CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, abril 19, 2026

POESIA DOMINICAL

 

Circulado no vespertino A Tarde, 22 maio 1960

 

PAISAGEM

 

Mavignier de Castro

 

Baixa a tarde diluindo lentamente

ametistas, topázios e turquesas

sobre o debrum flumíneo da Amazônia.

Aí vem a noite com a sua visitação de escuros e silêncios.

Paisagem de quatro dimensões murchando vesperalmente

num sono antigo de lianas e raízes.

Cerra-se, úmido, o verde dos olhos dos lagos

e forma um só veludo com as árvores, os barrancos e os igapós.

Céleres gaivotas esparsas vão confundindo

as asas como aspas solitárias

gizando as solidões fluviais que fogem.

 

Debruça-se o crepúsculo sobre as águas,

a tarde quieta veste-se de sombras nas alturas,

e os homens vão recolhendo à mansuetude dos casebres

as almas cheias, maduras e leves

e a certeza intemporal de uma Presença

na fácil perfeição de todas as coisas.


domingo, maio 25, 2025

POESIA DOMINICAL (5)

O autor Mavignier de Castro (1891-1970), oriundo do Ceará e instalou-se em Manaus, “suas crônicas e poemas são expressivos de seu encantamento com a majestosidade e beleza desse universo líquido e verde”, que tão bem conheceu por suas andanças como promotor público, registra Tenório Telles e Antonio Paulo Graça, em Estudos de Literatura do Amazonas.   

Paisagem foi publicado no vespertino A Tarde, em 22| maio| 1960, há exatos 65 anos, na coluna Cartão Postal.

 



Baixa a tarde diluindo lentamente

ametistas, topázios e turquesas

sobre o debrum flumíneo da Amazônia.

Aí vem a noite com a sua visitação de escuros e silêncios.

Paisagem de quatro dimensões murchando vesperalmente

num sono antigo de lianas e raízes.

Cerra-se, úmido, o verde dos olhos dos lagos

e forma um só veludo com as árvores, os barrancos e os igapós. 

Céleres gaivotas esparsas vão confundindo

as asas como aspas solitárias

gizando as solidões fluviais que fogem. 

Debruça-se o crepúsculo sobre as águas,

a tarde quieta veste-se de sombras nas alturas,

e os homens vão recolhendo à mansuetude dos casebres

as almas cheias, maduras e leves

e a certeza intemporal de uma Presença

na fácil perfeição de todas as coisas.

sábado, fevereiro 25, 2023

POEMA PARA O SÁBADO

 O poema pertence ao acadêmico Mavignier de Castro (1891-1970), que circulou na revista Victoria-Regia, de outubro de 1933. Tomei a iniciativa de compartilhar, atualizando às novas regras da ortografia. 

 

Fragmento da página, mostrando a 
grafia antiga de Manaus 

MANAUS 

Na margem onde agora o cais amarra

vapores de calarem trinta pés,

a fortaleza de São José da Barra

destroçou as igaras dos Barés. 

Logo, a vila-fortim – a História narra –

cortando a selva passa igarapés;

de choças e solares foi bizarra

Manaus, em mil oitocentos e dez... 

Capital da Província, eis a cidade

transformando em custosos artifícios

o colonial aspecto de outra idade. 

Hoje, em nada recorda a velha taba,

mas lembra, no esplendor dos edifícios,

a perene altivez de Ajuricaba. 



terça-feira, fevereiro 11, 2020

NOTA DE FALECIMENTO - 1970

Mavignier de Castro

Em 5 de fevereiro de 1970 morreu o acadêmico Antônio Mavignier de Castro. Nascido no Ceará em 1895, desembarcou em Manaus depois de uma longa viagem, com escalas na cidade de Belém (PA) e na de Paris (FRA). Aqui, foi professor de francês do Colégio Estadual, e desenvolveu outras atividades, como chefe de revisão do Diário Oficial e secretário do Jornal do Commercio, que publicou esta escassa Nota. Também se desincumbiu da função de Promotor Público em algumas comarcas do interior.

No entanto, Castro teve respeitável atuação nas letras amazônicas. São dele os livros: Amazonas Panteísta (Manaus: Sergio Cardoso, 1958) e Síntese Histórica e Sentimental da Evolução de Manaus (Manaus: Tipografia Fenix, 1948), cuja capa foi obra do artista Branco Silva.
Sua atuação literária possibilitou-lhe a acolhida na Academia Amazonense de Letras, em sessão de 6 de maio de 1950, na Cadeira nº 8, cujo patrono é Torquato Tapajós.


Registro encontrado no Jornal do Commercio (6 fevereiro 1970


ACADÊMICO MAVIGNIER DE CASTRO 

Faleceu ontem, às 23h20, em sua residência à rua J. Carlos Antony, o ilustre Professor Antonio Mavignier de Castro, que por longos anos exerceu a função de Secretário deste matutino, contando 73 anos de idade.
Deixa o ilustre desaparecido na viuvez a senhora Da. Vicência Araújo de Castro e os seguintes filhos: Amaury de Castro, pintor [artista plástico e poeta] Afrânio de Castro, senhora Dagmar de Castro Tavares, funcionária da Delegacia do Trabalho, nesta capital, e senhora Aurolina de Castro, funcionária do Ministério do Trabalho no Rio de Janeiro. O féretro do saudoso pranteado sairá de sua residência, à rua J. Carlos Antony, 642, às 16h20 para o Cemitério de São João Batista.

sábado, julho 27, 2013

BRANCO (E) SILVA (1889-1959)

Três motivos me levaram a transcrever este artigo: apesar do texto muito simplório, o autor, por sua condição de oficial da Polícia Militar, todavia, com passagem pela prefeitura de Manaus, na condição de Prefeito (1951-52).

