CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

Mostrando postagens com marcador Cine Guarany. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cine Guarany. Mostrar todas as postagens

sábado, junho 27, 2026

TEMPO DO JUIZADO DE MENORES

 No tempo dos agentes do Juizado de Menores nos cinemas de Manaus havia ação. A notícia que vai postada, narra uma decisão do magistrado prestigiando os funcionários do setor. Em nossos dias, sem cinemas públicos, não há fiscalização, nem gerente na Penitenciária.

Recorte do jornal A Crítica,
de 24 abril 1979 


Manchete da notícia

Por crime de desacato à autoridade, impossibilitando a ação de vigilantes de menores nas sessões cinematográficas, o gerente Israel de Souza, do Cine Guarany, foi recolhido à Penitenciária Central do Estado, por determinação do Juiz da Vara da Família, Roberto Hermidas de Aragão.

Segundo consta no relatório apresentado pelo comissário Levy Marinho, o gerente do “Guarany” não cumpriu as determinações das autoridades que noturnamente procedem sindicâncias nas casas de cinema, evitando a permanência de menores em sessões impróprias pela Censura Federal.

Ocorre que o responsável pela casa de diversão agiu de maneira brusca, dirigindo palavras ofensivas às autoridades da Vara da Família, dizendo que nem mesmo com a intervenção do Juiz Aragão, a polícia ali procedia batidas justamente no horário de meia-noite de sábado passado. O comissário Levy Marinho, o vigilante de menores Alfredo Belém Sobrinho e outras autoridades não apelaram à violência, atendendo o regulamento da Vara da Família. Simplesmente arrolaram testemunhas da ação do gerente do Cinema, cujo fato foi levado ao conhecimento do magistrado, que na manhã de ontem expediu o mandado de prisão de Israel, causando surpresa geral.

O comissário Levy Marinho e o vigilante Alfredo Belém Sobrinho, declararam que receberam ordens para impor maior vigilância nas casas noturnas onde a permanência de menores é frequente. Geralmente nas sessões de meia-noite, os vigilantes já encontraram menores até na faixa de 10 anos. Devido o constante caso de rapto, desaparecimentos e investidas dos “pivetes” e “trombadinhas”, o juiz Roberto Hermidas de Aragão determinou que os infratores não escaparão de punição, não havendo nem mesmo a primeira chance.

O gerente do Cine Guarany, foi o primeiro a sofrer punição. Segundo consta no relato das autoridades, Israel, com arrogância, percebendo a permanência de menores na sessão de meia-noite, impossibilitou a entrada dos policiais naquela casa de diversão, chegando a ameaça-las de agressão física.

segunda-feira, abril 28, 2025

PAVILHÃO SÃO JORGE (1951-1976)

 Em 22 de novembro de 1950, o prefeito de Manaus, Chaves Ribeiro, concedeu a José de Brito Pina, cidadão português, uma área de terra situada na então praça Gonçalves Dias (hoje integrante da praça Heliodoro Balbi), destinada à construção de um estabelecimento comercial. Nela, Pina construiu o Pavilhão São Jorge, destinado à venda de café e outros petiscos regionais, que foi inaugurado em maio de 1951.
O sobrenome do proprietário impôs ao comércio o epíteto ainda hoje manifesto: Café do Pina. Era bem frequentado, pois localizado em frente ao Cine Guarany e fronteiriço ao quartel da Polícia Militar e ao Colégio Estadual do Amazonas. Desse modo, conhecia uma variada freguesia diurna e noturna.

Devido a convivência com os membros do Clube da Madrugada foi crismado com outro cognome: República do Pina. Enfim, restou gravada a maneira como “seu” Pina saudava indistintamente os frequentadores: Alô, jovem!

Quando do falecimento do Pina, em agosto de 1982, o saudoso poeta, ator e mestre Farias de Carvalho o homenageou com esta publicação em A Crítica (18 ago.1982).  


