CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

Mostrando postagens com marcador Manoel Mendoza. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Manoel Mendoza. Mostrar todas as postagens

domingo, agosto 09, 2015

DIA DOS PAIS

Não podia ser diferente, neste domingo destacado no calendário. Minha homenagem ao meu saudoso Pai - Manoel Mendonça.

Foto do passaporte, aos 23 anos

Postal da família, fevereiro de 1950
Mendonça, nos final dos anos 1940


Aos 90 anos, em festa com filhos

Festejando o Natal, em São Paulo-SP

sábado, novembro 01, 2014

DIA DE FINADOS


Inscrição no túmulo dos Mendoza



A obrigação de visitar o cemitério para reverenciar os mortos, os nossos mortos, aprendi com meu pai. Este mesmo pai que será hoje visitado para a nossa primeira conversa silenciosa,quando, em sussurros, contar-lhe-ei (fica mais poético) meus desastres e meus acertos, desde que ele “atravessou o rio Negro”. 
 
Meu pai – seu Manoel – viveu 97 anos. E o cuidado que ele dispensava as sepulturas da família era exemplar. Disse sepulturas porque a família dispõe de uma em São João e outra, em São Francisco. Aqui o sepultei em maio passado, ao lado de sua segunda esposa, nossa querida Dona (Dora). Depois de alguns anos, eles se reencontraram para a eternidade. 

No São João, o elenco dos sepultados na quadra 17 é bem maior. Começou em 1940 com o sepultamento de Adelaide Pereira, avó de muitos netos; depois foi minha mãe, em 1953; seguida de uma tia e da avó paterna Victoria Malafaya. Enfim, mas não o fim, há oito anos, foi a vez do meu filho Roberto.
Lousa do túmulo, em construção
O dia nos fornece motivos para essas considerações, que vem acompanhadas de inevitáveis recordações, que nos permitem recolocar os entes queridos um pouco ao nosso recato. Alivia de certa maneira a distância que nos mortifica.

Escolhi um texto do saudoso Arthur Reis para ilustrar esta postagem. Também ele se ocupou em relembrar três homens que construíram o Amazonas e, lamentavelmente, encontram-se no limbo da recordação de tantos.

OS QUE NÃO MORREM NA GRATIDÃO DOS AMAZÔNIDAS (*)

São três nomes grandes da história do Amazonas que se recordam nesta página de Saudade. Eduardo Gonçalves Ribeiro, Sant'ana Nery e Comendador Clementino.
Aquele é o Pensador. Manaus é criação dele. Antes da ação dinâmica, ciclópica por que se assinalou no mando, o que havia aqui era tosco. Manaus dava ares de burgo. Os homens do Império nada tinham realizado. Nada ou pouco. Se duvidam consultem os aspectos velhos, leiam as palavras dos viajantes, alarmados todos com o quadro que enxergavam.

Pensador fez tudo. Imaginou e executou.

E' verdade que errou. Talvez grandes, enormes, imperdoáveis erros. Um deles, o maior, o mais grave, foi o pouco caso pelo futuro econômico. As rendas cresciam, avolumando-se espantosamente, sem que se visse a medida governativa que as impulsionavam, que lhes davam vida. Era tudo naturalmente. O ouro negro operava o milagre. Não é mentira o que se afirma aqui. Há provas.

A palavra do Pensador não será bastante? Ele escreveu uma confissão franca, que as arcas se enchiam, sem as atenções diretas do oficialismo.
Pensador, como Lobo d'Almada, foi uma vítima do seu grandioso querer pelo Amazonas. Ambos, em prodígios, construindo, zelando, civilizando. Ambos cobertos da maledicência dos incapazes, dos inimigos de todo homem que tem ideias, defende-as e as realiza alheio à ação peçonhenta desses malvados. Ontem como hoje, como agora, frisemos.

Sant'ana Nery, não é o Barão que o império, formando ao lado do servilíssimo corpo de fidalgos improvisados, sem tradições. O Amazonas não o conhece nessas vestes canhestras e insignificantes.

