CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

4 de setembro de 2014

FÁBRICA ROSAS



Dias desses, transitando pela Praça da Polícia tive a atenção voltada para um centenário edifício situado na avenida Sete, onde funciona no térreo uma loja da TVLar. O prédio parece entrar em recuperação, com isso, mostrando sua fachada nos consente algumas recordações. Eu sabia que ali funcionara a Fábrica Rosas. Sabia eu, por dois motivos: um muito especial, pois meu falecido pai ali trabalhou por muitos anos como balconista, em especial na turbulência da 2ª Guerra Mundial. E ele me recordava esse local com reverência extremada, como se aquele estabelecimento tivesse sido um templo.

Revista Cá e Lá, maio de 1917
O segundo agente chega agora pelo texto – abaixo transcrito, de Robério Braga, em seu livro Manáos... Manaos.. Manaus. (Manaus: Reggo Edições, 2013).  



FÁBRICA BIJOU

No correr dos anos atuais, nos quais muito se tem falado e agido na recuperação do patrimônio histórico e tradicional do nosso Estado, com esforços e ações crescentes em Manaus, e que vão ser feitas obras no antigo Quartel do Comando Geral da Polícia Militar, o tradicional Palacete do centro histórico, vale a pena tratar de uma empresa que tinha sede bem na vizinhança mais próximo do Quartel, a Fábrica Bijou – Panificação Amazonense –, seja pelos seus salões elegantes com mobiliário especial e a importância da fachada do prédio, ou pelos produtos que fabricava e eram bem colocados no mercado. E não é coisa do passado muito distante, que se possa dizer que foi retirada do fundo do baú, porque se estendeu ainda aos meus anos de menino e jovem rapaz. 

Inicialmente era empresa local, de propriedade de Pereira, Santos & Cia., conforme os registros de 1914, e conseguira prêmios nas Exposições do Rio de Janeiro e Bruxelas. Estava instalada a Rua Municipal, 129, atual Avenida Sete de Setembro, valendo-se da Caixa Postal 36 e do endereço telegráfico Bijou, que eram coisas modernas e chiques, feitas para empreendimentos de porte. Seus serviços eram movidos à eletricidade, outra grande novidade que fazia questão de ressaltar nas propagandas. Para melhor servir, a panificadora mantinha várias filiais, embora a cidade ainda fosse acanhada, o que, de certo modo, bem caracteriza sua hegemonia na praça comercial: Fábrica Universal (rua Henrique Antony); Padaria Amazonense (rua Marquês de Santa Cruz); Padaria São Sebastião (rua Costa Azevedo); Padaria Dois Irmãos (Rua dos Barés); e, Frigorífico Bohêmia (rua Marechal Deodoro), que eram seus principais pontos de venda.

Vendia pão fresco – tanto pela manhã quanto pela parte da tarde; rosca comum e à barão; farinha de trigo e de milho; bolachas e biscoitos variados; doces secos e finos, bombons, amêndoas, bebidas finas, conservas, massas alimentícias, chocolates de puro cacau em pães e em pó. Além disso, ainda fazia torração de café especial e Moka, e refinação de açúcar. Seus proprietários se orgulhavam de ostentar o título de confeitaria mais bem montada no Norte do Brasil e, como tratava de comércio, indicavam para todos os lados que praticavam preços sem concorrência.

Quem passasse por ali, nas imediações do Gimnásio Amazonense D. Pedro II, descendo pelas calçadas de lioz do lado direito da Avenida Sete de Setembro em direção à Catedral de Manaus, veriam um belo salão com ventiladores de madeira no teto, lustres em forma de pera, piso em ladrilho bem à moda daqueles anos de vésperas da 1ª Grande Guerra Mundial com paredes recheadas de pinturas decorativas, colunas centrais e mesas para quatro lugares em madeira, com pernas torneadas, rodeadas de cadeiras com forração em palhinha da Índia. Ao redor das colunas estavam os balcões de apoio com louças e peças para serviços de atendimento aos clientes. Era lugar de classe, lugar fino, por onde circulavam os que tinham paladar exigente, mas ao mesmo tempo era um ponto de encontro sem ostentação que incomodasse as pessoas simples ou afastasse qualquer freguês.
Jornal  A Tarde, novembro de 1940

Vendida depois para a forte empresa de J.G. Araújo e Companhia Ltda., transformou-se na Fábrica Rosas e nos primeiros anos de 1950 estava com suas atividades encerradas. Em 1954 a firma J. Barbosa Grosso e Companhia Ltda. iniciou sua atuação restabelecendo o nome de Panificadora Bijou, funcionando no mesmo casarão alugado até 1974, passando-se depois para a Rua Ajuricaba com a Av. Castelo Branco, na Cachoeirinha, local em que a empresa parou de funcionar nos anos 1980, sendo o nome concedido ao antigo funcionário Luís Alberto Farias que ainda manteve a fábrica funcionando por mais ou menos dez anos. Quem sabe ao menos o prédio possa voltar aos tempos áureos de sua presença na paisagem da nossa cidade.