Não fui, amado Irmão Pina, não fui ver teu corpo sendo devolvido ao ventre escuro da terra. Faltou-me coragem. Eu, que não acredito na morte; que tenho consciência da nossa condição de simples inquilinos dessa estalagem de engodos a que chamamos de mundo; que estou absolutamente convicto da verdade da vida espiritual, ou, amado irmão Pina, fraquejei. Diante da notícia arrasadora, que a mim me foi dada nas latitudes da tua República, da nossa República, eu me decidi a ir te ver, a ir correndo beijar o teu rosto gelado, as tuas mãos inertes, cruzadas sobre o teu peito como um pássaro de asas recolhidas, subitamente despencadas do azul. Mas não pude, amado irmão Pina. Minha mente recusou-se a aceitar a brutalidade daquela imagem.

Por isso, amado irmão Pina, fechei os olhos molhados, queimados pelo sal do meu pranto e rebusquei, nos desvãos da memória, uma outra imagem tua. Viva. Radiosamente viva, riscando as pautas da brisa com os acordes do teu riso, inventando sinfonias na epiderme da manhã.

ALÔ, JOVEM!

E os homens iam chegando. Dos muitos caminhos da vida, traziam sonhos e mágoas, angústias e ilusões, amarguras e alegrias, fé e decepções. E na República, ancoravam os seus veleiros diversos, para um momento de fuga do velejar tresloucado. Fundeavam na República e no teu riso também. Estudantes, poetas, vagabundos, funcionários, operários, boêmios retardatários, patrões sisudos, donzelas, prostitutas amarelas, meninos desassistidos, engraxates indormidos, paravam todos, irmão, para o banho de amplidão, o banho azul na cascata que nascia em teu sorriso e tinha gosto de paz, e dava aquela vontade de ali ficar ancorado, e não erguer bujarronas, não velejar nunca mais.

Ah! A República! Com a beleza da sua Constituição de três artigos:

ARTIGO PRIMEIRO: A república do Pina é um Estado Imaterial e inconsútil, e existe além do tempo, urdida no coração dos que não esqueceram os fundamentos essenciais do amor.

ARTIGO SEGUNDO: São seus cidadãos todos aqueles que têm a capacidade de transportá-la dentro da alma, para recriá-la numa esquina qualquer da vida, num estilhaço de estrela, num albergue construído de saudade ou numa gota de sol brincando de arabescos na calçada.

ARTIGO TERCEIRO: Fica dito que esta lei não tem calendário para entrar em vigor, pois que em vigor sempre esteve gravada nas tranças de ouro das auroras e no suspiro violeta dos ocasos. 

Essa, amado irmão Pina, a República. Tua, nossa, do eterno. A República, da qual és o Presidente vitalício, agora afastado, para tratar, na embaixada do etéreo, com a diplomacia do afeto, da viagem de cada um de nós, teus concidadãos, aos quais receberás um dia, iluminando a chegada com claridade do teu riso, para o cafezinho do reencontro, na República, a outra, que já começaste a erguer, numa nesga qualquer do céu.

Até lá, meu Irmão. Até lá, Presidente. Alô, Jovem!


domingo, agosto 18, 2024

DOIS POETAS AMAZONENSES

 Na sequência: i) a capa do livro de poesia de Farias de Carvalho (1930- 1997) - PÁSSARO DE CINZA (Manaus, 1957); ii) o oferecimento inserido no exemplar de Farias para Mário Ypiranga (1909-2004), folclorista e, em tempo oportuno, poeta; e iii) a consideração pouco lisonjeira de Ypiranga expressa em página do livro sobre o autor.

Livro publicado em Manaus, em 1957

Oferecimento do autor para "meu irmão querido"
Mário Y. Monteiro

Comentário de Mário Ypiranga: "Esse Farias é vigarista
até nas mensagens. Acaba pedindo uma entrada de
favor no Céu, como pedia ao Vasco Farias, no cinema."

