CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, março 10, 2025

LANÇAMENTO DE LIVRO EM 1965

Há 60 anos, em janeiro de 1965, ocorreu o lançamento de um livro que foi conhecido por Livro da “Cidade Flutuante”, aglomeração desmontada naquele período. Os jovens economistas Wilson Cruz e Celso Serra foram os autores, que contou com a apresentação do saudoso mestre Samuel Benchimol (1923-2002) e patrocínio do “desativado” Clube da Madrugada (movimento literário que vivia seu auge). A extinta Livraria Brito na rua Henrique Martins foi o palco do lançamento. E a foto jornalística permite distinguir, além do governador Arthur Reis (1964-67), o secretário de Educação José Lindoso (1920-93), o chefe da Casa Militar coronel PM Themistocles Trigueiro.

 

Recorte de O Jornal, 24 jan. 1965

O LIVRO DA "CIDADE FLUTUANTE"

Na Livraria Brito foi feito, manhã de ontem, o lançamento oficial do livro Aspectos Sociais e Econômicos da Cidade Flutuante, apreciável trabalho dos jovens economistas Wilson Cruz e Celso Serra, que teve o patrocínio do “Clube da Madrugada”.

A apresentação do livro, que apresenta excelente estudo e incansável pesquisa socioeconômica, foi feita pelo professor Samuel Benchimol, contando a solenidade com a presença de destacadas figuras da sociedade e das letras regionais, destacando-se o governador Arthur Reis (foto), que prestigiou o ato.

quinta-feira, janeiro 18, 2024

MANAUS: CIDADE FLUTUANTE

 Em Manaus, existiu a “Cidade Flutuante”, desaparecida há exatos sessenta anos. Restou, como descreve Ítalo Calvino, em Cidades Invisíveis, sobre a memória da cidade Maurília, que “o viajante é convidado a visitar a cidade ao mesmo tempo em que observa uns velhos cartões-postais ilustrados que mostram como esta havia sido”. Deste modo ocorre, em nossos dias, com nossa extinta cidade fluvial, apenas é recordada em postais, recortes de jornais e algum trabalho acadêmico.

Maia, in Fundadores da
Academia Amazonense de
Letras

Álvaro Maia (1893-1969), então Senador, escrevendo em coluna própria no Jornal do Commercio, talvez uma de suas últimas crônicas, pois morreu em maio, desaprovou o resultado da expedição sobre aquele curioso fenômeno habitacional.

 

Recorte do Jornal do Commercio, 16 mar. 1969

Desapareceu a “Cidade Flutuante” em poucos dias sob a ação das autoridades, porque usurpava áreas do cais e prejudicava as casas comerciais do litoral. Tinha movimento próprio - restaurantes, médico, dentista, escolas, pequenas lojas, boates. Atendia, de preferência, aos fregueses apressados dos beiradões, que ali encontravam o mais necessário, inclusive damas fáceis e folguedos noturnos. Vendiam os seus produtos, abasteciam-se, ingeriam as meladinhas e regressavam aos paranás e lagos pelo primeiro rebocador.

Restam fotografias e postais. Desaparecida, os seus habitantes procuraram os subúrbios da Capital, as ilhas próximas, ou se encoivararam pelos igarapés.

Isolados e dispersos, perderam a unidade comercial, deixando também de contribuir para a arrecadação, pelos pequenos estabelecimentos que cerraram as portas e transações. Onde param esses moradores, onde mourejam.

Motores, canoas, igarités pousam nas praias, à margem do rio Negro, em tapiris ou casebres equilibrados sobre cedros, açaens (sic) e sumaúmas. As ruas vizinhas passaram a fluir sossego, sem as serenatas e rapapés tamboriladas das boates. (...)

Muitos flutuanteiros da “Cidade Flutuante” salvaram suas barracas e seus velhos cedros, fugindo para os jutais. Mas vieram as enchentes, sacrificando parte da produção.

Ora, certo dia, alguns juteiros, mais uma vez afogados pelas chuvas, ouviram dizer que terras fartas, nas zonas suburbanas de Manaus, são do governo. São do Governo, são dos pobres. Rumaram e remaram para esses becos da promissão. Igarapé, capoeiras, pretas ou arenosas. Tudo bom e bem. Tomaram conta de um lote, escavaram buracos para os primeiros esteios. A notícia correu mundo. Outros chegaram: vinham dos jutais, dos escombros da “Cidade Flutuante”, na ilusão de melhoria e empregos na Zona Franca.

Vai surgindo o “Bairro da Palha”, entre os bairros de São Jorge e São Raimundo. É interessante ver o movimento do novo bairro, mesmo em tarde chuvosa. Já existem pequenas ruas, escola, boteco, até um teatro-mirim, e mais de mil habitantes.

