CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

19 de setembro de 2014

PADRE WALTER versus ARTHUR ENGRÁCIO




Cônego Walter Nogueira
A Igreja católica em Manaus, na década de 1950, produziu e distribuiu o semanário Universal. Circulava aos domingos, sob a direção do padre, depois cônego, Walter Nogueira, vigário da Matriz.
Um dia, Arthur Engrácio, conhecido intelectual da cidade, autor de Histórias de submundo, entre outros livros, espinafrou a Igreja e o jornal do vigário. O padre Walter não titubeou, replicou com o texto abaixo, aqui reproduzido para lembrar, entre outras práticas, que era comum esse tipo de debate pelos matutinos de Manaus.

UM TOLO
A Crítica, 17 de julho de 1958

DESDE QUANDO percebi que o Arthur Engrácio era um barco sem leme e uma ventoinha ao sabor dos ventos de ideias e princípios mal assimilados e, pior, expostos nos cansativos escritos que a tolerância de algumas redações de jornais acolhe, nunca mais perdi tempo em 1ê-1o.
O Engrácio é engraçado pelo ar de doutor que assume nos seus arrazoados. É poeta, historiador, filólogo, teólogo, é divorcista e agora ímpio e inimigo da Igreja. Mas, como ia dizendo, vai para mais de dois anos que, ao perceber uma peça maçuda subscrita pelo Engrácio, passo adiante.
Foi o que aconteceu com o artigo publicado por ele em A CRÍTICA de sábado último com o título: "Um Poeta". Li, domingo, 13, por insistência de um amigo. O comentário até não está ruim a respeito do livro de Hemetério Cabrinha, Frontões, que afora os senões imperdoáveis e injustos do conteúdo de algumas poesias, não lhe nego méritos. Passemos à razão principal destas linhas. 

O Arthur Engrácio, depois de tecer considerações sobre o livro de Cabrinha, assenta o pau neste humilde sacerdote, no jornal católico Universal e na Igreja. Para mim não constituem problemas os achincalhes pelo motivo óbvio: não terei dificuldades em acreditar na minha mediocridade de espírito quando homens de cultura sólida e de saber comprovado m’o afirmarem. Não posso é dar fé a um simples secundarista que dogmatiza sobre o cepo movediço de pontos de vista pessoais. A sabedoria sempre se sentiu mal em cabecinhas desarrumadas e prenhas de vaidade e petulância. Suas afirmativas, Engrácio, ainda são anémicas demais para se imporem à verdade e ao crédito público. 
 
Capa do livro
TODO MUNDO pode compreender com meridiana clareza que NÃO SOU "um certo escriba" que, não entende senão de movimentar a minha máquina de ganhar dinheiro: o Universal. Não sou "futriqueiro", nem tenho a "língua suja". Isto NÃO, historiador-filólogo-divorcista-filósofo-ímpio Arthur Engrácio! Indague do seu patrão se jornal da índole do Universal é mina de dinheiro. Sou um padre católico, jornalista e professor (só não fui mestre do Engrácio porque a sua inteligência não se abalou no estudo do Grego, quando aluno do Colégio Estadual) e que amo a Igreja e sei defendê-la tanto quanto sei desfazer aleivosias contra o jornal que todo o Amazonas aprecia e respeita pela seriedade de seus propósitos e pelo ideal elevado de sua missão. 

Sei distinguir os valores intelectuais do meio, como posso escorraçar a corja de petulantes metidos a críticos sem bagagem literária comprovada. Quem se mete a entender de tudo, acaba por não entender profundamente de nada. Fique com sua literatice barata, Engrácio, e deixe-me com a convicção cada vez mais sólida de que a Igreja não se molda ao torpe "Fiat Lux" de Hemetério Cabrinha e jamais esteve "envolta em manto de mais hipócrita fantasia" de um coitado escrevinhador provinciano como você.

A SANTA IGREJA paira acima das mesquinhas considerações deste metediço comentarista que é o Engrácio. Este sujeito nem percebe o ridículo da pretensão dele e do Cabrinha em menosprezar a beleza da doutrina da Igreja, a única instituição humana a resistir aos embalos dos séculos na sublimidade de sua função divina. Eles pensam que se insurgir contra a secular Instituição, é galhardia, é coragem, é originalidade. Não é, Engrácio. Tal procedimento não é inédito na História, nem denota singularidade. Espíritos pujantes e inteligências de escol já se torceram vencidos junto à rocha imortal das Sete Colinas, e, hoje, são fósseis inglórios no mundo do pensamento.
Procure, Engrácio, outro motivo menos batido para a glória literária tão cobiçada... com tão pouco! Atacar sacerdotes, assacar infâmias contra a Igreja, é fadário muito gasto; é lengalenga de todos os tempos, de todos os dias, dos espíritos recalcados e invejosos de seu prestígio indesmentível e mundial. Não é originalidade, Engracio. Não é, acredite. E deixe de ser tolo.
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P.S. — Largue o Universal de mão. É muito perigoso brigar com um jornal mesmo de orientação católica...

Padre WALTER NOGUEIRA,
Diretor do Universal.