 

sábado, maio 25, 2024

VOVÔ VASCO (1892-1969)

Vasco Faria
 Seu nome era Vasco José de Farias (1892-1969), nascido em Portugal e morto em Manaus. Marcou sua existência nesta cidade como sócio da Empresa A. Bernardino, cuidando com esmero do cinema Guarani, motivo pelo
qual, devido sua devoção e acolhimento ao público, recebeu a dadivosa alcunha de
Vovô Vasco. Quando de seu falecimento, um dos admiradores publicou em A Crítica (23 ago. 1969) a crônica aqui postada.

Do matutino A Crítica, Manaus, 23 ago. 1969

A respeito deste boníssimo lusitano, celebrado em seu profundo amor às crianças, em nosso Estado desde os treze anos de idade, ninguém diz novidade. E não porque, neste instante em que lhe deploramos o trespasse, aos setenta e sete anos bem vividos nesta Cidade de trezentos janeiros, que fez sua pelo coração, seu nome excede-se em repercussão e fixa-se nesta exata expressão de beleza, de título, de distinção e agradecimento de sucessivas gerações: VOVÔ VASCO. Reconhecê-lo, aclamá-lo assim numa apoteose de vulgarização citadina, expansiva, franca, é já de si realce, esplendor. Como bem se vê e entende, é criar em torno de sua vida, sem improvisação, sem falsas aparências, uma demonstração de louvores e agradecimentos. É dar-lhe espaço, horizonte na forma belíssima, acessível de nossa clarividência, de nossa ação, de nossa estima em tê-lo feito, através de nossos vereadores, CIDADÃO DE MANAUS.

VASCO FARIA teve uma vida de bondade monumental. Não chegou a ser rico, abastado. Não morava em palácio confortável. Trabalhou, fez-se presente ao seu querido Cinema Guarani, com aquela conhecida pontualidade, até ser atingido pela brutal doença que o levou, para sempre, de nosso convívio: da companhia de devotados amigos de longos anos como Alísio Chaves Ribeiro, os irmãos Cardoso da Editora Sérgio Cardoso, e os companheiro afeiçoados da empresa A. Bernardino & Cia. Ltda.

Da meninice à plena mocidade e desta à idade respeitável pela vetustez, nesta Terra outrora aceita como das patacas, não aprendeu a criar riqueza; ser, por exemplo, dono de grande casa comercial. Não, não aprendeu isso, é fato. Mas, sem dúvida, aprendeu a criar roteiros audiovisuais de fitas vistosas, ilustrativas, harmoniosas e de bom gosto para as crianças. Era um empolgado nesse cuidado de saber associar o mais arrebatador ao mais florido de boas ações nos filmes cinematográficos que oferecia aos frequentadores mirins do Guarani. Era, nessa soberbia de espírito, de argumentos revestidos de fatos educativos, um entendido de bons programas. Não foi homem despido do alto conhecimento das telas e das estátuas. Deu-nos, a ver, algumas vazes de rápida conversa, que, em sua bela e acessível humanização, soube abrir portas e janelas, respirar ao sol e dar-se na admiração de amplos espaços e horizontes. (...)

Soube viver, confundir-se, completar-se naqueles anos belíssimos de uma época faustosa. Manaus do seu tempo de mocidade, de seu mundo real e irreal em harmonia, misturado, conheceu-o, aplaudiu-o, gritou-lhe o nome, viveu com ele os quadros pomposos, risonhos, felizes de suas grandes alegrias. Foi um venturoso nessa satisfação que voa através das ótimas camaradagens de longos anos e de tantas coisas. Camaradagem que não se isola entre os espadachins românticos da sua fase cintilante. Que é história, lembrança de entusiasmos, de fatos agradáveis em encontros fortuitos de aniversários, de ruas e logradouros públicos. (...)

Já agora, nestes três últimos anos de sua vida, quando íamos ao Cinema Guarani, ao avistar-nos, fazia-nos o indefectível sinal. Parávamos. Conversávamos. Levantava-se, ia ao seu escritório e quando voltava passava-nos às mãos: jornais, revistas, boletins informativos e notícias de Portugal. Com o seu desaparecimento perco o boníssimo amigo e as ótimas e ilustrativas publicações que mas [a mim as] dava de sua extremosa Pátria do outro lado do Atlântico.

