CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, março 28, 2021

RUAS DE MANAUS

 Revisitando meu arquivo de jornais, encontrei o registro da construção da rodovia Variante para o aeroporto Ponta Pelada; e da avenida Castelo Branco, antiga Waupés, na Cachoeirinha. A cena desta foi tomada do entroncamento com a rua Ipixuna, na antiga Curva da Morte, melhor ainda, junto ao bar do Carvalho. Em frente, era um “covão” que impedia o tráfego de veículos, por isso foi necessário o aterramento. As obras foram realizadas pelo DRM da Prefeitura de Manaus, então dirigida por Paulo Pinto Nery.

O texto compartilhado de O Jornal (28 outubro 1969) especifica o serviço realizado. As fotos da Catelo Branco mostram o antes e o de ainda pouco de ontem pela manhã, quando parei no semáforo existente neste entroncamento.

Cruzamento da rua Ipixuna com a av. Castelo Branco



Por considerar útil e indispensável a divulgação de quaisquer empreendimentos, mormente em se tratando de rodovia, obras eminentemente públicas, elaboramos a presente reportagem que evidencia o trabalho magnifico realizado pelo Departamento Rodoviário Municipal (DRM), nesses últimos três anos de conscientização administrativa.

Criado pela Lei Municipal 531, de 28 de abril do 1955, o DRM conseguiu, após onze anos de anonimato, surgir como aurora de esperanças. Tomando forma em 19 de setembro de 1966, o DRM de hoje focaliza suas realizações, situando a construção da rodovia Variante para o Aeroporto, uma das metas de honra da atual administração municipal, em plena comemoração de repartição pela Lei 889. do Tricentenário da fundação de Manaus. 

Entroncamento da av. Silves com a av. Castelo Branco


quarta-feira, junho 20, 2018

MUDANÇA DE NOME DE RUA

Capa do livro

Em se falando de mudança de nome de rua em Manaus, o vício não é corrente, vem da fundação de Manaus. Basta se recorrer ao Ed Lincon para saber quantas denominações já batizaram e crismaram a atual avenida Sete de Setembro. Portanto, não me causa surpresa, apenas forte  indignação, o sacrifício das avenidas Paraíba e Recife para homenagear o fundador de A Crítica e o historiador Mario Ypiranga (contrário a esse troca-troca, como demonstrarei em breve, com uma publicação do próprio).
O texto compartilhado pertence ao saudoso juiz de Direito Waldir Garcia, em seu livro À Sombra dos Igapós (Manaus: Imprensa Oficial, 1987). Reclama da usurpação da avenida Silves, para saudar o presidente Costa e Silva. Como se conhece, sua apelação não teve sucesso, seguiu com ele e os saracaenses para o túmulo.   

