CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, setembro 22, 2025

POEMA DOMINICAL NA SEGUNDA

 Que desculpa esfarrapada: as atividades domingueiras e o esplendido calor impediram que eu cumprisse essa obrigação. Vamos ao que interessa. O poema pertence ao padre-poeta L. Ruas, que o divulgou na primeira crônica publicada em "Ronda dos Fatos", inserida em A Crítica (2 agosto 1957). Também fiz constar em L. Ruas - Poesia Reunida (2013).

Recorte do matutino A Crítica, homenageando o cronista

SE O TEU OLHO FOR SIMPLES

Devemos nos esforçar para tornar mais simples os nossos olhos.

Para que olhemos com simplicidade o nosso irmão.

E não vejamos simplesmente em nosso irmão, em

suas atitudes, em suas lutas, em seu ódio talvez, unicamente um interesse egoísta.


Se o teu olhar for simples...

Talvez ames com mais facilidade o teu próximo.

Vejas com mais objetividade os teus erros e defeitos.

E aceites com mais humildade aqueles que os apontam.

quarta-feira, maio 21, 2025

BAIRRO DE SÃO JORGE

 Sob o título - Conheça a origem do seu bairro – o matutino Diário do Amazonas publicou, em 8 de maio de 1988, este tópico sobre o bairro de São Jorge. Resumidíssimo, bem se vê, porém, era uma fórmula jornalística de divulgar a geografia física de Manaus. Os textos acrescidos em colchetes [ ] são de minha responsabilidade, buscando aclarar um pouco mais as informações. Uma derradeira: o quartel do atual 1º BIS somente foi inaugurado no bairro em 1962.

Recorte do referido matutino

O bairro de São Jorge foi fundado no ano de 1955. Antes era conhecido como Rocinha (porque tinha roças), Pico das Águas e Morro da Coruja. Em 1954, uma estrada foi aberta pelos moradores, ligando-o ao bairro de São Raimundo. A primeira rua do bairro, rua dos Batizados, hoje Amaral dos Santos [possui o CEP 69033-200], foi aberta para dar passagem ao carro do governador Plínio Ramos Coelho, que seria padrinho de umas crianças, entre elas o filho do famoso João de Castro, que deu o nome ao filho de Plínio. Até a abertura desta estrada o único meio de transporte era a catraia do Chico Tatu, através do igarapé do Franco. Ainda em 1955, surgiu o projeto de construção da Igreja e o primeiro padre chama-se Ruas [Luiz Augusto de Lima].

Logotipo da paróquia na internet

Com a revolução de 1964, o bairro foi desmembrado em três partes: São Jorge, Jardim dos Barés e Vitória Régia (Florestal). As duas últimas partes abrigaram os moradores dos flutuantes [cidade flutuante]. Plínio Coelho, ainda como governador, construiu as 100 (cem) primeiras casas populares do bairro, a escola Zulmira Bitencourt [atual Escola Estadual, na rua São Cristóvão, hoje rua Prof. Ignacio Beltrão, CEP 69033-420] e o posto médico que funcionou provisoriamente em uma das casas populares. Iniciou também a urbanização, colocando asfalto, luz elétrica e dando àquela área, condições dignas para que o povo pudesse viver bem!

quarta-feira, fevereiro 19, 2025

L. RUAS EM A CRÍTICA

 O matutino A Crítica, fundado em Manaus em 1949, ao completar 60 anos resolveu homenagear seus colaboradores. O padre-poeta L. Ruas foi colunista deste jornal entre 1957-58, porém falecido em 2000. A par desta constatação fui à direção do matutino, que publicou em novembro de 2009 o tributo aqui postado.

A Crítica, 24 novembro 2009
Recém ordenado padre, o jovem Luís Ruas (1931-2000) ingressou no mundo das letras como membro do mais importante grupo literário do Amazonas, o Clube da Madrugada, na década de 50. O exercício da escrita está presente em vários artigos que publicou em jornais locais e em quatro livros - o mais conhecido deles é “Aparição do Clown”, reeditado pela editora Valer.

Estreia

A estreia do padre escritor, que assinava como L. Ruas, nos jornais ocorreu nas páginas de A CRÍTICA, em agosto de 1957. A passagem de L. Ruas pelo jornal foi curta - ele parou de escrever em março de 1958 -mas o suficiente para deixar saudades nos leitores e admiradores, que ficaram inconformados com o fim (voluntário) de suas publicações. “Os leitores reclamaram sua ausência. Duas ou três dessas cartas foram publicadas após sua saída”, diz o pesquisador e escritor Roberto Mendonça, que, atualmente, realiza uma investigação sobre os textos de L. Ruas nos jornais de Manaus e que nunca chegaram a ser reunidos em livros.

A coluna mantida por L. Ruas foi batizada de “Ronda dos Fatos”. O autor tinha liberdade para escrever o que quisesse, seja em prosa ou em verso. Mendonça diz que L. Ruas escrevia sobre problemas urbanos e sociais, mas também transitava no mundo das artes, versado sobre cinema e literatura. A publicação era diária, mas não seguia um cronograma permanente. Houve um momento em que ele escrevia apenas uma vez por semana.

Apresentação

L. Ruas foi “apresentado” ao fundador do jornal, Umberto Calderaro, pelo professor Orígenes Martins, que na época iniciava sua bem-sucedida carreira como proprietário de escola particular. “O jornal estava em fase de crescimento. O professor Orígenes era colega de seu Calderaro e sugeriu o nome do padre para a coluna”, conta Mendonça. Para Mendonça, L. Ruas, porém, não conseguiu encontrar disponibilidade para desenvolve suas atividades na Igreja, no magistério, no Clube da Madrugada e na coluna do jornal.