A homenagem é ao revelador de uma grandeza. E' ao escritor, ao estilista, sabedor imenso do País das Amazonas, de Folklore Bresilien, de Le Bresil em 1889, aquede primeiro livro fundamental, em que reuniu todo o conhecimento das nossas coisas, água e terra, flora, fauna, o homem de cá ou de fora amansando a jungia amansando a jângal formidável. Livro em que se conta o passado, mostra ao globo, em quatro idiomas, e maravilhoso do vale, sem a fantasia dos poetas, dos romancistas, sem a ciência improvisada de certos amazonôlogos de livros europeus.

Três séculos antes, fora um jesuíta, frei Gaspar de Carvajal, numa crônica fantástica, farta em trechos sensacionais que dissera, além-mar, do gigantesco deste mando em formação. E por tal modo, que desassossegara espíritos, manietara governos, provocando a cobiça do gaulês.

O frade dizia do quadro verde, da selva virgem. Com os excessos que a sua imaginação ardente lhe ditou, encantado. Vendo mulheres em guerra, novas Amazonas, valentes, heroicas, dominadoras, formando o império que, no lendário ameríndio, seria o El Dorado faiscante.

Sant'ana Nery, embora dominado pelos encantamentos da gleba, mas um forte sobre as emoções perturbadoras, com o senso da realidade, segredo que poucos sabem guardar, não mentiu. O País das Amazonas, surpreendendo muita vez pela exatidão dos conceitos, da notícia que se lê, lançou-nos. Apontou-nos. Entregou-nos ao estudo detalhado de povos servidos pela experiência de punhados de séculos.

Antes de Barão, que nada significa para nós, Sant'ana Nery foi, insistamos, o revelador do Amazonas, que o outro, Pensador, levantara cheio de amor. Sábio e artista. Das maiores cabeças nacionais, ao seu tempo, e ainda hoje.

O outro, o terceiro amazônida, teve posições políticas. Barão de Manaus, titulou-o a Princesa Izabel, a 27 de julho de 1888. E' o único amazonense do grupo. Por isso mesmo, o mais ignorado na sua terra. Triste destino de um povo! 

Filiado à corrente conservadora, governou a Província, em 1885 e em 1887. Governou com decência, com patriotismo. Administrou, é bem o termo. Não foi nunca um trânsfuga. Não foi nunca, porém, um escravizado ao partido para aceitar exigências imprudentes, comprometedoras. Quantos lhe rascunharam a biografia acentuaram o prestígio popular que o animava para caminhadas pelo berço. 

Morreu em 1906, a 26 de outubro, em Manaus. Sempre sob a admiração dos coestaduanos. Seu nome – Clementino José Pereira Guimarães. Nascido no velho Lugar da Barra, em 1828. Comendador da Ordem da Rosa, deram-lhe o nome à uma rua. Frágil homenagem, numa terra onde se louvam, nessas demonstrações, até quantos lhe sugaram as energias, lhe deram as horas amargas de agora! 

Pensador, Sant'Ana Nery, Comendador Clementino, não proclama o leitor, três homens do Amazonas? Homens, no sentido honesto!!!

Dormem, os três, em S. João. 

Porque os moços, que desejam lições no passado, não lhes estudam as vidas. E no dia de hoje, não lhes vão à necrópole, numa visitação comovedora e a denotar que já se forma um espírito nosso, voltado para o que é do patrimônio amazonense?

(*) Arthur Cezar Ferreira Reis
Suplemento da revista Redempção, 2 de novembro de 1932

quarta-feira, maio 21, 2014

ORFANDADE DA FAMÍLIA | 2


Manoel Mendonça, ao casar, 1942 
Cumpri ontem à tarde, ensolarada pelo verão amazônico, um sagrado dever filial: levar à sepultura meu venerado pai. José Manoel Mendoza morreu aos 97 anos, às vésperas do centenário, na cidade de São Paulo, onde residia transitoriamente. Amava de verdade a capital amazonense e, sem que tenha disposto, seu corpo atravessou o Brasil, como se despedindo do país que acolheu o peruanito ainda na segunda década do século passado, para ser sepultado em Manaus.  
Antes de ir em frente com o registro, desejo esclarecer a diferença entre o sobrenome dele e o meu. Primeiro o Mendonça.  Quando meu pai, imigrante analfabeto e sem documento, com dez anos, desembarcou em Manaus, passou a ser conhecido por Manoel “peruano”. Legalmente, assinava Manoel Mendonça. Com este sobrenome, estranhamente, casou-se em Iquitos (Peru), e deste fato resultou na esposa e nos três primeiros filhos esta marca.

