CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, agosto 29, 2026

VIAGEM NO TEMPO (6)


Seminário São José

  Renato Mendonça        18.07.2026

Na véspera da partida, já estava decidido: parte da viagem seria feita sobre as águas, num camarote de navio — que estranhamente chamam de barco — com destino a Santarém. As passagens estavam compradas, e dali em diante o roteiro se abria ao acaso, como quem confia em Deus para fazer o papel de guia turístico. Mas havia um compromisso firmado desde o início, ainda no Rio: visitar o antigo Seminário São José, na Praça 14 de Janeiro. Um edifício histórico que guardava em suas paredes o eco da minha adolescência, dos doze aos treze anos, quando ali vivi os primeiros anos de Ginásio, sob a sombra do recém-instalado regime militar, após o Golpe de Estado.

Naquela manhã, meu irmão Roberto nos levou a atravessar a Ponte Rio Negro — batizada em homenagem ao jornalista amazonense Phelippe Daou. Com seus quase quatro quilômetros de extensão, dizem ser a maior ponte estaiada do Brasil, ligando Manaus ao município de Iranduba. Do outro lado, Roberto mantém uma pequena propriedade, refúgio contra o tumulto da cidade metropolitana.

Aproveitamos a estada para visitar o mercado municipal, onde a fartura da Amazônia se revela na abundância de peixes, como se fossem cardumes, variedade de cores e nomes: tambaqui, pacu, jaraqui, tucunaré e outros que não consegui memorizar. Cada peixe parecia estar ali para contar a história do rio que o criou, compondo uma pequena amostra, um mosaico da abundância regional.

Pacu, tucunaré, jaraqui - fartura amazônica

Quase ao cair da tarde, contando sempre com a hospitalidade de meu irmão Roberto, enfim se concretizou a visita ao Seminário. A emoção foi imediata: ali estavam, incólumes, os degraus que meus pés de menino haviam subido e descido tantas vezes; o portão de ferro encimado pela mesma imagem de São José, e o conjunto arquitetônico em forma de “U” que guardava tantas memórias. O interior, transformado para abrigar uma universidade de Humanas, já não era o mesmo, mas o espírito ainda permanecia na nossa imaginação.

Portal de entrada - Rua Emilio Moreira, Praça 14

Graças à gentileza dos guardas patrimoniais — que foram sensíveis às nossas ansiedades —, percorremos quase todas as entranhas do prédio. E o reencontro mais pungente foi com a velha jaqueira. Lembro-me de como, nas orações da capela ao lado, seu cheiro de fruta madura invadia o ambiente, e de como, nas noites ousadas, roubávamos uma jaca às escondidas, rendendo reprimendas inevitáveis. Encontrá-la ali, sessenta anos depois, ainda frutificando, foi como rever um amigo fiel, que conserva a mesma fisionomia e continua a oferecer dádivas para satisfazer as lembranças.

Prédio do Seminário Maior em reforma (foto antiga)

Naquele instante, compreendi que viajar não é apenas deslocar-se no espaço físico, é também uma viagem no tempo. Rever a minha Manaus, a família, os lugares e os símbolos da juventude foi como abrir um relicário de memórias, onde cada reminiscência — da ponte ao mercado, do seminário à jaqueira, dos cemitérios aos túmulos, da festa junina — tudo se tornava um testemunho vivo de que o passado nunca se perde: apenas repousa, à espera de ser reencontrado e recontado, quantas vezes for necessário para valorizar a missão humana.

A ponte Rio Negro, erguida em linhas modernas, parecia dialogar com o passado colonial e com o ciclo da borracha, mostrando que o progresso não pode apagar a memória, mas serve para efetivá-la. O mercado, com sua abundância de peixes, mostrava que a fartura da natureza é um convite para uma gratidão a Deus, pelo maná que sustenta diariamente o caboclo e a urbe. O Seminário São José, com seus degraus e portão de ferro, devolveu-me a adolescência por breves momentos que quero eternizar nessa crônica.

E a jaqueira, fiel testemunha de algumas de minhas travessuras juvenis, revelou-se metáfora da própria vida: mesmo após sessenta anos, continua a dar frutos, como quem insiste em provar que o passado não morre, apenas se reinventa — basta ter fé.

Renato, Alda e a eterna jaqueira - memória viva
 Esse reencontro me trouxe a compreensão: viajar é também revisitar a si mesmo. E é muito melhor quando se está bem acompanhado. A Alda foi uma ponte para que eu pudesse me transladar no tempo. A emoção de rever família e lugares não é apenas nostalgia, é uma revelação, como se estivéssemos revendo fotografias antigas. Somos feitos de raízes e de caminhos, de permanências e de partidas. Ao retornar ao Seminário, percebi que o tempo não é um algoz — é um companheiro silencioso, que nos acompanha, nos molda e devolve, em cada reencontro como esse, a consciência de que viver é perpetuar memórias também.


quarta-feira, julho 08, 2026

MAROMBA - SEMINÁRIO SÃO JOSÉ

 Há 50 anos, a arquidiocese de Manaus adquiriu o espaço de terras denominado de Maromba, no governo de Dom João de Souza Lima, que servia até então para encontro de formação de pessoal das várias secretarias e outros órgãos oficiais. 
Hoje, abriga os alunos do Seminário São José. 
Nesta postagem transcrevo o artigo de Helen Veras para o Jornal do Commercio, edição de 25 de julho de 1976, relacionado as primeiras operações realizadas no Centro e sua importância para o futuro.


Recorte do Jornal do Commercio,
25 julho 1976

A cinco quilômetros da cidade, situado dentro de uma grande área verde, quase exótica, está o Centro de Treinamento Maromba. Seu terreno foi adquirido pela Arquidiocese de Manaus e mede 285 metros de frente por 225 de fundos. Tem em volta um bosque convidativo para momentos agradáveis de lazer. Lá se reúnem renomados técnicos durante a realização de seminários e cursos promovidos pela SUDAM, ACAR-Amazonas, Mobral, Icoti, CEAG-AM, Codeama e outros órgãos governamentais. Foi na Maromba que se hospedou a seleção brasileira de futebol e seus grandes craques, como Pelé, deixando sua assinatura no livro história do Centro. Além de funcionar como instrumento de prepararão de recursos humanos, o Maromba tem sido lugar escolhido para a tomada de decisão, inclusive políticos (foi lá que o Sr. João Walter escolheu seu secretariado), encontros internacionais, irradiando novos horizontes para o desenvolvimento da região.

