CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

17 de abril de 2012

Aziz Ab’Sáber (1924-2012) final

Último capítulo sobre o desenvolvimento de Manaus, publicado no Correio do Norte (quinzenário mantido pelo casal Anísio e Lindalva Mello, em São Paulo), circulado no 2ª quinzena de outubro de 1959.

Paisagem urbana de Manaus

Professor AZIZ NACIB AB'SÁBER
(da Escola de Jornalismo Cásper Libero)

O coração urbano da capital do Amazonas apresenta-nos um aspecto muito singelo, denotando traços de paisagem arquitetônica peculiares a quase todas as capitais brasileiras do Norte e Nordeste. De fato, a parte central de Manaus mostra-nos a herança arquitetônica, pouco transformada, resultante da fase de crescimento vivido pela cidade nos primeiros anos do século atual. Apenas alguns raros edifícios isolados, do era dos arranha-us, eso rompendo a paisagem extremamente homogênea do casario maciço e raso de Manaus. E' assim que o edifício do IAPTEC e o Hotel Amazonas, com suas linhas ultramodernas, contrastam com a fisionomia precocemente envelhecida do grande entreposto da Amazônia Ocidental.

A praça Osvaldo Cruz, que asila a velha e grandalhona Catedral de Manaus situa-se irregularmente entre a zona portuária e a encosta das colinas que formam a zona comercial da cidade. O fundo da velha praça, que outrora dava para o rio, é barrado pela existência dos edifícios da Alfândega e do Porto.
Ruas laterais o acesso, de um lado, aos armazéns do cais e, de outro, ao grande Mercado Municipal de beira-rio. Antigamente, entre o sítio da Alfândega e a zona do mercado existia a embocadura de um pequeno igarapé, o qual foi inteiramente soterrado e incorporado ao sítio urbano da poão central da cidade.

Mercado Público, hoje denominado de Adolpho Lisboa, em
restauração há quase uma década
Com as dificuldades de obtenção de energia elétrica e a supressão dos serviços de bondes elétricos, a praça Osvaldo Cruz tornou-se o centro de irradiação das inúmeras linhas de ônibus que servem a cidade. O nome do grande médico brasileiro foi dado ao logradouro central de Manaus, em tributo à memória do higienista cujos planos de saneamento alcançaram até mesmo a longínqua capital do estado do Amazonas.

Nas ruas transversais e paralelas à praça Osvaldo Cruz, concentram-se os grandes e velhos edifícios comerciais da cidade. Ali, espremidos apenas em um dos lados da praça irregular, encontram-se os bancos, o Correio, a Associação Comercial, as lojas e armazéns das grandes firmas importadoras e exportadoras., além de um bom número de edifícios administrativos. As poucas avenidas mais largas que foram rasgadas nos princípios do século, saem da praça Osvaldo Cruz e demandam os níveis mais elevados das colinas, contendo residências finas, clubes e edifícios públicos.

E' de se notar que não variou muito a paisagem da porção central de Manaus, desde o começo do século até nossos dias. Tanto as fotografias antigas quanto as descrições de viajantes que por lá
passaram há trinta ou quarenta anos atestam essa auncia de transformações recentes, dignas de maior nota.

Paul Walle, que visitou a cidade em 1908, encontrou-a, aparentemente, muito parecida com aquela que visitamos em 1953. Foi com as seguintes palavras que o minucioso viajante retratou a capital do Estado:  De cette place, partent des rues larqes, flanquées de chaque côd'édifices madernes, de maisons de commerce exhibant tout les produits de l'art et de l'industrie mondiale. Les édifices publics attestent la richesse et l'état de progrés de la maissante métropole amazonienne. Le théâtre est un monument vraiment somptueux; c'est de tous les édifices celui qui attire le plus l'attention du voyageur par son architecture imposante et d'un ensemble hereux. Erigé sur une elevation, il domine la ville avec sa coupale aux coleurs vives.
Hotel Amazonas, inaugurado em 1951, hoje
transformado em Condomínio Ajuricaba
Salvo os dois grandes edifícios modernos, a que já aludimos, o centro de Manaus ainda é o mesmo que foi descrito pelo geógrafo Paul Walle.
Restou-nos a tarefa de descrever algumas paisagens urbanas de Manaus que ainda não mereceram uma divulgação suficiente. Nesse sentido, lembramo-nos logo do cais do mercado, que pela sua paisagem e movimentação é capaz de construir um quadro visual indelével para as que visitam Manaus. Já conhecíamos a rampa do Mercado de Salvador, com seus saveiros atopetados de mercadorias; já tínhamos tomado contato com o cais das barcaças do Ver-o-Peso,
cujas vig
ilengas multicolores mereceram a atenção de Antônio Rocha Penteado; entretanto, nada de semelhante em rusticidade e variedade de aspecto, pudemos encontrar que fosse comparável ao cais do Mercado de Manaus no rio Negro.

Atrás do mercado, em plena área das praias de estiagem, situa-se o desarranjado e formigante cais das barcas, barcaças e canoas que abastecem o entreposto. Durante a vazante, a rampa se alarga, enquanto durante as cheias o nível das águas, levado de 5 a 6m, em média, encontra-se no alto paredão dos fundos do mercado, atingindo as duas rampas laterais pavimentadas que dão acesso à rua comercial da frente do edifício.
Feira junto ao Mercado Público, descrita pelo autor, hoje
desaparecida
Através de curiosos fenômenos de convergência repetem-se, ali, fatos, cenas e paisagens peculiares a muitas cidades fluviais situadas em terras da longínqua China ou da Índia, conforme uma observação feliz que nos foi feita pelo professor Wladimir Besnord.
Uma nota desagradável e relativamente de exceção em face das boas condições higiênicas gerais da cidade de Manaus é o acúmulo de lixo atrás do Mercado. Durante a vazante, cascos de tartaruga gigantes, bagaço de cana e cascas de frutas são jogadas sem maiores cuidados na praia de estiagem.

Espera-se que o rio suba de nível para arrastar os resíduos acumulados, o que positivamente é um fato absurdo. Daí a ronda calma e constante dos urubus na zona do Mercado e adjacências. Impõem-se vencer tais irregularidades de exceção, assim como outros detalhes importantes, a fim de dar continuidade a um saneamento planificado da grande cidade equatorial brasileira.
Tanto as grandes inundações como as vazantes extremadas acarretam problemas ao homem das zonas ribeirinhas, exigindo soluções especiais dos que são responsáveis pelas coisas públicas.

Nota da Redação
Ao encerrarmos o importante trabalho sobre a cidade de Manaus, cuja publicação foi uma honrosa cooperação do ilustre professor Aziz Nacib Ab'Sáber, a quem agradecemos em nome dos cinco mil leitores do CORREIO DO NORTE e do nosso, particularmente.
Autorizados pelo autor, queremos chamar a atenção daqueles que nos leem, que a referida obra foi escrita em 1953. Nos últimos anos, a cidade de Manaus passou por grande modificação urbanística, e, podemos hoje compará-la às cidades mais modernas e mais prósperas do Brasil. Em apenas cinco anos Manaus progrediu mais do que em seus últimos 20 anos, pois, além dos seus produtos conhecidos como a borracha, castanha, juta e outros, terem alcançado bom preço, surgiu o petróleo, como autêntico valor econômico-industrial, cuja refinaria é uma afirmativa do progresso presente, a garantir um futuro promissor à Amazônia.