CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

9 de março de 2013

NAVEGANDO PELO RIO SOLIMÕES, DE CAIAQUE


Coronel Hiram Reis

Para homenagear ao chefe da expedição pelo rio Juruá, coronel da reserva do Exército Hiram Reis, reproduzo dele sua penúltima postagem, que narra a etapa vencida entre as cidades de Codajás e Anamã, no rio Solimões.

Com chegada marcada para a tarde deste domingo, 10 de março, a expedição encerra seus trabalhos de campo. É preciso destacar que este trabalho foi realizado em embarcação exótica para a dimensão de nossos rios, de caiaque, cobrindo vasta extensão do rio Juruá e parte do rio Solimões. Trabalho extenuante, que somente a dedicação e o empenho e a brasilidade de Hiram Reis e seus parceiros de luta poderiam vencer.

Selva, camaradas, até o próximo desafio.


Codajás – Anamã (*) 


Ao passar pela Boca do Purus, minha memória, madrugando no passado, recolheu, no arquivo ancestral, a imagem de dois ícones de nossa história, em outubro de 1905, navegando no vapor Rio Branco, singrando este mesmo rio tendo como destino Manaus. José Plácido de Castro tinha comandado o vitorioso Movimento Revolucionário Acreano, que resultou na incorporação das terras “ditas” bolivianas ao Brasil.
Euclides da Cunha chefiara a Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, cuja missão era mapear o rio Purus desde a foz, no Solimões, até suas cabeceiras, definindo as fronteiras do país com a Bolívia e o Peru.
Novamente os cordiais Policiais Militares nos apoiaram na hora da partida. Quando chegamos ao flutuante do “Pisca”, ele já estava a postos para que pudéssemos carregar na lancha “Mirandinha”, o material que ficara sob seus cuidados.
Eu havia visitado Codajás, pela primeira vez em janeiro de 2009, na minha descida pelo Solimões. Deixamos para trás mais uma amazônica cidade que regrediu consideravelmente nos serviços prestados à comunidade, apresentando uma triste realidade que parece ser a tônica das cidades do rio Solimões pelas quais passamos, ao contrário do que observamos no Juruá.  

Partida para Anamã (05.03.2013)
Deixamos o cabo Mário para trás arrumando os badulaques na lancha Mirandinha e iniciamos nossa jornada. A noite emprestava à paisagem um toque de magia e mistério, eu me orientava pela claridade da cidade que ainda dormitava preguiçosamente e pelas luzes das embarcações que desciam placidamente o formidável rio. Os primeiros raios solares só surgiram no horizonte, depois de termos remado hora e meia, matizando as diáfanas nuvens.
Ao raiar do dia cruzamos por uma embarcação da Marinha do Brasil, a P20, que realizava manobras na área. O dia transcorreu sem grandes alterações, o calor era insuportável e foi necessário reabastecer nossos cantis por três vezes. Antes de entrarmos em um furo que conduzia à cidade de Anamã, solicitei ao Mário que fizesse algumas tomadas da Boca do lendário rio Purus. Como em 2009, cruzamos pelas enormes alfaces d’água (pistia stratiotes) de mais de 50 cm de diâmetro, do Purus.
O Furo, indicado ao Mário por um ribeirinho, diminuía consideravelmente a distância até Anamã e por ele enveredamos. As águas do Solimões penetravam velozmente pelo furo e chegando ao lago já tinham empurrado as águas negras mais para o interior tingindo-o totalmente com suas águas leitosas. Depois de remarmos uns dez minutos, avistamos a cidade das originais e multicoloridas casas de madeira, ao fundo, e picamos a voga para atingi-la.
Fomos direto para o Porto de Anamã, que por sinal encontra-se em péssimo estado de conservação. Guardamos nossos materiais em um flutuante da Prefeitura, sob custódia do Vovô, e contatamos o cabo PM Evandro Carreira, já orientado pelo seu comandante, Major PM Michel, que nos levou até o hotel e às dezenove horas até o restaurante do Soldado, que a Prefeitura havia-nos igualmente franqueado. 

Anamã e a Enchente de 2012
Para saber mais, consulte

 A maior enchente em mais de cem anos castigou uma das mais belas cidades do Amazonas. A alagação colocou o município de Anamã em situação de emergência, já que 100% das ruas da cidade estavam debaixo d’água e mais de 800 casas tinham sido inundadas, sendo que mais da metade delas precisou utilizar do recurso do assoalho levantado.
A maioria das casas de Anamã é de madeira e sua arquitetura requintada, riqueza de detalhes e pinturas vivas chamam a atenção de quem a visita. Os marceneiros locais são muito hábeis e os acabamentos são originais raramente repetidos em outra construção. A marca das águas nas paredes das residências não deixa dúvidas do estado de calamidade que assolou a pequena Anamã. Verificamos muitas obras sendo executadas e esperamos que o pico da cheia que se avizinha não venha a causar mais transtorno aos moradores. 

O lendário rio Purus
Pelo Purus havia passado alguns desbravadores em busca do conhecimento e da fortuna, muitos em busca da simples sobrevivência, idealistas buscando estender nossas fronteiras pela força do direito, e guerreiros tentando fazê-lo pelo direito da força. O Purus não é apenas um rio, mas um protagonista que, junto com homens de valor, gravou belas páginas na história da nossa nação.
Homens que enfrentaram o desconhecido, que subjugaram a mata, que a analisaram, estudaram, mas, também homens que tiveram suas vidas arrebatadas pela força da natureza e cujos destinos foram manipulados inexoravelmente pelas titânicas energias telúricas.
O Purus merece nosso respeito pelo que foi, pelo que é e pelas contraditórias passagens levadas a efeito na sua calha. Um rio patriota, que guarda nas suas águas as imagens imaculadas de um Plácido de Castro e de um Euclides da Cunha. Um rio de ambição e sem consciência, que reflete as carrancas dos ambiciosos seringalistas que escravizaram os seringueiros nordestinos e suas famílias.
O Purus pré-histórico é tudo isso e muito mais. Nas suas calhas, foram descobertos os restos de gigantescos animais, como o “Purusaurus brasiliensis” de 15 a 20 metros de comprimento, que dominava as águas no lago Pebas. O purusaurus viveu de 5 a 6 milhões de anos atrás e provavelmente foi o maior dos crocodilianos gigantes extintos.
Nosso preito de respeito a esta artéria viva da nacionalidade brasileira que reflete, nas suas águas, a pujança de uma raça do porvir, alicerçada no invulgar passado, mas com os corações e mentes voltados para o futuro.

Encerramento dos trabalhos de campo da Expedição GBM
Convidamos aos amigos que acompanharam fielmente nossa jornada cívica a comemorar nossa chegada às 15 horas, de 10 de março de 2013, no porto do Centro de Embarcações do Comando Militar da Amazônia. Participe e\ou convide seus amigos a fazer parte da escolta fluvial no Rio Negro ou do congraçamento nas instalações do CECMA. 

(*) Hiram Reis e Silva, Manacapuru (AM), 07 de março de 2013