Congratulamo-nos, mais uma vez, com o fulgurante poeta Farias de Carvalho pelo belíssimo e carinhoso soneto [O Vasco do Guarani] que lhe ofereceu no magnifico PÁSSARO DE CINZA. Igualmente com os clarividentes e ilustres vereadores da Câmara Municipal de Manaus, e com o Sr. Prefeito [Paulo Pinto Nery], em face da adesão calorosa, pelo justo e digno título com que lhe homenagearam os méritos e lhe alegraram de boas recordações a alma e o coração. (...)

sábado, outubro 18, 2014

CINEMAS DE MANAUS




Cine Guarany
O cruzamento da avenida Sete de Setembro com a Getúlio Vargas ficou marcado pelo funcionamento de dois cinemas: Politheama (onde funciona uma das Lojas Americanas) e Guarany (local de uma agência do banco Itau). 

A segunda sala era mais disputada, mais benquista, por vários motivos. Creio que o mais denso era o atendimento proporcionado por seu “gerente”, conhecido por vovô Vasco.

Esse sentimento ainda se percebe em comentários pessoais e publicações jornalísticas. Todos recriminam não o apagamento da sala de projeção, mas a demolição implacável do edifício, trocado por um caixote feioso, enfeando ainda mais o local.

Recorto um texto do poeta Farias de Carvalho, de sua coluna Janela de Mundo, no jornal A Notícia, no qual relembrou um dia de aniversário do Guarany.
(O poeta e os cinemas e o matutino aqui nominados já pertencem à nossa melhor lembrança.)


JANELA DE MUNDO (*)


Farias Carvalho
Dia seis [de agosto] transcorreu mais um aniversário de fundação do Cine Guarany. Pela manhã, ainda bem cedo, fazendo a minha costumeira visita à República Livre do Pina, andei dando uns mergulhos dentro de mim
mesmo, nos desvãos do meu mundo interior, nos labirintos da memória, rebuscando fatos e coisas do passado, numa viagem impregnada de lembranças e de saudades.
Aniversário do GUARANY! a meninada acordava em festa, com a moeda de um mil-réis balançando no bolso, fortuna que chegava para a compra do ingresso e sobrava ainda para um copo duplo de refresco acompanhado de um imenso mata-fome.

Desde às primeiras horas da manhã, começavam a se formar as filas enormes, com os guardas de trânsito postados à porta do cinema, em uniforme de gala, o alto-falante voltado para a rua, a todo volume, como um convite musical, chamando a todos para a grande festa popular, em que se realizavam sorteios, ofereciam-se brindes, tudo antes que, na tela, lotadas a plateia e a galeria, Tom Mix ou Buck Jones começassem a cavalgar os seus corcéis fogosos, perseguindo maus encarados, sob a gritaria terrível da meninada, que ficava atirando aviões de papel, caixinhas de chicletes, quase levando a loucura o pobre do Domingos, velho funcionário que fechava as portas laterais e ficava a andar como uma barata tonta, na tentativa de acalmar a fúria dos meninos endiabrados.

Mas, acima de tudo isso, pairando sobre a confusão da inquietação da garotada, agigantava-se a figura do velho Vasco, o querido Vovô da meninada inteira, com os seus cabelos da cor da neve, o seu rosto rosado de camponês sadio, o seu sorriso sempre iluminado, sempre irradiando ternura e bondade.
 
Cine Guarany
Quando o filme começava, ele colocava-se à entrada interior do cinema, para escutar e atender aos mesmos pedidos de sempre: "Seu Vasco, eu tenho só quinhentos réis, deixa eu entrar?'' E ele, inventando uma carranca que era só de araque, acabava encuiando as mãos e, sem poder conter o riso franco, respondia sempre: “Sobe moleque, sobe, vai pra galeria!"

