CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

26 de junho de 2013

HENRIQUE ANTONY (1807-72)


Reproduzido da revista VICTÓRIA-RÉGIA, de abril de 1932.
 

Recorte do artigo publicado na revista

Lá, na distante e montanhosa Córsega, toda ela a tresandar vendettas, teve o seu berço o velho Henrique Antony, pai. Aspirando a liberdade da garbosa e indomável terra que o viu nascer, militou bravamente, ombro a ombro com Paoli, de quem foi lugar-tenente de confiança. Depois do fracasso deste famoso caudilho foi, por força de circunstâncias, obrigado a exilar-se; nasceu-lhe por essa ocasião um filho: era Enrique Antony.
Henrique Antony, desenho do autor,
publicado em Roteiro Histórico de
Manaus, de Mário Ypiranga
 

Terá este nascido na Córsega? Terá nascido em Livorno, no Grão-ducado da Toscana? Em que ano veio ao mundo? Vejamos se é possível elucidar alguma coisa sobre estas perguntas: Antes de tudo precisamos declarar que estes quesitos são de respostas precisas dificílimas. Henrique Antony comprazia-se ou tinha interesse em fazer um mistério de sua vida. Diversas e múltiplas são as ocorrências que nos levam a crer nisto.

Quando faleceu em 27 de julho de 1872, seus documentos notificam ter ele 65 anos, havendo, portanto, nascido em 1807, no mesmo ano em que na nevoenta Londres morria o velho Paschoal Paoli.

Em 20 de dezembro de 1853, requereu registro, no livro da Secretaria da Câmara da Província do Amazonas, do título de naturalização de cidadão brasileiro, declarando já estar no Brasil “há cerca de 30 anos e ser natural do Grão-ducado da Toscana” (cidade de Livorno?), assim sendo e sabendo-se que quando veio para o Brasil, embarcado em Lisboa, já visava o comércio na Comarca do Alto-Amazonas, deduz-se evidentemente que aqui chegou em 1823, mais ou menos.

Ora, há em mãos da senhorita DinarI Antony, sua descendente, um retrato que talvez seja o único conhecido. Nele, Henrique se apresenta já homem feito, na força da idade, aparentando ter de 30 a 40 anos; está vestido com uma casaca escura, calça clara, colarinho alto, gravata borboleta de grandes pontas, apresentando o conjunto uma semelhança com os invariáveis retratos de Gonçalves Ledo por época de nossa Independência Política, o que parece demonstrar que o retrato é da plena época do romantismo, beirando 1830.
É impossível que este retrato haja sido tirado no Amazonas: é ele um trabalho de mestre, feito com admirável perfeição em chapa de metal, encravado num estojo de madeira revestido de couro, com desenhos dourados, não trazendo a marca da Fotografia.

Não é crível que tivesse vindo para o Amazonas, ou para o Brasil, com 16 anos; o retrato é uma prova evidente e indiscutível de que ele ao morrer não tinha 65 anos, pois se de 1820 a 1830 já aparentava ter uns 40 anos... E é preciso assinalar que o retrato DEVE ter sido tirado antes de 1823, isto é, antes de vir para o Brasil.

Ao engenheiro João Carlos, seu filho predileto, contara que forçado por contingências imprevistas, fugira da Córsega, sua pátria, onde tentara levantar a população contra o odioso domínio francês. Foram seus companheiros nesta fuga Pachinotti Zany, seu primo, um tal Neri, um tal Cavalcanti e Paoli.

Fugira para Genova.
Ai, outro perigo. Sua cabeça e as de seus companheiros foram postas a prêmio; talvez seja esta a explicação mais racional dos segredos que procurava guardar quanto sua origem. Perseguições, vexames, cabeça a preço, fizera que embarcasse clandestino em uma nau auxiliado por um marinheiro a quem subornara, e fosse respirar liberdade em Lisboa.

