiciosa de 1946, tem um significado de esperança, uma afirmação de vida que se não pode desmerecer. Síntese palpitante da inteligência, da cultura amazônica, documenta o vigor, o brilho da nossa existência pensamental e oferece uma conclusão jubilosa: um povo que realiza tanta beleza, uma raça que vibra com tão intensa emoção não está perecendo!

Pelas suas 100 páginas, um caudal maravilhoso de erudição e de arte escachoa. Adriano Jorge, Leopoldo Péres, Péricles Moraes, com dois trabalhos lapidares de crítica, João Leda, Raul de Azevedo, André Araújo com uma notável página sobre Os jesuítas e a assistência à infância no Brasil, Jonas da Silva, Huascar de Figueiredo, Américo Antony, Artur Virgílio com o seu ilustrado discurso de posse entre os imortais, Anísio Jobim, Agnelo Bittencourt, Moacyr Paixão, Djalma Batista e Mario Ypiranga Monteiro, firmam, nela, obras definitivas, que encheriam de orgulho qualquer literatura.

Na verdade, os "párias dos letras", da Academia Amazonense, derramam a mãos cheias tesouros de sensibilidade e estética, que não são comuns nos dias atuais do mundo atribulado...

quarta-feira, março 02, 2016

ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS: ANOTAÇÃO

Sede do silogeu amazonense
Nas proximidades de seu centenário, transcrevo de O Jornal, edição de 17 de abril de 1960, a publicação sobre a Casa de Adriano Jorge, ao tempo em que esta entidade cultural contava 42 anos de existência. 


 

VIDA E EXPRESSÃO CULTURAL DA

ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS


1 — Ligeiro retrospecto acerca dos quarenta e dois anos de atividades do SILOGEU AMAZONENSE; 2 — Os primórdios da instituição; 3 — Missão cultural da Academia; 4 — Os maiores expoentes do passado

A próxima solenidade de posse do novo acadêmico Dr. Ramayana de Chevalier, que irá ocupar no Silogeu a Cadeira nº 2, cujo patrono é Euclides da Cunha, sugeriu-nos uma reportagem sobre a fundação e vida cultural da Academia Amazonense de Letras, a mais alta expressão da intelectualidade do Amazonas. Essa instituição de letras e cultura foi fundada no dia 1º de janeiro de 1918, numa casa da rua Monsenhor Coutinho, hoje residência do Dr. Gualter Batista.

Péricles Moraes, uma das maiores expressões literárias de nossa terra, associando-se a um grupo de intelectuais, foi a alma da fundação do novo grêmio, que primitivamente se chamou Sociedade Amazonense de Homens de Letras. A princípio sem sede própria, reuniam-se em salões de outras instituições sociais, como o Ideal Clube e a Associação Comercial, para as sessões solenes.

Mais tarde, por proposta do escritor Raul de Azevedo, foi mudado o nome da Sociedade para Academia Amazonense de Letras, devendo-se ao general Nelson Mello, quando Interventor Federal, a doação da atual sede do sodalício, que outrora era o teatrinho do Instituto Benjamin Constant.


A MISSÃO DA ACADEMIA

A Academia Amazonense de Letras, como suas congêneres, tem por missão promover a defesa da língua pátria e incentivar o cultivo das letras e da literatura nacional. Vejamos o artigo 1º de seus Estatutos: "A Academia Amazonense de Letras fundada a 1º de janeiro de 1918, com a denominação de Sociedade Amazonense de Homens de Letras, filiada à Federação das Academias de Letras do Brasil, tem pôr fim a cultura do idioma e da literatura nacional mediante a ação individual ou coletiva de seus membros".
Como se depreende, portanto, dos seus Estatutos, a defesa do idioma nacional, pelo culto da literatura, é a função específica do sodalício. Essa função se amplia e se completa pela promoção de conferências e outras comemorações festivas relativamente às grandes datas nacionais e aos mais expressivos expoentes da literatura.

