CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, outubro 11, 2026

POEMA DOMINICAL (55)

 

Circulado em Jornal do Commercio, 28 março 1955


            Senti de perto, bem de perto

o drama dilacerante de tua vida.

Acompanhei, no silêncio prolongado

de minha dor,

a noite angustiosa, sem alvoradas,

que cercara os teus últimos dias!

O teu destino se fizera um látego

e te suplicou

impiedosamente...

Mas, como foste grande em teu padecimento!

Como soubeste contar as tuas lágrimas

que deveriam queimar tua face pálida,

transfigurada pelo sofrimento...

Acompanhei teus dias sem sol,

tuas noites sem estrelas...

Senti a angústia de teu isolamento...

No entanto, volvendo o olhar

às brumas do passado,

a esse passado de sonhos e de rosas

eu te revejo, na tortura

de uma evocação comovida,

como sendo a nota musical

de pompeante alegria, que se fora,

para nunca mais voltar!...

 

Eras alegria!

A alegria de muitos corações!

Flor que desabrochou entre carinhos

– como um sonho de ternura –

Eras a flor da bondade,

eras a flor da alegria...

 

Teus dias de luz,

teus dias de festa!

Tudo fugira como por encanto!...

Porém, o teu sorriso costumado

jamais deixara de aflorar aos teus lábios

sentidos!

Foste grande! Foi grande e inquietador

teu estoicismo. Eis porque tu tiveste

a serenidade quase angélica

quando a hora final do alto te acenou

e tranquila a Jesus tua vida deste

na tragédia da dor!...

domingo, julho 20, 2025

VINICIUS DE MORAES (1913-80)

 Este artista de tantos predicados morreu há 45 anos, em 09 de julho de 1980, cujo passamento atingiu inúmeros admiradores em todo o país. Em Manaus, o respeitado e saudoso poeta Homero de Miranda Leão (1913-87), também conhecido pela atuação legislativa, escreveu o “Soneto para Vinicius de Moraes”, circulado no Jornal do Commercio, de 23|julho|1980, aqui transcrito. 

Recorte do Jornal do Commercio, de
23 julho 1980

Um festival de estrelas no infinito

Te recebeu, poeta, no esplendor

De tua arte suprema quando o amor

Tinha em teu peito a vibração de um grito!

Chegastes ao coração de um mundo aflito

Pela beleza de teu verso e canto;

E muitas vezes enxugaste o pranto

Das almas desoladas, em conflito...

Aedo iluminado na esperança

As noites e as manhãs na sua lembrança

Hão de guardar a imagem de tua vida!

E a terra, em cujo coração sonhaste,

Te exalta e glorifica na partida

Pelo deslumbramento que deixaste!...

segunda-feira, julho 04, 2022

VINICIUS DE MORAES (1913-1980)

 Quando do falecimento do poeta Vinicius de Moraes, em 9 de julho de 1980, este acontecimento teve relevante repercussão. Não somente entre seus acompanhantes no bar do Caldeira, porém, com vitalidade entre intelectuais. 

Compartilho os textos de dois acadêmicos sobre o saudoso Vinicius, ambos poetas, escritos em jornais da cidade. Um, de Homero de Miranda Leão (Jornal do Commercio, 23|07|1980) e dois, do padre Nonato Pinheiro (Jornal do Commercio, 17|08|1980).


1 - VINICIUS DE MORAES -

padre Nonato Pinheiro

A recente morte de Vinicius de Moraes provocou no país um surto emocional de saudade e ternura em torno do astro que se apagou no tempo, mas continuará a luzir na posteridade, nas páginas antológicas de suas soberbas produções. Poeta, teatrólogo, cronista e compositor, legou-nos uma obra literária digna do maior apreço, pelo alto quilate de suas mensagens.

Vinicius convenceu-se de que o super comodismo dos novos tempos já não dá oportunidade triunfal para o poema papel, o poema-livro. O homem moderno, ultra comodista, já não suporta segurar o volume e volver as páginas do livro. Isso importa em cansaço e cafonice.

A vez é do poema canção, poema-musical. A poesia não entra mais no espírito pelo vestíbulo das pupilas, mas pelas arcadas auditivas, envolta nas sororidades fascinantes da melodia. Embora não aceite integralmente esse ponto-de-vista do saudoso e pranteado poeta, talvez por ter herdado do berço o culto do livro, coisa para mim inseparável da cultura, esse ângulo visual não deixa de ter seus atrativos.


quarta-feira, abril 06, 2022

SOBRE FESTA NA ACADEMIA DE LETRAS

Acerca da festa promovida pelo Silogeu Amazonense para recepcionar ao acadêmico Ramayana de Chevalier, em 23 de abril de 1960, o deputado estadual Homero de Miranda Leão, jubilado cultor da poesia, publicou o artigo que aqui vai postado. 

Recorte de O Jornal, 26 abril 1960

A posse de Ramayana de Chevalier na Academia Amazonense de Letras, que tem a presidi-la esse admirável Salignac Souza, é, a qualquer exame, motivo de contagiante alegria e justificado orgulho, para todos nós. Vimo-lo, sobranceiro, assomar à tribuna do Silogeu, sentimo-lo, na intensidade emocional com que ele, a princípio, se dirigiu aos presentes, destacadamente ao nosso eminente governador Gilberto Mestrinho a quem "devia a graça" de estar ali, tomando assento na Cadeira outrora 5 ocupada pelo grande Adriano Jorge e que tem como patrono a figura ímpar das letras nacionais, que é Euclides da Cunha.

