CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

27 de julho de 2013

BRANCO (E) SILVA (1889-1959)

Três motivos me levaram a transcrever este artigo: apesar do texto muito simplório, o autor, por sua condição de oficial da Polícia Militar, todavia, com passagem pela prefeitura de Manaus, na condição de Prefeito (1951-52).

O segundo, a figura do artista plástico Branco Silva, cujo nome artístico já absorveu o conectivo “e”, do que resulta Branco e Silva pra lá e pra cá, ainda assim encontrado em alguns locais da cidade. A ilustração mostra um seu trabalho realizado em 1948.

Enfim, a notícia de que acabara de regressar do Sul, onde estivera em tratamento de saúde. A melhora certamente fora nenhuma, pois faleceu em 12 de fevereiro de 1959.

LENDAS E FATOS DA AMAZÔNIA

Edson Epaminondas de Mello (*)

Capa de livro elaborada por
Branco Slva, em 1948
Branco Silva, exímio mestre dos pinceis, apresenta-nos criações de seu espírito de escol, lendas e fatos do nosso folclore. Fatos, porque passados e vividos em nosso hinterland.
São quadros de beleza dantesca, que impressionam ao mais corajoso e a todos deixam um quê de inquietação no espirito, porque dá-nos a quase certeza de seus personagens terem vida.

Há meses, rabiscamos algo sobre “Um artista e um gênio”, publicado por gentileza de Aloisio Archer Pinto em um dos “lideres” da imprensa manauara.

Dentre as criações do ilustre mestre, falamos que estava em confecção – o Mapinguari. Monstro lendário, meio macaco, meio homem, trazendo no meio da testa estreita um só olho avermelhado. Animal cabeludo e disforme, idealizado pela inteligência do mestre, em acordo com informes vários, dados por mateiros e seringueiros.
Aterroriza pelo seu ar sumamente feroz.
Merece ser visto por todos os amazonenses, que assim conhecerão a mais temida lenda do vale verde, corporificada pela mente privilegiada de Branco Silva.

Com relação aos novos trabalhos de Branco Silva, assim se expressou ilustre visitante, vindo do Rio de Janeiro – “A natureza amazônica nos apresenta às vezes, inteligências tão privilegiadas e avançadas, que aquele que observa e estuda, fica sublimemente entusiasmado a ponto de acreditar, ser aqui, aonde correm as águas do Rio-Mar, o verdadeiro habitat dos gênios”.

Assim, nos depara, esse grande artista que aqui nasceu e aqui reside nos surpreendendo de quando em vez, com as suas exposições ou, como agora, com as suas já conhecidas lendas da Amazônia, e fatos ocorridos nas selvas misteriosas e longínquas de nossa terra.

Branco Silva, que acaba de chegar do Sul onde foi em busca de melhoras à sua saúde abalada, ainda convalescente do mal súbito que o atacou, vem de nos apresentar nova e bela exposição.

E assim, nessa enternecedora prova de apreço, vem por longas e sinceras frases, saídas de seu coração leal, até porque, filho de outras plagas glorificando o nosso velho e estimado mestre Branco Silva tornando-se, dessarte, credor de gratidão dos amazonenses, que por minha descolorida palavra dizem-lhe, obrigado, ilustre amigo desconhecido, por tudo que escreveste a respeito do nosso Branco Silva, porque lhe fizeste a justiça que seus próprios conterrâneos pretendem negar a seu reconhecido valor.

Há dias passados, tratando de assuntos profissionais com o Dr. Mário Jorge (Couto) Lopes, para variar nossa conversação, e falando sobre fatos do nosso Amazonas, lembramo-nos de Branco Silva. Disse-nos o Dr. Mário – “seu colega, encontrei-me dias atrás com o velho amigo Branco Silva, e achei-o outro; cansado, semblante de sofrimento; não é o mesmo Branco Silva, vivo, risonho e com ar próprio de quem confia sempre no futuro”.

Estivera doente o velho mestre e, ainda não de todo restabelecido, continua entretanto em seu atelier de trabalho, onde, tantas e belas vitórias há sempre conseguido para o Amazonas, tornando-o, por seus belíssimos quadros e motivos planiciários, conhecido não só no Sul do país, como também no exterior.

Teve o brilhante advogado uma lembrança sublime, que bem diz de seu caráter cristão: “Julgo que o governo do Estado devia premiar o nosso Branco Silva com uma aposentadoria, de pelo menos Cr$ 15.000,00 (quinze mil cruzeiros) mensais, de vencimentos, como reconhecimento do Amazonas ao velho mestre que, por muitas vezes, glorificou aqui como alhures o nome de seu grande Estado”.

Achei maravilhosa a ideia do Dr. Mário Jorge, e senti-me feliz, verificando que em nossa terra os verdadeiros valores intelectuais não são de todo esquecidos, sempre há no meio das atribuições de futebol e politica um Dr. Mário Jorge fazendo justiça a quem merece.

Visitemos, pois, o atelier de Branco Silva, vivendo um pouco de sua vida de alegrias e tristezas, em um ambiente onde sempre tem lutado pela grandeza e glorificação do Amazonas. Assistamos de perto o entusiasmo contagiante com que o mestre explica-nos seus trabalhos e suas criações.

Levemos ao insigne mestre em sua oficina de trabalho o nosso abraço amigo e, também, um pouco de conforto material, pagando a reduzida importância da entrada a fim de ajuda-lo em outros trabalhos, que pretende realizar. O atelier do mestre é para ele o reduto mais sagrado, onde muito tem sofrido e também onde muitas glórias conseguiu para seu nome e para nosso querido Amazonas; suas criações e seus belos quadros são a razão mais sublime de sua vida.

Abracemos ao mestre no recinto sagrado de suas criações, e também sua esposa, Dona Orientina Ruas da Silva, a querida e inesquecível professora de nossa primeira infância, a companheira indormida do estimado Branco Silva, em todas as alegrias ou tristezas, dizendo-lhes... parabéns, mestres... pelo muito que tendes feito pelo Amazonas e pela glorificação de seu nome, tornando-o conhecido até no exterior.

A Branco Silva e Dona Orica (sic), o nosso sincero abraço. 

(*)O Jornal. Manaus, 8 de novembro de 1958