O Centro Maromba tem como finalidades básicas desenvolver uma política de treinamento adequado ao processo de desenvolvimento da região, manter cursos de treinamento de caráter geral ou especializado, visando a habilitação de profissionais ligados às atividades de desenvolvimento da região e de líderes rurais para o efetivo engajamento desse processo desenvolvimentista e ainda possibilitar a realização  de encontros, seminários e convenções que congreguem organização de pessoas atuantes na região e promover atividades que possibilitem integração efetiva de esforços entre os entidades interessadas.

ACARIQUARA

O Centro possui uma arquitetura onde se sobressai a madeira regional, como a acariquara, emprestando ao local aspectos tipicamente regionais. Formado por três grandes pavilhões ligados entre si, englobando os serviços de cozinha, copa, bar, secretaria e administração, o centro dispõe atualmente de 32 apartamentos, um amplo salão de refeitório, três salas de visitas, salão para biblioteca e um grande dormitório comum. O prédio tem capacidade para hospedar 33 pessoas em quartos ou apartamentos individuais e cerca de 100 pessoas no dormitório.

ATIVIDADES

Até 5 de junho deste ano, o Centro foi utilizado para a realização dos seguintes cursos e encontros: Encontro de Catequistas (CRB), Curso Integrado para Orientação Educacional e Supervisão Pedagógica (Ceteam) e centro de Técnicos da Embrapa (Embrapa), Treinamento de Liderança Cristã (Arquidiocese de Manaus), Curso de Catequistas (Paróquia Nossa Senhora de Nazaré) e Centro de Espiritualidade (Ivete Ibiapina), Curso do ACAR (ACAR-AM), Encontro do Mobral Estadual (Mobral), Curso de cooperativismo (ACAR-Amazonas), Curso da Cosama, Curso de Crédito Rural (ACAR-AM), Encontro de Cooperativismo da Embrater, Administração  de Fundos Federais e Tributação (Icoti), Curso do ACAR-Amazonas, Curso de Fertilizantes (ACAR-AM), Secretaria de Saúde, Administração de Pessoal e Material (Icoti), Sistema de Produção (ACAR), Treinamento de Liderança Cristã (Arquidiocese), Seminário de Coordenadores (SUDAM), Encontro da Embrapa (Embrapa) e Oração do Espírito Santo (Arquidiocese).

 Outros encontros e reuniões estão programados até dezembro. As atividades previstas são: Curso de Elaboração Orçamentaria, Curso de Sistema de Produção de Pimenta do Reino, Encontro de Oração, Encontro Regional de Agentes de Mobilização, Curso de Administração de Cooperativa, Cursilho de Cristandade, Movimento de Educação de Base, Administração de Escritório de Extensão Rural, Cursilho de Dirigentes Setoriais de Manaus, Congresso Salesiano, Treinamento de Liderança Cristã, Treinamento de Geração Dinâmica, Encontro dos Delegados do Amazonas, Encontro Regional da CNBB, Administração de Projetos Agrícolas e Congresso Bandeirante.

IDEALIZADOR

D. João de Sousa Lima, arcebispo metropolitano de Manaus, um dos idealizadores do Centro, o primeiro do Norte do Brasil, acredita que os objetivos do Centro estão sendo atingidos plenamente. D. João acha que a arquidiocese de Manaus, com esse empreendimento, deu sua contribuição marcante para a formação e aperfeiçoamento da mão-de-obra qualificada como fator de fundamental significação para a concretização plena do desenvolvimento do Amazonas. O secretário-executivo do Centro José Amarilis Castelo Branco, afirma que o Centro não pertence somente à arquidiocese, mas ao Amazonas, dando sua contribuição para o desenvolvimento dos nossos recursos humanos.

Amarilis procura conciliar os interesses de todos os órgãos, dando sempre um “jeitinho”, permitindo a realização de todos os curses e treinamentos. Para atender à crescente demanda de reservas, o Centro vem se expandindo, invadindo a selva, onde vem sendo construído mais um moderno pavilhão. Mas acentua que a área verde não será destruída, irá aproveitá-la para a construção de um bosque com as características regionais, inclusive espécies da nossa fauna e flora. Ninguém pode negar a real importância da Maromba. E dele o Amazonas receberá muitos benefícios e valiosas contribuições que somarão pontos positivos em favor do bem comum traduzidos pela consecução de melhores dias para a nossa comunidade. 


segunda-feira, junho 22, 2026

MEUS OITENTANOS (7)

 Quantos motivos havia para celebrar! O ano se renovava, e com ele o retorno à casa paterna e às obrigações policiais. Mas, sob o brilho das festividades, pairava também a sombra da incerteza: um comandante interino deixava no ar expectativas sombrias. Logo, porém, o coronel Maury Silva, mineiro de origem e amigo do governador Areosa, assumiu o comando. Trouxe serenidade ao corpo de segurança e marcou sua gestão com iniciativas firmes e acertadas.

No Seminário, em sessão do grêmio
literário (autor, ao centro) - 1963

Por minha vez, eu buscava horizontes além da farda. Intentei o curso de Direito na Fundação Universidade do Amazonas, sem preparo prévio, confiando apenas na tenacidade. O vestibular, cruel em suas provas eliminatórias, me deteve na terceira etapa, em Sociologia, apesar das lições recebidas do mestre André Araújo. Restava-me, então, seguir no labor policial, exercitando o ofício cotidiano da corporação.

Em julho, as férias me levaram ao Sul do país. Por economia, comprei passagens de ida e volta até Brasília, completando o trajeto de ônibus. A viagem de ida foi leve, com recreio no Rio de Janeiro e em Santos. Mas o retorno trouxe inquietações: o país respirava sob a repressão militar, e os sinais eram visíveis. Ao desembarcar em São Paulo, vi os destroços do atentado contra o DOPS. O ambiente nacional era de temor, marcado por notícias de sequestros e atentados. Mais grave ainda, em Brasília, estudantes ocupavam a universidade, e a força de segurança federal preparava-se para retomá-la.

