CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

3 de abril de 2018

PMAM - 181 ANOS (IV) E A OPERAÇÃO REBRACA

Coronel Lucy Coutinho em reunião no Auditório da PMAM,
A Crítica, 21 dezembro 1974

No finalzinho de 1974, a Polícia Militar do Amazonas (PMAM) foi encarregada de uma atividade inusitada: coordenar a Operação Rebraca. Tratava-se da Repatriação de Brasileiros de Caiena. Após entendimentos diplomáticos, o governo brasileiro aceitou retirar seus nacionais da vizinha Guiana Francesa, cuja capital é Caiena, na fronteira com o então Território Federal do Amapá. 
Não obstante ter a maioria dos brasileiros saído do Amapá, estes foram distribuídos pelas capitais do Pará e Amazonas, além do município de Santarém (PA). Já não recordo, e o jornal consultado apesar da longa matéria, não especifica a motivação da retirada dos brasileiros. Certamente entraram pela longa fronteira e passaram a executar atividade ilegais. Suponho. Isso levou à disputa entre guianenses e brasileiros, levando-os ao desfecho físico e ataques com mortes.
O transporte deste pessoal foi realizado pela Marinha do Brasil, que utilizou o navio Barroso Pereira, sob o comando do CMG Robério Cardoso Brochado, bastante conhecedor de Manaus, pois tem realizados constantes viagens transportando mercadorias para órgãos do Governo do Estado e das Forças Armadas.

Sobre o pessoal, pouco ficou registrado, em especial o número de famílias e nomes. Unicamente o informativo assinala que chegaram a Manaus seiscentos e vinte brasileiros. No entanto, foram bem recepcionados, além dos membros da coordenação local do Rebraca, à frente o coronel Lucy Coutinho, da PMAM, grande número do povo, certamente parentes e amigos dos retirantes.

A Marinha dispôs efetivo do corpo médico para o atendimento na viagem. Curiosidade: entre as muitas senhoras repatriadas, apenas uma se encontrava gestante. Os demais repatriados pediram à senhora que quando do nascimento da criança, caso fosse menina, receba o nome de Rebraca. A futura mãe deu resposta positiva. Todavia, 44 anos depois, como saber se a promessa foi cumprida?  

Jornal A Crítica, 21 dezembro 1974

Desembarcados, os repatriados foram transportados por ônibus da saudosa empresa SOLTUR, para os locais residenciais. O prazo de permanência no local estava marcado para trinta dias. A acomodação destes restou assim especificada: as famílias, nos conjuntos residenciais Jardim Paulista e Jardim Brasil. Os jovens solteiros, no Quartel do 1º BPM, e as solteiras, no Instituto Benjamin Constant.
Servia eu no 1º BPM, que recebeu alguns solteiros, que foram rapidamente empregados e deixaram o quartel. Lembro-me de um jovem que passou a trabalhar no Armazém Reembolsável da PM, e que restou alcunhado de... Rebraca. Desconheço se alguma família ocupou o Jardim Paulista (bairro do Aleixo). Sei, contudo, que o conjunto residencial Jardim Brasil, situado na avenida Silves, estava prestes a ser entregue aos compradores. No entanto, as famílias chegadas foram as sortudas ao estrear os apartamentos, deixando em má reputação este conjunto.

Como tudo isso terminou? Com a inclusão de algumas famílias na cidade; outros empreenderam o retorno para suas cidades de nascimento; outros – quem sabe? – retornaram à Caiena. A palavra “rebraca” foi empregada por largo tempo com sentido pejorativo e discriminatório. E a PMAM retornou às suas atividades corriqueiras.

Amanhã, a PMAM completa 181 anos de presença no Amazonas.