CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

27 de março de 2011

Oitentanos de Manoel Bessa Filho

A Crítica, 8 mar. 1960
Costumo dizer-lhe, quando nos encontramos, que não sei se lhe tomo a benção, como antigo seminarista, ou se lhe presto continência, por ter sido ele juiz auditor da força pública. Como hoje é aniversário dele, vou esclarecer de quem se trata.

Aliás, vou deixar esse trabalho para o próprio. Explico o motivo: há alguns anos, tive o privilégio de gravar uma longa (foram vários depoimentos) entrevista com o Manoel Bessa. Então, ele contou desde o começo, onde nasceu e por aí afora.

Um detalhe: ontem, conversando com o Cyrino Jr, sobrinho do Bessa, acertamos a editoração dessa entrevista. Outro, a pequena seção que segue foi trabalho de Ed Lincon, amigo dedicado à pesquisa.


Para começo de conversa, a sua família. É uma história muito interessante. Eles chegaram aqui como cearenses; depois eu soube que, na verdade, eram nascidos no Rio Grande do Norte. O início: antes de irem pro Ceará que era bem distante, nasceram num lugar com um nome muito pitoresco: São Miguel do Pobre Cego. É uma cidadezinha do Rio Grande do Norte, tão longe da capital, que fica mais fácil viajar de Natal para Recife (PE) que de Natal pra São Miguel do Pobre Cego. Meu pai era primo da minha mãe, eram, pois, de famílias ligadas.
Primeiro, veio para o Amazonas o meu avô Raimundo Bessa, que se instalou em São Raimundo. Trouxe consigo os filhos. Ele foi um dos fundadores do bairro. E, pouco depois, soube que a minha avó materna ficara viúva, também era prima dele. Assim, ele retornou ao Ceará e trouxe a cunhada com os filhos e, dessa maneira papai e mamãe que eram primos, casaram-se aqui. Havia uma diferença de quatro anos entre eles.
Foram morar no bairro de São Raimundo também, foi criado em São Raimundo, e lá ficaram vivendo em torno do Matadouro. Tive uns tios que cortavam carne, outros que cortavam porcos e faziam chouriço, linguiça; vendiam pra sobreviver. Lembro de um tio que passava toda tarde com uma caixa na cabeça vendendo carne de porco. Na ocasião, anunciava: Porqueiro! Descia pela rua, e eu ficava esperando sua passagem para tomar a bênção.


Eu já morava na cidade. Minha família tinha se mudado pra cidade por causa da doença do meu pai, mas nem isso impediu o agravamento da doença. Apesar de seu falecimento, ficamos morando na cidade.
A gente, todavia, estudava em escola lá no bairro, um bairro muito humilde; assim, quando tomava a bênção do tio, ele ficava feliz porque achava que nós éramos meninos da cidade tomando a bênção dele mesmo que com a caixa na cabeça. Aí, dava-me uns trocados para o bombom, para o pão etc. Por isso, eu adorava tomar a bênção desse tio, porque sempre tinha um bombom como certo. (risos)

Jornal do Commercio. Manaus, 24 mai. 1955
 O casamento dos velhos foi realizado em São Raimundo? Foi no bairro de São Raimundo. Eles se casaram na igreja de São Raimundo, na antiga capela, existente bem antes de se tornar paróquia. Apenas o vigário da Catedral ia rezar missa aos domingos, uma missa um pouco mais tarde.
Meu pai, também zelador da igreja, possuía uma casa exatamente na praça em frente, ali onde agora existe uma quadra esportiva. Do lado de lá, uma ruazinha onde tinha a casa do meu pai era onde o padre ia tomar café. Naquele tempo a missa era de manhã, o padre ia dizer a missa e depois ia tomar café em casa. Naquele tempo, rezava a missa o velho padre Monteiro, depois monsenhor Monteiro, que faleceu há algum tempo.