Cheguei à rodoviária da capital no dia 28 e pernoitei em um quartel da Polícia Militar, que aguardava a ordem de desalojar os invasores. Ao amanhecer, fui conduzido ao aeroporto, pois ninguém sabia o que se seguiria. Embarquei à tarde rumo a Manaus, levando comigo as imagens dos escombros paulistas e da tensão em Brasília — um painel tormentoso para um jovem tenente caboclo.

No aeroporto, o burburinho crescia com a chegada de passageiros vindos da cidade, trazendo detalhes da operação policial. No horário marcado, um quadrimotor DC-4 da VASP — ou talvez da VARIG — ergueu voo em direção a Ponta Pelada. Ansioso por abraçar a família, recolhi minha mala, tomei um táxi da empresa do vizinho Almeida e segui para o Morro da Liberdade, onde me esperava a casa paterna. 

Eu e Graça (noivos) na inauguração da sede do
Fast Clube (1968)

À tarde, que prometia apenas o reencontro sereno, reservava-me um golpe cruel. Ao ingressar na rua Amazonas do bairro, percebi uma agitação incomum diante da porta de nossa casa. Desembarquei do táxi e, ao ver um pequeno caixão, pressenti a tragédia: era de criança. O coração se apertou quando Dona Dora, em prantos, abraçou-me e revelou a morte de meu irmão Ronaldo Cesar, levado pela doença aos onze meses. Da euforia do regresso, fui lançado ao abismo da perda, ainda mais dolorosa por não poder socorrê-lo.

Seu nome, como o dos demais irmãos, nascera de um sorteio familiar. Eu, distante no Rio, enviei por carta minha sugestão, que venceu. Era também o seu padrinho, privilégio que se transformou em uma ferida ainda maior. Inumado no cemitério de São Francisco, no Morro da Liberdade, sua pequena sepultura se perdeu nas intempéries do tempo, apagada por minha desídia.

Como contraponto, na praça, aos fundos do quartel, o namoro floresceu em noivado e trouxe-me à convivência com a família dela. O patriarca, ausente em Porto Velho, não participava. Em casa, porém, meu pai não aceitava que um filho suburbano se unisse a uma jovem citadina. O mal-estar perdurou até o nascimento da primeira neta de seu Manuel, quando a vida suavizou as arestas. Reconheço, ainda hoje, minha falha por não ter recorrido ao coração materno de Dona Dora, minha madrasta.

No segundo semestre, viajamos a Porto Velho em busca do consentimento paterno para o casamento. A comunicação prévia exigia esforço: ligações interestaduais eram raras, feitas pela estação da Radional, precursora da CAMTEL, na rua Dr. Moreira. Após solicitar o serviço, aguardava-se o contato, e só então se entrava na cabine. Não se podia gritar: a telefonista era quem conduzia o diálogo.

Em Porto Velho, hospedamo-nos na casa de um sócio do futuro sogro, pois ele mantinha outra família. O contato com a futura esposa trouxe-me uma enfermidade: a catapora, que me marcou com cicatrizes que carrego até hoje. Entre febres e cuidados, preparei o casamento, marcado para 18 de janeiro, data do aniversário da nubente Maria das Graças Coutinho. Fomos à Igreja dos Remédios, levando os documentos, e ali se desenhou o próximo capítulo de minha vida. 

Natalício do autor (cima) e
ao lado do governador 
Henoch Reis (1976)


Num certo dia, retornei ao Seminário, levado pelo desejo de agradecer ao padre Juarez Maia os benefícios recebidos e de reencontrar os colegas. Vestia a farda, pois era dia útil e meu horário funcional me acompanhava. Convidaram-me a ministrar aulas no educandário, mas respondi com leve ironia: “só se for de ordem unida”. Entre risos e lembranças, confraternizei com os novos padres vindos de São Paulo, que conheci nos tempos do Seminário São José. A turma de seminaristas já se mostrava rarefeita, e pelos corredores corria o rumor do fechamento iminente — que se concretizou antes do fim daquele ano. Pouco depois, meu benfeitor transferiu-se para Porto Alegre, onde o visitei na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em breve despedida antes de sua partida definitiva desta vida.

Manaus, por sua vez, respirava os ventos da Zona Franca. O porto livre abria as portas para quinquilharias do mundo inteiro, e o centro histórico metamorfoseava-se em centro comercial. Comerciantes nacionais e estrangeiros prosperavam, enquanto o interior do Amazonas se esvaziava em êxodo. A cidade tornava-se atração turística, ainda que o encanto maior fosse a aquisição de produtos importados. Nesse cenário de desenvoltura, a instituição policial redesenhou seu papel, ajustando o policiamento às novas exigências de uma urbe em transformação.

O segundo semestre trouxe-me nova preocupação: o vestibular. Diante do insucesso anterior, frequentei um cursinho, dedicando atenção especial à Sociologia. A Reitoria, empenhada em ampliar o número de alunos, estimulava a entrada de policiais na universidade, acreditando que o êxito acadêmico fortaleceria a imagem da Força. A campanha foi vitoriosa: cerca de noventa por cento de oficiais e praças lograram aprovação.

Casamento, em 1969

Assim, inaugurei o ano de 1969 aos pés do altar de Nossa Senhora dos Remédios, unindo-me em matrimônio a Maria das Graças Souza. A recepção, singela, ocorreu na casa dela. A antiga desavença sobre o namoro impediu a presença de minha família, mas a vida seguiu seu curso. Para desfrutar da intimidade, ocupamos por duas noites um apartamento no Líder Hotel, na Avenida Sete de Setembro. Logo, porém, a recém-casada quis regressar à casa materna, saudosa do sabor caseiro e do carinho materno. Atendi ao seu desejo, afinal já me sentia incorporado à família dela, a poucos passos do portão dos fundos do quartel, por onde eu ingressava, facilitando a logística.

Após o casamento, enfrentei novamente o vestibular, desta vez na vetusta Faculdade de Direito da Praça dos Remédios. Na primeira semana de fevereiro, acompanhei pelo jornal o resultado, publicado sem alarde. Na prova de Sociologia, além da preparação própria, contei com a ajuda da colega Josefa, que me ofereceu uma “cola” discreta, fixada no fundo largo de sua bolsa. Obtive excelente classificação, mantida nos primeiros anos.

