CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

2 de março de 2016

ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS: ANOTAÇÃO

Sede do silogeu amazonense
Nas proximidades de seu centenário, transcrevo de O Jornal, edição de 17 de abril de 1960, a publicação sobre a Casa de Adriano Jorge, ao tempo em que esta entidade cultural contava 42 anos de existência. 


 

VIDA E EXPRESSÃO CULTURAL DA

ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS


1 — Ligeiro retrospecto acerca dos quarenta e dois anos de atividades do SILOGEU AMAZONENSE; 2 — Os primórdios da instituição; 3 — Missão cultural da Academia; 4 — Os maiores expoentes do passado

A próxima solenidade de posse do novo acadêmico Dr. Ramayana de Chevalier, que irá ocupar no Silogeu a Cadeira nº 2, cujo patrono é Euclides da Cunha, sugeriu-nos uma reportagem sobre a fundação e vida cultural da Academia Amazonense de Letras, a mais alta expressão da intelectualidade do Amazonas. Essa instituição de letras e cultura foi fundada no dia 1º de janeiro de 1918, numa casa da rua Monsenhor Coutinho, hoje residência do Dr. Gualter Batista.

Péricles Moraes, uma das maiores expressões literárias de nossa terra, associando-se a um grupo de intelectuais, foi a alma da fundação do novo grêmio, que primitivamente se chamou Sociedade Amazonense de Homens de Letras. A princípio sem sede própria, reuniam-se em salões de outras instituições sociais, como o Ideal Clube e a Associação Comercial, para as sessões solenes.

Mais tarde, por proposta do escritor Raul de Azevedo, foi mudado o nome da Sociedade para Academia Amazonense de Letras, devendo-se ao general Nelson Mello, quando Interventor Federal, a doação da atual sede do sodalício, que outrora era o teatrinho do Instituto Benjamin Constant.


A MISSÃO DA ACADEMIA

A Academia Amazonense de Letras, como suas congêneres, tem por missão promover a defesa da língua pátria e incentivar o cultivo das letras e da literatura nacional. Vejamos o artigo 1º de seus Estatutos: "A Academia Amazonense de Letras fundada a 1º de janeiro de 1918, com a denominação de Sociedade Amazonense de Homens de Letras, filiada à Federação das Academias de Letras do Brasil, tem pôr fim a cultura do idioma e da literatura nacional mediante a ação individual ou coletiva de seus membros".
Como se depreende, portanto, dos seus Estatutos, a defesa do idioma nacional, pelo culto da literatura, é a função específica do sodalício. Essa função se amplia e se completa pela promoção de conferências e outras comemorações festivas relativamente às grandes datas nacionais e aos mais expressivos expoentes da literatura.

POLTRONAS E PATRONOS

A Academia possui 30 poltronas, com os respectivos patronos, tomados entre as mais notáveis figuras da literatura nacional e do cenário cultural do Amazonas. São os seguintes: Péricles Moraes, Euclides da Cunha, Gonçalves Dias, Sílvio Romero, Araújo Filho, Adriano Jorge, Maranhão Sobrinho, Torquato Tapajós, Machado de Assis, Barão do Rio Branco, José Veríssimo, Olavo Bilac, Tobias Barreto, Barão de Santana Nery, Graça Aranha, João Leda, Francisco de Castro, Jonas da Silva, Coelho Neto, João Ribeiro, Tenreiro Aranha, Farias Brito, Cruz e Sousa, Joaquim Nabuco, Araújo Lima, Rui Barbosa, Lafayette Pereira, Aníbal Teófilo, Capistrano de Abreu, Castro Alves.

BRASÃO E LEGENDA

A Academia possui um brasão, símbolo de sua expressão nobiliárquica, que assim se descreve:

Escudo: Em campo de blau, um livro aberto, encadernado de goles e circundando da inscrição ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS, de sable.

Timbre: Dois ramos de louros de ouro.

Paquife: Um facho de ouro irradiando de um vaso de prata.

Dístico: Em listel de ouro, a legenda LITTERARUM SPLENDOREM EXCELENTES (cultivando o esplendor das letras), de blau.

AS MAIORES FIGURAS DO PASSADO

No decurso de seus quarenta e dois anos de existência, a Academia Amazonense de Letras pôde contar em seu grêmio com vultos de impressionante envergadura cultural, tendo alguns alcançado vitorioso renome nacional. Citaremos algumas expressões de maior relevo, embora reconheçamos o risco das omissões.