POLTRONAS E PATRONOS

A Academia possui 30 poltronas, com os respectivos patronos, tomados entre as mais notáveis figuras da literatura nacional e do cenário cultural do Amazonas. São os seguintes: Péricles Moraes, Euclides da Cunha, Gonçalves Dias, Sílvio Romero, Araújo Filho, Adriano Jorge, Maranhão Sobrinho, Torquato Tapajós, Machado de Assis, Barão do Rio Branco, José Veríssimo, Olavo Bilac, Tobias Barreto, Barão de Santana Nery, Graça Aranha, João Leda, Francisco de Castro, Jonas da Silva, Coelho Neto, João Ribeiro, Tenreiro Aranha, Farias Brito, Cruz e Sousa, Joaquim Nabuco, Araújo Lima, Rui Barbosa, Lafayette Pereira, Aníbal Teófilo, Capistrano de Abreu, Castro Alves.

BRASÃO E LEGENDA

A Academia possui um brasão, símbolo de sua expressão nobiliárquica, que assim se descreve:

Escudo: Em campo de blau, um livro aberto, encadernado de goles e circundando da inscrição ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS, de sable.

Timbre: Dois ramos de louros de ouro.

Paquife: Um facho de ouro irradiando de um vaso de prata.

Dístico: Em listel de ouro, a legenda LITTERARUM SPLENDOREM EXCELENTES (cultivando o esplendor das letras), de blau.

AS MAIORES FIGURAS DO PASSADO

No decurso de seus quarenta e dois anos de existência, a Academia Amazonense de Letras pôde contar em seu grêmio com vultos de impressionante envergadura cultural, tendo alguns alcançado vitorioso renome nacional. Citaremos algumas expressões de maior relevo, embora reconheçamos o risco das omissões.


Adriano Jorge
ADRIANO JORGE — médico, crítico de arte e de literatura, professor de firmada competência no magistério amazonense. Era um verdadeiro polímata, cuja erudição impressionava, aliada à sua eloquência, feita de fidalguia, imaginação e fulgurância. Infelizmente era um talento dispersivo, despreocupado da consagração da posteridade. Não deixou um livro sequer, que lhe documentasse as dimensões intelectuais. Foi o segundo presidente da Academia, sucedendo ao escritor Benjamim Lima.

OS IRMÃOS LIMA — A Academia teve em seu seio dois notáveis irmãos, os acadêmicos Benjamim Lima e Araújo Lima, espécie de "irmãos Goncourt" da Academia Francesa. Benjamim Lima era professor e teatrólogo, e foi o primeiro presidente da Academia. Estilista famoso, primava pela expressão luzida, tendo verdadeiro horror da vulgaridade literária. Queria o período perfeito e harmonioso, que lhe saísse da pena como um lampejo. A conferência que pronunciou no Teatro Amazonas, quando do falecimento de Olavo Bilac, é um primor de arte. Seu irmão era médico, dos mais célebres que o Amazonas já possuiu. Publicou a obra Amazônia — a terra e o homem, incontestavelmente um dos livros mais sérios que já se escreveram sobre a região.

RIBEIRO DA CUNHA — Outro médico notável, dono de uma cultura portentosa. Era, porém, de uma modéstia quase doentia, quase acanhado pela posse de uma erudição magnífica, dando a muitos a impressão de que se desculpava da própria superioridade. Seu nome ilustra o frontispício de um dos nossos grupos escolares [atual Escola Estadual].

JONAS DA SILVA — Poeta cintilante, de sensibilidade extraordinária. Publicou algumas obras, entre as quais Czardas e Uhlanos. Ficou famoso o seu soneto Santa Teresinha.

JOÃO LEDA — Exímio cultor do vernáculo, esmaltava sua prosa com o ouro da língua portuguesa. Mediante longo e cotidiano contubérnio com os clássicos, conseguiu expressar o seu pensamento numa linguagem límpida e escorreita, que logo acusava seus abalizados conhecimentos do idioma. Se possuísse noções profundas e seguras de letras clássicas (Latim e Grego), teria sido um filólogo de expressão continental. Dos clássicos, conhecia profundamente Rui Barbosa e Camilo. Publicou: Nossa língua e seus soberanos; A Quimera da Língua Brasileira; Os áureos filões de Camilo; Vocabulário de Rui Barbosa; e Da relativa exação dos fatos históricos (tese ao concurso de História).