E era de ver-se, meus irmãos, a correria da turma miúda, da turma pobre dos bairros distantes que, por não dispor dos dez tostões, ficava pechinchando e por fim terminava mesmo entrando com quinhentos,
trezentos, duzentos réis, às vezes até mesmo sem pagar coisa alguma, que era assim, meus irmãos, o vovô Vasco, o imensamente bondoso vovô Vasco, que uma cidade inteira amava profundamente, através de suas
crianças, especialmente as crianças pobres, que, pelo  fato de não terem dinheiro, não ficavam jamais sem as emoções das cargas de cavalaria, trepidando na tela, sob o comando corajoso de Custer, nos combates eternos contra os peles vermelhas. 
De repente, contudo, a voz de um amigo trouxe-me de volta à realidade do presente. E eu olhei para o GUARANY. Foi como se qualquer coisa de mim mesmo quisesse desprender, libertar-se, voltar a saltitar   irrequietante. E eu compreendi, meus irmãos, perfeitamente, que era o menino, o menino de ontem, perdido em bruma e ocasos, que buscava teimoso o reencontro, o reencontro impossível com o passado.

Com duas lágrimas marotas descendo pelo rosto, voltei os olhos para o céu e tive, meus irmãos, sinceramente, a nítida impressão de que do azul, Vovô me fitava sorridente, as brancas mãos unidas como em cuia, a me dizer na linguagem da brisa e da luz: “Eu estou aqui, meu filho, a tua espera. Não te importes com os níqueis e as moedas. Quando vieres, traz uma estrela na alma. Bastará!”

(*) A Notícia, 9 de agosto de 1975

domingo, julho 29, 2012

Centenários anúncios de cinemas


       
Jornal do Commercio,
14 julho 1912
Manaus ja possuiu um bom número de cinemas, antes que a TV – especialmente esta – fechasse todas essas casas. Os nomes são repetidos pelos enquadrados na terceira-idade. Há nesses uma parcela de saudosismo, de repetir como mantra que o passado era “melhor”. Não sei se dirão o mesmo do cinema instalado na cidade.
Em nossos dias, as casa de exibição modernizaram-se, reuniram-se em shoppings e estão cercadas de recursos tecnológicos, capazes de permitir que o mesmo filme tenha projeção nacional.

Mas o amigo Ed Lincon (edlincon@hotmail.com) continua recolhendo dados sobre os cinemas de Manaus, que  existiram no século passado. Interessa-lhe tudo, dados de funcionamento, de fotos e fatos publicados, propriedade e por ai afora.

São deles as ilustrações aqui publicadas. Apenas o cine Guarany tem sido decantado pelos artistas e historiadores manauenses, os demais foram meros participantes.
Cine Guarany, em seu lugar agência do banco Itau

Jornal Correio do Norte, 14 março 1912

Jornal do Commercio,
22 agosto 1912

segunda-feira, junho 07, 2010

Os cinemas de Manaus

Cine Guarany (final)

Ed Lincon


No início de 1938, o Alcazar foi arrendado e totalmente reformado pela empresa Cinema Avenida Ltda. A mudança começou pela substituição do nome: de Cinema-Teatro Alcazar para Cine-Teatro Guarany (título muito em voga na época, devido ao forte sentimento nacionalista alcançado pelo sucesso do romance indigenista de José de Alencar, O Guarany). Outra mudança se dará nas cores do prédio e de seus vitrais: em lugar de vermelho e verde de Alcazar, agora as cores da bandeira nacional.
No sábado, 6 de agosto, o matutino da Empresa Archer Pinto assim informava a abertura da “nova” casa de diversões da cidade:

A fim de evitar tumultos à porta, os bilhetes foram vendidos em outro cinema da empresa, o Avenida (localizado na Av. Eduardo Ribeiro, onde hoje funciona uma loja Bemol), ao preço de 2$000 (dois mil réis) para a platéia, e 1$500 (mil e quinhentos réis) para as galerias. Abrindo as sessões, foi exibido o Fox-Jornal n.º 20X74, contendo o jogo de futebol entre BrasilxTchecoslováquia, trazido especialmente para a inauguração do novo cinema.
Inaugura-se hoje, sob acentuada curiosidade pública, o Cinema Guarany, de propriedade da Empresa Cinema Avenida Ltda., o qual está destinado, pelas características de conforto e segurança que oferece, a ser um centro de diversões preferido pela população.
Cine Guarany, 1977
Pavilhão São Jorge, 1976

Além de filmes, espetáculos teatrais de grupos locais, também eram levados em seu pequeno palco: A Filha do Saltimbanco, peça em quatro atos, encenada pelo corpo cênico do Luso, comenta A Tarde (18.03.1948). O Guarany detinha o privilégio de ser o único cinema de Manaus a manter abertas as portas laterais (corrediças) para ventilação durante as sessões noturnas, por onde se saía para fumar no jardim.