O ano de 1969, contudo, guardava ainda muito a relatar, começando pelo anúncio da gravidez de minha esposa — prenúncio de uma nova etapa, em que a vida se expandia e o futuro se abria em promessas venturosas. (segue)

 

terça-feira, junho 02, 2026

SEMINÁRIO SÃO JOSÉ DE MANAUS (2)

 Reunidos hoje, quatro ex-seminaristas - Ludolfo, Vital, Encarnação e eu - visitamos o Seminário atual, porque somos oriundos daquele que existiu no cruzamento das ruas Emilio Moreira e Ramos Ferreira, na Praça 14. O Reitor padre Pedro nos recebeu e nos levou a conhecer as nova instalações. Voltei a prometer a mim e ao Seminário uma publicação de sua história.

Contei aos colegas que Manoel Bessa Filho, que foi sacerdote, porém, falecido Juiz de Direito, acolheu uma crônica que escrevi em complemento a dele - Alma Mater -, e tive o privilégio de vê-la publicada em seu livro Jornal Velho (2001). 

Transcrição

28 maio 1998

Roberto Mendonça

 

Nossa última crônica mereceu um “fax”, cujos principais tópicos transcrevo.Começou assim: “Ao Manoel Bessa Filho, autor de Alma Mater”, e continuou:

“A minha saudação de quase padre do Seminário São José. Verdade mesmo é que na quinta-feira [21 maio], sem atentar para a efeméride, li sua crônica. E obviamente me senti recompensado. Aliás, perdoado em parte do pecado que acolhi sobre os ombros, ao prometer na posse como membro do IGHA [Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas] escrever a história do SSJ [Seminário São José]. Não desprezei o projeto, mas o tempo nos impõe... Não compareci ao café regional, porque não fui alcançado com o convite. Pouco importa, o SSJ vive comigo onde cheguei no ano de 1956, pelas mãos do cônego Antônio Plácido de Souza, vigário de Constantinópolis, aquele que fazia rima de ‘peito das moças com buzina de automóvel’.

Possuía apenas 10 anos, e com essa idade, como saber de vocação sacerdotal? Certo mesmo, é que estudei, estudei todo o seminário menor... fui educado na melhor das escolas de Manaus. Talvez por isso compreendia quando as pessoas me viam como um jovem correto, de princípios religiosos e familiares. Enfim, era um bom casamento, e foram três, até o presente.

Houve um momento extravagante na vida: a substituição da batina pela farda militar. Diria que a permuta ocorreu na forma literal, quando o graduado me determinou que tirasse a roupa para os exames físicos. Mas o constrangimento foi superado, e pude aventurar-me como oficial da Polícia Militar, em uma quadra da vida nacional movida a “ordem unida”. Então, foi a sopa no mel. Mas, e o Seminário?

Ainda voltei lá, mesmo depois de fardado com o caqui da Polícia. Aquela casa me deixava leve, me permitia recolher como ex-votos as questões profissionais que me assacavam. Recordava então dos Poemas para Rezar do padre Michel Quoist [1921-97] (desculpe se claudico com a memória), que rezava missa depois de ler os jornais, para orar pelos problemas sociais que a cidade produz.

A casa da rua Emílio Moreira, 601, gerou muitos filhos: o padre Onias Bento, contemporâneo de Tiago e Pinto. O padre Puga Barbosa, cujo pai, Nicanor Puga, foi maestro da Banda da Polícia Militar O padre Luiz Souza, meu colega da turma de 1956. Os advogados Raimundo Melo, João Bosco Pereira e Miguel Langbeck. Alguns chegaram ao judiciário, Ary Brandão de Oliveira, na Justiça Federal, e Cristóvão Alencar, na Promotoria Pública local. O médico e ex-prefeito de Boca do Acre, José de Oliveira Costa, cujo irmão Antonio Costa, foi coronel comandante do Corpo de Bombeiros do Acre. Há ainda o empresário Flaviano Guimarães e o professor da UA [UFAM], que foi candidato a governador pelo PT, Osvaldo Gomes Coelho.

Grato pelas palavras saídas do homem que aprendeu a lição da vida sacerdotal. Que se atualiza a cada dia, a cada gesto, a cada desafio, e fez gravar com vivo fogo na reminiscência da Cidade da Barra de São José do Rio Negro que o sesquicentenário do Seminário do mesmo santo vive e se perpetua.

Ab imo pectore 

Roberto Mendonça 

Obs. O Manoel Roberto é hoje coronel reformado da PM, membro de nosso IGHA, um dos maiores pesquisadores nacionais sobre “Canudos”. E o latinório final quer dizer: “do fundo do peito, ou do coração”. Obrigado, Mané Roberto, ab imo pectore, também.

sábado, maio 30, 2026

SEMINÁRIO SÃO JOSÉ DE MANAUS

Antigos seminaristas oriundos do Seminário São José de Manaus, donde sou igualmente originário, compuseram um grupo para relembrar as estripulias cometidas e congregar o maior número de colegas. Em busca de fatos sobre aquela Casa de Formação, revi o livro de Manoel Bessa Filho – Jornal Velho, e dele recolhi a crônica desta postagem.

 

Edição 2001 

Alma mater

21 maio 1998

Manoel Bessa Filho

Tudo começou de uma audácia. Um bispo [dom Afonso Moraes Torres], uns padres, uma quase aldeia, querendo ensinar para os caboclos o “trivium” e o “quadrivium” dos currículos europeus, que continham todas as cadeiras do ensino ginasial, como chamavam até bem pouco tempo, os últimos quatro anos do 1° grau. Assim nasceu, há 150 anos, neste 14 de maio, o Seminário S. José, primeiro estabelecimento de ensino secundário no Amazonas. Os anos se passaram, algumas cadeiras foram se transferindo para o Liceu. Do liceu nasceu o “Pedro II”, ainda garboso lá em frente à Praça da Polícia. Depois o “São José” fechou suas portas, para renascer bem mais tarde, no dia 19 de março de 1943, fruto de outro bispo visionário, D. João da Mata Andrade e Amaral.

No sábado passado [16 maio], convidado pelo atual Reitor do Seminário S. José, fui rever minha “alma mater”. O prédio já era outro, não importa, o nosso hoje é a FES da Universidade, lá na Emílio Moreira [601]. O importante mesmo é que o espírito permanecia o mesmo.  Ex-alunos de várias gerações, padres e seminaristas, se confraternizavam em torno do “velhinho” de 150 anos que marcou, e ainda está marcando indelevelmente nossas vidas.