PERICLES MORAES — Notável escritor e crítico literário. Foi irrecusavelmente a maior figura da Academia, em todos os tempos. Sua alma, seu coração e sua própria vida, abalando-lhe os alicerces com o seu falecimento. Estilista de fino recorte literário, foi verdadeiro artista da expressão, transmitindo suas mensagens em períodos flamantes e lapidares. Manteve nome nacional, tendo sido amigo particular das maiores figuras da Academia Brasileira. Publicou: Figuras & Sensações; Legendas & Águas-fortes; O Retrato de Augusto Linhares; Coelho Neto e sua Obra; Confidências Literárias; Leopoldo Peres e O Exemplo de Leopoldo Neves.

OUTRAS FIGURAS

Infelizmente, o espaço de que dispomos não nos permite tecer demoradas considerações acerca de outros vultos notáveis e grandiosos, que deram particular refulgência à Academia, entre os quais: Leopoldo Peres, Huascar de Figueiredo, Araújo Filho, Gaspar Guimarães, Desembargador Sá Peixoto, Valois Coelho, Jorge de Moraes, Alfredo da Mata, Raul de Azevedo etc.

UM LEGADO


A Academia teve sua fase de esplendor e de glória. As grandes figuras literárias que a iluminaram no passado opulentaram e consolidaram seu patrimônio. Presentemente, possui algumas expressões de reconhecida cultura e de indiscutível prestígio nas letras, brasões que honram a heráldica intelectual do Amazonas. É um legado cultural que os homens ilustres do passado transmitiram à posteridade.

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

ADRIANO JORGE (1879-1948)

Na passagem do 48º aniversário do saudoso médico, presidente da Academia Amazonense de Letras, o matutino O Jornal (edição de 20 agosto 1937) publicou o texto abaixo.
Adriano Jorge


Consagra-se o dia de hoje à existência augusta e luminosa de Adriano Jorge. Não só entre a família de jornalistas de O JORNAL. Estimam-no e admiram-no todos da coletividade manauense. Muito logicamente.

Difícil encontrar-se, na Cidade, quem não deva, ao seu diagnóstico prodigioso, fortuita assistência.

Acontece que esse grande médico, dono da maior clinica local, é um homem bom, por vocação e filosofia, sendo o seu melhor prazer a pratica, indistinta, do bem.

Depois, o nosso aniversariante é a legenda mais complexa e expressiva da inteligência daqui. Professor de várias matérias, jornalista político, cujos artigos, contra os sobas de  ontem, no "Correio do Norte", ficaram na memória do povo, pela eficiência, e na dos profissionais do panfleto, como modelo, cronista das artes plásticas, ensaísta, atualíssimo de assuntos filosóficos, literários e astronômicos, o preclaro presidente da Academia Amazonense de Letras destaca-se, principalmente, como orador de raça, com as suas orações perfeitas, ouvidas, sempre, com o mais vivo entusiasmo, nas reuniões acadêmicas, na Assembleia Legislativa e nos comícios de praça pública, aonde, ombro a ombro com o saudoso e estupendo Heliodoro Balbi, tirou os resultados mais satisfatórios dos sentimentos cívicos da nossa gente.

E' um artista completo. Sua forma prestigia as nossas letras com a intensidade de movimento à Euclides da Cunha ou Fialho, uma sintaxe à Aloysio ou Francisco de Castro e a rica lexicologia de Camilo. Esse o Adriano Jorge, autor de "tantas páginas, que, enfeixadas em volumes, seriam fontes consultivas, partituras da sinfonia amazônica, noturnos de um coração bom".

O Dr. Álvaro Maia, "que aprendeu, com Adriano Jorge, nos recintos ginasiais, a amar a poesia do idioma", e defendeu, "ao sol da mesma trincheira, os problemas de sua terra e as aspirações de seu povo", disse, dele, certa vez: "A esse artista desassombrado, que defende o povo, mas não corteja a popularidade, surdo ao vozear dos medíocres e senhor das próprias atitudes, devemos justas consagrações, que lhe nunca fizemos, porque não as aceitaria, satisfeito com os aplausos da própria consciência".

