CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

17 de julho de 2013

MANAUS: HISTÓRICO E SENTIMENTAL (2)


Detalhe da capa
 do livro
O hoje acadêmico Luiz Miranda Corrêa publicou, em 1969, Manaus: roteiro histórico e sentimental da cidade do Rio Negro, objetivando montar um Guia para os visitantes de Manaus. Deste roteiro copiei e colei o texto abaixo:  

AS GRANDES CASAS CRIADAS PELA BORRACHA
 
VALE a pena fazer uma visita às grandes casas que as famílias enriquecidas pela borracha mandaram construir em Manaus. É verdade que a grande maioria se encontra, atualmente, transformada em repartições públicas, hotéis de segunda categoria, ou até em ruínas grandiosas. Poucas foram as famílias a conseguir sobreviver ao grande debacle.
Algumas, como os Oliveiras da "Vila Fany", os Araújos (que possuíram a maior casa aviadora do Amazonas, cujo fundador o famoso Comendador se encontra retratado em A Selva, de Ferreira de Castro), os Bretislau de Castro, os Madureira de Pinho, os Rezende Rocha, os Miranda Corrêa, os Mattos Areosa, entre outras, sobreviveram por mais algumas décadas. A verdade, entretanto, manda dizer que a grande maioria dessas famílias não vivia diretamente da borracha. Sofreram, é claro, com o empobrecimento da cidade, com o estancamento dos negócios, mas suas atividades industriais, comerciais ou profissionais liberais, lhes permitiram resistir ao caos financeiro advindo após a quebra do monopólio e a conservar um padrão de vida excelente para os índices regionais.

Outras grandes famílias não tiveram a mesma sorte. As fabulosas fortunas dos Mello Resende, dos Raposo da Câmara, dos Ramalho, dos Rêgo Monteiro, dos Nery, dos Bittencourt ou dos Pedrosa, só para citar alguns dos mais tradicionais nomes do Amazonas, desaparecerem como por encanto.
Os Mello Rezende, por exemplo, possuíam propriedade em Paris. Nela viviam grande parte do ano. O mesmo acontecia com os Nery e com os Ramalho. Os Raposo da Câmara residiam durante grandes temporadas na Suíça, país em que edu
cavam seus filhos. Em Manaus, construíram grandes vilas ou palacetes onde os móveis caros da Europa vinham entulhar construções inteiramente deslocadas no ambiente amazônico.

Refletiam, entretanto, um estado de espírito dominante na comunidade aventureira, numa sociedade não estratificada, em que os padrões não eram regidos pelo sucesso financeiro. Da época, o anedotário amazonense herdou mil e uma histórias saborosas. Conta-se, por exemplo, que um português enriquecido, proprietário de casa aviadora, residente em palacete art nouveau, chegando a casa mais cedo, encontrou as duas filhas se exercitando ao piano, em uma peça a quatro mãos, sob o olhar complacente da professora francesa. Insultado, retirou-se, indo à loja mais próxima adquirir um segundo piano igualzinho ao belo Bekstein  de cauda inteira existente em seu salão. E repetia: "Ora bolas, tenho dinheiro. Não quero que ninguém diga que minhas filhas estudam no mesmo piano por sovinice."
As velhas casas do tempo da borracha têm histórias e fantasmas, estes últimos uma espécie de herança inglesa, bem aceita pela ingenuidade do indígena, sempre pronto a acreditar no sobrenatural. Através dos tempos elas vêm merecendo a atenção dos estudiosos. Arthur Cezar Ferreira Reis, Leandro Tocantins, José Lins, Mário Ypiranga Monteiro, Genesino Braga e eu mesmo, já tentamos descrevê-las e interpretá-las. Talvez hoje já não pareçam tão grandes e tão importantes às gerações acostumadas ao concreto armado, e as estruturas metálicas, criadoras da construção gigantesca dos arranha-céus. É necessário situá-las no tempo e no espaço a fim de entendê-las e apreciá-las. É preciso recuar ao fim do século XIX e aos primórdios do nosso século, lembrando que Manaus nada mais era que um ponto perdido no centro da Amazônia, distando mil milhas do Atlântico, com apenas
vinte mil habitantes. Aí então poderemos entender a importância dessas construções para seus proprietários e para a própria comunidade.

