CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

2 de setembro de 2014

SOBRE A AMAZÔNIA (1ª PARTE)



Depois de longo inverno, retorno às atividades, esperando manter produtivamente este espaço. Sem delongas, porque as minhas promessas anteriores foram, na verdade, por águas abaixo. Assim, reproduzo (em duas etapas) o texto abaixo, extraído da revista Notícia Bibliográfica e Histórica (nº 182, de julho-setembro de 2001), da PUC/Campinas. Sobre o autor, apenas posso assinalar que o mesmo era então o responsável pelo citado periódico.

ESTRANGEIROS QUE ESCREVERAM SOBRE A AMAZÔNIA
Odilon Nogueira de Matos
Arthur Cezar Ferreira Reis
Dentre os numerosos livros deixados pelo historiador amazonense Arthur César Ferreira Reis (1906-1993) destaca-se Paulistas na Amazônia e outros ensaios, incluído originalmente no volume 175 da "Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro" e pouco depois tirado em separata pela Imprensa Nacional (1941). Datando já de mais de meio século, é hoje obra bastante rara. Entre os "outros ensaios" que figuram no volume, dois merecem a nosso ver, especial destaque (sem desdém para os demais, é claro) por versarem assunto que ultimamente vem sendo deveras considerado na bibliografia histórica brasileira.
O primeiro é sobre "La Condamine na Amazônia" e o segundo intitula-se "Naturalistas na Amazônia colonial". Charles Marie de La Condamine (1701-1774) é das figuras mais expressivas da história da ciência. Enviado à América do Sul, juntamente com outros cientistas, pela Academia das Ciências de Paris, com a incumbência de medir o arco do meridiano na região equatorial, a fim de confirmar ou não o que a ciência da época dizia acerca da configuração da terra, trabalhou intensamente no Peru e no Equador.
Cumprida sua missão, decidiu-se a voltar à Europa pelo Amazonas, "qui passe avec raison pour Ia plus grande revière du monde". Era o "sabor do inédito", comenta Arthur Reis. E acrescenta: "A peregrinação pela selva equatorial, de onde vinha tanto mistério, sobre que se afirmava tanta curiosidade, traria motivos mais interessantes que a Europa, toda interessada no exotismo desses pedaços que estavam sendo revelados, de certo apreciaria".
Tomando contato com a terra e o homem das Américas (espanhola e portuguesa), La Condamine soube senti-los e compreendê-los. Tenhamos em conta, antes de tudo, o quanto a política, tanto de Portugal como da Espanha, era rigorosa para com os estrangeiros. Portugal mais ainda que a Espanha, como prova o incidente ocorrido com "um tal barão de Humboldt", que foi preso por ordem do governo do Maranhão, depois de ter andado à vontade por terras da América Espanhola.
Entretanto, com La Condamine, a coisa foi diferente. Teve a "entrada larga, folgada, cercada de garantias, de franquias quase escandalosas", ainda na observação do historiador amazonense. Em troca, La Condamine portou-se dignamente. "O que viu de mau descreveu sem rigores berrantes; o que lhe pareceu bom, mereceu-lhe o registro cheio de simpatia."
No que toca a explorações geográficas, procurou retificar os enganos de Samuel Fritz, que, a serviço de Espanha, traçou, no começo do século XVII, o primeiro mapa do grande rio. Visitou as missões dos carmelitas, que lhe pareceram superior às do Peru. Anotou o uso pelos cambebas de artefatos de borracha. Não foi, na realidade, o primeiro a referir-se ao cautchu. Antes dele, frei Manuel da Esperança já o fizera. Mas La Condamine divulgou a borracha na Europa, dando renome e fama ao produto que marcaria por mais de um século o panorama econômico da região.
No documento em que se pedia licença para que La Condamine e seus companheiros viajassem pelo Amazonas, determinou o rei de Portugal não só que se desse a solicitada licença, como ainda que ela fosse complementada "com todo o auxílio e favor de que necessitem para a dita viagem", e que em qualquer lugar aonde chegassem os ilustres acadêmicos "fossem tratados com atenção"... Realmente, são ventos novos que estavam a soprar pelo Brasil. Mas, lamenta-se que a ocorrência não se tenha generalizado, pois em outras regiões do País o comportamento das autoridades foi bem diverso.
Ficou feliz La Condamine quando, em Belém do Pará, lhe deram como alojamento "maison commode et richement meublée", com jardim donde se avistava o mar, portanto lugar ideal para as suas observações. Notou um eclipse, o primeiro na região observado cientificamente. Mas apavorou-se com a epidemia da varíola que grassava no Pará. Registra que a vacinação utilizada pelos carmelitas no começo do século com grande êxito já não estava sendo empregada como devia, o que era deveras lamentável, dada a eficácia do resultado do tratamento.
Na Europa, La Condamine diria coisas amáveis a nosso respeito, apesar de lamentar a "velha, ruidosa e desagradável contenda" que o Brasil vinha sustentando com os espanhóis a propósito das fronteiras.
Sua Relation abrégée d'un voyage fait dans I'intérieur de I'Amérique méridionale, publicada em 1778, causou sensação. "A Amazônia - conclui Arthur César Ferreira Reis - lhe tinha parecido um deslumbramento pelo pitoresco, pelo inédito de sua esplendorosa natureza, pela bondade de seus naturais. (...) Em sua obra, riscou um panorama exato, cheio de vida, de interesse, da selva amazônica, de sua gente, de sua natureza robusta, de seus multiformes aspectos. Abrindo caminho à multidão de naturalistas de toda espécie..."
Registre-se que a obra de La Condamine mereceu três traduções no Brasil, duas no ano de 1944: a de Cândido Jucá Filho e Basílio de Magalhães (Editora Epasa) e a de Aristides Ávila (Edições Cultura); e muitos depois (1992) a de Maria Helena Franco Martins (Nova Fronteira/ Edusp).
Da viagem do cientista francês resultou praticamente o descobrimento do norte do Brasil à ciência universal, nas mais diversas áreas: botânica, zoologia, geologia, geografia, antropologia, etnografia, que todas elas foram durante os séculos XIX e XX objeto de investigações da mais variada procedência por parte de naturalistas alemães, ingleses, norte-americanos, franceses, italianos, espanhóis, todos deixando obras importantíssimas para o conhecimento da região. "Abrindo caminho à multidão de naturalistas de toda espécie", para repetir mais uma vez a frase de Arthur Reis.
E isso, sem contar a valiosa e nunca assaz louvada obra de reconhecimento geográfico e levantamento cartográfico, como decorrência inevitável dos tratados de limites do século XVIII, com os quais - poder-se-á dizer - a Amazônia entrou para a História.
Realmente, o século XIX vê a abertura do Amazonas ao comércio internacional e, com os comerciantes, vêm naturalistas de toda espécie. Muitos deles andaram antes pelo Rio de Janeiro e Minas Gerais, prolongando suas jornadas até ao norte do país. Mas, muitos outros não se interessaram pelo sul e sudeste, concentrando seus objetivos no vale amazônico. As obras de uns e outros, em boa parte encontram-se traduzidas, razão pela qual esta nota vai ater-se a esses autores que já podem ser lidos em nossa língua, dando assim a ela um cunho prático, pois as edições originais desses autores são raríssimas, cotadas, quando aparecem, por preços fabulosos nos grandes alfarrabistas internacionais.
À primeira categoria - os que visitaram primeiramente o Brasil de sudeste e depois prolongaram suas viagens à Amazônia - pertencem Spix e Martius, Agassiz, Avé-Lallement, Kidder, Alberto da Prússia e Hartt. Entre os que estiveram apenas na Amazônia: Bates, Coudreau, Wallace, Maw, d'Orbigny, Rice, Carvajal, Rojas e Acuña.
Estes três últimos pertencem à fase que chamaríamos de "pré-lacondamínica". Foram companheiros dos primeiros exploradores do rio-mar, ainda no século XVII, estando um deles vinculado à famosa expedição de Pedro Teixeira, que, naquela centúria desceu o grande rio quase que das nascentes à foz. Seus relatos de viagem encontram-se publicados num só volume, organizado por Cândido de Meio Leitão, que o intitulou Descobrimentos do Rio das Amazonas, publicado na importante coleção "Brasiliana", da Companhia Editora Nacional, em 1941, infelizmente nunca reeditado, embora alguns desses relatos merecessem publicação avulsa.
Duas importantes coleções de estudos brasileiros – a já citada "Brasiliana", da Companhia Editora Nacional, de São Paulo, e a "Reconquista do Brasil", da Editora Itatiaia, de Belo Horizonte - infelizmente nenhuma delas mais existente – dedicaram-se com o maior interesse à publicação de obras de viajantes estrangeiros que andaram pelo Brasil desde o século XVI até o início do século XX.
Na "Brasiliana" figuram as obras de suiço-americano Agassiz, dos ingleses Bates e Wallace, do francês Coudreau e do americano Hartt. Agassiz (1807-1873), embora tenha incorrido em afirmações não confirmadas pela ciência moderna no que se refere a problemas de glaciação, em nada teve abalado seu prestígio, dadas as inúmeras outras coisas valiosas que seu livro encerra. Fez sua viagem em 1865/66, acompanhado da esposa, Elizabeth Cary Agassiz, na realidade a autora do relato da viagem, cabendo ao marido as observações científicas. Livro, portanto, "a quatro mãos"...

