CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

20 de julho de 2013

FUTEBOL AMAZONENSE


Artes do futebol amazonense são aqui apresentadas por um lembrado cronista esportivo. Leal da Cunha conta-nos duas histórias, e, como assegura o próprio autor, a primeira vem travestida com as lendas recolhidas em nossos beiradões. A segunda é verdadeira. Ainda há quem a confirme, por ter participado do acontecimento. Não assisti ao jogo (1962), mas encontrei no quartel da Praça da Polícia (1966) alguns personagens, tanto jogador do quadro nacionalino quanto policiais presos.

 Leal da Cunha (*)

Futebol com doze

Pode até parecer mentira, brincadeira ou gozação, mas o certo é que o Juca Zangão conta essa passagem no futebol como verdadeira e real. Desenrolada no interior do Estado.
Jogavam dois times da mesma Liga. Dois times de grandes torcidas e dirigidos por gente muito importante. Era uma decisão de campeonato promovida pela tal Liga. Tão importante que para dirigi-lo, à sua arbitragem, foi convidado um juiz (árbitro) do município vizinho.

À hora do jogo todos estavam a postos. Jogadores, juízes e bandeirinhas. Foi dado início ao jogo, e, de repente, o capitão de uma das equipes se dirigiu ao árbitro para reclamar do time adversário, por quanto estava jogando com doze elementos em campo, o que não é permitido pela regra de futebol.
O juiz se dirigiu ao jogador que estava protestando contra aquele absurdo e esclareceu:
- Olha aqui, meu filho: três jogadores foram escalados pelo juiz de Direito; três, pelo promotor; mais três jogadores, pelo prefeito, e ainda mais três, pelo padre paroquial. Logo o que é que jogar onze elementos num time.
- Ora, rapaz, não me venha com esse negócio de regra ou de Lei! Há tanta coisa que a Lei proíbe e, no entanto, muita coisa também se prática ou se comete em desrespeito à lei. Deixe isso pra lá, amigo. Nós vivemos num país que "manda quem pode e obedece a Lei quem quer ou é leso!” Por isso, aconselho que você coloque mais um jogador no seu time pra ficar tudo igual, isto é, doze contra doze.
E, assim foi dito e cumprido, sorte que tudo terminou bem, não havendo mortos nem feridos.





O estádio do Parque Amazonense em demolição,
vendo-se apenas a o prédio coupado pelos cronistas,
1991.

 
Parque Amazonense

Pois bem meus amigos, em Manaus, em 1962, aconteceu no Parque Amazonense, um fato também pitoresco e que pode dissipar a dúvida de quem achou pouco confiável o que antes foi dito.
A regra de futebol é clara quando diz que o jogador expulso de campo NÃO pode ser substituído (grifo nosso). Rionegrinos e nacionalinos decidiam no velho Parque o título de campeão amazonense de 1962. O meu brilhante amigo Josué Claudio de Souza era quem mandava no time rionegrino, enquanto o Dr. Plínio Ramos Coelho, à época governador do Estado, era o presidente do Nacional.

O Parque estava cheio de gente. Na partida preliminar os juvenis nacionalinos abriram uma porrada com os soldados da Polícia Militar. Alguns “garotos” tomaram uma cacetada. O Dr. Plínio Coelho não gostou de a sua polícia bater nos seus meninos e, ato contínuo, ordenou a prisão de um dos soldados que ali estavam para o quartel.

Porém, o negócio mais pai-d’égua foi no jogo principal. Aos 16 minutos do primeiro tempo, o arbitro expulsou o jogador Lacinha, que era do time nacionalino, consequentemente, o time do governador. Então, diante de toda essa embuança, criou- se aquele ambiente de sai e não sai, com o tempo desenrolando e jogo paralisado, e apenas 16 minutos haviam sido jogados. 

A essa altura do campeonato sempre aparece um "profeta", desse tipo como político demagogo que se diz defensor do povo. Foi chegando perto os conflitantes e sempre dizendo: "o povo não pode ser prejudicado; o povo pagou para assistir 90 minutos de jogo e não 16 minutos. E agora ninguém pode devolver o dinheiro, porque as entradas não tinham o canhoto".

O pessoal das emissoras de rádio queria saber o que o árbitro dizia. E, sua Sia. não se fazia de rogado: o jogador Lacinha está Expulso de campo. Algumas pessoas falavam: cuidado, "seu" árbitro, o Sr. está expulsando um jogador do time do governador!...  

E, aquela figura de político de campo de futebol voltava atacar: "o povo não pode ser prejudicado". Ele dava a entender que o povo não podia ser roubado como se fosse aquela a primeira vez que o povo era roubado.  

Conversa vai, conversa vem, e, depois de muito jogo de palavras acordaram as partes litigantes que, para o “bem do povo e a felicidade geral da Nação”, o jogador ali expulso de campo poderia ser substituído. E assim foi cumprido. Saiu o Lacinha e entrou o Luizinho. O jogo também chegou ao seu final com a vitória dos rionegrinos por 2x1, sagrando-se, portanto, o campeão da cidade.

Assim meus amigos, isto é, aqueles que duvidaram que um time de futebol não pode ter doze jogadores em campo, assistiram diante desses fatos que um jogador expulso de campo foi substituído por outro jogador de sua equipe, é claro.
No entanto, se alguém duvidar do que aqui escrevemos podem perguntar ao Baú Velho, do Carlos Zamith, do meu amigo CIóvis Lemos de Aguiar e do velho jornalista Josué Claudio de Souza.

(*) O texto foi publicado em A Crítica, em 17 de novembro de 1991