A homenagem, que a Academia se dignou preparar-lhe, obterá, certamente, êxito de apoteose.

quarta-feira, outubro 07, 2015

VIOLETA BRANCA

Recorte do jornal
Nascida em Manaus, em 1912, Violeta Branca Menescal de Vasconcelos será homenageada na Feira Literária do SESC, entre 8 e 12 do corrente.

Integrou a Academia de Letras do Amazonas, que a recepcionou em setembro de 1937 (leia o texto abaixo). Sem que o noticiário indique o local da festa. Por esse acontecimento, tornou-se a primeira mulher a ingressar em uma Academia de Letras no país. 

Retirando-se de Manaus em definitivo perdeu, por disposição regimental, esse galardão acadêmico. Uma década depois, atualizados os Estatutos da Casa de Adriano Jorge, a homenageada do SESC foi reincluída na Cadeira nº 28, do patrono Anibal Teófilo.

Violeta Branca morreu em 2000.


A FESTA DA ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS (*)
 Realizou-se a festa de recepção da poetisa Violeta Branca Menescal de Vasconcelos, na Academia de Letras. Festa de arte, nada lhe faltou para ser uma grande hora musical, uma página de coloridos impressionantes, que se registrou na crônica das celebrações acadêmicas.
Salão cheio, repleto de elementos de alto valor social, ali estava a representação lidima do espírito da cidade, da alma encantadora e harmônica do Amazonas – terra virginal de beleza, terra de mistério e de maravilha. 
Na festa de Violeta Branca, na Academia, ela teve a consagração solene de seus méritos excepcionais, de suas qualidades rítmicas de inquieta alegria. Poetisa dos gestos heráldicos e das atitudes impressivas, a hora acadêmica em que se lhe deu ingresso no seio da imortalidade regional teve a cor e o movimento das grandes luzes meridionais. 
Logo depois de abrir a sessão, o presidente da Academia, Adriano Jorge, que o fez com a cintilação de sua palavra de cambiantes inesperados e realizações surpreendentes de beleza, deu a palavra à acadêmica Violeta Branca. 
Esta, assomando a tribuna sob uma demorada e calorosa salva de palmas, leu um maravilhosos poema em prosa, um discurso de sensibilidade, um fino estudo, delicado e gentil, destacando-se as figuras de Aníbal Teófilo e Raimundo Monteiro. Causando ótima repercussão de simpatia no auditório, foram-lhe as derradeiras palavras, como seguimento de seu entusiasmo, coberto de aplausos.Gentil Puget, as senhorinhas Maria Celeste Vieira e Yeda Menezes prestaram, então, com relevo próprio de seus temperamentos artísticos, o concurso de sua arte.
Teve a palavra em seguida, o escritor e acadêmico Pericles Moraes. O discurso do notável cultor das letras, eminente pensador amazônico, em que a pujança da terra se manifesta pela expressão de sua cultura, que é maior e mais vasta consagração  dos recursos literários das duas últimas gerações do Brasil, foi um hino de arte à glorificação da poetisa, cujos versos tiveram um exame detido e minucioso, pondo em segredo emocional de suas poesias, a saudade do mar, a nostalgia das grandes vagas, o temperamento de requintes com que a mesma faz os seus versos, nos quais a melodia está na arte dos assuntos e nas cambiantes da sua sensibilidade. 
O orador passou depois a estudar a personalidade de Aníbal Teófilo, de quem falou com calor e com entusiasmo de saudade e de reverência à sua memória, com os traços inconfundíveis da amizade e da admiração.
O discurso do escritor Pericles Moraes encheu de frêmitos de aplauso a assistência durante mais de uma hora e foi demoradamente aplaudido ao terminar.
O pianista Gentil Puget executou uma composição própria, que foi bastante festejada pela assistência. A graciosíssima e distinta senhorita Ines Roberti, com a expressão de sua graça elevada e brilhante, disse, então, alguns versos de Violeta Branca, aplaudidos calorosamente.