De repente visualizei meu primeiro dia, um dia qualquer de março daquele ano de 43, pouco antes da reinauguração oficial, chegando com meu irmão e nossas malas emprestadas para trazer a roupa, que arrumamos no armário, ao lado da cama, no dormitório... Capela, salas de aula, recreio, salão de estudo, horta para cultivar, a oficina de marceneiro com o mestre Nelson Falcão (fizemos muitos móveis, com polimento puxado no “verniz de boneca"). E nessa roda viva foram os seis primeiros anos.

Quantos passaram pelos mesmos caminhos. É difícil lembrar tanta gente: o Orígenes Martins do CIEC [Centro Integrado de Educação  Christus] (que passou de Jabuti, para Jacaré Vovô), o Áureo Pereira (Ceariba), que depois se tornou o frei Xico, dominicano. O Tiagão, padre Tiago Braz, recentemente falecido, Jorge Normando (Calango Elétrico), o Chico Pinto (Mons. Francisco Pinto), que também já foi para o outro lado, o Waldemar Pacheco (Waldemar Bodega) e seu primo Lourival (Bolinho), todos dois de Manacapuru. Nas gerações seguintes tem muita gente, o Manezinho Neuzimar, atual presidente do TJ [Tribunal de Justiça], um monte de oficiais superiores da PM, como os coronéis Encarnação, Vital e Manoel Roberto. Pois é, ao lado da atual geração, cada um deu seu testemunho naquele encontro.

Puxa vida, meu velho Seminário, ainda agora você me ensina. Uns padres jovens, esbanjando saúde e alegria mandaram seu recado. “O importante é aprender a ser feliz”. Juro meu velho cento-e-cinquentão, minha “alma mater”, que estou sempre tentando aprender a ser feliz... Obrigado por mais esta. Aliás, você me deu o que era de mais importante, a fé nos valores sobrenaturais e eternos, a crença inabalável na existência de um Deus Supremo. Está certo que quando me falavam nele, diziam que era um sujeito ríspido, exigente, carrancudo, sempre disposto a nos punir por qualquer besteirinha. O importante é que eu e Ele nos conhecemos e daí, para nos tornarmos amigos foi um passo. Hoje sei que Ele é compreensivo, amigão que não falha, segura nossas barras, e nos quer felizes, como os padres novos do Seminário estão pregando.

Mas não há como negar que tudo começou com aqueles primeiros contatos, meio temerosos, meio medrosos, mas bem concretos, bem reais. Velho Seminário, em qualquer prédio, com quaisquer pessoas, em qualquer tempo, você me fez gente, me fez crente, me fez amor, me fez perdão, porque você moldou definitivamente minha vida.

Obrigado, eternamente obrigado, minha “Alma Mater”.

segunda-feira, maio 04, 2026

MEUS OITENTANOS (3)

 FASCÍCULO 3

A partida prematura de minha mãe, quando eu tinha seis anos, foi como um raio que rasgou o céu sereno da infância, inaugurando uma era de mudanças profundas em nossa família. Embora desfeito o lar, a habitação permaneceu de pé, mas ganhou um quiosque na lateral, onde meu pai tentou reinventar a vida por meio de um pequeno comércio. Contudo, o imóvel tornou-se palco de disputas: familiares maternos — dois tios, especificamente —, movidos pela ideia de uma herança equívoca, investiram contra nós como ventos tempestuosos que ameaçam derrubar paredes e muros.


Victoria Malafaya, a matriarca; Lindalva e Raimundo, companheira; Doroteia, solteira; e Casamento de Manuel e Doroteia (1958), a partir da esq., fotos recuperadas por IA

Para sustentar os filhos e tentar manter o lar, meu pai contratou Lindalva Feitosa, jovem de dezoito anos, para dividir os afazeres com minha avó paterna, Dona Victoria Malafaya — uma senhora de temperamento difícil, talvez porque não conseguia se socializar a contento — não falava português, apenas castelhano. Enquanto isso, o viúvo Manoel retornava ao seu antigo ofício de “pracista” — uma espécie de representante de vendas — da Padaria Avenida, tentando equilibrar o peso da viuvez com o fardo da sobrevivência.

Para ilustrar o que foi narrado no primeiro parágrafo, recordo: eu tinha oito anos quando testemunhei uma cena que se gravou em minha memória como ferro em brasa no lombo do boi. Os dois tios, acompanhados de um vizinho, desafiaram meu pai diante do quiosque. Ele, protegido pelo balcão, empunhou o facão — terçado, na linguagem amazônica, que cintilava como antecipação de uma tragédia. Mas conteve-se, prisioneiro da própria prudência, e não deixou que o sangue se tornasse mancha no chão da rua ou da calçada. Anos depois, ele me contou esse episódio, esquecendo-se de que eu havia testemunhado, e guardado na mente e no coração.

A venda da propriedade ao compadre Chico Pezinho foi a solução encontrada. Mudamo-nos para um sobrado no mesmo beco, depois para outra casa próxima, na entrada da travessa que levava à estrada de Constantinópolis. Lindalva, que começara como contratada, tornou-se companheira de meu pai, e dessa união nasceram Raimundo, em 1954, e Sonia, em 1956. Mas o destino, volúvel, desfez o laço inesperadamente.

Mais tarde, Dona Doroteia Santos entrou em nossa vida, e nós, os futuros enteados, passamos a chamar carinhosamente de “Dona” e, tempos depois, adotamos o diminuitivo de tratamento: “Doninha”. Casaram-se em março de 1958, na Igreja de Educandos, enquanto eu, já internado no Seminário São José, ausentava-me da festa.

A casa, de madeira, crescia nos finais de semana sob as mãos de carpinteiro — ofício que ele aprendeu no Peru, com seu cunhado Manoel Miranda — de meu pai. Ao lado, outra taberna renascia, e o terreno em declive trouxe desavenças com vizinhos, pois as águas pluviais mudaram de curso com as obras realizadas. Como contraponto às inconveniências provocadas, no meu mundo infantil, eu me encantava com o frondoso biribazeiro do nosso quintal, que nos saciava com frutos amarelos e lembranças doces.

Em 1955, concluí o 4º ano primário no Grupo Escolar Machado de Assis. O vigário de Educandos, padre Antônio Plácido de Souza, convenceu meu pai a antecipar minha entrada no Seminário São José. Assim, em fevereiro de 1956, com dez anos incompletos, atravessei o portão da rua Emílio Moreira, deixando para trás o lar e abraçando uma vocação que ainda não compreendia. A sorte parecia sorrir, e eu acreditava que outros bons fados me acompanhariam.

