CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

19 de maio de 2014

ORFANDADE DA FAMÍLIA



Seu Manoel e dona Francisca (acima)
com Dona Dora e o filho Carlos (abaixo)

Aconteceu hoje, na metade do dia, o falecimento do senhor José Manoel Mendoza, meu pai e de mais sete homens e uns tantos netos e poucos bisnetos. Aconteceu em São Paulo, onde residia há poucos anos, pois sua paixão mesmo era a capital amazonense. O fato é que na sexta-feira sentiu-se enfermo e foi levado ao hospital, onde após ser diagnosticado foi encaminhado para uma cirurgia.  A elevada idade não permitiria melhor resultado, assim resistiu até hoje. Morreu aos 98 anos.
Seu Manoel nasceu em Iquitos-Peru, na fronteira com o Brasil. Um dia no distante ano de 1927, sua mãe Victoria, em companhia de outros homens, tomou dois filhos (Manoel e Francisco) e desceu o rio Solimões em direção a Manaus. Sem instrução, enfrentaram as dificuldades próprias de imigrantes. Lutaram e venceram.
Durante a II Guerra, meu pai trabalhou na empresa de J. G. Araújo e, com mais afinco na Padaria (isso mesmo!) Bijou, situada na avenida Sete de Setembro, nas proximidades da praça da Polícia. A estrutura desse prédio continua intacta, tanto que no térreo funciona uma loja TV Lar. Ao tempo da guerra, um desabastecimento da cidade acarretou a venda de gêneros alimentícios sob a fiscalização e o controle da Polícia.
Mais adiante, o jovem peruano tomou a noiva, minha mãe Francisca, e zarpou pra Iquitos, onde casou e montou uma firma de “secos e molhados”. Ele era um bom vendedor, articulado, mas com uns princípios econômicos que não estavam na cartilha do bom comerciante.
Um dia de 1946, voltou para Manaus e se instalou na rua Inácio Guimarães canto com o beco São José, em Educandos, onde  fundou uma mercearia, que ainda funciona ainda que precariamente. Nascidos os primeiros filhos (Roberto, Antônio e Renato), a mãe destes morreu vitimada por uma tuberculose. A luta recrudesceu... Mas, o casamento com Dona Dora trouxe uma nova mãe para os primeiros e os próximos filhos (Zemanoel, Jorge, Ricardo, Luis e Carlos). Como se vê, não havia mudança, todos homens.
Ele já tinha experimentado o Rio de Janeiro na oportunidade da primeira Copa do Mundo no Brasil. Todavia, voltou para Manaus. Em nova investida, depois de todos esses filhos rumou, amparado pelos mais velhos, para São Paulo. E ficou num vai e vem, porque ele gostava mesmo era de Manaus. Seu mundo, sua vida. A segunda esposa morreu há 20 anos, quando se torcia que ela mais jovem o amparasse até o final. Num deu.
Na festa dos 90 anos, com o filho Renato

Em Barra Mansa, posa com os filhos (cima)
e com os netos (baixo)


Aos 90 anos, nos reunimos em Barra Mansa-RJ para comorar a data tão auspiciosa. A saúde dele seguia sem susto. Aproximava-se o centenário, e os filhos já programavam a festa. Hoje, porém, houve um tropeço. A festa vai se realizar para assinalar a passagem pela vida deste peruano de coração e alma verde-amarelos.

Em São José dos Campos-SP, com filhos e
netos - 2011