Improvisação de poucos dias. Descobrissem os favelados, os mocambeiros terras assim! Juteiros, herdeiros da “Cidade Flutuante”, seringueiros desabrigados, pescadores sem redes de náilon, citadinos sem emprego caminham para o “Bairro-da-Palha”, a quinze minutos de Manaus, em ótima rodovia asfaltada... 

sábado, novembro 10, 2018

CIDADE FLUTUANTE

Alvaro Maia


A saudosa Cidade Flutuante, desaparecida no primeiro ano do Governo Militar, obteve ainda que tardiamente uma palavra de consideração de um velho governante – Dr. Álvaro Maia. 
Pouco antes de falecer (4 maio 1969), escrevendo no Jornal do Commercio, edição de 16 de março do mesmo ano, Maia assim opinou:


Recorte da coluna do Jornal do Commercio




Mocambos e favelas podem ser destruídos, mas os seus habitantes não se adaptam facilmente a outros regimes de vida e aglomerações. Agamenon Magalhães [governador de Pernambuco] esforçou-se para solucionar o problema. Declarou, certa vez, que transferiria velhos moradores para casas novas na cidade, em planos traçados pela engenharia. Passados meses, lá apareciam em outros pontos dos mangues. Voltavam à beira-mar, aos caranguejos e siris. Haviam alugado, passado adiante as casas do governo. Esperteza, mas também nostalgia de espumas e salsugens.
Agora mesmo, na Guanabara, em plena Ilha do Governador, foi condenada a favela das Pelânias com os casebres sobre estacas, sofrendo a umidade e as ventanias. Construídas de madeira apodrecida, abrigam moradores, que se nutrem do mar.
Nesse particular, um dos bairros conhecidos por viajantes e turistas foi a “Cidade Flutuante”, em Manaus, que, diferente dos outros, apresentava condições econômicas. Um jurista, o professor David Melo, estudou-o juridicamente, atendendo, por certo, ao apelo dos moradores. Era uma das curiosidades folclóricas da capital, como o encontro das águas Rio Negro — Solimões — Amazonas.
Estudou-a também o economista Almir Diniz, assegurando que as embarcações de pequeno porte davam um movimento à cidade 200 vezes maior que o Roadway da Manáos Harbour aproximadamente, contribuindo para mercados e feiras todos os legumes, verduras, produtos agrícolas, procedentes do interior do Estado.

Desapareceu a “Cidade Flutuante” em poucos dias, sob a ação das autoridades, porque usurpava áreas do cais e prejudicava as casas comerciais do litoral. Tinha movimento próprio, — restaurantes, médico, dentista, escolas, pequenas lojas, boates. Atendia, de preferência, aos fregueses apressados dos beiradões, que ali encontravam o mais necessário, inclusive damas fáceis e folguedos noturnos. Vendiam os seus produtos, abasteciam-se, ingeriam as meladinhas e regressavam aos paranás e lagos pelo primeiro rebocador. Restam fotografias e postais.

Desaparecida, os seus habitantes procuraram os subúrbios da Capital, as ilhas próximas, ou se encovairaram pelos igarapés. Isolados e dispersos, perderam a unidade comercial, deixando também de contribuir para a arrecadação, pelos pequenos estabelecimentos que cerraram as portas e transações. Onde param esses moradores, onde mourejam? Motores, canoas, igarités pousam nas praias, à margem do rio Negro, em tapiris ou casebres equilibrados sobre cedros, açaens (sic) e sumaúmas. As ruas vizinhas passaram a fluir sossego, sem as serenatas e rapapés tamboriladas das boates.

segunda-feira, junho 04, 2018

MANAUS - CIDADE FLUTUANTE

Cidade Flutuante, talvez uma últimas fotos
O governo de Arthur Reis (1964-67) já havia decretado a extinção da Cidade Flutuante, um aglomerado de flutuantes sobre o rio Negro, em frente à cidade de Manaus. Catando os jornais da época, encontrei os registros abaixo.


A foto, compartilhada do Jornal do Commercio (maio 1965), com a seguinte legenda:
O Brasil é mesmo um pais de contrastes desconcertantes. Eis aí uma vista de Manaus, a beira do maior caudal do mundo — o Amazonas — que despeja no oceano o fantástico volume de 100 mil metros cúbicos/segundo. Não obstante, é impossível retirar-se daí a energia elétrica pelo simples motivo de que não há desnivelamento. Uma percentagem infinitesimal dessa fabulosa carga d’água bastaria para produzir diariamente, em S. Paulo, cujo desnivelamento atinge a 750 metros, 18 milhões de kilowatts/hora.
e o poema de Heimar Veras, de quem, me desculpe o leitor, nada sei. A Balada transcrevi de O Jornal (4 fevereiro 1965).