Agora o Mendoza. Na condição de viúvo, contou-me que buscou o consulado peruano em Manaus para regularizar sua documentação. Também estranhamente saiu dessa repartição com um novo nome: José Manoel Mendoza. Este “novo homem” contraiu as segundas (?) núpcias, resultando gravando este sobrenome na esposa e nos cinco filhos. Assim foi substituído meu pai e já órfão materno, que havia falecido.  Confesso, contudo, que ganhei nova mãe com Dona Dora.

Sepultura
Na tarde dessa terça-feira, reunimo-nos no cemitério de São Francisco, outrora conhecido como da Colônia (Oliveira Machado) e agora denominado do Morro, causado pelo avanço urbanístico deste bairro que absorveu ao “campo santo”, para o sepultamento. Meu pai, muito católico, foi velado na capela de Nossa Senhora Imaculada, no mesmo bairro. De sorte que foi um pulo para o cemitério, passando pela antiga residência da família na rua Amazonas, 29.

Realizamos uma “festa”, como recomendou o vigário na homilia com que encomendou o corpo do velho paroquiano. A morte deve uma passagem para uma nova existência, portanto, alegremo-nos. O velório à moda antiga não dispensou almoço e merenda (lanche em amazonês) e um amplo encontro de familiares e amigos do seu Manoel “peruano”. A todos - sem distinção - agradeço penhoradamente.
Para encerrar, uma palavra pesarosa sobre o cemitério. É uma tristeza generalizada, a começar pelo prédio da administração, caindo aos pedaços.  “Operários” em busca de algum serviço, amontoados a entrada, atacam qualquer visitante, com ofertas as mais variadas. Arrisquei pagar por uma limpeza ao túmulo da família, coisa para arrancar alguma vegetação ressequida e uma vassourada em redor. Joguei dinheiro fora, pelo porco trabalho realizado. Contratei outro para fechar o jazigo após o enterro. O serviço não pôde ser realizado porque o coveiro estava cansado e, pior, não havia adquirido o material necessário. Enfim, falar em quadra, fila e número da sepultura, no São Francisco, é um acinte, um exercício de adivinhação, tal a irregular disposição das covas, devido ao declive do terreno e, mais ainda, da indolência dos administradores.

São Francisco, rogai por nós!
Prefeito Artur Neto, velai pelo nosso patrimônio!

Seu Manoel Mendonça (za), olhai pelos seus agradecidos descendentes.

segunda-feira, maio 19, 2014

ORFANDADE DA FAMÍLIA



Seu Manoel e dona Francisca (acima)
com Dona Dora e o filho Carlos (abaixo)

