CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

8 de novembro de 2016

CLUBE DA MADRUGADA: 62 ANOS

Apesar de desativado há tempos, o Clube da Madrugada segue lembrado por uma legião de saudosistas. Este mês de novembro marca seu 62º aniversário de fundação. 
Elson Farias contempla o poeta Alencar e Silva, 2004

Para relembrar esta efeméride, reproduzo (em três partes) a publicação sobre o Madrugada, produzida pelo falecido poeta - Alencar e Silva, em sua obra póstuma Quadros da Moderna Poesia Amazonense (Ed. Valer, 2011).

PRELUCIDAÇÃO

Esta prelucidação se faz indispensável por vários motivos, mas, em especial, por ensejar ao leitor uma notícia pormenorizada da situação em que se encontrava a capital amazonense, no período imediatamente anterior ao surgimento do Clube da Madrugada.

A redação destes textos foi feita ao sabor das lembranças, nos dois últimos anos do século recém-findo evitando-se naturalmente a pressa desfiguradora que pudesse incidir sobre o fluxo seletivo do que se tinha a narrar. Neste passo inicial, trata-se apenas de pôr em ordem e reduzir a termos as memórias que guardo acerca do tempo e das pessoas que compunham ou vieram a compor o cenário cultural da minha província natal, ao iniciar-me nos mistérios e graças da poesia.

É claro que, em se tratando de matéria de memória, deverão essas circunscrever-se ao meu tempo vital, isto é, ao que presenciei ou de que tive conhecimento através de fontes inequívocas. Para situarmo-nos mais facilmente no tempo, direi que nasci em 1930, no Alto Solimões, tendo decorrido toda a minha infância em Fonte Boa e Codajás, em cujas barrancas, diante do rio majestoso, aprendi lições de silêncio e de contemplação interior.

Daí por que sempre tive com os rios da minha terra uma espécie de relacionamento amoroso, de enamorado que se compraz em contemplar a amada, vendo-a passar. E mais contemplativo fiquei, e mais cauteloso, ao dar-me conta de que, por umas seis vezes, tanto no Negro como no Solimões e também, depois, no mar, eu escapara por pouco de morrer, ao afoitar-me em suas águas fundas.

Não obstante, a contemplação das grandes massas líquidas responde-me sempre com a sua serenidade. O certo é que, desde quando abri os olhos, cheios de perplexidade, para as misérias do mundo (que eu procurava entender, sem muito êxito), e as indagações do espírito me afundavam em prolongados mutismos - eu ia olhar e interrogar o rio. E o seu sereno fluir devolvia-me a paz. Isto, desde a infância e seus alumbramentos, dentre os quais um deslumbrante pôr de sol sobre o Solimões, que me fez ir às lágrimas, de pura beleza.

Aos dez anos, eu chegara a Manaus. E logo os rumores da Segunda Guerra Mundial e o afundamento de navios mercantes em águas territoriais brasileiras, por submarinos alemães, ecoavam e faziam sentir os seus efeitos diretamente na capital amazonense, refletidos no racionamento de quase todos os gêneros de primeira necessidade, produtos importados e energia elétrica, até chegar-se, mais adiante, ao permanente blecaute e à volta aos lampiões e lamparinas a querosene.

Tempos duros em que os cursos noturnos praticamente deixaram de funcionar ou o faziam a duras penas, à luz de velas. Estava-se em plena vigência do "Estado Novo". E a atmosfera que se respirava em Manaus era, como não poderia deixar de ser, quase só aquela "consentida" pela censura ditatorial, exercida em todo o país pelo Departamento de Imprensa e Propaganda.

Vale dizer: manifestações, só a favor; contra, nem pensar. Eu não conhecera até então outra realidade, senão aquela, mas sentia que havia alguma anormalidade naquilo tudo. Tempos de estranha unanimidade.

É claro que havia vida literária em Manaus, que sempre fora um centro intelectual requintado, o, mercê do surto de progresso e desenvolvimento determinado pelo ciclo de ouro da borracha, que lhe embelezara a cidade e propiciara o surgimento de uma elite perfeitamente sintonizada com a belle époque e em dia com a literatura francesa, cujo idioma muitos dominavam.

A intelectualidade da terra –  excetuada, naturalmente, aquela parcela que atuava extramuros da Academia – era, ainda na metade da década de 50, basicamente a que remanescia dos idos de 1918 (ano da fundação do silogeu amazonense) e reunia-se, por assim dizer, em torno das figuras de João Leda e outras lideranças de variada abrangência, escritores de elevado e justo renome, capazes de brilhar em qualquer cenáculo de cultura, mas que, enquanto viveram, ofereceram tenaz oposição aos cânones da Semana de Arte Moderna, de 1922.

Principalmente João Leda, vernaculista de nomeada, que chefiara uma infeliz manifestação de desapreço – incluindo vaia e panfletos – a Mário de Andrade, quando de sua estada em Manaus, em 1927, e que tanto desgosto causara ao rapsodo de "Macunaíma", o qual só por elegância não desfaria de público a impressão favorável e os louvores que a cidade lhe merecera, mas da qual se queixaria amargamente em cartas a amigos.

Esse episódio exemplifica, de algum modo, um certo vezo, que havia então, de considerar-se a capital amazonense uma destruidora de mitos e reputações. Citavam-se, a propósito, casos de intelectuais que, justa ou injustamente, ali teriam sido desmascarados etc.


Não constituirá, pois, mera metáfora afirmar-se que, ainda nos anos 50, havia trincheiras, dentro e fora da Academia, de onde se atiravam calhaus ao Modernismo. É claro que, sobrepondo-se a tais pecadilhos, a bela e vaidosa província sabia receber com graças de mulher formosa as celebridades que a visitavam. E disso nos dá conta a pena jovial de Genesino Braga, inexcedível cronista dos fastos históricos de Manaus.
 (segue)