EM DEFESA DE UM TOPÔNIMO URBANO 
Há muitos anos a edilidade amazonense, inspirada por sentimento nativista e puramente glebário, decidiu denominar várias ruas e avenidas de nossa urbe com nomes de municípios amazonenses, numa homenagem das mais justas e plausíveis. Assim é que passaram a existir as ruas Urucará, Itacoatiara, Parintins, Manicoré, Borba, Barcelos, Humaitá, Waupés, Ipixuna, e as avenidas Tefé e Silves.Acontece que após a implantação do regime revolucionário, a partir de 31 de março de 1964, a mesma edilidade no ardente desejo de homenagear um dos Presidentes Revolucionários, no caso o presidente Costa e Silva, escolheu a Avenida Silves para ser sacrificada, para mudar-lhe o nome, substituindo-o pelo do presidente em referência, em verdadeiro holocausto à tradição toponímica urbana, para tristeza e menosprezo dos filhos de Silves aqui radicados.
Entendemos que o presidente que cedeu seu nome à toponímia urbana manauense mereceria, pela projeção do cargo que exercia, uma avenida de maior projeção, como p. ex. a Avenida do Contorno, mais ampla, mais abrangente. Mas a ideia da edilidade em sacrificar a Avenida Silves, não obstante haverem mudado as placas de denominação, nem por isso conseguiu superar a tradição, e tanto isto é certo que até hoje, decorridos já vários anos da mudança toponímica, os ônibus continuam a trafegar naquela artéria com placas indicativas do primitivo nome – Avenida Silves. Assim vemos: linha “Japiim-Silves”, e outras invocando-lhe a primitiva denominação.
Mas à época em que a edilidade resolveu denominar de Avenida Silves uma das artérias suburbanas de Manaus havia uma inspiração histórica: uma homenagem à tradição de um dos primeiros aglomerados humanos nas paragens amazônicas, que merece ser recordado.Ao retornar de Quito o audaz sertanista Pedro Teixeira traz consigo os primeiros mercedários, solicitados para a fundação de um convento em Belém. Dentre eles, frei Raimundo, da Ordem das Mercês, que em 1663 fundou a aldeia do Saracá, um dos primeiros núcleos da colonização portuguesa no Amazonas. Em 1759 governador de então, Joaquim Melo Póvoas, elevou a Missão do Sacará à categoria de Vila, alusitanando-lhe o nome para Silves.
Em 1853, com a execução do Código de Processo Criminal, tiraram-lhe a categoria de Vila reduzindo-a a simples freguesia. Mas na administração do Dr. Manoel Gomes Correa de Miranda, foi-lhe restituído o antigo topônimo – Silves – e reconduzida a povoação à categoria de Vila, pela Resolução nº 4, de 21 de outubro do 1852. Desde então Silves vem partilhando do processo político do Estado, tendo sido sua Câmara Municipal a primeira a movimentar-se em histórico memorial endereçado a D. João VI, solicitando a elevação da Capitania do Amazonas à categoria de Província, o que veio apressar a promulgação da Lei nº 592, de 5 de setembro de 1850, que concedeu a independência do Amazonas, terminando sua sujeição ao Pará.
Mas Silves há contribuído, também, para o progresso de Manaus, com a força de trabalho de seus filhos aqui radicados. Estão aí o advogado Perseverando Garcia, que exerceu, inclusive, o governo do Estado; o facultativo Dr. Manoel Antonio Garcia Gomes; o Dr. Agobar Garcia, destacado membro da Associação Comercial; o major Orlando Garcia, atualmente servindo na Portobrás, o ativo advogado Manuel Felipe de Leiros Garcia; as professoras Graziela e Euclídia Grana Ehm; o cronista social Raimundo Nonato Garcia Filho (Nogar); o médico Dr. Ivan Souza; o jornalista Bianor Garcia e tantos outros, no exercício das mais diversas profissões.
E os filhos de Silves, dos mais diversos clãs: Garcia, Almeida, Neves, Farias, Batista, Grana, Teixeira, Pena, Vilaça, conclamam os edis de Manaus e o seu ilustre Prefeito para que, num ato de justiça, restabeleçam o nome primitivo da atual Avenida Costa e Silva, transferindo o nome do ex-presidente para uma artéria urbana digna de nome presidencial.

sábado, junho 04, 2016

WALDIR GARCIA: HISTÓRIA

O texto aqui postado é de autoria do saudoso mestre da Escola Técnica Federal e juiz da Auditoria Militar do Estado, Waldir Garcia. Nascido em Silves (AM), registrou de sua cidade inúmeras histórias facetas. Esta é mais uma retirada de livro deste "saracaense".


NACIONALISMO À MODA SARACAENSE

A Missão do Saracá, núcleo de colonização portuguesa fundado no Amazonas por Frei Raimundo, da Ordem das Mercês, em 1663, foi palco do maior massacre indígena na América do Sul, tendo por algoz e principal executor o ferocíssimo Pedro da Costa Favela, que acompanhou Pedro Teixeira em sua memorável viagem de penetração até Quito. Ê o que nos revela a História.
A Missão do Saracá cedeu seu nome – graças a Joaquim de Melo e Póvoas, que criou vilas e alusitanou topônimos amazonenses – à atual cidade de Silves, onde ocorreram os fatos narrados a seguir.