Aconteceu hoje, na metade do dia, o falecimento do senhor José Manoel Mendoza, meu pai e de mais sete homens e uns tantos netos e poucos bisnetos. Aconteceu em São Paulo, onde residia há poucos anos, pois sua paixão mesmo era a capital amazonense. O fato é que na sexta-feira sentiu-se enfermo e foi levado ao hospital, onde após ser diagnosticado foi encaminhado para uma cirurgia.  A elevada idade não permitiria melhor resultado, assim resistiu até hoje. Morreu aos 98 anos.
Seu Manoel nasceu em Iquitos-Peru, na fronteira com o Brasil. Um dia no distante ano de 1927, sua mãe Victoria, em companhia de outros homens, tomou dois filhos (Manoel e Francisco) e desceu o rio Solimões em direção a Manaus. Sem instrução, enfrentaram as dificuldades próprias de imigrantes. Lutaram e venceram.
Durante a II Guerra, meu pai trabalhou na empresa de J. G. Araújo e, com mais afinco na Padaria (isso mesmo!) Bijou, situada na avenida Sete de Setembro, nas proximidades da praça da Polícia. A estrutura desse prédio continua intacta, tanto que no térreo funciona uma loja TV Lar. Ao tempo da guerra, um desabastecimento da cidade acarretou a venda de gêneros alimentícios sob a fiscalização e o controle da Polícia.
Mais adiante, o jovem peruano tomou a noiva, minha mãe Francisca, e zarpou pra Iquitos, onde casou e montou uma firma de “secos e molhados”. Ele era um bom vendedor, articulado, mas com uns princípios econômicos que não estavam na cartilha do bom comerciante.
Um dia de 1946, voltou para Manaus e se instalou na rua Inácio Guimarães canto com o beco São José, em Educandos, onde  fundou uma mercearia, que ainda funciona ainda que precariamente. Nascidos os primeiros filhos (Roberto, Antônio e Renato), a mãe destes morreu vitimada por uma tuberculose. A luta recrudesceu... Mas, o casamento com Dona Dora trouxe uma nova mãe para os primeiros e os próximos filhos (Zemanoel, Jorge, Ricardo, Luis e Carlos). Como se vê, não havia mudança, todos homens.
Ele já tinha experimentado o Rio de Janeiro na oportunidade da primeira Copa do Mundo no Brasil. Todavia, voltou para Manaus. Em nova investida, depois de todos esses filhos rumou, amparado pelos mais velhos, para São Paulo. E ficou num vai e vem, porque ele gostava mesmo era de Manaus. Seu mundo, sua vida. A segunda esposa morreu há 20 anos, quando se torcia que ela mais jovem o amparasse até o final. Num deu.
Na festa dos 90 anos, com o filho Renato

Em Barra Mansa, posa com os filhos (cima)
e com os netos (baixo)


Aos 90 anos, nos reunimos em Barra Mansa-RJ para comorar a data tão auspiciosa. A saúde dele seguia sem susto. Aproximava-se o centenário, e os filhos já programavam a festa. Hoje, porém, houve um tropeço. A festa vai se realizar para assinalar a passagem pela vida deste peruano de coração e alma verde-amarelos.

Em São José dos Campos-SP, com filhos e
netos - 2011

 

segunda-feira, junho 17, 2013

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO


Recorte do boletim,
de 19 junho 1949
Certo dia, meu pai me presenteou com um folheto que, descolorido pelo tempo, juro não dei a menor atenção, mas permaneceu aquela curiosidade. Apenas verifiquei que se tratava de um boletim publicado pela paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Educandos, em 1949.

Em outro certo dia, chegou o momento de me dedicar ao conteúdo do folheto. E qual não foi minha surpresa quando em uma das páginas encontrei minha foto (veja as ilustrações), contando do meu aniversário naquele junho. Eu possuía solamente três anos e pousava no estúdio Artístico.

Hoje, 17, completo 67.

Semanário da paróquia de Educandos
 
A igreja de Educandos do padre Antônio Plácido foi meu primeiro porto seguro. O saudoso sacerdote conseguiu-me uma vaga no Seminário São José, ali na rua Emilio Moreira com a avenida Ramos Ferreira, onde hoje a Uninorte ensina os futuros advogados. Consegui completar a metade da caminhada, se pensava em ser padre.

Foi o vigário de Educandos que me ajudou a passar a primeira ponte que ligava o bairro a outro destino: a Cachoeirinha. Depois vieram as minhas conquistas e topadas, as vivas e as lágrimas e tantos outros incidentes. Passei no quartel da Praça da Polícia a vida operativa, meu único emprego. Nestes agoras, à margem do igarapé de Manaus dedico-me a catar papeis e a relembrar histórias. Como esta que meu pai protagonizou.

Escrevi isso para agradecer ao velho pai – Manoel Mendoza, que me espia com seus olhinhos cheios de nuvens que a catarata vai consumindo. Me espia de longe, bem longe. Não, ele ainda vive quase centenário, em São Paulo, capital.

Para ele, que soube guardar com carinho e devoção um pedaço história de Educandos saudoso e da Santa padroeira que sei o protege, meus parabéns nesse dia festivo para mim.