Adriano Jorge
ADRIANO JORGE — médico, crítico de arte e de literatura, professor de firmada competência no magistério amazonense. Era um verdadeiro polímata, cuja erudição impressionava, aliada à sua eloquência, feita de fidalguia, imaginação e fulgurância. Infelizmente era um talento dispersivo, despreocupado da consagração da posteridade. Não deixou um livro sequer, que lhe documentasse as dimensões intelectuais. Foi o segundo presidente da Academia, sucedendo ao escritor Benjamim Lima.

OS IRMÃOS LIMA — A Academia teve em seu seio dois notáveis irmãos, os acadêmicos Benjamim Lima e Araújo Lima, espécie de "irmãos Goncourt" da Academia Francesa. Benjamim Lima era professor e teatrólogo, e foi o primeiro presidente da Academia. Estilista famoso, primava pela expressão luzida, tendo verdadeiro horror da vulgaridade literária. Queria o período perfeito e harmonioso, que lhe saísse da pena como um lampejo. A conferência que pronunciou no Teatro Amazonas, quando do falecimento de Olavo Bilac, é um primor de arte. Seu irmão era médico, dos mais célebres que o Amazonas já possuiu. Publicou a obra Amazônia — a terra e o homem, incontestavelmente um dos livros mais sérios que já se escreveram sobre a região.

RIBEIRO DA CUNHA — Outro médico notável, dono de uma cultura portentosa. Era, porém, de uma modéstia quase doentia, quase acanhado pela posse de uma erudição magnífica, dando a muitos a impressão de que se desculpava da própria superioridade. Seu nome ilustra o frontispício de um dos nossos grupos escolares [atual Escola Estadual].

JONAS DA SILVA — Poeta cintilante, de sensibilidade extraordinária. Publicou algumas obras, entre as quais Czardas e Uhlanos. Ficou famoso o seu soneto Santa Teresinha.

JOÃO LEDA — Exímio cultor do vernáculo, esmaltava sua prosa com o ouro da língua portuguesa. Mediante longo e cotidiano contubérnio com os clássicos, conseguiu expressar o seu pensamento numa linguagem límpida e escorreita, que logo acusava seus abalizados conhecimentos do idioma. Se possuísse noções profundas e seguras de letras clássicas (Latim e Grego), teria sido um filólogo de expressão continental. Dos clássicos, conhecia profundamente Rui Barbosa e Camilo. Publicou: Nossa língua e seus soberanos; A Quimera da Língua Brasileira; Os áureos filões de Camilo; Vocabulário de Rui Barbosa; e Da relativa exação dos fatos históricos (tese ao concurso de História).

PERICLES MORAES — Notável escritor e crítico literário. Foi irrecusavelmente a maior figura da Academia, em todos os tempos. Sua alma, seu coração e sua própria vida, abalando-lhe os alicerces com o seu falecimento. Estilista de fino recorte literário, foi verdadeiro artista da expressão, transmitindo suas mensagens em períodos flamantes e lapidares. Manteve nome nacional, tendo sido amigo particular das maiores figuras da Academia Brasileira. Publicou: Figuras & Sensações; Legendas & Águas-fortes; O Retrato de Augusto Linhares; Coelho Neto e sua Obra; Confidências Literárias; Leopoldo Peres e O Exemplo de Leopoldo Neves.

OUTRAS FIGURAS

Infelizmente, o espaço de que dispomos não nos permite tecer demoradas considerações acerca de outros vultos notáveis e grandiosos, que deram particular refulgência à Academia, entre os quais: Leopoldo Peres, Huascar de Figueiredo, Araújo Filho, Gaspar Guimarães, Desembargador Sá Peixoto, Valois Coelho, Jorge de Moraes, Alfredo da Mata, Raul de Azevedo etc.

UM LEGADO


A Academia teve sua fase de esplendor e de glória. As grandes figuras literárias que a iluminaram no passado opulentaram e consolidaram seu patrimônio. Presentemente, possui algumas expressões de reconhecida cultura e de indiscutível prestígio nas letras, brasões que honram a heráldica intelectual do Amazonas. É um legado cultural que os homens ilustres do passado transmitiram à posteridade.