Encerrando festa, o presidente Adriano Jorge anunciou que o dr. Maximno Correa, honrando a Academia, iria executar alguns números de piano. O notável virtuose patrício, recebido por uma salva de palmas, executou um estudo de Backhauss e uma Fuga em ré menor.
E assim terminou a festa de Violeta Branca na Academia Amazonense de Letras, deixando a lembrança inesquecível de uma grande, de uma expressiva hora de imortalidade.


(*) O Jornal, 15 set. 1937

quinta-feira, julho 04, 2013

AMÉRICO ANTONY: DUAS HISTÓRIAS


Américo Antony, 1932
Duas facetas do poeta Américo Antony, reproduzidas do livro do saudoso Mário Ypiranga Monteiro (Histórias facetas de Manaus: anedotas envolvendo figuras amazonenses).

        1.   POIS SE ELE É ATÉ POETA...

Contava o governador Dr. Álvaro Botelho Maia que um dos prefeitos do interior do Estado, em audiência requerida com empenho, queixava-se de que o Dr. promotor na sede, Dr. Américo Antony, assumia atitudes um pouco absurdas para os habitantes misoneístas não avezados a certas familiaridades.
Álvaro Maia,
1950
- Por exemplo? - pergunta o governador.
- É que ele vai pessoalmente examinar as denúncias de defloramento, obrigando a moça a mostrar as vergonhas...
- E não há médico legista na sua sede? Como poderá ele atestar defloramento se não observar o tamatiá da vítima?
- Mas metendo o dedo no buraco, governador?
- É que sem dúvida o promotor é míope...
- Míope ele é, todo mundo sabe... mas sem-vergonha curioso? Isso não...
- Sr. prefeito, posso garantir-lhe que o Dr. Américo Antony é gente séria e honesta, o que ele faz é aplicar métodos mais práticos...

O prefeito, admirado, dando marcha à ré:
- Sério? - Honesto? - Mas se ele é até poeta, governador...

Álvaro Maia engoliu seco. Riu de banda, aquele seu jeitinho de aceitar as coisas erradas e concluiu:
- Isso não é maldade, pois eu também sou poeta...

O prefeito, admirado, erguendo-se:
- Não me diga! - O senhor... também?...

 2.    O CAGALHOTO

O poeta Américo Antony andava sempre com um rolo de poemas sob o braço, a ver se sensibilizava alguém para editar sua obra. Tornava-se até importuno quando chegava ao café com aquele calhamaço já cinzento de tanto manuseio. E pior é que declamava em voz alta, não raro perturbando o sossego, como fez uma noite de recepção na Academia de Letras.
Resolvido que publicaria um volume de seus versos antigos, deu ao escritor Péricles Morais a honra de prefaciar a obra. Sendo
também poeta, pois publicara sonetos, Péricles Morais não teve dúvida em escrever brilhante prefácio, onde esclarecia a tendência simbolista do poeta.

Por mais brilhante que fosse Américo Antony, nem era perleúdo nem conhecedor de “escolas" literárias. Sua biblioteca, que eu conhecia, resumia-se em meia dúzia de obras de poetas estrangeiros e nacionais, Byron, Shakespeare, Wordswort, Bilac, Guerra Junqueíro (conhecia de cor “Ó melro”), o Bocage erótico, que declamava com ênfase. Nada de Manuel Bandeira, de Mário de Andrade, de gente modernista, a quem desdenhava.

Lido o prefácio, meteram-lhe na cabeça não aceitar a opinião do mestre Péricles, e Américo Antony não teve dúvida em publicar na página dos Anúncios de O Jornal, um “A quem interessar possa", desagravando-se da pecha de simbolista.

