CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

21 de novembro de 2015

ITINERÁRIO ANDINO

Recorte da capa do impresso
Na metade do século passado, dois médicos amazonenses empreenderam uma viagem por países andinos. Concluído o périplo, Djalma Batista, o saudoso cientista extremamente conhecido, fez publicar o relato da experiência.
Primeiro, expos os acontecimentos em conferência na Academia Amazonense de Letras, da qual era membro, em 29 de setembro de 1951. Logo, o periódico A Gazeta a reproduziu nas edições de 15, 16 e 17 do mês seguinte.  
Enfim, foi transformada em impresso, sob o título: Itinerário transadino, que o autor dedicou ao companheiro de viagem – Moura Tapajós, outro finado médico competente de nossa cidade.


UM VÔO DO AMAZONAS AOS ANDES
 Na manhã venturosa de 7 de julho, dois médicos manauenses desenharam no céu um ângulo reto, olhando pela janela do Catalina, ao infletirem para o oeste, com o pensamento no roteiro seguido por Pedro Teixeira, durante doze meses, a partir de outubro de 1 637, para cobrir a distância até Quito, — réplica heroica dos portugueses à expedição pioneira de Pizarro-Orellana, um século antes, desvirginadora do mundo amazônico. 
Apenas trezentos e tantos anos depois do notável capitão luso mudaram os meios e os caminhos, passando os meses a serem contados em horas... O que aqui vai relatado reflete o pensamento e a observação dos dois itinerantes, dos quais me estou arvorando a intérprete, avisando de antemão que o sal da história foi sempre posto pelo meu companheiro, com muita finura e extraordinário espírito clínico e crítico. 
À medida que o avião remonta o [rio] Solimões, vai-se tendo uma impressão oposta à da viagem a jusante de Manaus: a água diminui de volume e não ocupa tanto espaço, e a floresta é mais densa, parecendo até mais verde... 
Em frente a Benjamin Constant, quando se dá adeus à pátria, olhando a margem peruana fronteiriça (o povoado de Ramon Castilla não fica ao alcance da vista), o "real rei dos rios do Universo" como que perde a sua majestade, nesta época de vazante; e a cidade distante, comburida pelo sol e asfixiada pelo mormaço, erguida sobre giraus semelhantes aos de meu Togar natal, no Acre remoto, dá uma pena terrível ao brasileiro que a pisa pela primeira vez: não parece ter a seus pés um monstro líquido cuja correnteza atinge às vezes a milhas por hora. 
Benjamin Constant como que reflete a psicologia de um lago...Decolado o anfíbio da Panair [do Brasil] divisam-se riscos amarelos fendendo a superfície verde: verde e amarelo como que a traduzirem o destino brasileiro de guardião daqueles pagos distantes, onde três povos irmãos disputam ou mantém uma cunha de seus próprios territórios: peruanos, colombianos e equatorianos. E sobrepairando a tudo — interesses, ambições, desejos de hegemonia — um senhor todo-poderoso, que é o deserto! 
Quando se chega a Iquitos [Peru], duas horas depois de Benjamin Constant (500 ou 600 quilômetros de distância!), o espírito como que se abre, depois de se ter contraído a meditar sobre a pequeneza do homem em face ao mundo amazônico. Porque Iquitos já é uma cidade!
Basta dizer que possui luz e água... O Palace Hotel Malecon, instalado em bonito prédio azulejado, está longe porém de ser um palace hotel. Em compensação está pronto para ser mobilado e funcionar um bem apresentado estabelecimento, que integrará a cadeia da Corporação Nacional de Hotéis de Turismo, do governo peruano. 
Na capital do Departamento de Loreto há cerca de 45.000 almas, 10.000 das quais devem ser contadas como corpos: são soldados... Não esquecer que as geografias equatorianas incluem Iquitos na Província Oriental da pátria de Garcia Moreno... 
Em verdade muito mais afinidade existe, na região, com o Brasil, que com qualquer das repúblicas irmãs do lado de lá dos Andes: e é pena que esta afinidade, decorrente naturalmente da proximidade geográfica, da identidade de problemas e da semelhança das populações nativas, não seja aproveitada largamente pelo comércio, pela indústria e pela cultura, para formação de um necessário espírito panamazônico, que não deve ser interpretado como expansionismo do Brasil, país líder e senhor da chave da bacia, pelo próprio destino histórico. 
Neste sentido, vale a pena não esquecer as sugestões e observações argutas de Napoleão Bezerra, que já escreveu, primeiro com gasolina e depois com óleo cru, crônicas de sensação sobre o Médio Amazonas. (continua)