Não se pode falar do cine Guarany sem citar o nome de Vasco José de Faria (1892-1969), seu gerente, que com o passar dos anos ganhou a simpatia de frequentadores, em especial, das crianças que o chamavam carinhosamente de vovô Vasco. Nascido na cidade do Porto (POR), Vasco chegou a Manaus aos 13 anos de idade. Em março de 1916, Vasco aparece como funcionário do Teatro Amazonas. Na década de 1920, é contratado pela Empresa Fontenelle para fazer a programação do Polytheama e do Odeon.
Em 20 de julho de 1938, Vasco Faria firma com a Empresa Cinema Avenida, um “contrato de locação de serviços”, (apesar de já vir colaborando com a mesma desde 1936). No início de agosto seria admitido como “auxiliar interessado” (espécie de sócio minoritário) por seu conterrâneo Adriano Bernardino, para gerenciar o novo cinema Guarany, onde “com igual carinho puxava pela orelha o garoto que “ia furando” como “punha para dentro” aquele que lhe dizia com olhos de “chiclete” mastigado, na última projeção de uma fita em série que vinha acompanhando, que não tinha dinheiro para a entrada...”.
Nos aniversários do cinema, Vasco distribuía balões e bombons para a garotada e sorteava brindes aos freqüentadores. Em 1968 foi lhe dado o título de “Cidadão de Manaus”, mas a sua modéstia impediu-o de comparecer a Câmara Municipal para ser homenageado. Este amigo da criançada permaneceu à frente do cine Guarany até a sua morte, em 15 de agosto de 1969, no Hospital da Beneficente Portuguesa.

Quando em 1939 o Guarany completou o primeiro ano de funcionamento, a empresa proprietária decide comemorar em todos os anos, em 6 de agosto, o aniversário de fundação. A comemoração iniciava no dia 1º de agosto, com queima de fogos e execução da ópera “O Guarany”, de Carlos Gomes. A fachada desta casa de espetáculos era então enfeitada com bandeirolas multicoloridas e, postados na entrada, vistosos painéis ricamente decorados contendo os cartazes dos filmes a serem exibidos durante a semana. O tráfego de veículos em Manaus nas décadas de 40, 50 e até 60 do século passado era tranquilo. Poucos automóveis em circulação nas ruas, ainda assim, os agentes de trânsito estavam sempre atentos, auxiliando para que a festa do Guarany transcorresse sem problema.


Espanhol de nascimento, Domingos veio para Manaus em 1911, onde montou uma pequena lavanderia. Em 1936, foi convidado por Antonio Lamarão para zelador do cine Avenida. Com a inauguração do Guarany em 1938, foi transferido para este, onde, além de zelador, acumulava as funções de porteiro e vigia. Para isso, residia em companhia de uma filha adotiva em pequeno aposento situado na parte posterior do prédio (em fevereiro de 1973, aos 88 anos, “seu” Domingos ainda continuava no mesmo local).


Na semana de aniversário, em todas as sessões havia sorteio de prêmios entre os espectadores ofertados por empresas locais: J. G. Araújo, Antonio M. Henriques, Casa Canavarro, Drogaria Universal, entre outras. Para a realização desses sorteios, Vasco contratava radialistas como Belmiro Vianez (1915-2005) e Ivens Lima (atualmente residindo em São Paulo).