Naquela altura havia ele sido eleito membro da Academia Amazonense de Letras e a sua tempestuosa reação incomodou a quantos, acadêmicos ou não, lhe conheciam a obra. Péricles Morais não havia lido o insólito desmentido, e foi o presidente Dr. Adriano Jorge  (foto ao lado)quem da "Farmácia Barreira" o colocou a par da besteira, textualmente:
- Péricles, você já leu o que aquele idiota escreveu sobre o prefácio?
- Homem, você perdendo tempo com um mentecapto, e ele a despejar um cagalhoto em cima da maravilhosa peça...
- Vou convocar a Academia e despejá-lo de lá com toda a sua maluqueira rimada...

O dito foi feito e Américo Antony perdeu duas oportunidades: a de ter o livro editado por causa do panegírico de Péricles Morais, e a de membro da Academia. Mais tarde, passado aquele zunzunzum, eu propus a volta do poeta ao grêmio.
Está registrado em ata.

domingo, junho 23, 2013

GETÚLIO VARGAS (1882-1954)

 

Adriano Jorge, 1929
Há 70 anos, este artigo, publicado no ensejo do aniversário natalício do presidente Getúlio Vargas, foi escrito pelo saudoso Adriano Jorge. Adriano era alagoano, mas fez sucesso em Manaus na primeira metade do século passado, seja no exercício da medicina, seja na presidência da Academia Amazonense de Letras, seja como legislador municipal.
Contudo, foi com suas manifestações em diverso ambientes que se notabilizou, apesar de não ter deixados qualquer livro. Raros são os trabalhos literários impressos.
O personagem que Adriano Jorge homenageia sempre me intrigou. Sabido que foi o único ditador pessoal no país, no período que vai de 1930 a 1945, apesar disso, deixou seu nome benquisto na história. Raros são os que se referem a ele mencionando seu governo dominador. Apesar dos excessos promovidos em sua governança, não há Comissão da Verdade que pretenda tocar no saudoso “velhinho”.
A exposição do falecido Adriano Jorge me permitiu entender o carisma de Getúlio Vargas.
 
A LIÇÃO GETULIANA (*)


Um grande poeta, que ainda foi maior depois que a loucura lhe substituiu a ambiência das realidades triviais por uma atmosfera convulsa de radiações e policromias desabrochadas no seio túrbido de sua alma doente, disse que “não devemos consentir se esbata em nossa nobreza o desejo de modelar essa porção do infinito, que existe dentro de nós”.
Há de fato uma luminosa argila transcendente, de cujos silicatos imponderáveis a alma humana plasma, em ato de quase divina criação, aquela essência de ideal e de transfiguradora beleza, a que Holderlin chamou “essa porção de infinito, que existe dentro de nós”.
É quase sempre um bruxuleio tênue, o pirilampejar intermitente e talvez imperceptível; mas há nesse levíssimo hálito de magnética inspiração, a identificá-lo com o infinito, o latejar insuspeito, mas sempre heroico e sobre-humano, de todas as nossas aspirações de glória. 

Para que se desencadeiem, porém, todas as energias potenciais dessas fontes interiores de entusiasmo e de fé, é imprescindível o advento orientador e polarizador de uma ideia, no sentido hegeliano do termo, isto é, de um símbolo sobrecarregado de formidáveis energias criadoras, de um “mito”, para empregar a expressão daquele selvagem gauleiter dos territórios da Ucrânia conquistados temporariamente aos russos, Alfred Rosenberg, que é o místico depravado do nazismo e que escreveu um livro, que é um crime inexpiável: “O Mito do século XX”.
É, pois, um impulso exógeno que ateia os grandes incêndios humanos, porque a chama íntima da alma do homem poderia, sem esse motivo exterior, permanecer apenas uma pobre fagulha semidormida, como o dinamismo heroico de Paulo de Tarso até antes da deslumbradora explosão da estrada de Damasco.

Apareceu um homem, no Brasil de hoje, erigido em almenara do país, com a enorme porção de infinito de sua grande alma a estuar na ansiedade de uma remodelação nacional, que fosse a correção eficaz dos erros monstruosos de que se abeberara a nossa democracia.
Esse foi o presidente Getúlio Vargas, surgido como um mensageiro do Destino, portador do símbolo, do mito, da ideia renovadora, a cujo clarão o panorama de nossa história atual havia de iluminar-se, como realmente se iluminou, numa imprevista pirotecnia de centelhas.