A fama do Brasil ciciou-lhe aos ouvidos e não sabendo resistir-lhe, embarcou rumo à misteriosa Amazônia. Tinha meios de fortuna. Pertencia a uma família nobre de Córsega; no retrato citado ele traz dois distintivos iguais: um na lapela, outro na orelha. Tais distintivos são os emblemas da nobreza corsa, usava-se na lapela do lado direito e em uma só orelha. Não vinha imigrante, com o gibão às costas, e trazia diversos patrícios como companheiros de viagem. É provável que viesse para voltar. Gostou. Ficou.

Com efeito, que atrativos teria naquela época o Amazonas, comarca, e em que poderia interessar ao forasteiro que não fosse um apaixonado de fortes emoções, um cientista ou um caçador de fortuna? Aqui chegou Antoni e assim o tratam Wiliam Herndon Edwards e Alfred Wallace; aqui ficou Antony.

Como se vê, a vida de Henrique Antony é repleta de interrogações. É possível que todas essas incógnitas se desanuviassem com pacientes pesquisas nos arquivos de Belém (PA), Genova (ITA), Livorno e Córsega. Pouco se pode afirmar, é uma figura de psicologia impenetrável.

Em 1839 contraiu matrimônio com D. Leocádia Maria Brandão, filha de Antônio José Brandão. Deste consórcio teve regular prole: João Carlos, engenheiro notável e pai de Raul, Américo (Antony, poeta) e Dinary Antony; Guilherme e Luiz Carlos, comerciantes; Lina e Paulina, falecidas, jovens, em uma epidemia de varíola.
Teve também dois filhos: Maria e Luiz. Este foi herói da Guerra do Paraguai, onde foi condecorado duas vezes: a primeira, por decreto de 17 de julho de 1866, com o hábito de Cavaleiro da Ordem da Rosa (pelo combate da ilha Villagran Cabrita, antiga Itapiru, em 11 de abril de 1866); a segunda, por decreto de 27 de agosto, com o hábito de Cristo (pela batalha de 24 de maio) e que devia finalmente falecer heroicamente, resultado arrematador de seus brilhantes feitos marciais.

Os negócios de Henrique prosperaram e ele foi em breve grande proprietário e o maior comerciante do Amazonas. Possuía armazéns, loja, casas para alugar, e uma padaria, das primeiras senão a primeira do gênero em Manaus, e que é hoje a Padaria Universal; sua residência, uma das melhores da época, era a antiga sede da Inspetoria Agrícola e que, herdada por João Carlos, foi por este perdida em uma questão hipotecária ao célebre usurário Custódio Pires Garcia (proprietário do original Palacete Garcia, hoje Provincial, assassinado misteriosamente), fadado a triste fim.
Em um sobrado de sua propriedade, esteve instalado o palácio do governo; era no local em que está hoje um depósito comercial, no antigo Hotel de França, fronteiro à Escola Normal.

Todos os exploradores que nos visitaram, foram seus hóspedes; disto fazia questão. Herndon, explorador norte-americano, que por aqui andou em 1846 chama-o de “my good friend, Enrique Antoni, the italian” etc.

Sobre o seu progresso comercial, temos na Estatística Econômica, algumas referências: Henrique Antony ocupa o 8º lugar (entre 24 negociantes), como exportador, no ano de 1851. Exportara 825 arrobas de pirarucu, pagando de imposto a avultada some de 16$500. O primeiro exportador fora Antônio José Joaquim Pucú, que enviara para fora da Comarca 2.112 arrobas daquele produto, pagando a taxa de 42$140. Já em 1853, entre 83 comerciantes, Henrique ocupa o primeiro lugar como pagador de imposto de exportação (94$850), enquanto o Pucú decrescera, para pagar somente 24$750, o que não admira, pois Gabriel Gonçalves pagou $125 e Victorio da Costa $200!  Bons tempos, não resta dúvida.
Nesta mesma “Estatística” encontramos como Nota do quadro nº 13, referente a 1851: “A principal casa comercial era a loja e taberna de Henrique Antony, à rua Estrela (atual rua Henrique Antony), cujos fundos foram avaliados, no lançamento, em 1:900$000. O lançamento foi feito de acordo com a lei provincial nº 163, de 22 de dezembro de 1849.

