CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

4 de julho de 2013

AMÉRICO ANTONY: DUAS HISTÓRIAS


Américo Antony, 1932
Duas facetas do poeta Américo Antony, reproduzidas do livro do saudoso Mário Ypiranga Monteiro (Histórias facetas de Manaus: anedotas envolvendo figuras amazonenses).

        1.   POIS SE ELE É ATÉ POETA...

Contava o governador Dr. Álvaro Botelho Maia que um dos prefeitos do interior do Estado, em audiência requerida com empenho, queixava-se de que o Dr. promotor na sede, Dr. Américo Antony, assumia atitudes um pouco absurdas para os habitantes misoneístas não avezados a certas familiaridades.
Álvaro Maia,
1950
- Por exemplo? - pergunta o governador.
- É que ele vai pessoalmente examinar as denúncias de defloramento, obrigando a moça a mostrar as vergonhas...
- E não há médico legista na sua sede? Como poderá ele atestar defloramento se não observar o tamatiá da vítima?
- Mas metendo o dedo no buraco, governador?
- É que sem dúvida o promotor é míope...
- Míope ele é, todo mundo sabe... mas sem-vergonha curioso? Isso não...
- Sr. prefeito, posso garantir-lhe que o Dr. Américo Antony é gente séria e honesta, o que ele faz é aplicar métodos mais práticos...

O prefeito, admirado, dando marcha à ré:
- Sério? - Honesto? - Mas se ele é até poeta, governador...

Álvaro Maia engoliu seco. Riu de banda, aquele seu jeitinho de aceitar as coisas erradas e concluiu:
- Isso não é maldade, pois eu também sou poeta...

O prefeito, admirado, erguendo-se:
- Não me diga! - O senhor... também?...

 2.    O CAGALHOTO

O poeta Américo Antony andava sempre com um rolo de poemas sob o braço, a ver se sensibilizava alguém para editar sua obra. Tornava-se até importuno quando chegava ao café com aquele calhamaço já cinzento de tanto manuseio. E pior é que declamava em voz alta, não raro perturbando o sossego, como fez uma noite de recepção na Academia de Letras.
Resolvido que publicaria um volume de seus versos antigos, deu ao escritor Péricles Morais a honra de prefaciar a obra. Sendo
também poeta, pois publicara sonetos, Péricles Morais não teve dúvida em escrever brilhante prefácio, onde esclarecia a tendência simbolista do poeta.

Por mais brilhante que fosse Américo Antony, nem era perleúdo nem conhecedor de “escolas" literárias. Sua biblioteca, que eu conhecia, resumia-se em meia dúzia de obras de poetas estrangeiros e nacionais, Byron, Shakespeare, Wordswort, Bilac, Guerra Junqueíro (conhecia de cor “Ó melro”), o Bocage erótico, que declamava com ênfase. Nada de Manuel Bandeira, de Mário de Andrade, de gente modernista, a quem desdenhava.

Lido o prefácio, meteram-lhe na cabeça não aceitar a opinião do mestre Péricles, e Américo Antony não teve dúvida em publicar na página dos Anúncios de O Jornal, um “A quem interessar possa", desagravando-se da pecha de simbolista.

Naquela altura havia ele sido eleito membro da Academia Amazonense de Letras e a sua tempestuosa reação incomodou a quantos, acadêmicos ou não, lhe conheciam a obra. Péricles Morais não havia lido o insólito desmentido, e foi o presidente Dr. Adriano Jorge  (foto ao lado)quem da "Farmácia Barreira" o colocou a par da besteira, textualmente:
- Péricles, você já leu o que aquele idiota escreveu sobre o prefácio?
- Homem, você perdendo tempo com um mentecapto, e ele a despejar um cagalhoto em cima da maravilhosa peça...
- Vou convocar a Academia e despejá-lo de lá com toda a sua maluqueira rimada...

O dito foi feito e Américo Antony perdeu duas oportunidades: a de ter o livro editado por causa do panegírico de Péricles Morais, e a de membro da Academia. Mais tarde, passado aquele zunzunzum, eu propus a volta do poeta ao grêmio.
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