Despedida 

Em seu último texto no jornal, publicado no dia 28 de março de 1958, L. Ruas justifica (ou tenta justificar) o fim da coluna, após se deparar com os protestos dos leitores. O autor, em um estilo introspectivo, diz em determinado trecho: “Bem que eu poderia jogar a responsabilidade do desaparecimento da Ronda as costas desse velho larápio que nos rouba tudo. Tudo. Rouba-nos os amigos, as coisas, as paisagens, a preciosa mocidade, a própria vida. Mas seria injusto com o famigerado ladrão. Daria, sim. Não, não era o tempo. Seria antes falta de disposição. Cansaço talvez. Falta muitas vezes aquela disposição orgânica indispensável. E a gente cede aos reclamos do corpo. Não é possível roubar este mínimo de recreação das forças despendidas".

“Universal”

Antes de escrever para A CRÍTICA, L. Ruas possuía uma coluna em um semanário da Igreja Católica chamado “Universal”. Ele ainda manteria, nas décadas seguintes, outras colunas, escrevendo, ocasionalmente, em veículos como “O Jornal” (já extinto) e “Jornal do Commercio”. O padre e escritor voltaria a escrever em A CRÍTICA nos anos 80, segundo Roberto Mendonça, mas em períodos esparsos.

Coletânea

Roberto Mendonça, que possui uma coletânea dos textos de L. Ruas –“jornais, incluindo “Tempo e Disposição”, conta que o autor escrevia com “competência e destemor”. “Ele procurava levar ao leitor informações diversificadas. A condição dos ônibus, a situação dos bairros, com destaque para o de São Jorge, onde era pároco, literatura, cinema, fazendo apreciação dos filmes em exposição. Também falava de teatro, do qual participou como ator e diretor e debates políticos, como o que travou com o saudoso Jeferson Péres, então dois jovens intelectuais. E também noticiava assuntos da Igreja, da qual era sacerdote”, diz Mendonça, que estima um total de 800 textos escritos por L. Ruas nos jornais de Manaus.

Seminarista

L. Ruas era o nome artístico de Luiz Augusto de Lima Ruas. Nasceu em Manaus, em 1931, na avenida Joaquim Nabuco. Foi filho de Horizontino e Emília Ruas, e sobrinho do pintor e decorador Branco Silva. Ruas ingressou no Seminário São José, aos 12 anos, onde concluiu o curso de humanidades, conhecido hoje por ensino médio. O curso de filosofia encerrou no seminário da Prainha, em Fortaleza e, no Seminário do Rio Comprido (RJ), inicia o de teologia (1952-53). Foi ordenado padre em 1954, na Catedral de Manaus.

Currículo

É considerado o fundador da paróquia de São Jorge. Também lecionou na Faculdade de Filosofia, antes de ser absorvida pela Ufam. Era seu diretor, quando foi preso pelo Governo Militar (1964). Ingressou no Clube da Madrugada em 1955, convidado pelo poeta Jorge Tufic. L. Ruas também esteve envolvido no movimento cinematográfico e teatral da Cidade.

quinta-feira, novembro 21, 2024

MADRUGADA E L. RUAS, SEU PRESIDENTE

Nascido em 22 de novembro de 1954, o Clube da Madrugada – movimento que abrigou intelectuais e artistas em Manaus – apesar de extinto, vem sendo relembrado pelas sete décadas de criação. A Editora Valer acaba de lançar o livro “Clube da Madrugada 70 Anos”, de Tenório Telles, e coordena uma série de encontros, mesas e colóquios.

Capa do livro de Jorge Tufic

Quero relembrar duas datas sobre o Clube: a primeira mais distante, a dos 30 Anos registrada em livro de Jorge Tufic, um dos presidentes de maior proeminência do CM. A segunda, a comemoração do cinquentenário, cuja festa foi concretizada no Largo de São Sebastião em palco onde desfilaram os remanescentes daquela Madrugada.

Aquele ano de 1954 legou marcas indeléveis a Manaus: a instalação do Instituto Christus, depois CIEC, pelo mestre Orígenes Martins; a criação da Rádio Rio Mar, hoje pertencente a arquidiocese de Manaus; e o Clube da Madrugada, destes, atualmente apenas a emissora funciona. No entanto, quero me referir a outra singularidade: nas três entidades operou o padre-poeta L. Ruas.

Refiro-me a Luiz Augusto de Lima Ruas (1931-2000), que foi ordenado sacerdote por dom Alberto Ramos em 31 de outubro de 1954, ao lado do saudoso Manuel Bessa Filho, na Catedral da Padroeira. Companheiro de Orígenes no seminário, Ruas integrou-se ao grupo fundador do Christus. Cooptado por Jorge Tufic, ingressou no Madrugada, tendo presidido o clube biênio 1957-58, quando lançou sua obra-prima A Invenção do Clown. Enfim, quando a igreja católica adquiriu a Rio Mar, L. Ruas exerceu distintas funções, destacando-se como cronista radiofônico.

Padre-poeta L. Ruas

Exerceu o magistério em diversos colégios, no Seminário e na Universidade Federal do Amazonas. Seu nome crisma a EE Padre Luiz Ruas, no bairro Zumbi III. Faleceu em Manaus, em 1º de abril de 2000, estando sepultado no cemitério São João Batista.