CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

6 de setembro de 2014

MISSÃO DO SACARÁ OU SILVES





Volto a explorar o livro do falecido mestre e jurista Waldir Garcia, que nos legou uma coletânea de histórias de sua cidade natal – Silves. Esta, transcrita abaixo, envolve um conhecido vigário da paróquia de Nossa Senhora da Conceição local. Padre Daniel Oliveira, além da atuação religiosa, exerceu o mandato de deputado provincial e outro mister não muito digno, segundo as palavras do saudoso silvense.


CHICO PADRE

Waldir Garcia

Igreja de Silves
A igreja de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Silves, guarda em seu corpo os restos mortais do Padre Daniel Marques d'Oliveira, pároco daquela cidade e que foi deputado estadual no Amazonas, em cuja atividade legislativa, segundo pesquisa publicada pelo inefável escritor Genesino Braga, foi autor da lei que concedeu os primeiros recursos financeiros para a construção da igreja de São Sebastião, desta Capital.
Acontece que o Padre Daniel não fora um sacerdote casto, até certo tempo, como foi o Padre Antonio de Morais, figura central do romance O Missionário, de Inglez de Sousa, o qual, afinal, apaixonara-se por Clarinha, vindo, finalmente, a fazer amor com ela "sobre o tapete de folhas úmidas do orvalho, douradas pelo sol", num cacaueiro aí na velha Mundurucânia. Ao contrário dele, Padre Daniel parecia-se
com o Padre José, que antecedera ao Padre Antonio de Morais, na mesma paróquia de Silves e que, segundo ainda Inglez de Sousa, “era um pândego que passava meses nos lagos, tocando violão e namorando as mulatas e as caboclas dos arredores...” 
Em que pese o grandioso trabalho missionário desempenhado por Padre Daniel à comunidade silvense, o certo é que prevaricou no cumprimento dos deveres sacerdotais, no que tange ao celibato e à castidade, por isso que deixou alguns filhos havidos com as caboclas saracaenses, dentre eles, Francisco Ferreira Neves, mais conhecido por Chico Padre, sobre quem iremos transmitir algumas estórias que, à moda folclórica, correm de boca em boca.
 
Chico Padre era comerciante, estabelecido no lugar denominado Conceição, situado num igarapé à margem direita do rio Urubu, atrás da cidade de Silves. Costumava regatear em todo o município, praticando o escambo, forma primitiva do comércio local: comprava castanha, pirarucu, couros e peles, madeiras, farinha, balatas, óleo de copaíba e de andiroba, breu, cacau, enfim, os produtos agrícolas ou os extraídos das matas, e os trocava por fazendas, cachaça, sabão, café, arroz, açúcar, querosene etc...

Seu regatão, puxado a faia, tinha tolda dupla: uma atrás e outra na frente. Na de trás estavam os armarinhos, as prateleiras sortidas e a cama de Chico Padre. Era um caboclo bem apessoado e metido a conquistador. Usava olho de boto.
 

Gostava que exaltassem suas aventuras amorosas, e isso muito o envaidecia e o tornava dócil e acessível mesmo aos fregueses mais recalcitrantes no pagamento de suas dívidas.

Havia em Silves, residente no bairro de Mucajatuba, um dos tipos mais estúrdios que ali pontificara: Angélico Neves, que atendia pelo apelido de Poronga. Inteligente, sagadíssimo, cordial e afável, sabendo que Chico Padre gostava que gabassem suas aventuras amorosas, aproveitava-se da fraqueza do comerciante para conquistar-lhe a simpatia, embora seu nome constasse da lista negra de Chico Padre, porque mau pagador.

Aos domingos o regatão de Chico Padre estacionava no porto de sua casa comercial, em Conceição. Desde cedo a freguesia começava a chegar para fazer compras e bebericar. As montarias se aproximavam, uma a uma, e o regatão ficava rodeado de canoas. Raimundo Tapiú era o caixeiro de Chico Padre, isto é, a pessoa que atendia a freguesia, enquanto Chico Padre embalava-se numa rede sob o toldo do regatão, refrescado pela brisa agreste que vinha das matas do Sanabani.
 
Vista aérea de Silves
A freguesia começava a contar estórias e a bebericar. No meio do regatão, sobre um banco largo de itaúba, um garrafão de cachaça estava disponível para atender aos fregueses em sua sede etílica.