É que a extinção das tribos dos Caboquenas, Bararurus e Guanavenas pelo famigerado genocida Pedro da Costa Favela, pela maneira desumana e cruel como foi feita, deixou mágoas perenes nos descendentes dessas tribos, a revolta interior transmitiu-se por herança, criando-se-lhes, enfim, cesuras incuráveis em seus sentimentos nativistas e telúricos.

No decorrer da segunda Guerra Mundial, os submarinos alemães e italianos, aliados fanáticos e que tinham Mussolini e Hitler a comandar as ações belicosas, afundaram vários navios nossos na costa atlântica brasileira, e, dentre eles, o Baipendy, do Loide Brasileiro, que costumava fazer a linha regular entre o Rio de Janeiro e Manaus. A notícia do afundamento do Baipendy revoltou Manaus: atearam fogo e saquearam casas de estrangeiros alemães e italianos, que se supunham mais chegados ao nazismo e ao fascismo, havendo verdadeira explosão de sentimento xenófobo.

A notícia de incêndios, saques e agressões a casas de alemães, italianos e japoneses chegou logo a Silves, onde, fazia anos, se estabelecera um italiano ainda moço, o comerciante Alberto Ianuzzi, que comprou de meu pai uma fazendola em frente à cidade: a Demanda. Ali Alberto fez progredir seu comércio, e era um tipo alegre, bonitão e conquistador pávulo das cunhantãs saracaenses. Vendia caro e praticava o escambo com sucesso, enriquecendo dia a dia. Por isso, os caboclos não o viam com bons olhos, porque: marupiara nos anos, estúrdio no comércio e soberbo nas reuniões sociais de que participava, era sempre o mais notado. Não gostava de vender fiado, e isso irritava ainda mais sua arisca freguesia.

A notícia da revolta ocorrida em Manaus contra alemães e italianos despertou, em Silves, nos descendentes dos Guanavenas, a hora da vingança. Vários elementos se reuniram e tramaram a ação de cunho nacionalista: Joaquim Turra e Bonrana, e outros mais, aliciaram companheiros para uma ação rápida e destruidora, verdadeiro golpe-de-mão recentemente aprendido em Manaus pelos últimos reservistas saracaenses egressos do 27º B.C.

Alberto foi avisado da trama preparada e prudentemente retirou-se para a casa de seu irmão Carlos Ianuzzi, residente no município de Itapiranga. Numa manhã de agosto de 1942, muito cedo, dezenas de montarias conduzindo os revoltosos armados de arpão, flechas, espingardas que funcionavam com espoletas "Pica-Pau" e rifles "papo amarelo", rumaram para a Demanda.

Em ali chegando, não encontraram Alberto e sua família e passaram à ação: mataram bois, carneiros, porcos, galinhas, fizeram churrascos, comeram. Beberam o estoque de cachaça "Jararaca" deixada na última viagem do Barão de Cametá. Saquearam o comércio e tocaram fogo na casa. Foi uma destruição total.

Chega a Manaus a notícia do saqueio e destruição da casa comercial de Alberto Ianuzzi. O Chefe de Polícia, Dr. Antônio Cavalcante de Oliveira Lima, credenciou o advogado Dr. Teves de Alencar Dias Pinto para investigar os fatos e instaurar inquérito policial. O advogado chega a Silves e inicia a investigação sumária. Vai indagando de um a um corno os fatos aconteceram, e depois de ouvir muitas evasivas, defronta-se com o caboclo Joaquim Turra, que lhe fez estas indicações.

