CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

15 de junho de 2013

INVASÃO DA MANÁOS IMPROVEMENTS (IV)

A questão do fornecimento de água e recolhimento de esgotos
Governador Jonatas Pedrosa
contratada no governo de Silvério Nery (1900-04) vinha complicando-se. Alguns consertos legais foram tentados: em 7 de outubro de 1911, a lei 688 “autoriza o Governador do Estado a entrar em acordo com o prefeito da Capital, a fim de que este possa adquirir os serviços da Manáos Improvements Limited”.
Ou seja, com a força do leão, o Estado passa ao município o “abacaxi”, porque se fosse doce, certamente o governador Antônio Bittencourt não entregava.
Às vésperas do levante, em 2 de maio, a lei nº 717 “aprova o novo contrato celebrado pelo governo do Estado com a Manáos Improvements Limited . Foi outra tentativa fracassada e deu-no-deu.

Sigo transcrevendo os acontecimentos ocorridos há um século que, segundo os relatos do Jornal do Commercio, no horário vespertino em que digito este texto, o bicho estava solto.

 
Recorte do jornal, Manaus,
17 de janeiro de 1913

Enquanto tais fatos dolorosos se passavam, o povo, dele sabedor e guiado por agitadores e arruaceiros que sempre aparecem em tais ocasiões, formando dois grandes grupos, partia em direção à rua dos Remédios (hoje Miranda Leão), onde se acham os escritórios da Manáos Improvements e ao jornal O Tempo, à rua Municipal (hoje avenida Sete de Setembro). 

O primeiro grupo, invadindo desenfreadamente aqueles escritórios, forçou as portas e quebrou o mobiliário, atirando à rua quanto pode encontrar que fosse transportável.
O segundo, chegando à frente da redação de O Tempo, também, com indescritível vandalismo, arrombou as portas, apedrejando o edifício, atirando utensílios e móveis à rua, ateando-lhes fogo, em seguida. Na sua fúria destruiu as oficinas desse diário.

Não satisfeito com esse reprovável feito partiu pela avenida Eduardo Ribeiro acima, esbandalhando as oficinas do Jornal de Manáos, cujos móveis foram arrastados à rua e reduzidos a cinzas.
Nessa ocasião houve correrias na avenida Eduardo Ribeiro, tendo sido os perturbadores da ordem postos em debandada por forças do exército, constando-nos terem se registrado alguns ferimentos.
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Cerca das 23h, chegou-nos às mãos o Boletim firmado pelos Srs. governador do Estado e general comandante da Região, que é do teor seguinte:
Tendo as forças federais de metralhar o edifício do quartel de polícia onde estão alojados os soldados revoltados contra o governo legal, avisamos as famílias, os comerciantes e estrangeiros que residem nas proximidades do quartel, a retirar-se no prazo de duas horas.
(aa) General Belo Brandão. Dr. Jonatas Pedrosa.
 



Quartel da Força Policial, em 1928


Cerca de 1h30 da madrugada (do dia 16), a artilharia do 19º Grupo de Campanha, sob o comando do capitão Otaviano de Souza Gomes que, com uma bateria se postou na rua Municipal, rompeu fogo contra o quartel de Polícia auxiliado pelo tenente Francisco das Chagas Pinto Monteiro, com outra bateria no alto da avenida Treze de Maio (agora Getúlio Vargas), tendo antes intimado os revoltosos a que se rendessem, recebendo formal recusa.
Às 2h20, mais ou menos, da madrugada terminava o fogo, avançando então as forças do Exército sobre o quartel, onde só encontraram o corneta de piquete que, ao que consta, foi nessa ocasião ferido.
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Pela madrugada, um novo grupo de amotinados, como revanche aos empastelamentos do dia anterior, atacou as oficinas do jornal Amazonas, não conseguindo empastelá-lo, por terem sido obstados pelo coronel Ivo do Prado que chegou a tempo de impedir essa violência, sendo um dos amotinados preso por um sargento do exército, na ocasião em que saía das mesmas oficinas. 

Rua dos Remédios (atual Miranda Leão), onde
se situavam os escritórios da Manáos Improvements
 
NOTAS AVULSAS 

O governador do Estado, que na ocasião de rebentar o movimento sedicioso no quartel se encontrava no palacete de sua residência (Paço da Liberdade, na praça Dom Pedro II), em companhia de seus filhos e vários amigos, conseguiu retirar-se ileso, escapando à sanha da soldadesca, graças a desordem que entre ela reinava.
A sua partida efetuou-se pelos fundos do palacete, donde, em automóveis, todos os que lá se encontravam foram conduzidos ao quartel general do Exército, então convenientemente guarnecido por praças do 46º BC e bateria do 19º Grupo.
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O governador do Estado mandou proceder a rigoroso inquérito, a fim de apurar quais os autores do sedicioso movimento do Batalhão Militar de Segurança.
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Dois sargentos, que se dirigiam ao quartel general armados de espada e com bonés de capitão e tenente à cabeça, foram presos incomunicáveis à ordem do general Belo Brandão.
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A banda de música da Polícia não aderiu ao movimento, bem assim, as guardas da 2ª delegacia e do Palácio do Governador.
A guarda da 1ª delegacia foi presa pelo delegado Rocha dos Santos, acompanhado de vários civis, armados de carabinas. Essa guarda foi conduzida ao quartel general, sendo ali desarmada.
A guarda da Detenção (atual presídio Raimundo Vidal Pessoa) abandonou o posto.

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O quartel de Polícia está guardado por uma força do Exército, sob o comando do capitão Otaviano de Souza Gomes.
Acham-se presos no quartel do 46º Batalhão e quartel de Polícia, cerca de 100 praças revoltados, tendo muito destes, segundo nos consta, se apresentado voluntariamente.
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No quartel, depois de abandonado, foram encontrados escondidos no porão, quatro praças, além dos cadáveres do tenente Rocha e de um anspeçada.
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Os sócios do Tiro Brasileiro nº 10, ao terem conhecimento dos fatos anormalíssimos de que estava sendo teatro a cidade dirigiram-se ao quartel do 46º BC, donde, depois de receber armamento vieram incorporar-se às forças do Exército e Polícia fiel, que estacionavam em frente ao quartel general.

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Agindo com prudência e segurança no restabelecimento da ordem, as forças do Exército ocuparam pouco a pouco os pontos estratégicos de mais valor, o que lhes valeu rápido sucesso. Assim é que, logo depois de divulgado o movimento, conseguiram as forças federais tomar posições na rua Municipal, no alto da avenida Treze de Maio, na praça de São Sebastiao, no alicerce do Palácio do Governo, na rua Jorge de Moraes (hoje Rui Barbosa) e em outros pontos, conseguindo destarte quase que isolar as forças revoltosas na praça da Constituição (da Polícia, no vulgar) e capturar aos poucos os soldados que se desagregavam do seu núcleo de defesa.
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Finalizamos estas notas com as tranquilizadoras palavras do governador do Estado, constante do documento abaixo, ontem pela manhã distribuído:

Boletim Oficial. O governador do estado do Amazonas leva ao conhecimento dos habitantes da cidade que se acha restabelecida a ordem, jugulado o movimento subversivo que conseguiu a revolta da Policia e mantido o princípio da autoridade devido ao modo valoroso e enérgico porque agiu o bravo general Belo Brandão, comandante da Região Militar, secundado pelas disciplinadas forças federais aqui estacionadas. A população nada receie, que serão mantidas todas as garantias constitucionais. Manaus, 16-6-913. 

Ainda tem mais. (segue)