CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

23 de fevereiro de 2012

O "Remanso" de Anísio Mello


Capa do livro
Recebi, de São Paulo, o livro de poesia Remanso, da lavra do meu dileto amigo Anísio Mello, amazonense que abandonou a terra, como muitos outros, e fixou residência no grande estado de São Paulo quatrocentão. Anísio não é desconhecido entre nós. Publicou em Manaus Lira nascente e Minhas vitórias régias.

Além de poeta, é pintor e musicista, sendo, portanto, um artista na mais ata e completa acepção do termo. Em Manaus realizou com pleno êxito algumas exposições de pintura. Sua mãe, D. Ester Taumaturgo Soriano de Mello, exímia pintora, deve ter exercido notável influência na formação artística do filho.

Anísio Mello é um poeta que não se escravizou a nenhuma escola. Possui versos brancos, poemas livres e sonetos metrificados e rimados. O poeta recomenda-se por qualidades eminentes, sentindo-se sempre em seus versos um sopro de quente inspiração. Celebra em sua poesia o vento, as flores, as tardes, as noites, os matupás dos lagos e dos igapós, os plenilúnios, pirilampos, numa palavra, a natureza policrômica deste Amazonas colossal, que é o eterno paraíso dos sábios e dos poetas.


Anísio Mello, na aba do Remanso
O autor enfeixou no volume versos de beleza pagã e também, versos sacros, como o soneto Hóstia, dedicado ao inspirado poeta Padre Manuel Albuquerque em que ele celebra a “Majestade eucarística do pão divino dos nossos altares”.
Anísio Mello é um poeta acentuadamente introspectivo, desses poetas que não têm só alma para cantar a natureza, com os seus lustres e as suas galas, mas possuem o hábito do recolhimento para as reflexões profundas. Homem sem exuberâncias comunicativas, prefere o silêncio das solitudes, onde as grandes almas se sentem bem. Ele próprio o declara na poesia Alma de cipreste, que é um perfeito autoretrato:

Minha alma é como um cipreste ereto e soturno!
Sente-se bem quando só.
No silêncio dos túmulos
está a meditação profunda!
No silêncio está a pureza da hora!
A poesia é filha do silêncio
e da meditação.
Poesia de silêncio é pura e toma forma.
As visões da imaginação
se esboçam no cérebro e acariciam
na veludez dos gestos a alma do poeta.
O poeta sente-se bem
e vai conversar com a poesia,
virando poeta outra vez.
Retratou-se o autor nesse lanço de expressiva inspiração. Seu espírito meditativo mais se assemelha ao cipreste contemplativo do que a uma árvore garrida de flores, e trepidante de gorjeios. Tem alma de cipreste, porque lhe apraz o “silêncio dos túmulos”, gerador das meditações profundas.

Agradeço penhorado ao meu dileto amigo a remessa de um exemplar do livro, em excelente papel e nítida apresentação gráfica. Desejo-lhe novos triunfos nas letras e nas artes, de tal modo que afirme na trepidação de São Paulo o vigor da inteligência amazonense!

Padre Nonato Pinheiro, da Academia Amazonense de Letras.
Letras & Livros  (Jornal do Comércio, de 6 novembro 1958)
 
Nota do “catador”: Anísio Mello somente alcançou a Academia Amazonense de Letras em 2003, quando contava 76 anos. Ocupou a poltrona azul nº 3 por somente oito anos. Neste sodalício, não teve oportunidade de dialogar com o padre Nonato Pinheiro, pois este “abriu vaga” em 1994.