Mas antes, abro parênteses para enumerar a família que se tornara a partir do segundo casamento do patriarca: José Manoel Filho (1959), Miguel Jorge (1960), Luís Carlos (1962), João Ricardo (1964), Ronaldo Cesar (1967-68) e Carlos Alberto (1974), nascido em Santos. Desses, apenas Ronaldo não sentiu o fado da sobrevivência, faleceu aos dez meses. A tia Raimunda, com seus doze filhos, partiu de Manaus em 1955, levando consigo o calor do suporte familiar. Em dezembro de 1959, mudamo-nos para o Morro da Liberdade, em carroça que fazia viagens repetidas, divertindo os filhos. A nova residência em terreno amplo, um pomar com espaço para prática de futebol e passeio de bicicleta, era um sítio. Mas o bairro, ainda em gestação, não oferecia os recursos do Educandos, onde antes vivíamos ao lado do Cine Vitória. Dois anos depois, faleceu nossa avó Victoria Malafaya, a intrépida matriarca, aos 71 anos.

Setenta anos se passaram, e ao abrir os registros da memória, sinto o peso de duas reflexões sobre o caminho sacerdotal que me foi imposto. A primeira delas me persegue como uma pergunta sem resposta: pode um menino de dez anos querer ser padre? De repente, fui arrancado do lar e dos afetos mais íntimos, lançado entre cinquenta rostos desconhecidos — garotos, adolescentes, adultos — todos estranhos. Ali, compreendi a violência social que se abatia sobre mim. No educandário, precisei erguer defesas contra agressões de toda ordem, inclusive aquelas que maculam a inocência. À noite, o tormento se intensificava: a lembrança do calor humano de casa me sufocava, e o colchão de crina, tão áspero, contrastava com a suavidade da rede onde antes repousava. O choro vinha sem freio, até que o sono, impiedoso, me vencia.

A rotina era marcada pelo sino que ecoava no pórtico, ligando instituições e impondo horários rígidos. Entre estudos, refeições e a limpeza do prédio — tudo feito pelos próprios alunos — havia ainda a oração noturna, enfadonha e obrigatória, que antecedia o recolhimento. Mas um fato esotérico me acompanhou por anos: na sala térrea, eu tinha a impressão de que minha mãe, já falecida, me velava pela janela. Corri inúmeras vezes para surpreendê-la, virei o olhar com rapidez, mas seu espírito era mais ágil, mais prevenido. Até que, por fim, deixou o filho seguir crescendo sozinho.

Com o tempo, a idade me amoldou à engrenagem burocrática: missas diárias, retiros silenciosos, filas intermináveis. Recordo-me de ser o puxa-fila, talvez pela estatura diminuta. A alimentação escassa era suavizada pelos “Alimentos para a Paz”, doados pelos americanos com interesses ocultos. Entre esportes e brincadeiras, havia também a tentação das fruteiras, colhidas às escondidas. O seminário erguia-se sobre a antiga chácara do extinto governador Nery, e ali o destino me apresentou ao padre Juarez Maia, o ecônomo, que se tornou meu protetor. Ele me ofereceu recursos, tentou adotar-me, mas recuou diante da presença viva de meu pai.

Minha escolaridade, contudo, foi marcada por lacunas. Avancei ao ginasial sem concluir o fundamental, e os professores eram escolhidos entre seminaristas e amigos da Igreja. Pouco aprendi de ciências exatas, mas o latim me acompanhou por todos os anos. Em 1958, fiquei reprovado em Inglês e, mesmo após a segunda época, fui retido. Paradoxalmente, o padre-protetor justificou: eu era jovem demais, apenas doze anos.

À medida que crescia, fui incumbido de tarefas administrativas, como lançar em livro as notas dos colegas. Em 1963, último ano do curso, vivi intensamente: na Semana Santa, participei do Auto da Paixão — dirigido magistralmente pelo padre Ruas —; atuei em teatro, no grupo montado por Anacleto Cruz — entusiasta colega de Parintins —; em agosto, transcrevi a Bula “Ad Christi” que instituía a Prelazia de Itacoatiara; organizei um bingo pago em bolinhas de gude. Incentivado pelo padre, busquei ser o melhor aluno, mas alcancei apenas a medalha de prata. No fim daquele ano, veio a decisão: minha turma seguiria para Recife — entre nós, o futuro padre Luís Gonzaga de Souza (1942-2018) —, rumo ao Seminário Maior. Eu, porém, fui preterido — vocação duvidosa, idade tenra. Restava-me aguardar outro fado.

Retornei ao Seminário São José em 1964, ano fatídico. Ao final do primeiro semestre, a decisão amadurecida se impôs: abandonar o caminho religioso. Conversei com meu protetor, que compreendeu minha desventura. Fiz a mala, despedi-me dos colegas e, ao abdicar da proteção, ouvi suas últimas recomendações: ser bom cristão, bom cidadão, cumprir as normas sociais. Uma delas já me esperava à porta, portando uma convocação oficial das Forças Armadas: o serviço militar, pois acabara de completar dezoito anos.

terça-feira, abril 01, 2025

L. RUAS: 25 ANOS DE FALECIMENTO (2)

 Hoje (1º de abril), completam-se 25 anos do falecimento do padre-poeta L. Ruas (Luiz Augusto de Lima Ruas), autor de Aparição do Clown, longo poema religioso, editado em 1958. Intentei realizar uma homenagem pública ao poeta, porém, fracassei. Lamento, mas a direção da arquidiocese de Manaus – procurada - não acolheu minha pretensão. A fim de reverenciar ao poeta, reproduzo (com ligeiras correções) o texto próprio que incorporei ao livro L. Ruas: poesia reunida (2013).