Pergunta o advogado Teves: Quem foi que iniciou o ataque à casa do Sr. Alberto Ianuzzi e quem tomou parte nele? a que Turra responde: Sei que tomaram parte no ataque: o Sr. Tapiú e seus filhos Walter e Diquinho; o Sr. Benedito Mucuim; o Sr. Raimundo Macaco; o Sr. Manoel Boto e seu filho Tote Boto; o Sr. Bento Jabuti; o Sr. Manoel Socó; o Sr. Dico Jacaré; o Sr. Daniel Capivara e seu filho Zito Capivara; os filhos do Sr. André Guaríba; o Sr. Manoel Garça; o Sr. Armínio Onça; o Sr. José Pacu; o Sr. Manoel Suçuarana; o Sr. Joaquim Peixe-Boi; os netos do Sr. Chico Padre e outros.

E quem deu armas a essa gente toda, inquiriu o advogado-policial. Responde Joaquim Turra: Foi o Sr. João Rola...

Sabe-se que o advogado em missão policial, à míngua de maiores informes nominais para identificar os saqueadores, concluiu o inquérito sem poder indiciar os culpados em seus verdadeiros nomes, e o inquérito encaminhado à autoridade judiciária competente, por falta de base para a denúncia, foi arquivado, sem prejuízo do que dispõe o artigo 18 do Código de Processo Penal.

sábado, setembro 06, 2014

MISSÃO DO SACARÁ OU SILVES





Volto a explorar o livro do falecido mestre e jurista Waldir Garcia, que nos legou uma coletânea de histórias de sua cidade natal – Silves. Esta, transcrita abaixo, envolve um conhecido vigário da paróquia de Nossa Senhora da Conceição local. Padre Daniel Oliveira, além da atuação religiosa, exerceu o mandato de deputado provincial e outro mister não muito digno, segundo as palavras do saudoso silvense.


CHICO PADRE

Waldir Garcia

Igreja de Silves
A igreja de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Silves, guarda em seu corpo os restos mortais do Padre Daniel Marques d'Oliveira, pároco daquela cidade e que foi deputado estadual no Amazonas, em cuja atividade legislativa, segundo pesquisa publicada pelo inefável escritor Genesino Braga, foi autor da lei que concedeu os primeiros recursos financeiros para a construção da igreja de São Sebastião, desta Capital.
Acontece que o Padre Daniel não fora um sacerdote casto, até certo tempo, como foi o Padre Antonio de Morais, figura central do romance O Missionário, de Inglez de Sousa, o qual, afinal, apaixonara-se por Clarinha, vindo, finalmente, a fazer amor com ela "sobre o tapete de folhas úmidas do orvalho, douradas pelo sol", num cacaueiro aí na velha Mundurucânia. Ao contrário dele, Padre Daniel parecia-se
com o Padre José, que antecedera ao Padre Antonio de Morais, na mesma paróquia de Silves e que, segundo ainda Inglez de Sousa, “era um pândego que passava meses nos lagos, tocando violão e namorando as mulatas e as caboclas dos arredores...” 
Em que pese o grandioso trabalho missionário desempenhado por Padre Daniel à comunidade silvense, o certo é que prevaricou no cumprimento dos deveres sacerdotais, no que tange ao celibato e à castidade, por isso que deixou alguns filhos havidos com as caboclas saracaenses, dentre eles, Francisco Ferreira Neves, mais conhecido por Chico Padre, sobre quem iremos transmitir algumas estórias que, à moda folclórica, correm de boca em boca.
 
Chico Padre era comerciante, estabelecido no lugar denominado Conceição, situado num igarapé à margem direita do rio Urubu, atrás da cidade de Silves. Costumava regatear em todo o município, praticando o escambo, forma primitiva do comércio local: comprava castanha, pirarucu, couros e peles, madeiras, farinha, balatas, óleo de copaíba e de andiroba, breu, cacau, enfim, os produtos agrícolas ou os extraídos das matas, e os trocava por fazendas, cachaça, sabão, café, arroz, açúcar, querosene etc...

