CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

1 de novembro de 2015

CORONEL PEDRO CÂMARA (1939-2015)



Nascido no Rio Grande do Norte, em 1939, morreu nesta quarta-feira, aos 76 anos, o coronel PM da reserva Pedro Câmara, vitimado por um colapso cardíaco. O velório foi realizado no quartel central do Corpo de Bombeiros, entidade que este oficial comandou quando o Estado absorveu este serviço em 1973. O sepultamento ou a “semeadura”, como define a igreja que o falecido professava, ocorreu no final da manhã no cemitério São João Batista, com a tropa da PMAM cumprindo o cerimonial militar.

Aspecto do velório ocorrido no quartel central do Corpo de Bombeiros

Câmara, antes de desembarcar em Manaus, cresceu no Acre, onde sua família se instalou atraída pela fortuna da borracha regulada por ocasião da Segunda Guerra. A família Câmara de marcante religiosidade possui, entre seus membros, pastores e dirigentes da igreja Assembleia de Deus.

Em Manaus, ao tempo do serviço militar, Câmara foi engajado no 27º BC (Batalhão de Caçadores), aquartelado na praça General Osório, hoje sede do Colégio Militar de Manaus. Naquela unidade militar prestou concurso para ingresso no CFC (Curso de Formação de Cabo), sendo aprovado com brilho. Dessa maneira, antes da conclusão do serviço militar obrigatório, era o cabo Câmara. Sempre bem alinhado, uniforme impecável, conhecedor dos regulamentos e exigente extremado. Era um militar “caxias”.
Ainda na caserna do 27 BC enfrentou a seleção para o curso de sargento que, não obstante ter sido aprovado, não conseguiu vaga. 

Entre outros entreveros, esse acelerou seu desligamento ao final do período compulsório. Aprovado em concurso, passou a funcionário da Chefia de Polícia, órgão encarregado da Polícia Civil. Nesse emprego foi alcançado por um edital da Polícia Militar.

Aos 21 anos, foi selecionado junto com mais dois Pedro (Lustosa e Falabela, que desistiu da empreitada) e o Helcio Motta, para integrar a turma de cadetes na EFO (Escola de Formação de Oficiais) da então PM da Guanabara. Tratou-se de iniciativa pioneira do doutor-coronel Assis Peixoto, no comando da PMAM: promover a formação de oficiais de escola. Ao término do curso (1960-62), Câmara estava em primeiro lugar entre os amazonenses e, diante desse valor militar, deve ser considerado o primeiro Cadete da história da Força Estadual.

Ainda tenente, em 1965, foi nomeado comandante do CIM (Centro de Instrução Militar), a pioneira iniciativa da corporação para capacitar os praças. Funcionava no Piquete, a edificação centenária que abrigou como a denominação indica uma tropa de Cavalaria. E ainda, servia de referência para os moradores do bairro da Praça 14. Nesse local, no momento, funciona o CPM (Comando de Policiamento Metropolitano), guardião do portão do Piquete. Tenente Câmara permaneceu pouco tempo na direção, porém, o bastante para que os colegas jocosamente identificassem o CIM por “Câmara Instrui Meganhas”.

Ainda que sem qualquer cacoete para qualquer esporte, Câmara organizou delegações esportivas. De oficiais, conduziu equipes de futsal (ao tempo, futebol de salão) ao interior do Estado. Tefé, Manacapuru, Maués, Parintins e Itacoatiara foram palcos desses encontros. Bons resultados esportivos e ótimos causos essas excursões ofereceram, talvez o melhor tenha ocorrido em Coari. Na quadra, faltava um dos bons jogadores, o então capitão Ruy fora nomeado “carcereiro” do delegado. Explico: Câmara havia determinado a detenção deste – tenente da reserva, alcunhado de Rabo Fino.  

Outro bom causo: Câmara adquiriu um Fusca, branco, se não sou traído pela memória. Nada de excepcional, senão que esse objeto de desejo era da fábrica alemã. E, como o condutor aqui e ali bateu com vontade o alemão, tomou a alcunha de um lutador de “telequete”, modismo da TV da época.

Economista, Câmara foi graduado pela Faculdade de Ciências Econômicas, antes que essa fosse incorporada à Ufam. Matemático competente, essa competência o capacitava a elaborar tabelas de vencimentos, sempre que a comunidade policial (ainda não operava o clube-sindicato) buscava melhorar o soldo.

Quartel do CBMAM em preparativos para o cortejo fúnebre

Em 1973, major Câmara assumiu o comando do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar, ocasião em que este serviço passou à órbita do Estado. Nada entendia desse serviço básico, mas era excelente administrador, preocupando-se até com o “pimentão” consumido no rancho. No ensejo, aproveitou a chance e viajou a Paris (FRA) para um aprendizado sobre bombeiros. Fez o estágio e o fez bem, aclimatando-se de tal maneira ao espírito parisiense que, ao regressar, os colegas o tratavam de forma espirituosa por Pierre Camarrá.

Em seu comando desembarcou a primeira escada de socorro que, por hábito, foi alcunhada de “magirus”. Comandante Câmara usou e abusou dela. Fazia-a arvorar (elevar seu dispositivo) e, do alto, de binóculo em punho, apreciava a movimentação na praia de Cacau Pirera.

Um dia, em pleno expediente, inspecionando o terreno do quartel, encaminhou-se para os fundos onde havia (ainda há) uma caixa d’água. De repente, ouviu-se um tiro naquela direção. Acorrem vários bombeiros, imaginando um desastre com o chefe. Mas eis que, guapo, Câmara os recebe com aquela pachorra: “pensaram que eu havia me suicidado!?”.

Enfim, “dirigia” a AVC (Associação dos velhos coronéis), que se reúne na última sexta-feira de cada mês para discutir assuntos burgueses: saúde, soldo e bom apetite. Dirigia sem contestação, afinal, apenas cabia-lhe indicar o restaurante do mês. Outra determinação: apenas seu aniversário era comemorado, porque acontecia a 31 de janeiro. Ou seja, estava sempre próximo do encontro ou no mesmo dia. A vaga está aberta.

Chegou, porém, o dia da indesejada. Ele já havia suplantado alguns procedimentos cirúrgicos, e seguia mostrando a força e a determinação do nordestino vitorioso. Sua fleuma, marcada pela entonação de voz, era própria. Tudo planejava e calculava meticulosamente. Por isso, creio que até a forma de “atravessar o rio Negro” foi encomendada.


Foi-se na madrugada, quando nós, amigos e parentes, esperávamos pelo novo dia. Filho! Até outro dia, na eternidade.