Sua família veio do Nordeste e... e se estabeleceu em São Raimundo. Um detalhe: a primeira parte da família que veio para esta capital foi a nossa. Entretanto, meu pai com 43 ou 44 anos começou a sofrer de uma doença... Naquele tempo, a gente não sabia muito explicar o que era, chamavam de canseiras, essas coisas. Ele já não mais conseguia viajar, pois viajava pro JotaGê. Outro detalhe: ele ainda era compadre do velho fundador da firma, do comendador Joaquim Gonçalves de Araújo, o J.G. Araújo.

Preocupada, minha irmã mais velha interrompeu seus estudos nas Doroteias, onde cursava o Magistério. Devo lembrar que naquele tempo tratava-se do Curso Normal. Concluído o curso, ela foi ser professora leiga nas barrancas de Terra Nova, Curarí e por aí vai... Exatamente prevendo que a coisa estava ficando feia.

Nessa ocasião, mamãe combinou com o papai a mudança para a cidade, para o Centro. Porque em caso de precisar de um médico era mais fácil alcançá-lo do que atravessar o igarapé de catraia ou coisa parecida.


Também por ser mais perto da Santa Casa... Mais perto da Santa Casa, exatamente! O casal alugou uma casa no beco da Indústria, no bairro dos Tocos, hoje Aparecida. Ali, meu pai viveu pouco tempo, logo adoeceu e veio a falecer em março de 1931, poucos dias depois da mudança. Quanto a mim, nasci sete dias depois da morte dele, na casa que ainda está mantida no bairro de Aparecida.

Quantos foram os filhos do casal? Meu pai e minha mãe tiveram de fato, uns doze filhos que foram gerados. Dois deles natimortos. Uma irmã chegou aos dois anos e faleceu, portanto, oito se criaram. Então, começou a vida que foi relativamente preocupante. Depois recomeçou a fila, quando foram morrendo um atrás do outro, no espaço de poucos anos. E cá estou eu, que sou a bola da vez.

Sobraram quantos irmãos? – Irmãos? Eram seis mulheres e dois homens, os que se criaram. Das mulheres, uma inicialmente freira, depois deixou o convento, mas ficou se mantendo ainda como religiosa. Quer dizer, liberada da comunidade, porém, manteve sua vida religiosa. É a irmã Conceição, Adoradora do Preciosíssimo Sangue.
As outras cinco casaram-se. A mais velha não teve filhos; as demais tiveram filhos, que são a única geração de parentes dos vários irmãos. A que teve o maior número de filhos foi a Eliza (Bitoca), mãe do Ribamar Bessa Freire, o Babá, o espirituoso colunista do Tá Qui Pra Ti, por sinal, é meu afilhado. Veja a sina! Os meus irmãos têm tantos filhos para me dar como afilhados, olha os que me entregaram: o Ribamar e o Zeca Cirino (José Cyrino Bessa), da Universidade, da UEA, ex-secretário de Educação municipal. São os meus dois sobrinhos-afilhados.

Manoel Bessa foi ordenado padre em 1954, depois dos estudos nos seminários de Manaus, de Fortaleza, de Bogotá (COL) e do Canadá. No ano seguinte, assume a direção do Colegio Estado, melhor do Ginásio Amazonense rompendo uma tradição secular. Assumia o professor mais jovem da congregação de mestres. Esse lance teve outros desdobramentos, que breve pretendo postar.
Logo deixou a batina, fomentando um escândalo na provincial Manaus. Ingressa na política, é eleito vereador. Também abandona a política e realiza uma série de iniciativas.
Capa do livro


Graduado em Direito, realiza o Mestrado em Florianópolis (SC) e o Doutorado na França. Ingressa na magistratura amazonense e, aposentando-se como juiz auditor militar da Polícia Militar.
Deve ter sido difícil para ele deixar a sala de aula, como professor. Era sua vida, seu prazer. Parte desses episódios, Bessa narrou em seu livro Jornal Velho, publicado em 2001. Trata-se da coletânea de crônicas que ele publicou em A Crítica. Este livro precisa ser reeditado, vou fazer força nesse sentido, como um presente ao jovem aniversariante.