CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

2 de junho de 2012

Dona Dorotéia: 20 anos depois

Dona Dora, 1957
A data de hoje, no calendário de meus sentimentos, pertence a minha saudosa madrasta, dona Doroteia ou, mais carinhosa e simplesmente, Dona. O câncer a matou há 20 anos, depois de uma luta de pouco mais de cinco anos.

Quando ela se casou com meu pai, o viúvo Manoel Mendoza, ela contava com 20 anos menos, portanto esperavam os enteados que ela superasse o velho. O incurável mal não permitiu.

O diagnóstico e o primeiro tratamento, no Cecon, aconteceram em Manaus. Depois, ela peregrinou por São Paulo, até que as metáteses a “aconselharam” a regressar, para morrer aqui. Assim ela fez. Quando entendeu que o fim era irremediável, emudeceu. Deixou de falar por decisão própria, e com isso proibiu-se de se lastimar seja contra qualquer entidade, incluída a Igreja católica, a qual participou com absoluta devoção e contentamento.

Quando de seu enterramento, providenciei um cerimonial à antiga. Como o cemitério de São Francisco, no Morro da Liberdade, ficava a poucas quadras do velório, foram dispensados os automóveis, e assim se pode conduzir o caixão até o campo santo. A oportunidade permitiu a morta  despedir-se do antigo endereço. Enfim, repousa em paz, Dona!

Mas, quando em nossos dias vejo as pessoas com “dotes” anunciar que sofrem do mesmo mal, relembro as dificuldades que a Dona enfrentou para, no final, sair derrotada. As bem dotadas passam por tratamento vip, tratamento hospitalar personalizado (que têm direito) e, por isso, podem se vangloriam de cura. Quantos, como a Dona e seus familiares, lutaram, sem sucesso. Isso segue doendo.

Dona Dora abraça o filho Luis, na festa da Boina, 1981
Nessa data, mais uma vez minha penhorada gratidão à Dona pela “fortuna” que nos (falo pelos irmãos) legou.