Onze horas da manhã desponta, ao longe, uma canoa com um só tripulante, que se aproxima do regatão. Pelo tipo de remada cadenciada, Tapiú identificou o tripulante, dizendo:  "Seu Chico, lá vem o Poronga!" Chico Padre contrariou-se e disse logo: "Seu Tapiú, esse miserável não leva um tostão fiado! Veja bem, não se vende fiado ao Poronga! Ele não paga as contas, é um refinado caloteiro!"...

Aproxima-se a montaria. Era mesmo o Poronga, que amarra a canoa ao regatão e saúda os presentes: "Bom dia a todos!", a que os presentes respondem com alegria e um sorriso sarcástico nos lábios. Dirige-se ao Chico Padre e o saúda assim: "Bom dia, seu Padre!", a que Chico Padre responde com a cara fechada de mau humor: "Bom dia, seu Poronga!"

Poronga não se perturba. Puxa do bolso da calça uma moeda de um cruzado – que àquela época valia quatrocentos réis – e pede: "Seu Tapiú, dê-me duzentos réis de cachaça, um mata-bicho bem dosado!" Tapiú o atende prontamente, Poronga, num gesto de elegância, oferece aos presentes, que agradecem, e gentilmente vira-se para Chico Padre e lhe oferece a pinga também, e tem resposta negativa de aceitação. 

Depois de ingerir a bebida de um só trago, Poronga dá uma cuspalhada para dentro d'água, conserta a garganta e virando-se para o Chico Padre, que continuava a embalar-se na rede, e diz: "Ah! meus amigos, se aquela rede falasse certamente contaria as grandes aventuras amorosas do Padre. Quantas caboclas ele já amassado no fundo dessa rede ou sobre as tábuas do soalho! A fama do Padre vai longe, minha gente! Dizem que no paraná de Boa Esperança, na costa do Rebojão, na costa do Cucuiari e no paraná do Pai Tomás, em cada um desses lugares ele tem duas ou três fêmeas à espera dele. Basta o regatão dele buzinar, que elas já vêm para o barranco, esperá-lo!  É um felizardo! É o homem que tem mais cutubas nestas paragens!"...

Chico diz: "Deixa disso, Poronga, sabes que não sou tão marupiara para as garotas, não é?” Poronga continua: "É, pessoal, a continuar assim, daqui a alguns anos, em cada um desses pontos referidos vão construir uma capelinha para abrigar os filhos do Chico Padre!” Os fregueses riam a valer, enquanto Chico Padre ficava cada vez mais vaidoso e regozijado com os elogios que Poronga fazia de sua macheza.
Poronga pede mais duzentos réis de cachaça e Tapiú o serve. Ele oferece a Chico Padre, que aceita e bebe toda a tiquira. Chico Padre passa a contar, ele mesmo, as suas aventuras de amor e, dar a momentos, é o próprio Chico Padre quem oferece a bebida a Poronga. Bebem à farta, e lá pelas quatro da tarde, Chico Padre já está meio bêbado, eufórico, palrador, coração mole, do que se aproveita Poronga para dar o golpe fatal, dizendo: "Seu Padre, quero fazer um ranchinho para a família, posso?" Chico Padre ordena: "Seu Tapiú, atende o Poronga no que ele quiser!"
Poronga faz a lista das mercadorias de que precisa: sabão, cachaça, arroz, querosene, tabaco, papelinho zig-zag, tauari, isqueiro de rabo, anzóis ingleses, linha para arpoeira, dois pares de tamanco, duas redes, uma saca de sal, um alqueire de farinha. Coloca tudo na Cornicha, sua canoa, e cobre a mercadoria com um japá.

Poronga bebe mais alguns goles e se despede dos presentes, especialmente de Chico Padre: "Bem, seu Padre, até o próximo domingo. Deus o proteja, conserve e guarde!" Chico Padre diz: "Amém!", e já embriagado, volta à rede a delirar, vivendo as emoções amorosas postas em destaque por Poronga e fazendo planos para novas aventuras, enquanto Poronga, distanciando-se do regatão, deixa mais um fiado a fundo perdido, no alegre regatão do Chico Padre.