Pensar, por exemplo, na loucura da construção do hoje Palácio Rio Negro, residência do comerciante Ernest Scholtz, um dos grandes anfitriões da Manaus da borracha. Ele oferecia bailes e recepções que se prolongavam pelas grandes varandas e jardins. Ou no palacete "Fernandinho", escondido no meio do mato, espécie de vila italiana, hoje abrigando a sede do IPASEA (em nossos dias, pertencente à Amazonprev), em cuja traça Leandro Tocantins foi descobrir formas romanas inspiradas na arquitetura de Baldassare Peruzzi. Os gigantescos sobradões portuguêses são outro exemplo, sobradões que variam entre um neoclássico um tanto romantizado até às inovões, do art nouveau, parentes bem próximos dos sobradões do Cais do Sodré, de Lisboa, ou dos belos exemplares do Boulevard Castilho França, em Belém.
 
Nas redondezas da Praça dos Remédios e na avenida Joaquim Nabuco, concentram-se as grandes residências dos senhores da borracha. Outras, porém, são encontradas nos altos da avenida 7 de Setembro, na Eduardo Ribeiro, e perto da Praça Dom Pedro II. Alguns fugiram do centro urbano, e, imitando os ingleses, procuraram terrenos mais altos: já nos limites com a floresta, perto do reservatório do Mocó. O palacete desabitado de propriedade da família Furtado é bem um exemplo dos modernismos daqueles dias. Belo prédio em centro de ampla propriedade, inteiramente art nouveau, de um risco eminentemente francês, com orientalismos marcantes em suas portas e janelas. Se a traça externa é agravel,
internamente demonstra certo acanhamento nas divisões, com salas e quartos pequenos, o que era comum nas construções europeias do gênero.

Voltando ao centro, deve-se olhar a tão conhecida "Vila Fany", ponto de encontro, até os anos dos 30, da melhor sociedade amazonense e dos estrangeiros mais categorizados. Sobradão português de larga fachada, em que certos elementos neoclássicos foram empregados visando a conseguir um efeito palaciano. As proporções do prédio são mais portuguesas, e a aparência sólida do bloco foge à leveza do neoclássico, que se pretendeu conseguir.

Ainda na Joaquim Nabuco, rua onde se encontra a "Vila Fany", encontra-se mais de meia dúzia de belos sobradões portugueses, alguns com azulejos de inspiração colonial ou já art nouveau, ostentando em seus frontões estatuária do Porto. Deve-se notar, também, outro tipo de construção mais singela, cujas origens portuguesas se denunciam à primeira vista. Espécie de pequenas casas de fazenda já com requintes urbanos, construção híbrida que talvez Gilberto Freyre chamasse de rurbana, cujo melhor exemplo é a bela casa em que hoje se encontra instalada a Legião Brasileira de Assistência.

Ainda na Joaquim Nabuco encontramos a sede amazonense do IRB, um tipo de "Vila Fany" em maiores proporções, trazida aà calçada em que os elementos neoclássicos não são tão evidentes. Pertenceu à família do seringalista
Mendes Cavaleiro e depois serviu como Consulado da Colômbia. É outro prédio a lembrar que a Joaquim Nabuco foi das ruas prediletas dos nouveau riches do início do século. E na mesma via pública, alguns blocos mais abaixo, o palacete Nery, construído pelo governador Silvério Nery, servindo atualmente como sede de repartição federal, nos parece suave e imponente em seu neoclássico tranquilo, com frontão triangular decorado um tanto à maneira shereaton. Sem dúvida é a mansão manauense mais castiçamente neoclássica, com janelas e portas francesas, seu pátio com varandas, seus gradis forjados ao gosto de Paris da época. Os Nery, pela sua elegância e seu refinamento francês, escreveram uma página na vida política e social da cidade. Ao Estado deram dois governadores esclarecidos, que souberam aproveitar as condições que a borracha criara, lançando-se, com visão, a grandes empreendimentos. Mas tarde outro Nery (Júlio) governou o Amazonas como Interventor Federal e, presentemente, é um Nery (Paulo) o prefeito de Manaus.