Seu regatão, puxado a faia, tinha tolda dupla: uma atrás e outra na frente. Na de trás estavam os armarinhos, as prateleiras sortidas e a cama de Chico Padre. Era um caboclo bem apessoado e metido a conquistador. Usava olho de boto.
 

Gostava que exaltassem suas aventuras amorosas, e isso muito o envaidecia e o tornava dócil e acessível mesmo aos fregueses mais recalcitrantes no pagamento de suas dívidas.

Havia em Silves, residente no bairro de Mucajatuba, um dos tipos mais estúrdios que ali pontificara: Angélico Neves, que atendia pelo apelido de Poronga. Inteligente, sagadíssimo, cordial e afável, sabendo que Chico Padre gostava que gabassem suas aventuras amorosas, aproveitava-se da fraqueza do comerciante para conquistar-lhe a simpatia, embora seu nome constasse da lista negra de Chico Padre, porque mau pagador.

Aos domingos o regatão de Chico Padre estacionava no porto de sua casa comercial, em Conceição. Desde cedo a freguesia começava a chegar para fazer compras e bebericar. As montarias se aproximavam, uma a uma, e o regatão ficava rodeado de canoas. Raimundo Tapiú era o caixeiro de Chico Padre, isto é, a pessoa que atendia a freguesia, enquanto Chico Padre embalava-se numa rede sob o toldo do regatão, refrescado pela brisa agreste que vinha das matas do Sanabani.
 
Vista aérea de Silves
A freguesia começava a contar estórias e a bebericar. No meio do regatão, sobre um banco largo de itaúba, um garrafão de cachaça estava disponível para atender aos fregueses em sua sede etílica.

Onze horas da manhã desponta, ao longe, uma canoa com um só tripulante, que se aproxima do regatão. Pelo tipo de remada cadenciada, Tapiú identificou o tripulante, dizendo:  "Seu Chico, lá vem o Poronga!" Chico Padre contrariou-se e disse logo: "Seu Tapiú, esse miserável não leva um tostão fiado! Veja bem, não se vende fiado ao Poronga! Ele não paga as contas, é um refinado caloteiro!"...

Aproxima-se a montaria. Era mesmo o Poronga, que amarra a canoa ao regatão e saúda os presentes: "Bom dia a todos!", a que os presentes respondem com alegria e um sorriso sarcástico nos lábios. Dirige-se ao Chico Padre e o saúda assim: "Bom dia, seu Padre!", a que Chico Padre responde com a cara fechada de mau humor: "Bom dia, seu Poronga!"

Poronga não se perturba. Puxa do bolso da calça uma moeda de um cruzado – que àquela época valia quatrocentos réis – e pede: "Seu Tapiú, dê-me duzentos réis de cachaça, um mata-bicho bem dosado!" Tapiú o atende prontamente, Poronga, num gesto de elegância, oferece aos presentes, que agradecem, e gentilmente vira-se para Chico Padre e lhe oferece a pinga também, e tem resposta negativa de aceitação. 

Depois de ingerir a bebida de um só trago, Poronga dá uma cuspalhada para dentro d'água, conserta a garganta e virando-se para o Chico Padre, que continuava a embalar-se na rede, e diz: "Ah! meus amigos, se aquela rede falasse certamente contaria as grandes aventuras amorosas do Padre. Quantas caboclas ele já amassado no fundo dessa rede ou sobre as tábuas do soalho! A fama do Padre vai longe, minha gente! Dizem que no paraná de Boa Esperança, na costa do Rebojão, na costa do Cucuiari e no paraná do Pai Tomás, em cada um desses lugares ele tem duas ou três fêmeas à espera dele. Basta o regatão dele buzinar, que elas já vêm para o barranco, esperá-lo!  É um felizardo! É o homem que tem mais cutubas nestas paragens!"...

