CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

25 de setembro de 2014

EM TORNO DE HEMETERIO CABRINHA



Semana passada, postei um artigo do padre Walter Nogueira que bronqueava com o contista Arthur Engrácio, em disputa que envolvia o saudoso poeta Hemeterio Cabrinha. Abaixo vai o direito de resposta do acusado, publicada (interessante) no mesmo jornal A Crítica, do dia imediato, 18 de julho de 1958.  

A Crítica, 18 de julho de 1958




O PADRE Walter BRAZ GONÇALVES Nogueira é desses tipos que, a exemplo dos símios enraivecidos (que mordem a cauda quando nada encontram para morder), brigaria com a própria sombra se não achasse com quem pudesse derramar a sua fermentada bílis. Pequenino, ar humilde, ninguém supõe o de que é capaz esse campeão da sapiência no campo da insídia e da futrica. Pode passar sem um bom perfume para borrifar a sua bata elegante, mas o que não poderá passar é sem uma pendência, uma querela, uma lengalenga qualquer.
Vai daí ter ele, ontem, no seu espernegado neste jornal, se saído com quatro pedras na mão contra o pobre signatário destas linhas pelo simples fato de havermos publicado um artigo LITERÁRIO no qual comentamos, ligeiramente, o livro do poeta Hemetério Cabrinha, intitulado "Frontões". Doeu-se o minúsculo Guliver com umas referências que ali fizemos à sua castíssima pessoa e, doendo-se, escoiceou, esbravejou, puxou faca, numa demonstração clara de que é mesmo afeito a barulho.
*  *  *


MAS se o padre Walter BRAZ GONÇALVES Nogueira gosta de uma brigazinha, nem sempre escolhe uma arma adequada, limpa, honesta, digamos assim, com que enfrente o adversário. Se é desleal na vida comum, nos entreveros que provoca, para se safar, essa deslealdade, então, assume proporções avantajadas. É bem o que se poderia chamar de um Maquiavel-mirim de saias. Note o leitor que nos teve sob a vista que não fizemos a mínima alusão à Igreja. Falamos, isto sim, de "certos espíritos medíocres”; de um “jornaleco rotulado de católico, propugnador da verdade..."; de um “frutriqueiro das esquinas" etc., palavras essas cuja veracidade provaremos mais adiante, e as quais nada têm a ver com a sublime Instituição de Cristo, pelo menos no entender dos coerentes, dos sensatos.

Todavia, se a Coerência e o Bom Senso assim preceituam, já o professorzinho de Grego do Colégio Estadual pretende que, com aquelas nossas frases, tenhamos atacado a Igreja, o que, sobre ser uma saída pouco decente e viril, é uma forma sórdida, de atirar-nos à odiosidade dos católicos, o que não conseguirá, felizmente.

Sem argumentos honestos para debater assuntos honestos e à semelhança do garoto safado que, para livrar-se dos safanões de um adversário, corre a proteger-se na saia da mãe, o reverendozinho, temendo o nosso revide, trata de ocultar-se sob o nome da Santa Igreja. Mas é assim.  Essa gente faz o diabo, pinta os canecos, prevarica à vontade, e, chamada a prestar conta dos seus atos, é o nome da Igreja que logo invoca. 

MAS vamos deixar a Igreja de lado, que nada tem a ver com as futricas gonçalvinas desse Torquemada de araque, "doublé" de jornalista e professor de Grego. Trataremos diretamente de alguns tópicos do seu arrazoado, provando, inclusive, o que linhas atrás prometêramos fazê-lo. A dois pontos apenas nos reportaremos: 1° PONTO: — Nega-se o padre Walter BRAZ GONÇALVES Nogueira a acoitar o título de "espírito medíocre" que lhe demos. Agora perguntamos: não é espírito medíocre quem, não entendendo de um assunto se mete a falar do mesmo? Ilustremos o caso. O padre Walter BRAZ GONÇALVES Nogueira, pelo fato de ser católico, tratou de arrasar, de pulverizar o livro do poeta Hemetério Cabrinha por este professar o espiritismo, simplesmente. Isto, sem se dar ao trabalho de ler a obra, analisá-la literariamente como seria o justo e o correto. Um espírito superior, padre Walter, que não fosse medíocre jamais teria esse gesto. E você o teve.

2° PONTO: Pisou na brasa o padre Walter BRAZ GONÇALVES Nogueira por o havermos chamado de "frutiqueiro das esquinas". Ora, o Pai-dos-Burros, entre outras definições, diz: FUTRICAR – "intrometer-se (em alguma coisa para atrapalhar)". Logo, futriqueiro... é quem, não sendo nem literato nem crítico literário, mas apenas movido por paixões religiosas, se intromete na vida de um consagrado poeta com o fim exclusivo de atrapalhá-lo. Querem uma prova? Tome-se o número de o "Universal" do dia 25 de maio, e na coluna "Conversa de Esquina" vamos surpreender dois futriqueiros em animado bate-papo. Falam do livro "Frontões", de Hemetério Cabrinha, e à certa altura, um dos interlocutores, interpelado pelo outro, responde: – "A pura verdade. Não lhe aconselho a comprar o livro (Frontões), pois não vale a metade do preço que pedem. Refiro-me ao conteúdo, está claro...".

Um jornal sério, zeloso sacerdote de Cristo, que se prezasse; que cumprisse realmente a finalidade de "orientador católico", jamais estamparia em suas páginas escrito, de tal ordem; jamais manteria a torpe campanha de infâmia e de descrédito contra um pobre escritor que, enfermo além do mais, é do produto do seu labor que se mantém. Onde está a orientação católica desse jornal? Ele orienta ou desorienta os católicos? Faz ou não faz.
Responda a essas perguntas, se puder, o ingênuo BRAZ GONÇALVES das futricas.
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P.S. – Quanto às suas ameaças, não nos infundem o menor temor. Não somos contra a Igreja, repetimos. Somos, sim, contra os seus falsos apóstolos, os seus adeptos mascarados. E quando vier, venha com jeito, pois que já pegamos muito bicho bom pelo pé, e não nos custara agarrar mais uma gralha e depená-la toda.