Henry Walter Bates (1825-1892) viajou pela Amazônia durante onze anos, publicando em Londres, em 1863, seu The Naturalist on the River Amazon, que alcançou numerosos edições na Inglaterra, mas que só foi traduzido para a nossa língua em 1944.
Charles Frederick Hartt (1840-1878), depois de viajar longamente pelo país, fixou-se no Rio de Janeiro, onde veio a falecer. Foi o organizador da Imperial Comissão Geológica, entidade que, passando por inúmeras reformas estruturais e administrativas, ainda existe, com assinalada folha de serviços à ciência. Sua Geologia e Geografia Física do Brasil, publicada em Boston, em 1870, só foi posta ao nosso alcance em 1941.
Alfred Russel Wallace (1823-1913) foi um dos criadores (ao mesmo tempo que Darwin) do princípio da seleção natural e do evolucionismo. Sua obra, A narrative of travels on the Amazon and Rio Negro, with an account of the native tribes and observations on the climate, geology and natural history of the Amazon valley, foi publicada em Londres em 1889, e só apareceu em nossa língua em 1939 (Col. "Brasiliana", v. 156).
Quanto ao francês Henri Coudreau (1859-1899), que viajou em companhia de sua esposa, também cientista, e que encontrou a morte numa excursão ao norte do Pará, teve sua obra continuada pela viúva, que permaneceu ainda alguns anos no Brasil. Um dos livros de Coudreau, a Viagem ao Tapajós, de 1897, encontra-se na "Brasiliana", em edição de 1940.
Muitos dos livros aqui mencionados, divulgados primeiramente na coleção "Brasiliana'', foram editados também pela Itatiaia, na igualmente preciosa série "Reconquista do Brasil", às vezes em traduções novas, outras vezes aproveitando as traduções já existentes. Assim aconteceu com as obras já citadas de Agassiz, Bates, Wallace e Coudreau, sendo que, deste autor divulgou a Itatiaia mais dois títulos: a Viagem ao Xingu e a Viagem à ltaboca e ao ltacaiúnas. (segue)