Era Ramayana que iria com as suas excepcionais qualidades de tribuno, escritor, poeta e pensador, encher de claridades aquele ambiente austero; era o homem de ciência, "possuidor de uma cultura humanística realmente invejável", conforme se expressou a seu respeito o saudoso mestre Péricles Moraes, em página lapidar, constante de um dos seus livros, que iríamos ouvir, naquela grande noite fulgurante.

E assim foi. Assim aconteceu. De Adriano Jorge e Euclides da Cunha, em sínteses prodigiosas e arrebatadoras, ocupou-se Ramayana de maneira exata e profunda, salientando-lhes o papel preponderante que representaram no cenário altíssimo das letras, demarcando épocas, na perpetuação do pensamento, e dentro das fronteiras próprias, que lhes destinaram as vocações. Euclides da Cunha exsurgindo, por inteiro, no estudo e na análise produzidos pelo novo imortal, que lhe apreciou as insuperáveis qualidades de sociólogo, escritor, antropologista, pioneiro de uma era nova, vexilário das angústias que sacudiam e ainda sacodem o nosso bravo habitante interiorano.

Com efeito, deram-nos "Os Sertões" a imagem dolorosa e injustiçada do homem das estepes nordestinas, dando-nos, por igual, a imagem do "martírio secular da terra". Para Euclides “o sertanejo é, antes de tudo um forte". Mas Ramayana assentou, qual um imenso foco de luz, -- e como se houve admiravelmente bem no apreciar esse aspecto do homem que "escrevia com cipó", -- a figura do autor glorioso de À Margem da História, vendo-o como o grande repórter, como aquele que, sob essa moldura luminosa e heroica nos transmitiu todas as mensagens da alma, do sofrimento e das esperanças coletivas. Sim, Euclides foi o imenso repórter, que daria ao seu século a obra que faria a glória de toda uma Pátria e de toda uma raça.

Quanto a Adriano Jorge, vimo-lo apreciado, a traços seguros, como o médico sábio, o homem de letras, o tribuno, o esteta, enfim; mas também como se aquele que, a um tempo, conseguiu ser grande e ser bom. A simples evocação da figura legendária do autor de Oração à luz fez-nos como que sentir a sua presença miraculosa, ali no templo das letras, arrebatando-nos com sua palavra escachoante, misto de luz e de prece; sol que doirava esta terra, e que possuía por igual a força dominadora de um evangelho.

Consolou-nos, portanto, vê-lo substituído por outro extraordinário talento, o qual, por certo, continuará a espargir as belezas e as cintilações, que constituíram dotes excelsos de seu antecessor. Está, portanto, de parabéns a Casa de Péricles Moraes, onde fulgem tantas inteligências e tantas cerebrações. Mas, não posso ao menos nesta oportunidade, de ensartar a estas despretensiosas linhas, as minhas sinceras congratulações a Gilberto Mestrinho, culto e dinâmico Governador, pois foi ele quem proporcionou a volta de Ramayana à nossa terra, numa a atitude reivindicatória, ao escritor, que durante tantos anos esteve à margem de cargos de relevo em nosso Estado.

E Ramayana ocupa, hoje, um dos setores de destaque na pública administração trabalhista. Diríamos, então, nesta hora, parodiando o grande e saudoso Leopoldo Peres, em se referindo a um pensador e polígrafo paulista, face ao poder de catalização de um estadista brasileiro, que não conseguiu o festejado autor de No Circo Sem Teto da Amazônia, esquivar-se ao faro psicológico, à imantação desse garimpeiro audaz, que é o senhor Gilberto Mestrinho, hábil no batear as gemas auríferas do talento, no joeirar o valor e captá-lo, onde quer que se ele encontre para obra coletiva do Amazonas.

Concluindo, presto igualmente a minha homenagem a Djalma Batista, à sua cultura poliédrica, ao seu espírito solar, sem esquecer a primorosa e invejável formação moral, que lhe serve de escudo. O seu discurso de recepção a Ramayana foi uma peça profunda, séria, estruturada naquela linguagem castiça, peculiar ao autor de Letras da Amazônia. Parabéns, Academia!


domingo, setembro 30, 2012

Governador Henoch Reis, em 2 tempos


 
Henoch Reis (à esq. curvado), coronel Cavalcanti Campos e
o deputado Homero de Miranda Leão
Henoch Reis, que foi ministro de Tribunal Superior do Trabalho, governou o Estado entre 1975-79, sucedendo ao coronel João Walter de Andrade, e entre outros atributos manteve ou procurou manter a elegância pessoal.

No primeiro momento, em seu gabinete no Palácio Rio Negro, HR recebe o deputado Homero de Miranda Leão, igualmente poeta e membro da Academia Amazonense de Letras, assistido pelo chefe da Casa Militar, coronel Cavalcanti Campos, ornado de alamares e sorriso. O despacho de Sua Excelência devia ser de geral agrado.

Mas, que mais chama atenção no registro fotográfico é o vestuário dos dois políticos: paletós de xadrez bem “chamativo”. Aliás, a repartição do nosso governador era bem sóbria, assim como o material de escritório, basta observar a pasta colecionadora sobre a mesa, que parece combinar com os paletós.

 
Henoch Reis caminha a frente de dom Milton (de batina) e ao
lado do coronel Cavalcanti (à dir.); capitão Salvio (à esq. de perfil)

Aqui, o governador HR, rodeado por segurança policial e eclesiástica, dirige-se a uma festividade. Novamente o modelo xadrez da camisa do primeiro mandatário se destaca.

A segurança militar cabia aos membros da Casa Militar, vendo-se na direção o coronel Cavalcanti Campos. Também se vê o finado Sálvio Belota (então capitão) e alguns subalternos. A corte da Igreja estava representada pelo arcebispo de Manaus, dom Milton Pereira, e monsenhor Francisco Pinto, vigário da Catedral. Amém.