BALADA DA CIDADE FLUTUANTE
HEIMAR VERAS

O Rio Negro galopa a paisagem
morta e viva, viva e morta
dos flutuantes encharcados de tragédias. 
 O DESEMPREGO  O ROUBO   O CÁRCERE
— Vai, home, percura cumida, home.
— Mulé, toma o dinheiro qui arrumei.
— Entrou aí, o ladrão entrou aí, pega. 
 A NECESSIDADE   O DESBRIO   A VERGONHA
— Não, mamãe, ele é um monstro.
— Qui importa, não temo roupa nem vida.
— Eu era criança, minha mãe obrigou 
O AMOR   O CIUME   O CRIME
— Vi um cabra aqui cuntigo, mulé.
— Foi Zé Anavaiada, o terror da puliça,
— Zé, pruquc mataste o marido dela. 
O Rio Negro galopa a paisagem
morta e viva, viva e morta
dos flutuantes encharcados de tragédias. 
A FOME   A FEBRE   A MORTE
— Dorme, fiinho, num tem arlimento.
— Mãinha, num quelo durmir, quelo cumer.
— Socorro, tá frio, acordou morto. 
 O FRACASSO   O DESGOSTO   A COVARDIA
— Me dá uma dose, peste, vou virá bicho.
— Virgulino, a puliça segue teus fio.
— Coitado de Virgulino, suicidou-se ontem. 
 O DESEJO   A IGNORÂNCIA   O PECADO
— Mamãe, tu tá pecando cumigo assim.
— Meu filho, gosto de ti como home.
— Arre diabo, os dois ficaram como cachorro. 
 A MISÉRIA   A PRECE   O CHORO
— Dorme, fiinho, esquece teu estômago.
— E o papai? Adonde tá o papai?
— Não chora, ele tá inda na prisão. 
O Rio Negro galopa a paisagem
morta e viva, viva e morta
dos flutuantes encharcados de tragédias.

segunda-feira, setembro 05, 2016

MORTE DA CIDADE FLUTUANTE


Foto constante da revista
Num sei mesmo a data, recordo que me encontrava na agência Prime da avenida Sete e, enquanto aguardava o saudoso poeta Luiz Bacellar, tomei uma revista. Dessas coloridas, com capa dura e impressa com grande apoio cultural, leia-se, rouanetizada. Ótimo. 
O periódico foi produzido pelo Ministério da Saúde - Fundação Oswaldo Cruz e organizado por Luísa Rojas e Lucianne Medeiros de Toledo.

Folheando, dei com o nariz na seção Espaço&Doença, onde enfiei o mesmo no artigo Uma história da vida do Amazonas, de Orlando Valverde. Entendo um bocado da história do Estado, em especial a da capital, e mais ainda, do período do Governo (ditadura) Militar, quando comecei minha vida profissional.  


Desse modo, me horrorizei com a “insalubridade” do texto encontrado, que aqui vai postado. "Na noite aprazada, a 'Cidade Flutuante' foi incendiada, após um grande borrifo com petróleo. Foi uma versão caricata de Roma, dos tempos de Nero!"

Que o ex-governador Artur Reis me perdõe, mas em resposta ao Valverde agressor, repito uma máxima do falecido poeta Bacellar : Nero?! é a puta que pariu.



Texto sacrossanto, bem pago pelos contribuintes


domingo, abril 10, 2016

MANAUS: CIDADE FLUTUANTE

Aspecto de parte da extinta Cidade Flutuante 

sexta-feira, julho 22, 2011

JÂNIO QUADROS E O AMAZONAS

No próximo mês, a renúncia do presidente Jânio Quadros completa 50 anos. Quero lembrar o evento que, bem ou mal, não ocorreu. Anunciado para 31 de agosto, também há quase 50 anos, o presidente JQ tinha programado comparecer a VI Reunião de Governadores. Era governador do Amazonas Gilberto Mestrinho.

Para esta assembleia, o governador Mestrinho preparou um longo memorial, com as Reivindicações do Amazonas. Entre outras exigências, tratou de moradia popular para desativar a Cidade Flutuante, situada em frente a Manaus.

Visão aérea da "Cidade Flutuante"
e um mapa da situação (abaixo)


Sob o título de habitações populares, GM solicitava recursos para “a construção de 500 casas destinadas a outras tantas famílias residentes em habitações acumuladas, sob a forma geral de ‘flutuantes’, sobre as águas que contornam a cidade de Manaus”.