Minha paixão por L. Ruas

Possuo um raro privilégio: o vínculo escolar com o padre Luiz Augusto de Lima Ruas (L. Ruas), quando matriculado no Seminário São José, de Manaus. Ali, em 1956, alcancei o padre Ruas no frescor de sua juventude, ordenado sacerdote dois anos antes. Sapiente e entusiasmado demais com sua vocação, liderança comprovada em qualquer reunião de seminaristas. Versado em diversas matérias curriculares, ensinou aos futuros padres ou não de línguas vivas e mortas (latim e grego), passando por Gramática e Literatura Brasileira, Filosofia e Teologia. Seus inúmeros alunos da Universidade Federal do Amazonas lembram-se dele como mestre em Psicologia. No Seminário, ainda adolescente, não tive capacidade de auferir a ciência que dele emanava. Recebi de suas mãos o majestoso livro — Aparição do clown, longo poema religioso, quase indecifrável, de certo um marco na literatura amazonense. Mas, tudo isso somente compreendi décadas depois.

Em 2004, a cidade comemorava vários cinquentenários: de sua ordenação sacerdotal; da criação do apagado Instituto Christus; da inauguração da Rádio Rio Mar e da fundação do Clube da Madrugada. Para minha admiração, em todas estas organizações, Ruas havia participado, e de forma categórica.

L. Ruas morreu em 1° de abril de 2000, há vinte e cinco anos, portanto. A fim de homenageá-lo no limite de minha competência, projetei e estou cumprindo o recolhimento de sua obra literária dispersa nos jornais de Manaus. A propósito deste empreendimento, o saudoso Renan Freitas Pinto designou-me com a incumbência esdrúxula de "curador da massa literária” de L. Ruas. Devo confessar que a faina foi dificultosa, emperrada e, às vezes, desanimadora. Foi-me, porém, benevolente, por ter-me permitido comprovar a sapiência e a erudição do meu saudoso mestre.

Enfim, ainda encontro, aqui e ali, fuçando em jornais da época, alguma contribuição dele. A Poesia Reunida de L. Ruas, aqui organizada, objetiva não somente assinalar sua morte. Mas, e principalmente, revitalizar a arte otimamente praticada por ele. Espero ter cumprido satisfatoriamente o ônus assumido, e que o leitor se satisfaça com este conjunto de "estrelas e de pérolas".

sábado, julho 27, 2024

SEMINÁRIO SÃO JOSÉ: NOTA HISTÓRICA

Quando assumi uma cadeira no IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) há quase 30 anos (novembro de 1994), registrei em discurso de posse que iria produzir a história do Seminário São José de Manaus, onde estudei o então curso ginasial, cuja promessa ainda não cumpri. Passeando dias desse pelos periódicos do Amazonas, esbarrei com este anúncio do primitivo educandário para o sacerdócio. De pronto, percebe-se que o Seminário havia se transformado em escola para quem pudesse pagar. As referências não registram a ordenação de um só padre, mas enfatizam a formação de até engenheiros.

O registro compartilhei do jornal O Norte do Brazil, edição nº 57 Ano I, circulada em 27 junho de 1888, existente na Biblioteca Nacional.

 

 J. M. J.

Seminário de S. José

REITOR e ECÔNOMO - Padre Luiz Gonzaga de Oliveira.

VICE-REITOR - Padre dr. Israel Freire da Silva. 

Este estabelecimento escolar foi fundado a 11 de maio de 1848 pelo falecido bispo d. José Afonso de Moraes Torres. Conta hoje 38 anos de existência e nele tem sido educado grande número de cidadãos que ocupam atualmente posição no funcionalismo da província, na engenharia, nas artes e nas indústrias.

O seu corpo docente compõe-se de habilíssimos professores, e funciona à praça da Imperatriz, e que acaba de ser restaurado nas melhores condições higiênicas. As matérias do ensino primário e secundário dividem-se assim:

ENSINO PRIMÁRIO

Leitura, caligrafia, elementos de Gramatica Portuguesa, noções de Geografia e especialmente do Brasil, resumo da História Pátria, elementos de Aritmética.

Professores: Francisco Xavier de Lacerda, diplomado pela escola normal do Pará, e Joaquim Freire da Silva.

CURSO SECUNDÁRIO

Português: O reitor, padre Luiz Gonzaga de Oliveira.

Francês: Padre Dr. Israel Freire da Silva.

Inglês: Dr. Henrique Moers.

Latim: O reitor padre Luiz Gonzaga de Oliveira e Dr. Henrique Moers.

História Universal e Pátria - Padre dr. Israel Freire da Silva

Matemáticas: Dr. Henrique Moers.

Retorica: Bertino Miranda Lima.

Geografia Universal: Física Elementar e Desenho: Henrique Moers.

Filosofia, Religião e Civilidade: O reitor padre Luiz Gonzaga de Oliveira Música e Canto: Napoleão Lavor. 

Os alunos do curso secundário são todos internos ou meio pensionistas; no primário, admitem-se externos.

PENSÃO

I.º - Aluno interno por todo ano letivo / Meio pensionista / Externo

As pensões são pagas em três prestações, em janeiro, abril e julho. O mês começado entende-se vencido quanto ao pagamento.

2.º - Pagarão mais os internos, no ato da matrícula, a joia de 30$000 réis, e terão direito, durante todo o ano, ao fornecimento de papel, pena, tinta, caneta, lápis, régua, lavatório, cama e corte de cabelos uma vez por mês. Os meio-pensionistas pagarão a joia de 20$000 réis, e terão direito ao fornecimento de papel, pena, tinta etc.

3.º - Quando houver dois ou mais irmãos, far-se-á na última prestação uma redução de 5% sobre a pensão.

4.º - Os alunos que passarem as férias no Seminário, pagarão a pensão de 100$000 réis, por todo o tempo das férias.

ENXOVAL

1 Travesseiro / 4 Fronhas / 2 Lençóis e 2 cobertas / 12 Camisas / 12 Ceroulas / 12 Pares de meias / 6 Calças pardas / 6 Paletós pardos / 12 Lenços / 6 Toalhas de rosto / 4 Camisões de dormir / 2 Calções de riscado para banho / 2 Sacos para roupa servida / 6 Guardanapos de mesa / 2 Pares de sapatos para casa, 1 para sair à rua / 1 Espelho, 1 pente de alisar, 1 pente fino, 1 tesourinha, 1 escova para dentes, 1 para unhas, 1 para fatos, 1 para sapatos.

O uniforme constará de calça preta, paletó preto com gola de veludo da mesma cor, colete preto fechado até em cima, gravata e chapéu de massa igualmente pretos.

OBSERVAÇÕES

1.º - A roupa dos alunos é toda guardada em armários apropriados e debaixo de chave. Deve vir toda marcada ao menos com as iniciais do nome.

