CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, novembro 18, 2016

CLUBE DA MADRUGADA: 62 ANOS (3)

A derradeira parte do texto do saudoso poeta Alencar e Silva sobre o Clube da Madrugada, que celebra seu aniversário no próximo dia 22. O original encontra-se no livro póstumo deste poeta - Quadros da Moderna Poesia Amazonense (2011).


PRELUCIDAÇÃO

Havia, por certo, razões para esse comportamento, ditadas, umas, subconscientemente, pela autocensura que teme contrariar a ordem estabelecida, ou que a aceita, e, outras, pelo natural processo de envelhecimento e asfixia de um quadro marasmático que não tinha por onde renovar-se, de vez que todos os caminhos pareciam estar bloqueados, como no poema de Aníbal Machado, e não havia salvo-conduto para a canção.
Dir-se-ia, então, que não havia bons poetas em Manaus? Havia-os, sem dúvida, e, alguns, mesmo, muito bons, como Hemetério Cabrinha, Américo Antony e Álvaro Maia, para mencionarmos apenas aqueles para os quais a arte poética não era um mero exercício de diletantes, mas, sim, o sopro vital que os acompanharia por toda a vida. Conheci-os bem e de perto e fui amigo dos três. 
Em verdade, só o dom da poesia fazia-se-lhes traço comum, a par do talento que os distinguia e os nobilitava. No mais, pessoas em tudo e por tudo diferentes entre si. Hemetério Cabrinha (1892-1959), o poeta de Vereda Iluminada e Frontões, publicados respectivamente em 1932 e 1959, era carpinteiro de profissão. E notável orador. Reunimo-nos várias vezes no café "Leão de Ouro" e no bar "Avenida" para falar de poetas e poesia. Eu gostava de ouvi-lo. E foi em sua própria voz, um pouco rouca mas bem empostada, que ouvi poemas inteiros do seu primeiro livro, bem como trechos dos poemas, editados em plaquetes, Satã, Caim e O Cristo do Corcovado. 
Certo dia, em 1951 ou 1953, indo eu ao Palácio Rio Negro, encontrei o poeta, já chegando à casa dos sessenta, a envernizar as escadarias internas da sede governamental, e ele, sorridente e orgulhoso do seu trabalho, a exibir-me as fortes mãos de operário manchadas de verniz: "Poeta, as águias voam alto, porém, para pousar nos altos píncaros, é preciso que tenham garras fortes!" Achei linda a tirada do mestre Hemetério Cabrinha. 
E fui à presença de outro poeta, o governador Álvaro Mala, a fim de solicitar, e obter, as quatro passagens que nos levariam (a mim e mais três companheiros) ao sul do país. Da produção poética de Álvaro Maia (1893-1969), também grande orador e excelente escritor, conhecia-se, então, apenas os poemas, poucos e bons, que ele se permitira estampar nos periódicos locais — suficientes, todavia, para incluí-lo entre os melhores poetas amazonenses de todos os tempos. 
Sua obra poética só seria conhecida em sua totalidade ao ser editada, em volume único, em 1958, sob o título de Buzina dos Paranás, onde o apuro formal corre em parelha com o seu telurismo e seu sentimento amoroso pela gleba estremecida. 
Quanto a Américo Antony (1895-1970), suponho que se há de lamentar sempre, talvez, não ter o poeta, que era Promotor de Justiça, reunido em livro senão parte mínima de sua obra (Os Sonetos das Flores, de 1959), num volume que, em verdade, não representa o que de melhor o poeta escreveu.
Pode-se, pois, prever, com larga margem de probabilidade, que o melhor de Américo Antony corre o risco de perder-se, na hipótese de sua família não ter diligenciado na recolta do material inédito ou publicado esparsamente nos jornais e revistas locais. (Desde já, todavia, essa hipótese deve ser afastada, eis que, ainda há pouco, nos vimos investido pelos filhos do poeta residentes no Rio de Janeiro — Sra. Isis Antony de Souza Brasil e Marco Aurélio Antony na condição de depositário do acervo de inéditos de Américo Antony, constituído de pouco menos de setecentos poemas, em sua maioria sonetos, e que muito em breve estaremos transmitindo à guarda e providências da benemérita Academia Amazonense de Letras). 
Vê-se, assim, que dos três poetas apenas Hemetério Cabrinha editou regularmente os seus livros, à medida que os escrevia. Foi, também, dos três, o único a não fazer parte da Academia, ainda que méritos lhe sobejassem. 
Por motivos de outra ordem e que se impõem tanto pela sua maior proximidade do ideário renovador do movimento madrugada quanto pelas características de fundo e forma de sua poesia inscreve-se neste pórtico o nome de Djalma Passos (1923-1990), apesar de sua passagem quase que meteórica pela poesia. Isto por que, a partir de 1955, ano em que saiu a sua terceira coletânea de poemas, não mais o poeta assinalou sua presença no território poético, frustrando, deste modo, as expectativas de quantos viram no autor de As Vozes Amargas (de 1952) uma voz, repassada de humanidade, a erguer-se contra as injustiças sociais e a acenar-nos com uma nova luz, e que ainda parece ressoar como o canto de um anjo rebelde pejado de revolta. 
Não se focalizasse, aqui, apenas um segmento da história da poesia amazonense, obrigatória, por certo, seria a menção a vários outros poetas que lhe fecundaram o território sagrado, como Jonas da Silva e Quintino Cunha, os quais, aliás, dividem entre o nosso e os seus estados natais a honra de os contar como seus. 
É claro que um critério mais elástico nos permitiria a inscrição neste preâmbulo de alguns outros nomes que, não obstante a sua contemporaneidade, conservaram-se à margem do movimento renovador, a exemplo de Áureo Mello, todavia, e sem que vá nisso qualquer censura ou juízo de valor, pergunto-me se seria esse o procedimento correto. 
Como quer que seja, parece que as lacunas e omissões em cometimentos da espécie são fatalmente inevitáveis, quando se tem o objetivo de constatar fatos e relatar as impressões mais duradouras por eles suscitadas. (fim)

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