CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

14 de fevereiro de 2012

Poesia... de Sebastião Norões


Reportagem de A Crítica, 24 abril 1956
 Em abril de 1956, ocorreu o lançamento do primeiro livro deste poeta. Trata-se de Poesia frequentemente, que pode ser o primeiro livro gerado pelo Clube da Madrugada. Pode ser, porque outro poeta – Jorge Tufic, com seu Varanda de Pássaros, disputa esta primazia. Poesia... foi reeditada pela Editora Valer, na série Resgate, em 1996.

Apesar da contenda, aqui está o registro do feito de Norões, cujo evento aconteceu em 23 de abril, na Livraria Escolar, que existiu à rua Henrique Martins.

Norões nasceu em Humaitá (AM) em 1913, e realizou seus estudos secundários em Fortaleza (CE). Em Manaus, graduou-se pela Faculdade de Direito do Amazonas, na turma de 1936. Consagrou-se como professor de Geografia do Colegio Dom Bosco e Ginásio Amazonense Pedro II. Pertenceu a Academia Amazonense de Letras. Morreu em 1971.

Outro saudoso poeta, Farias de Carvalho, que esteve presente aquele acontecimento, escreveu a respeito uma efusiva crônica (abaixo), ressaltando a importância da obra inaugural do colega Sebastião Norões.

Primeira festa, uma grande lição

Farias de Carvalho

Pois é. Aconteceu no duro. Nem ceticismo. Nem indiferença. Maledicência. Má vontade criminosa. Nada empatou que o marco fosse plantado, como nada empatará que outros se plantem.
Farias de
Carvalho

O lançamento do livro do poeta Sebastião Norões foi uma festa magnífica. A primeira no gênero. Festa e lição. Festa para os que já a aguardavam ansiosamente. Lição para os céticos. Afirmativa de que no Amazonas já há uma nova consciência literária em formação, arrebanhando poetas e prosadores para mais perto da vida. Do homem. Seus problemas. Anseios. Lutas. Vitórias e esmagamentos. A prova é a poesia de Norões. Que é mesmo “frequentemente”. Poesia salpicada de vivencias e de mensagens. De caminhos. De “emoção recordada em tranquilidade”.

Nos seus sonetos e poemas, pujantes de vida e de realidades humanas, o poeta não se deixou ficar pendurado em nenhum balcão pegajoso de limo, com a guitarra a espelhar raios de lua. Simples, poeta de carne e osso como outro homem qualquer, falou de infância e de mar, de santuários e estatuetas, tudo com o gosto bom das colinas simples. Nada de trabalhos dourados. De ourivesaria. Que o povo, de pés descalços e barriga inchada só vê joia nas vitrines.

Poesia só. Frequentemente. Inteiramente. Poesia sabendo a si mesma. Banhando a todos. Os que creem. Combatem e esperam. Assistem cheios de revolta e horror a “Rosa se despetalando”. Sob os pés do mundo. Bárbaro. Material. Inconsciente e brutal.
Jornal do Comércio,
26 abril 1956
O livro do poeta Norões marcou uma fase na reintegração da Rosa. O início da recuperação total das correntes culturais do Amazonas. Agora, dentro da nova concepção e da nova era, o Brasil vai conhecer a verdadeira literatura da taba. Já se pode afirmar, depois de trinta anos de mentalidade reacionária, que as nossas letras ressuscitam. Voltam ao mundo. E o berço foi o livro do poeta.

Agora é cuidar da criança. Dar-lhe, para que sobreviva, o alimento que vem do cérebro e do coração dos homens que pensam um Amazonas novo. Integrado na clareza do momento. Na realidade do mundo em que vivemos. Carregado de paz e de amor. Pronto para a aparição que o resto do País reclama.

Vamos continuar o trabalho. E obrigado, Norões, pela primeira estaca.

Publicada no Jornal do Comércio, 26 abril 1956