As casas comerciais estavam assim distribuídas: duas lojas e tabernas na rua das Flores (atual rua Guilherme Moreira), que também continha a única taberna que figura no quadro; uma, na travessa da Ponte dos Remédios (existiu nas proximidades do Hotel Amazonas, hoje Condomínio Ajuricaba), duas, na rua Formosa (  ); quatro, na rua da Estrela; duas na praça da Imperatriz (desaparecida, foi construída nas proximidades da atual agência do Banco do Brasil e a Catedral de Manaus); três, na rua Brasileira (atual avenida Sete de Setembro), uma, na praça do Pelourinho (hoje praça Pedro II); quatro, na rua Manáos (hoje avenida Eduardo Ribeiro, no trecho até a avenida Sete de Setembro), três, na Travessa Oriente (rua da Instalação, em nossos dias), três na Praça da Imperatriz ( ), duas, na rua do Sol (rua Visconde de Mauá, agora); uma, na Travessa da Olaria (atual, rua Joaquim Sarmento), uma, na Travessa das Gaivotas (desaparecida com a praça do Comercio, hoje Terminal de ônibus) e uma, na rua do Espírito Santo”. Havia, então, 38 estabelecimentos de comércio.
A loja e taberna de Henrique Antony que figura na lotação de 1851, com fundos de 1:900$000, figura na de 1852 com o nome de armazém e com os fundos de 300$000.

Sobre a probidade comercial de Henrique Antony, nos fala Bento Aranha, seu contemporâneo: “O palácio do governo foi no sobrado de propriedade do honrado comerciante Henrique Antony”. Isto é de salientar porque Bento Aranha não se barateia em elogios e é o único a quem trata com este adjetivo; define bem o nosso homem. (Vide Um olhar pelo passado, de Bento Figueiredo Tenreiro Aranha).

Afeiçoando-se a esta terra, Henrique, à própria família e aos amigos, dizia-se brasileiro e para oficializar tal desejo, requereu naturalização, havendo jurado fidelidade e obediência às leis brasileiras, em 3 de janeiro em 1854. Ele muito amou o Brasil e, sobretudo, ao Amazonas, aos quais ofereceu em holocausto um dos seus diletos filhos. Bastante contribuiu para o desenvolvimento econômico deste imenso vale querido. Bem merece, portanto, a gratidão dos amazonenses que, em singelo, mas expressivo preito de homenagem,  já o tornaram patrono de uma rua de nossa bela Manaus (duas ruas já tiveram seu nome, hoje são a rua Itamaracá e a rua Bernardo Ramos).

Velho, alquebrado por inúmeros desgostos dos quais se queixava a seu compadre Herndon, já em 1846, quis estoicamente morrer na terra a quem fora tão afeiçoado e, de fato, aqui faleceu em 27 de julho de 1872, repousando seus restos em uma tumba da necrópole de S. José, e que talvez iconoclastamente já haja sido revolvida – assim o exige o progresso – e lançada em um recanto ignoto de despojos.
Ele bem poderia dizer parodiando o poeta:

E desta glória só ficarei contente
Que a esta terra amei e a esta gente...

L (Lázaro). BAUMANN

Nota:
A história do velho Henrique Antony continua sendo mal empostada, principalmente pela confusão que se faz entre seu nome e o do filho mais velho – Enrique Antony, que se supõe haver nascido na Europa ou ao menos antes do casamento com Leocádia Brandão, em Manaus. (Mário Ypiranga Monteiro, in Roteiro Histórico de Manaus, v. I. Manaus: Edua, 1998)