Na justificativa, GM delineava “o aspecto médico-social constituído pela habitação chamada “flutuante”, misturada à outra, palafítica, sempre em aglomerados distribuídos às margens e sobre as águas que cercam e semicruzam a cidade de Manaus”.

Ainda para consolidar a exposição, acusou a existência de 1.389 habitações, distribuídas dessa maneira: 1.260 residências; 83 pontos de comércio e 46 mistos (comércio e pequenas oficinas). Outro detalhe relevante: a predominância entre os ocupantes de pessoas reconhecidamente pobres, vivendo nas “piores condições de saúde”.
Aspectos da "cidade" onde as piores condições
se reuniam

Nas casas precárias, a convivência de pessoas e animais

Crianças "divertiam-se" nas águas poluídas
Enfim, coexistiam na Cidade Flutuante “a precariedade de meios de subsistência, a contaminação endemo-epidemica e os mais primários interesses nem sempre legais”. Era uma mistura sulfurosa.
Para os mais jovens, esta “cidade” desapareceu cinco anos depois, no governo de Arthur Reis, o primeiro governante do Regime Militar no Amazonas.

domingo, fevereiro 20, 2011

CIDADE FLUTUANTE (II)


Cartão Postal da Cidade Flutuante
Durante 1964 e início de 1965 morei na Cidade Flutuante, quando possuía 20 anos de idade. A cidade era o aglomerado de casas de madeira, algumas cobertas de palha, outras com folhas de alumínio, localizado na orla do rio Negro. Sua entrada principal estava situada onde hoje é o mercado de peixes e carnes da feira da Manaus Moderna. Essa entrada era constituída de três "pontes" (tábuas pregadas ou amarradas sobre enormes troncos de árvores, que serviam de "bóias": a ponte do Paraíba, a dos Taveiras e a do Arueira.Todas seguiam rumo ao "meio do rio" e possuíam cerca de 150 a 200 metros.

As pontes estavam ladeadas por casas flutuantes construídas sobre bóias também, em sua maioria residências, mas existiam casas comerciais: fornecedores de viveres, materiais de pesca e outros artefatos para os ribeirinhos; ainda se encontravam restaurantes, bares, botecos, bazares etc.

Entre tais casas comerciais, gostaria de enfatizar o "Flor de Abacate"... um lupanar estabelecido logo no inicio da ponte do Arueira, oferecendo bebidas, músicas, danças e mulheres livres para dos clientes; era tudo muito bacana, somente que... vez por outra as duplas do "Cosme Damião" (policiais da Policia Militar patrulhando as ruas) desciam até o logradouro para apaziguar os ânimos, e as vezes prender os mais exaltados.

Postal da Cidade Flutuante
Durante o dia, as pontes pareciam “formigueiros”, tal o vai e vem de homens, mulheres e até crianças, transitando com ou sem mercadorias na cabeça, nos ombros, nas mãos, enfim... era um movimento constante de pessoas fazendo isso ou aquilo.

O primeiro governo revolucionário de 1964 idealizou "limpar" a frente da Cidade, promovendo assim a retirada dos moradores e demolição das casas, oferecendo como local de nova moradia, terras recém desmatadas onde hoje, mais ou menos, se situam os bairros do Alvorada 1 e 2. Desapareceu dessa maneira a Cidade Flutuante, que eu conheci.

* Herbert Ribeiro (professor aposentado, estudioso da vida manauense, conhecedor dos bondes de Manaus, sua próxima colaboração)

Visão da Cidade Flutuante. A Crítica, agosto 1980

domingo, janeiro 02, 2011

CIDADE FLUTUANTE

Existiu na orla do rio Negro, com entrada em frente a praça dos Remédios, um alomerado de flutuantes, que dispunham de arruamento, intitulado de Cidade Flutuante. Tudo sobre as águas. As casas de madeira e palha, claro, os troncos reunidos que serviam de ruas, a distribuição de energia elétrica e o vai e vem do comércio de todas as tendências.
Obviamente que os dejetos de toda natureza acabavam nas águas. Era um espetáculo curioso, mas que depunha contra cidade de Manaus.

Cartões postais da Cidade Flutuante, Manaus, cerca 1964

Constituido há décadas, alcançou a instalação do Governo Militar, em 1964. Coube ao primeiro governador do período, Arthur Reis, desmobilizar a "cidade". Foi realizada utilizando a Força Militar, mandando os moradores para bairros em formação.

Cartão Postal mostrando a Cidade Flutuante, Manaus, c1963
Livro de autoria de Arthur Reis. Manaus, 1967
Ainda hoje se discute, não o encerramento do conjunto, mas a forma como se tratou os moradores. A decisão desse governante encontra-se em um de seus livros: Como governei o Amazonas.