2.° - A roupa limpa pode vir em qualquer dia das quatro e meia à 6 da tarde, rotulada com o nome do aluno a quem deverá ser entregue. A roupa servida só sairá nas quintas-feiras e domingos, das 8 às 10 horas da manhã e das 4 às 6 da tarde.

3.º - Cada aluno interno deve trazer um bauzinho de folha de 40 centímetros de cumprimento, para guardar pequenos objetos que devem estar sempre à mão.

4.º - Os livros serão fornecidos pelos pais dos alunos, protetores ou correspondentes.

5.º - O ensino de música vocal é dado a todos os alunos internos e meio-pensionistas, sem aumento de despesa para os pais; haverá duas lições por semana. Os que quiserem aprender música instrumental pagarão o que for convencionado.

6.° - Os externos devem apresentar-se no Seminário de manhã às 7h. e três quartos, de tarde às 2 e três quartos; retiram-se de manhã, às 10h, de tarde às 4h e meia.

O ano letivo começa em janeiro e acaba em outubro

Manaus, 10 de Janeiro de 1888.

O Reitor, Padre Luiz Gonzaga d’Oliveira.

sexta-feira, abril 15, 2022

SEMANA SANTA PASSADA

 Estive pela manhã rememorando os atos religiosos da Semana Santa ao tempo em que frequentei o Seminário São José, na década de 1960.

Na Quinta-feira acontecia a benção dos Santos Óleos, material que escoltava o católico do batismo à sepultura. Na Sexta-feira ocorria a Procissão do Senhor Morto, encerrada na Matriz da cidade, e seguida do velório. A cerimônia da Ressurreição acontecia no Sábado, no final da noite. Isso mesmo, pouco antes da meia-noite os oficiantes e os acólitos circundavam a igreja, que tinha as luzes apagadas para representar as trevas, o sepultamento do Senhor. Diante da porta principal, o bispo, tomando o báculo, batia três vezes na porta. Aberta esta, as luzes eram acesas e a solenidade prosseguia. Aleluia!

O texto reflexionável pertence ao Renato Mendonça, o irmão que comigo frequentou o Seminário. E o quadro da Santa Ceia é obra do artista Jurandir Macedo, oficial reformado do Exército, que fez doação ao quartel do 1º BIS(Amv). 

Feliz Páscoa!

  


Reflexões sobre a Santa Ceia

 Renato  Mendonça

         Antes da sua derradeira Festa da Páscoa, Jesus reuniu seus discípulos para uma confraternização. Apesar de toda a dificuldade de logística, arranjaram-lhe um lugar onde pudesse reunir a todos e encaminhar seus extremos ensinamentos neste dia característico; e foram, talvez, os mais emblemáticos para o futuro de seus discípulos, transformando-se num paradigma para suas pregações.

A Santa Ceia e o tríduo pascal nos remetem a profundas meditações e nos convida a uma autópsia espiritual de nós mesmos, para avaliarmos se todos os símbolos gerados nestes dias estão arraigados em nossos corações; se suas lições foram assimiladas.

Jesus usou coisas básicas da alimentação, o histórico pão que nutre o corpo desde os primórdios, desde o Antigo Testamento, quando serviu de maná no deserto e salvou o povo hebreu enquanto se conduzia para a Terra Prometida. Abstraímos também dessa passagem antiga, a mensagem a um povo que busca salvação. — Isto é o meu corpo, que será dado em favor de vós; façam isso para celebrar a minha memória. (Lucas 22:19-20).

O vinho representa o sangue, e serve para saciar a sede; a sede de justiça, e o resultado da luta em favor dos mais fracos e oprimidos. Tem sua relação também com o sacrifício, como era o dos animais citados na Bíblia. Agora, o sacrificado é o Cordeiro de Deus, o símbolo máximo da resignação — Pai, afasta de mim esse cálice, mas não seja feita a minha vontade, senão a Vossa. (Mateus 26:39) —, mas também, fé e esperança. — Eu sou o Pão vivo que desceu dos céus, quem come da minha carne e bebe do meu sangue terá vida eterna. (João 6:51).

Além desses emblemas latentes, há os gestos divinos de Jesus carregados de amor e doação total. O Mestre tirou o manto, derramou água numa bacia e cingiu-se com uma toalha; agacha-se e se curva para lavar os pés dos seus discípulos. Um gesto que denota ao mesmo tempo nobreza e humildade, aquilo que devemos praticar no nosso relacionamento humano. Ele quer nos ensinar que, quando for oportuno, precisamos servir ao próximo, um amor incondicional, independente de reconhecimento ou de recompensa. — Também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais assim como eu fiz para vós”. (João 13: 12-14). É curioso observamos que Pedro estranhou esse gesto de Jesus: “Senhor, tu vais lavar-me os pés?” E Cristo, com toda sobriedade e sabedoria, contestou: “Agora não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás”.

A estranheza do apóstolo era porque fugia aos costumes praticados pelos judeus; era costume oferecer água para lavar o rosto e pedir para um escravo lavar os pés do hóspede. Pedro apenas pensou na lógica comum: o menor serve o maior; o servo, o Mestre. Mas, Jesus justifica a atitude: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. Com esse rito do “lava-pés” contemplamos o gesto divino e humano de Jesus, um gesto carregado de amor em que o evangelista João descreve a mais rica interpretação teológica.

Outro princípio divino, humano e fraterno que podemos aprender sublimemente desse encontro de Jesus com os discípulos é o “repartir o pão”. O gesto carrega em síntese o que já fora praticado tantas vezes na sua vida eucarística. Como por exemplo, quando distribuiu pães e peixes a uma multidão faminta que ouvia sua pregação, também num período que antecedia a Pascoa. (João 6: 1-15). A atitude simboliza o sentimento de solidariedade, de fraternidade e de igualdade. Quer nos mostrar que somos iguais aos olhos do Senhor, sem discriminação. Observe que Jesus, mesmo conhecendo a intenção de Judas Iscariotes, de entregá-lo às autoridades romanas, não o segregou dos seus discípulos. E ainda proferiu a célebre lição de vida: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. E como Jesus amou!    

Na Santa Ceia, nosso grande Mestre sela uma divina e eterna Aliança, sintetizada naquela singular celebração, para se perpetuar na História.

E o pão a ser partido é o Pão da Vida!