Na ocasião dos festejos, havia um espectador especial presente: Orlando Marques Braga (1905-c1980), deficiente mental, popularmente conhecido como “Xerife” ou “Tom Mix”, curtidor dos filmes de faroeste, quando então se vestia à caráter, ou seja, com chapéu, cartucheiras (sem revólveres) e estrela no peito. Em fevereiro de 1984, o “Xerife” então com 79 anos de idade, vivia na Fundação Dr. Thomas. Outro personagem bastante conhecido dos frequentadores do Guarany era o deficiente visual conhecido por Jaú, que se postava junto à bilheteria, pedindo esmolas.


Para entretenimento geral, a empresa Bernardino oferecia, nos dias que antecediam ao festejo do Guarany, sessão de cinema ao ar-livre. Ocorria às 18h30, em uma tela improvisada suspensa entre dois postes de ferro localizados no Pavilhão São Jorge. Também conhecido por República do Pina ou Café do Pina (inaugurado em 3.5.1951), estava arrendado ao português José de Brito Pina (1912-1982). Os filmes projetados geralmente eram documentários da Organização Rank ou desenhos animados do Tom &Jerry.
Café do Pina, 2008


No 17º aniversário do cine Guarany, em agosto de 1955, é instalada a tela panorâmica e as cores do prédio foram substituídas pelo rosa e cinza. Esta pintura permanece até a metade da década de 1960, quando o prédio volta a ter as cores originais. Em 1958, o 20º aniversário foi marcado pela ausência de Vasco Faria, em férias na Europa, todavia, não apagou o brilho da festa.
Como era do calendário, a festa de aniversário do cine Guarany ocorreu a 6 de agosto de 1964. No ano seguinte, os jornais deixaram de informar a sua realização. Dizem que foi impedida pela Ditadura Militar, que assumiu o País em 31 de março de 1964.
No entanto, em agosto de 1973, a empresa Bernardino, cujo controle acionário fora adquirido pelo grupo Phillipe Daou, realizou a festa de aniversário do Guarany. Infelizmente, essa foi a última comemoração de aniversário do cine Guarany.
Instaladas a Zona Franca de Manaus, em 1967, e, dois anos depois, a primeira estação de televisão, TV Ajuricaba, os cinemas da cidade sentiram o esvaziamento de público. Também motivado pela exibição de filmes de qualidade discutível, como as produções do chamado Cinema Novo, de Glauber Rocha (1939-1981), Terra em Transe, Deus e o Diabo na Terra do Sol; Rogério Sganzerla (1946-2004) O Bandido da Luz Vermelha e Mulher de Todos; Joaquim Pedro de Andrade (1932-1989), Garrincha, Alegria do Povo; e Nelson Pereira dos Santos (1928-), Rio, 40 Graus, etc.

O matutino O Jornal (14.5.1972) enumera os problemas enfrentados pelas casas cinematográficas de Manaus:
Diante do fechamento definitivo de quase todos os cinemas da cidade, a partir de julho de 1973, permanecem em funcionamento apenas o Guarany e o Ipiranga, arrendados para o Grupo Daou/Bernardino, que realizou pequenos reparos nessas duas salas. Após a breve “reforma”, contudo, o Guarany se transformou num pardieiro onde a desordem imperava, segundo noticiavam os jornais, ilustrando bem essa situação:
No Guarany, por exemplo, não se sabe se por motivos de falhas de equipamento ou de pessoal, as projeções estão péssimas. Normalmente num só filme mais de cinco cortes ocorrem isto para não se falar nos escurecimentos da tela, que já se tornaram tradicionais, coisa que só pode ocorrer se o sistema automático que guia os carvões estiver com defeito e, em última instância se o operador de máquina não estiver acompanhando atentamente a projeção.



A Notícia – 26.8.1975 - Guarany virou ninho de carapanãs:
Transformado em verdadeiro esconderijo de morcegos, ratos e carapanãs, o Cine Guarany, se encontra em estado deplorável, sem oferecer o mínimo conforto ao público, que lhe dá preferência diariamente.

A Crítica – 26.8.1976 - O Cine Guarany, contando com um gerente igualmente grosseiro (a menos que tenha sido substituído recentemente), já se tornou notório ponto de encontro de homossexuais. Ninguém pode ir ali com a família, pois o ambiente é o mais obsceno possível, contando com a condescendência dos proprietários que, no fim das contas, só querem mesmo saber do dinheiro das entradas por um serviço que prestam muito mal.