Na parte mais nova da cidade o turista poderá reparar no sobradinho apalaçado existente na esquina das ruas 24 de Maio e Barroso, gradis na entrada e beirais de chumbo com motivos florais trabalhados e rebuscados, bem dentro do espírito do estilo. Atualmente, abriga o Consulado de Portugal. Ainda digno de nota é o palacete Bretislau de Castro, casarão português com certos maneirismos franceses, escadarias de mármore italiano, grades e beirais enfeitados com flores de lis. Em nossos dias, serve a uma repartição do governo federal, mas já foi cenário de grandes jantares e recepções em que D. Mariquinhas Bretislau pontificava com seus quitutes e especialidades famosas nos quatro cantos da cidade, dentro de um espírito luso-brasileiro tão raro de encontrar no Amazonas, a lembrar o modo de vida patriarcal das cidades nordestinas interpretado por Gilberto Freyre em Sobrados e Mucambos.

Na Praça da Saudade o palacete a abrigar a reitoria da Universidade do Amazonas, por muitos e muitos anos conhecido como a casa do Juiz Federal, é de um art-nouveau depuradíssimo com portas e janelas mouriscas. Traça a indicar mestre de obras português inspirado nos orientalismos da moda e em certo saudosismo ibérico. O pé direito desmesurado dos andares lhe prejudica o equilíbrio externo, mas se as proporções não foram respeitadas, garantiram, no todo, grandeza um tanto antiquada mas, sem dúvida, de casa nobre.

Na Praça Antônio Bittencourt, também chamada Praça da Saúde ou do Congresso, encontramos o palacete Miranda Corrêa, com seu ar de hotel particular francês, ligado diretamente à arquitetura de Mansard com nítidas influências dos castelos do norte da França, como o Chateau Champs de Bataille, por exemplo, ou de outras casas campestres. Com porão alto, dois andares nobres e sótão mansardado, constitui-se em bela forma arquitetônica. Em seus grandes dias era decorado internamente com móveis ingleses e franceses e seus salões abriam-se regularmente para grandes jantares em homenagem a visitantes ilustres, políticos, intelectuais e músicos que, após os suculentos comes e bebes amazônicos, servidos em cristais e porcelanas francesas de 1900, se exibiam em saraus musicais em um dos quatro famosos pianos de cauda importados da Alemanha e da Inglaterra, dois Blutner, um Beckstein  e um Cramer.

Seguindo a rua Monsenhor Coutinho, que cruza a Praça da Saúde, encontra-se, um quarteirão abaixo, já na esquina da rua Tapajós, o sobradão dos Mattos Areosa, hoje funcionando como Faculdade de Filosofia da Universidade do Ama-
zonas. Digno de nota por seu aspecto lisboeta, grande fachada lateral, janelas com balcões gradeados, amplas varandas cobertas com beirais de chumbo trabalhado e belos gradis forjados.
É uma tentativa de criação de sobrado amazonense, respeitando o clima regional, a demonstrar a facilidade com que os lusos se adaptaram aos trópicos, pois se trata de casa construída por portugueses e para família originária de Portugal.

Deixamos para encerrar o capítulo das casas da borracha, com algumas notas sobre o palacete Beça, hoje residência do ramo-Beça-Vaz de Oliveira, por se tratar de belo exemplar da arquitetura luso-tropical no Amazonas, que nos chega dos grandes dias da cidade, intacto e habitado pela mesma família. Seguindo uma tradição amazonense de nítidas raízes luso-tropicais, os Beça Vaz de Oliveira continuam a receber com a mesma mesa farta e adega selecionada, apanágio dos dias fáceis do ouro negro.
O palacete Beça além dos belos gradis, azulejos e cerâmicas, vale bem uma visita aos seus jardins cuidados à maneira de um paisagista tropical em que pássaros e aves amazonenses, domesticados, graciosamente se exibem aos convidados.

Existem, é claro, outras mansões, palacetes e grandes casas. Herança dos dias em que Manaus reinava como o centro mundial da borracha. Seria impossível descrever todas elas e, portanto, escolhemos as que julgamos mais representativas de cada estilo ou de cada maneira de viver das famílias mais destacadas daqueles dias, que marcaram a ascensão de Manaus à categoria de cidade.