Chico diz: "Deixa disso, Poronga, sabes que não sou tão marupiara para as garotas, não é?” Poronga continua: "É, pessoal, a continuar assim, daqui a alguns anos, em cada um desses pontos referidos vão construir uma capelinha para abrigar os filhos do Chico Padre!” Os fregueses riam a valer, enquanto Chico Padre ficava cada vez mais vaidoso e regozijado com os elogios que Poronga fazia de sua macheza.
Poronga pede mais duzentos réis de cachaça e Tapiú o serve. Ele oferece a Chico Padre, que aceita e bebe toda a tiquira. Chico Padre passa a contar, ele mesmo, as suas aventuras de amor e, dar a momentos, é o próprio Chico Padre quem oferece a bebida a Poronga. Bebem à farta, e lá pelas quatro da tarde, Chico Padre já está meio bêbado, eufórico, palrador, coração mole, do que se aproveita Poronga para dar o golpe fatal, dizendo: "Seu Padre, quero fazer um ranchinho para a família, posso?" Chico Padre ordena: "Seu Tapiú, atende o Poronga no que ele quiser!"
Poronga faz a lista das mercadorias de que precisa: sabão, cachaça, arroz, querosene, tabaco, papelinho zig-zag, tauari, isqueiro de rabo, anzóis ingleses, linha para arpoeira, dois pares de tamanco, duas redes, uma saca de sal, um alqueire de farinha. Coloca tudo na Cornicha, sua canoa, e cobre a mercadoria com um japá.

Poronga bebe mais alguns goles e se despede dos presentes, especialmente de Chico Padre: "Bem, seu Padre, até o próximo domingo. Deus o proteja, conserve e guarde!" Chico Padre diz: "Amém!", e já embriagado, volta à rede a delirar, vivendo as emoções amorosas postas em destaque por Poronga e fazendo planos para novas aventuras, enquanto Poronga, distanciando-se do regatão, deixa mais um fiado a fundo perdido, no alegre regatão do Chico Padre.

terça-feira, maio 13, 2014

NOVO RETORNO


Faculdade de Direito do Amazonas
Sem muitas promessas. Depois de novas broncas, pedidos e sugestões, retomei o Blog. Recomeço com um texto do saudoso escritor Waldir Garcia, que tudo sabia sobre o município de Silves (AM), onde nasceu.
No presente texto, Garcia relata a caminhada do finado advogado Perseverando da Trindade Garcia, que ainda hoje deve desfrutar de um recorde: completou a Faculdade de Direito do Amazonas, então na Praça dos Remédios, aos 70 anos.
Tive um prazer redobrado, pois fui contemporâneo do Perseverando naquele período. De fato, devido a idade, ele representava esse desejo de conquistar um troféu. Não se intimidava com os mais jovens e indagava aos mestres com aquele linguajar característico do interiorano amazonense. Outro colega, Mael Sá, sabia imitá-lo à perfeição.

 
Perseverante e Perseverando (*)

Uma das personalidades mais destacadas da família Garcia é, sem dúvida, o cidadão Perseverando da Trindade Garcia. Nascido em 10 de janeiro de 1903, na então Vila de Silves, filho do cidadão Raimundo Nonato
Garcia e de Dê Margarida Farias de Almeida Garcia, ambos amazonenses e já falecidos. Perseverando é
, na sua família, o exemplo típico do cidadão perseverante, firme, constante nos seus ideais, fazendo jus, assim, ao nome que acertadamente lhe foi dado por seu saudoso genitor.

Estudou o ABC com o professor Francisco Assis e Silva, um paraibano inteligente e culto, padrasto do desembargador Zózimo Severino de Leiros, que tinha, em Silves, no principio do século, uma escola particular, frequentada, dentre outros alunos, pelos silvenses Alcebíades de Leiros, AImerinda Garcia, Josefa Garcia, Francisco Afonso, Otílio Garcia e Zoroastro de Leiros.