Em novembro, o Prefeito Jorge Teixeira de Oliveira (1975-1979), conhecido por “Teixeirão”, ao promover a ampliação do corredor viário, transfere o Pavilhão São Jorge de frente ao cine Guarany, para o outro lado da praça Heliodoro Balbi (ou da Polícia), quase na esquina das ruas Marcílio Dias e José Paranaguá.
Exibindo filme impróprio para menores, o cine Guarany entrou a década de 1980 dando os seus últimos suspiros. Em maio de 1983, os jornais anunciam sua venda e posterior demolição, destacando que o mesmo funcionaria até 10 de junho. Tal não se verificou, porque a empresa Bernardino conseguiu prorrogar por mais alguns meses o contrato de arrendamento.


Começava a partir daí, a luta inglória pela preservação do cinema mais antigo e popular de Manaus, ainda em atividade. Políticos, jornalistas, estudantes e frequentadores em geral, todos de alguma forma manifestaram-se contra a venda e possível demolição do prédio. O movimento pró-Guarany, ganhou força com a criação em junho de 1983, da Comissão de Defesa do Cine Guarany, com reuniões na sede do Sindicato dos Jornalistas do Amazonas. A Assembleia Legislativa, também pediu o tombamento do cinema, fundado em sua importância histórica e cultural para a cidade de Manaus.


Na noite de 6 de janeiro de 1984, na Galeria Afrânio Castro localizada no térreo da Academia Amazonense de Letras, com a exposição de fotos dos antigos cinemas e a exibição do filme Harmonia dos Contrastes (1966), de Ivens Lima, foi realizado o lançamento do livro Hoje tem Guarany!, dos professores da Universidade do Amazonas (atual UFAM), Narciso Lobo e Selda Vale. Na apresentação, os autores assim definiram a obra:
O livro conta a história do cine Guarany desde a fundação. A renda do lançamento foi revertida em prol do movimento da conservação e tombamento do prédio. O poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), em artigo no Jornal do Brasil (31.1.1984) Manaus e a história de um cinema, também entrou na luta.
Escrita a quatro mãos, esta publicação é assumidamente sentimental. Angústia, raiva e satisfação acompanharam este trabalho. Foi uma curtição, mas com o olho nos fatos. Incompleto, talvez, com lacunas, certamente, e com a marca de dois estilos diferentes. É o primeiro rebento de uma relação de amor triangular: nós o cinema e Manaus.

Infelizmente tanto grito não foi ouvido, o cine Guarany ainda continuaria por mais sete meses, exibindo filmes de karatê e sexo explícito. Nos dias que antecederam ao seu fechamento, os jornais publicaram o seguinte aviso: “A ilha dos mil prazeres será o último filme desse cinema que funcionará até 6ª feira. Aos distintos espectadores que freqüentam esta casa de espetáculo muito obrigado. Empresa de Cinemas Bernardino Ltda.”


Confirmando o melancólico anúncio, o Guarany funcionou até 31 de agosto de 1984. O último filme: A ilha dos mil prazeres. Na platéia, pouco mais de 20 espectadores, contando-se os funcionários. Ao término sessão, o gerente Antonio Pereira da Cunha (1931-), alcunhado de Português, iniciou a desmontagem das cadeiras que foram levadas para o depósito da empresa Bernardino.


O cine Guarany chegara mesmo ao fim. Vendido pela família Araújo, o prédio começou a ser demolido no dia 24 de setembro. Em editorial, A Política do patrimônio, o matutino A Notícia (25.9.1984), questionou a demolição do cinema da av. Floriano Peixoto. Nada mais havia a tratar, veio abaixo em 10 de outubro.

Retirados os escombros, no lugar do velho e saudoso cine Guarany, a cidade assistiu a construção de “moderna”, porém, monstruosa caixa de concreto que abriga atualmente uma agência do Banco Itaú.