CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

Mostrando postagens com marcador Isaac Melo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Isaac Melo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, dezembro 02, 2022

BENCHIMOL: CANUDOS E O ACRE

 

Ainda me impressiono com textos sobre a tragédia canudense (1897), que atraiu a Força Policial amazonense para aquela luta fratricida. Estudando o episódio, cheguei a Sena Madureira (AC), que foi inaugurado com a presença de Candido José Mariano, condutor da tropa contra os conselheiristas, e o segundo prefeito daquele município (1905-10).

Hoje esbarrei com este trecho do falecido mestre Samuel Benchimol, componente de seu livro O Romanceiro da batalha da borracha, inserido no Amazônia: um pouco-antes e além-depois (1977), que bastante me comoveu. Detalhe importante: a ilustração do livro foi feita pelo saudoso artista Jorge Palheta.

Dedico esta postagem ao Isaac Melo, pela dedicação aos estudos da Amazônia. 

Capa do livro de Benchimol

(...) Um dos cortes psicológicos predominantes no perfil do sertanejo feito imigrante é o destino. À primeira vista parecerá que esta expressão não possui valor; mas, analisando bem, poderemos apanhar o profundo interesse sociológico que ela contém. Todo imigrante tem um destino. E acredita nele. Existe em função dele e não gosta de contrariá-lo. "Ninguém esbarra o meu destino. Eu vou para o Acre". A frequência com que eu ouvi dizer — "o meu destino é o Acre" — fez-me pensar até na existência de uma espécie de messianismo sertanejo. Gostam de ver até onde o destino será capaz de conduzi-los. Deixam-se levar por ele: "Eu tomei o bonde errado, agora vou até o fim da linha. Eu sigo para o Acre mesmo".

A carga psicológica do destino talvez seja uma sobrevivência mística do sertão. Mística e beata. Uma espécie de sebastianismo messiânico, crendo, em vez do rei ou do Messias, no ouro-negro. O Acre tem alguma coisa de Juazeiro e Canudos.

Canudos na ilustração de
Palheta

De Plácido de Castra fizeram um arremedo de Antônio Conselheiro e Padre Cícero. Repare-se, por exemplo, neste veterano da guerra do Acre, Sérgio Bernardo Pinto: "Eu tenho honra em ser veterano do Acre. Lutei com Plácido de Castro. Aquilo é que era homem de verdade". Envolveram-lhe em lendas, até deram-lhe uma aparência sobrenatural, quase divina: "A palavra dele era um tiro, parecia que ele tinha um imã dado pela providência, para cativar a gente". Ele me disse que Plácido, ao morrer, mandou arrancar o coração para fazer presente à sua noiva...

O Conselheiro era a mesma coisa. A sua palavra também era um evangelho. Contagiava delírio na multidão beata. O Acre, assim, tem de Juazeiro a fé no destino. O misticismo da riqueza, a esperança de enricar, é uma tradução material da fé e do fanatismo. A seringa é a versão do milagre. Em vez da reza, o tiro; da promessa, a pontaria. De Canudos ele tem a reação violenta, audaciosa e única.

Plácido tinha, para isso, alguma coisa de bárbaro, pelo menos assim esse cearense o interpreta: "Era um homem como poucos, assisti ele mandar uma sentinela abrir a sua própria cova porque deixara passar um boliviano pelo seu posto..." O Acre também veio do "tirocínio brutal da fome, da sede, das fadigas, das angústias recalcadas, das misérias fundas".

Por isso ele deve ser estudado em função desse misticismo econômico que até hoje ainda não passou. "O Acre vai ser a nossa salvação" — "eu vou ser feliz no Acre". "Aquilo é uma terra santa", disse-me Sérgio Bernardo Pinto. O imigrante, portanto, não largou essa fé no destino, ainda continua, dizendo: "O meu destino é o Acre. Não quero contrariar o meu destino". Uma modalidade de fatalismo aplicado na Amazônia. Não se pense que o sertanejo tenha entre nós abandonado os seus caracteres conhecidos. Quando surge uma oportunidade, estes aparecem à tona. O Acre é um desses casos. (...)

A ressureição sertaneja acudindo à desilusão do cearense cansado. A procura do tempo perdido. O arrependimento de uma vida atribulada. A volta ao campo de onde partira. A roça, o galinheiro, o curral. A sua história termina assim: — "Minha mulher morreu no Acre. Minha filha casou-se aqui. Eu estou só. Vou ver se o Acre dá jeito. Se não der, não importa. Eu vim para enterrar os meus ossos nos barrancos do Acre". A terra prometida irrompe, afinal, na psicologia do seu destino: "O Acre é uma terra santa". 

domingo, maio 09, 2021

DIA DAS MÃES

Não há como esquecer este Dia. Assim, vou homenagear as Mães tantas, com as quais parcelei a vida e com as que prossigo compartilhando. E faço em nome de minha avó Victoria, uma mestiza e descendente de ticunas, nascida no lago peruano de Caballococha, em “hermosa orilla”, à margem esquerda do rio


Marañon, localidade então de cerca mil habitantes. Ao tempo da exploração do caucho, analfabeta, ainda jovem, sofreu o assédio dos caucheiros, desse modo levada a gerar quatro novos peruanos. Este infeliz relato familiar conheci há cinco anos quando, ao lado de meu irmão Renato, produzi um livro em homenagem ao filho (dela) Manuel Mendonça, nosso pai.

Nossas mães – Francisca Lima Mendonça – nasceu à margem do lago do Anveres, hoje pertencente ao Careiro Castanho (AM). E Doroteia Mendoza, a Dona que nos auxiliou com benevolência a encarar a vida. 

Esta semana recebi um presente: o livro Memórias de Barrancos (poesias), enviado pelo autor Isaac Melo, residente em Rio Branco (AC). Ao revirar o livro, enfrentei o poema postado na contracapa, que me relembrou a historieta acima resumida de minha ascendente. Sou grato ao Isaac pela dupla gentileza: o livro bem composto e a deixa para a postagem neste Dia das Mães.

A bisavó