Em 1913, Perseverando passou a frequentar a Escola Mista de sua terra natal, regida pela professora Zolima Marques Garcia, e a partir de 1914, matriculou-se na Escola Pública de Silves, regida pelo professor João Pedro Garcia, sob cuja orientação terminou seus estudos primários.

Concluindo o curso primário em 1919, foi nomeado interinamente para exercer o cargo de secretário da superintendência Municipal, no qual permaneceu até 1929, servindo, assim, a sucessivas administrações.
Em 1922 foi nomeado, também interinamente, agente do Correio, em cujo cargo conservou-se até 1935, após nele se ter efetivado. Com a transferência da sede municipal para a Vila de Itapiranga, em 1931, passou a exercer o cargo nesta localidade, onde contraiu núpcias com a prendada senhorinha Tereza Panza, de cujo consórcio houve 10 (dez) filhos: América do Sul, Auri, Maria da Graça, Maria Margarida, Álvaro, Lázaro Nazaré, Paulo José, Marcílio Dias e Perseverando da Trindade Garcia Filho, além de Aderbal.
 
Em 1935 candidatou-se ao cargo de prefeito, pelo antigo Partido Popular Amazonense, liderado por Álvaro Maia, tendo sido eleito por expressiva votação, assumindo o novo cargo em 1 º de fevereiro do ano seguinte. Com o golpe de Estado de 10 de novembro de 1937, foi mantido no cargo, do qual foi afastado em 1945, para voltar em 1946 e ser novamente afastado em 1947.

Em 1951 foi convocado para a Assembleia Legislativa, suplente de deputado que era, eleito pela legenda do Partido Social Democrático, no pleito de 1950. Em 1954 foi eleito vice-presidente da Assembleia Legislativa, e como tal assumiu duas vezes o governo do Estado, em virtude de impedimento do presidente, sendo a primeira vez eventualmente, em dezembro daquele ano, e a segunda, em caráter permanente, com a renúncia do Governador Paulo de Grana Marinho, em janeiro de 1955, tendo, inclusive, transferido o governo ao eleito Plínio Ramos Coelho.

Durante sua estada no interior do Estado, foi diretor do jornal O Alfinete, editado em Silves e de propriedade do jornalista Antônio Duarte Beltrão. Como Solicitador, apaixonado que sempre foi pelo Direito, advogou nos termos de Urucará, Urucurituba, Silves e Itapiranga.

Foi desportista, fundador do Saracá Futebol Clube, de sua terra natal. Quando moço, foi o "almofadinha” de sua terra, tal a elegância e o aprumo do trajar.

Sua grande meta era bacharelar-se em Direito. Perseverou, e muito, para alcançar' o seu grande ideal. Resolveu fixar residência em Manaus, e aqui, em 1969, termina o Curso de Madureza, feito no Colégio Estadual do Amazonas, e logo após matricula-se na 1ª série da Faculdade de Direito da Universidade do Amazonas, onde se graduou em Direito, em 1973, aos 70 anos de idade, como o mais idoso dos formandos de sua turma. Presentemente é advogado militante, inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Amazonas sob nº 692.

Perseverando perseverou tanto, que medrou graças à sua perseverante atividade, várias posições: secretário da Superintendência Municipal, agente do correio, prefeito municipal, deputado estadual, governador do Estado, advogado.

É este cidadão simples, modesto, perseverante, que atende pelo nome de Perseverando da Trindade Garcia, que completa 80 (oitenta) anos de idade no dia 10 do mês fluente, sob o calor da amizade de sua esposa e filhos e os aplausos carinhosos de seus parentes e admiradores.
 
(*) Extraído do livro À Sombra dos Igapós, publicado por Waldir Garcia, em 1987. Por isso, não sei indicar a data do falecimento de Perseverando Garcia.