Os primeiros gestos desse homem foram rigidamente realizados por um braço firme na sua musculatura de ferro. Apenas, esse braço não pesou sobre o país nem muito menos anulou no povo a confiança no Bem, a consciência de todos os seus direitos e a fé na Justiça; antes, concentrou o seu glorioso esforço no afã maravilhoso de amparar este povo.
De um belo e grande livro de Barrés disse Ortega y Gasset que “é tao singelo e radiante como se fora escrito em cristal”. Assim a obra colossal do presidente Getúlio Vargas. Era preciso demonstrar ao Brasil que “liberdade” e “democracia” não podiam ser sinônimos de anarquia e licenciosidade... Para consegui-la, porém, a lição que se impunha seria a destruição de um regime, no qual sobrepairavam, consternadoras e impatrióticas, as forças do Mal.

E o presidente Getúlio Vargas abriu naquela floresta trevosa as clareiras ensolaradas do civismo e da verdadeira Democracia, sem nunca asfixiar, tiranizar ou esmagar.
Porque a “verdadeira Democracia” é a participação direta – isto é, sem procuradores mais ou menos infiéis – do povo na Coisa Pública, numa interpenetração, feita de amplas compreensões, do governo e das massas, a amparar-se mutuamente, num clima de alegria e confiança.

Isso, que sempre se afigurou impossível aos empreiteiros e encenadores da avelha tragicomédia das democracias; isso, que, no entanto a singular estrutura psicológica dos britânicos vinha pouco a pouco exibindo e revelando como uma promessas da “verdadeira Democracia”, a germinar numa gleba espiritual ainda inadequada e ingrata pelo adubo inadaptado das ambições efervescentes; isso o presidente Getúlio Vargas semeou e cultivou, realizou e agigantou, propagou e ensinou, fazendo frutificar em convicções intensas através do mundo, aquilo que, no Brasil, a sua grande alma cristã, nutrida da beleza intrínseca da Rerum novarum e Quadragesimo anno, entregara ao povo, numa doação real de real felicidade.
O espirito do Brasil de hoje, iluminado pelo dinamismo do presidente Vargas, lá está na Carta do Atlântico – semente rútila do mundo novo do Após-Guerra; e a prodigiosa lição getuliana irrompe e transuda das entrelinhas do Plano Deveridge – documento indisfarçável da sede de cristianização dos povos, palpitante na alma, já evidentemente fatigada da tragédia horrenda, dos dirigentes da política internacional no período novo e estranho da história do mundo, rompendo enfim dos Círculos do Inferno.

Assim, o presidente Getúlio Vargas, polarizador magnífico das energias brasileiras e símbolo vivo da bravura americana, surge como um apóstolo de beleza, na sua esplendida predicação realística da bondade feita força construtiva.
Na hora tremenda das atitudes decisivas, na encruzilhada da guerra, no momento crucial da escolha entre o Bem e o Mal, o presidente Vargas, sem precisar apontar ao Brasil o caminho da honra, disse sem hesitações aos Aliados que o Brasil estava pronto para investir pela estrada, já povoada dos passos gloriosos dos povos livres e belos e nobres, porque só são nobres e belos e livres os povos que se defendem contra a (ilegível) de sangue e lama extravasada sobre o mundo da alma bichada dos escravos...

No dia do aniversário natalício do Grande Presidente, o Brasil está a revelar ao mundo inteiro o culto fervoroso, e às vezes quase paroxístico, que lhe merece o seu maior homem atual. Nunca um chefe – ainda quando se considerem os caudilhos mais intensamente dominadores – foi tão amado e tão admirado.
Dentro dos brilhos maravilhosos do Pan-Americanismo, que hoje não é apenas uma ideia e um ideal, mas é uma enorme consciência coletiva em marcha para a luta e para a vitória, a glória maior do Brasil armado e resplandecente é Obra sobre-humana do Presidente Getúlio Vargas.

(*) O Jornal – Manus, 19 de abril de 1943