CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

23 de fevereiro de 2012

Carta aberta aos Vereadores

Senhores vereadores:

(...) O padre Paulino Lammeier, zeloso vigário da paróquia, preocupa-se presentemente com a responsabilidade absorvente da construção da Matriz. Convidou-me a cooperar na campanha em prol da edificação do templo, que será dedicado à famosa taumaturga siracusana. Algumas contribuições já surgiram, sendo mais expressiva a do governo estadual, no valor de CR$ 20.000, (vinte mil cruzeiros).

Padre Nonato (à esq.), governador Gilberto Mestrinho (a frente)
e padre Paulino e um coroinha (à dir.). O Jornal, 1960
A paróquia de Santa Luzia é das mais pobres, dispondo apenas de modesto patrimônio. Sou testemunha da vida simples que o vigário mantém, sem nenhum conforto em sua residência, já tendo participado algumas vezes de sua mesa frugalíssima.

Pessoalmente entrei em entendimentos com os presidentes de três clubes sociais, que prometeram cooperar, restando reunirem as respectivas diretorias para acertarem planos de execução.

É evidente que tais contribuições particulares não serão suficientes para a construção da igreja. O alto custo do material e da mão de obra raia pelo absurdo. A Providência Divina inspirou-me uma sugestão, que respeitosamente transmito a VV. Exas. para os devidos fins.

A distinta professora Lucinda Felix de Azevedo doou à paroquia de Santa Luzia um grande terreno que pertenceu a seu falecido pai, Eduardo Felix de Azevedo. O referido terreno possui uma área total de quatro mil, trezentos e quarenta e cinco metros quadrados (4.345m2), com um perímetro de quatrocentos e oitenta e dois metros lineares (482m).

Limita-se ao norte com o igarapé da Cachoeirinha, por uma linha de 22 metros no azimute de 55º SW; a oeste, com terras de propriedade de I. B. Sabbá, por uma linha de 220 metros no azimute 15º SE; ao sul, com terras ocupadas por diversos moradores, por uma linha de 20 metros no azimute de 55º NE; a leste, com terras ocupadas por diversos moradores, por uma linha de 220 metros no azimute de 13º NW.

Esse terreno, Senhores Vereadores, não é outro que a praça ajardinada, em que se construiu o abrigo Salgado Filho, e que constitui o mais belo logradouro público do bairro. Tive em mãos todos os documentos comprovantes, que se encontram no arquivo paroquial: o título definitivo, passado pelo interventor federal Lauro Silva de Azevedo; a Certidão do Registro de Imóveis, assinada pelo oficial Washington Cesar Melo; e a escritura de doação, feita pela professora Lucinda Felix de Azevedo em favor da paróquia de Santa Luzia, assinada pelo tabelião Milton Nogueira Marques. O terreno foi medido pelo profissional Daniel Sevalho Junior.

Feita a presente exposição, entrego ao lucido critério de VV. Exas. a solução do caso. Convencido estou de que o pleito encontrará boa vontade e compreensão da parte do Sr. Loris Valdetaro Cordovil, DD. Prefeito municipal. O vigário não deseja litígios, mas espera da Câmara Municipal e da Prefeitura uma decisão fraternal e amiga.

Creio que a comuna poderia arcar com o compromisso do material para a construção do templo, e talvez da mão de obra, numa equivalência razoável do terreno paroquial, que o povo utiliza.

A causa é justa e nobre. Além do aspecto compensatório, que envolve a questão, salientamos a contribuição arquitetônica do novo templo para o embelezamento do bairro e o objetivo sublime de seu funcionamento, erguendo as almas para Deus nas asas da fé, da esperança e da caridade. (...)

Pedindo a valiosa proteção da insigne taumaturga sobre VV. Exas., senhores Edis, subscrevo-me atenciosamente.

Manaus, 1º de outubro de 1961



Padre R. Nonato Pinheiro

Nota atual: Esta postagem atende o amigo Aguinaldo Figueiredo, festejado autor de História do Amazonas e, mais especialmente, do premiado Bairro de Santa Luzia. Ele certamente poderá nos informar o resultado do pleito que o saudoso padre-acadêmico Nonato Pinheiro endereçou aos Edis, há pouquíssimo mais de meio século.

Nessa época, na condição de seminarista, frequentava a igreja do padre Paulino. De fato, era insignificante, pois, pequena e de madeira, não oferecia nenhum atrativo. O próprio vigário, um alemão, não encantava como os padres-cantores da igreja católica moderna. Depois, “promissor” goleiro do Botafogo, do Morro da Liberdade, frequentei bastante a praça. Ia lá para assistir ao sorteio da tabela do campeonato entre-os-bairros, ou seja, Santa Luzia e Morro.

Enfim, prometo ao devotado historiador santa-luziense que logo mais, com Black ou sem Red, entrego-lhe cópia desta carta. E, cantarolando com o poeta: “a praça Castro Alves é do povo...”, em Santa Luzia, aconteceu mesmo.