CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

12 de fevereiro de 2012

CABO DE POLÍCIA

Estátua do cabo zuavo que sempre "protegeu"
 a PMAM contra a greve
A greve dos policiais nos estados da Bahia e Rio de Janeiro seguem acumulando debates. E a atividade espúria de associações de classe vai sendo esclarecida. Aquilo que no primeiro instante parecia um centro recreativo, ou foi criado para tal finalidade, vem se transformando em sindicato, e pior, copiando suas mazelas.

Conversando com interessados no assunto, houve quem me lembrasse do cabo Anselmo, que ludibriou a esquerda e, em seguida, as forças opressoras. Talvez ele tenha sido um produto da movimentação dos sargentos, que o presidente Goulart apoiou com veemência, em 1964.

Outro fato exemplar primevo: um comandante dos fuzileiros da Marinha que se passou para o lado dos amotinados e, creio, foi carregado em triunfo. Tal qual aconteceu com o general Gonçalves Dias, pateticamente transformado em liderança de baderneiros.

A presença de cabo na condução de greves, já deu eleição a um cabo da PM mineira. Agora, estão ai o cabo Daciolo e o ex-cabo Prisco botando “pra quebrar”... e incendiar. Com tanto desaforo, conseguem mesmo é abalar a disciplina e a hierarquia das corporações.

No Amazonas, em 1999, o então governador Amazonino Mendes aposentou coronéis “incompetentes”, e promoveu jovens oficiais. O fato produziu uma reviravolta na direção da corporação que, acredito, seja uma das causas de tantos desentendimentos que, na última década, conturba a força estadual.

Bem vemos o que acontece quando um membro da corporação, de baixa hierarquia, um cabo de polícia, conduz movimento reivindicatório. E ainda falando da Segurança no Amazonas, aqui há uma figura bem estilosa, trata-se do sargento Pereirinha, do clube dos sargentos.

Para encerrar a conversa sobre tão desagradável acontecimento, fui buscar uma crônica de Manoel Bessa (Jornal Velho: crônicas.Manaus: Nortgraf, 2001), na qual o autor “ilustra” a importância do cabo de polícia.

O sobrinho da rapariga
Manoel Bessa

Foi numa festa lá num pé de serra do Ceará. Quatro "cabras valentes" na porta, desarmando o "macharal" e barrando os "furões". Só entrava quem pagasse duzentos réis (réis mesmo, porque ainda não havia nem cruzeiro nem real). Foi quando apareceu um baixinho invocado e foi peitando a cabroeira. "Vou entrar e não pago, porque sou autoridade". E antes que houvesse uma reação, deu suas credenciais. "Sou sobrinho da rapariga do cabo do destacamento da polícia". Falou, e a porta foi logo se abrindo.
Manoel Bessa, 1958

Pode ser piada, mas revela a mentalidade de uma época. Quando eu exercia o cargo de juiz auditor militar na nossa PM [AM], certa vez comentávamos entre os oficias superiores alguns frequentes atos de arbítrio de nossos soldados. O coronel Pedro Câmara, com aquele seu humor inteligente, lembrou o dito de um seu amigo: "Se eu tivesse as amantes que minha esposa diz que tenho, o dinheiro que meu vizinho pensa que tenho e a autoridade que um soldado de polícia julga que tem, eu seria o dono do mundo".

Na verdade, a história de nossas PMs tem lances interessantes. Normalmente nasceram como verdadeiras milícias, macaqueando a estrutura de organização piramidal do exército, como forças públicas a serviço dos governos estaduais.

No sertão do Brasil, cada surra em político contrário ao Governo garantia uma promoção. Os oficias eram de "tarimba" e só tinham alguma formação quando vinham do Exército, para poder ocupar um posto superior. Depois surgiram as academias, cada vez melhor estruturadas, nada deixando a desejar em relação às academias do Exército, Marinha e Aeronáutica.

Aqui no Amazonas, os primeiros "cadetes" apareceram com as reformas empreendidas na PM nos governos de Plínio Coelho [1955-59] e Gilberto Mestrinho [1959-63]. Hoje, quase todos estes estão usufruindo sua justa aposentadoria, como coronéis. No período da Revolução de 64, se iniciou um processo de desvio na formação de nossos oficiais PMs que eram treinados mais para enfrentar uma possível guerrilha urbana (o que nunca ocorreu) do que para manter a ordem pública.

Isto pode ter contribuído um pouco para distorcer a visão de alguns, que passavam a olhar o "civil" sempre com desconfiança. Inclusive só um oficial da ativa do Exército podia ocupar o cargo de comandante-geral de uma corporação policial militar no País. (...)

Tenho certeza que nossos atuais oficiais, uma verdadeira elite, em razão do alto nível de suas academias, devem estar refletindo sobre isto. Nem o cabo (muito menos o sobrinho da rapariga do cabo), nem o coronel, estão lá para mandar e desmandar.

Têm hoje a grande responsabilidade de ajudar a reverter o clima de insegurança que infelizmente domina a sociedade civil. E para tanto necessitam flexibilizar seu excesso de militarismo, o que permitirá uma maior identificação com as comunidades, a cujo serviço se destinam.