CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

8 de julho de 2013

VIAGEM PELA AMAZÔNIA (1)


Capa do livro
Mais um visitante no Amazonas, no final da década de 1930. Trata-se do amazonense Jayme R. Pereira, que confessa em seu livro Amazonia (sic): impressões de viagem, estar fora de Manaus há 20 anos, quando empreendeu essa viagem. O livro foi publicado em São Paulo, pela Civilização Brasileira, em 1940, e as ilustrações foram realizadas por G. Lorensini.
 
A "voz que chama"
DEPOIS de uma ausência de quase 20 anos, voltei ao Amazonas, aproveitando para isso uma licença prêmio que dez anos de serviço público ininterrupto me permitiram.
Voltar ao Amazonas, onde nasci, mas cuja terra, povo e costumes ainda não conhecia, fora sempre meu desejo. Uma atração permanente me jungia a esse pedaço do Brasil, tão decantado por uns e tão malsinado por outros.
Resguardado a leste pelas águas verdes do Atlântico e a oeste pelo maciço dos Andes, o imenso bloco amazônico tem exercido sobre o resto do mundo uma tentação irresistível, arrastando para seu seio ubérrimo gentes de todas as castas e de todas as raças. Curiosos, diletantes, cientistas, parias, cobiçosos, malfeitores, artistas, filantropos, magnatas, todos se sentem atraídos pela pujança de suas florestas, a beleza de sua flora, a fertilidade de seu solo, a grandiosidade de sua rede potâmica. Principalmente pelo mistério de suas lendas. (...)


De Belém a Manaus
 
ABANDONANDO o transatlântico em Belém, penetrei o Rio-mar a bordo de um gaiola. Pequenino mas confortável, o "Índio do Brasil" deixou a bela capital paraense internando-se rio acima, em demanda do Amazonas. Às 21 horas em ponto, conforme tinha sido anunciado, afastou-se ele dos cais e, rumando para o leste, mergulhou nas trevas da noite carregado de esperanças e de saudades.
Esperanças para os que subiam o rio pela primeira vez, fascinados e atraídos pelo verde de suas promessas e pelo luxo de sua fartura.
Saudades para os que um dia lá se prenderam e agora mais uma vez se afastavam do conforto dos grandes centros, dos prazeres das grandes cidades.
Nesse dia da partida, a baía de Marajó estava calma. Sulcando, garboso, a superfície lisa das aguas, o "Índio do Brasil" como que riscava com sua quilha de aço o espelho prateado do rio, batido naquela hora pela luz acariciadora de um luar de namorados. Em
torno, ao longe, a moldura escura da floresta debruçada sobre as águas. Poucas horas depois, uma porção de ilhas e de bocas apertadas aparecia
em nossa frente. Por qual destas seguir? Só o piloto sabia. E, logo apos, uma delas atravessamos, quase roçando os galhos das margens, apitando nas curvas estreitas por onde somente uma embarcação poderia passar. Estávamos nos estreitos de Breves. Oitenta milhas de extensão, alargadas de vez em quando por sete grandes baías.
 
* * *
O gaiola
A viagem do "Índio do Brasil" decorreu como todas as viagens dos gaiolas que ha muitos anos servem ao transporte e às comunicações no Rio-mar e seus afluentes.
O gaiola tem sido um dos fatores preponderantes na vida da Amazônia. Há gaiolas de diversos tamanhos e capacidades, desde os pequeninos do porte de uma lancha, até os chamados "vaticanos" da Amazon River. Todos, porém, se parecem. Abertos, amplamente arejados, trançados de redes, os gaiolas são bem o tipo da embarcação mais conveniente à navegação do Amazonas e seus rios tributários.
Na subida dos rios, vão as embarcações bem rente às margens, aproveitando o remanso das bordas. Na descida, quase que se deixam levar tão somente pela correnteza das aguas, conservando-se no meio dos rios.
Grande parte da viagem se faz, entretanto, através dos paranás que são trechos do rio compreendidos entre uma de suas margens e as ilhas que por ali são abundantes e compridíssimas. O caboclo prefere viver justamente nos paranás, onde há menos correnteza e as canoas podem assim correr mais facilmente.
No tempo das cheias, quando as águas invadem as terras baixas das ilhas e do continente, muitos lagos ficam ligados aos rios e os gaiolas passam livremente destes para aqueles e vice-versa. Foi o que aconteceu uma vez em minha viagem. Seguindo um paraná estreito, vi-me de repente em uma baía. Era o lago Acarauarí.
Quem passa pelo Amazonas no tempo da cheia, desconhece completamente a maioria dos pequeninos portos em que passou, se por aí volta no tempo da seca. Na baixa, as casas ficam à distancia, tão para dentro que o local apresenta aos viajantes uma topografia inteiramente diversa. Muitas vezes as águas alcançam as próprias casas, razão porque estas são construídas sobre estacas. Ora mais perto, ora mais afastadas, conforme o nível das águas, nos dá a impressão de que são elas mesmas que se movimentam sobre as pernas de pau em que se apoiam.
Não são apenas as casas de residência que se constroem sobre estacas. Ao lado das casas, veem-se também pequenos currais igualmente construídos sobre estacas de madeira e onde se recolhem as poucas cabeças de gado durante os dias de enchente.
Brasileiros, sírios, portugueses, bolivianos, peruanos, judeus e cristãos, brancos e caboclos, pretos e mestiços, de tudo havia a bordo do "Índio do Brasil". Uns fazendo a viagem toda, outros descendo logo adiante do ponto em que embarcavam. Caras de todos os feitios.
Dois sentenciados por crime de morte. Velhos, adultos e crianças. Primeira e terceira classe. Não havia segunda. À
mesa, disse-me certa vez o comandante Fábio, com muita graça:
- Aqui nesta sala há passageiros de primeira classe e passageiros que viajam em primeira classe. São duas classes distintas...

Com minha senhora, seguia viagem para Manaus aonde chegamos depois de 11 dias, atracando finalmente na bela capital amazonense, um dos mais interessantes portos que tenho visto em toda minha peregrinação pelo novo e velho mundos. (segue)