O segundo, a figura do artista plástico Branco Silva, cujo nome artístico já absorveu o conectivo “e”, do que resulta Branco e Silva pra lá e pra cá, ainda assim encontrado em alguns locais da cidade. A ilustração mostra um seu trabalho realizado em 1948.

Enfim, a notícia de que acabara de regressar do Sul, onde estivera em tratamento de saúde. A melhora certamente fora nenhuma, pois faleceu em 12 de fevereiro de 1959.

LENDAS E FATOS DA AMAZÔNIA

Edson Epaminondas de Mello (*)

Capa de livro elaborada por
Branco Slva, em 1948
Branco Silva, exímio mestre dos pinceis, apresenta-nos criações de seu espírito de escol, lendas e fatos do nosso folclore. Fatos, porque passados e vividos em nosso hinterland.
São quadros de beleza dantesca, que impressionam ao mais corajoso e a todos deixam um quê de inquietação no espirito, porque dá-nos a quase certeza de seus personagens terem vida.

Há meses, rabiscamos algo sobre “Um artista e um gênio”, publicado por gentileza de Aloisio Archer Pinto em um dos “lideres” da imprensa manauara.

Dentre as criações do ilustre mestre, falamos que estava em confecção – o Mapinguari. Monstro lendário, meio macaco, meio homem, trazendo no meio da testa estreita um só olho avermelhado. Animal cabeludo e disforme, idealizado pela inteligência do mestre, em acordo com informes vários, dados por mateiros e seringueiros.
Aterroriza pelo seu ar sumamente feroz.
Merece ser visto por todos os amazonenses, que assim conhecerão a mais temida lenda do vale verde, corporificada pela mente privilegiada de Branco Silva.

Com relação aos novos trabalhos de Branco Silva, assim se expressou ilustre visitante, vindo do Rio de Janeiro – “A natureza amazônica nos apresenta às vezes, inteligências tão privilegiadas e avançadas, que aquele que observa e estuda, fica sublimemente entusiasmado a ponto de acreditar, ser aqui, aonde correm as águas do Rio-Mar, o verdadeiro habitat dos gênios”.

Assim, nos depara, esse grande artista que aqui nasceu e aqui reside nos surpreendendo de quando em vez, com as suas exposições ou, como agora, com as suas já conhecidas lendas da Amazônia, e fatos ocorridos nas selvas misteriosas e longínquas de nossa terra.

Branco Silva, que acaba de chegar do Sul onde foi em busca de melhoras à sua saúde abalada, ainda convalescente do mal súbito que o atacou, vem de nos apresentar nova e bela exposição.

E assim, nessa enternecedora prova de apreço, vem por longas e sinceras frases, saídas de seu coração leal, até porque, filho de outras plagas glorificando o nosso velho e estimado mestre Branco Silva tornando-se, dessarte, credor de gratidão dos amazonenses, que por minha descolorida palavra dizem-lhe, obrigado, ilustre amigo desconhecido, por tudo que escreveste a respeito do nosso Branco Silva, porque lhe fizeste a justiça que seus próprios conterrâneos pretendem negar a seu reconhecido valor.

Há dias passados, tratando de assuntos profissionais com o Dr. Mário Jorge (Couto) Lopes, para variar nossa conversação, e falando sobre fatos do nosso Amazonas, lembramo-nos de Branco Silva. Disse-nos o Dr. Mário – “seu colega, encontrei-me dias atrás com o velho amigo Branco Silva, e achei-o outro; cansado, semblante de sofrimento; não é o mesmo Branco Silva, vivo, risonho e com ar próprio de quem confia sempre no futuro”.

Estivera doente o velho mestre e, ainda não de todo restabelecido, continua entretanto em seu atelier de trabalho, onde, tantas e belas vitórias há sempre conseguido para o Amazonas, tornando-o, por seus belíssimos quadros e motivos planiciários, conhecido não só no Sul do país, como também no exterior.

Teve o brilhante advogado uma lembrança sublime, que bem diz de seu caráter cristão: “Julgo que o governo do Estado devia premiar o nosso Branco Silva com uma aposentadoria, de pelo menos Cr$ 15.000,00 (quinze mil cruzeiros) mensais, de vencimentos, como reconhecimento do Amazonas ao velho mestre que, por muitas vezes, glorificou aqui como alhures o nome de seu grande Estado”.

Achei maravilhosa a ideia do Dr. Mário Jorge, e senti-me feliz, verificando que em nossa terra os verdadeiros valores intelectuais não são de todo esquecidos, sempre há no meio das atribuições de futebol e politica um Dr. Mário Jorge fazendo justiça a quem merece.

Visitemos, pois, o atelier de Branco Silva, vivendo um pouco de sua vida de alegrias e tristezas, em um ambiente onde sempre tem lutado pela grandeza e glorificação do Amazonas. Assistamos de perto o entusiasmo contagiante com que o mestre explica-nos seus trabalhos e suas criações.

Levemos ao insigne mestre em sua oficina de trabalho o nosso abraço amigo e, também, um pouco de conforto material, pagando a reduzida importância da entrada a fim de ajuda-lo em outros trabalhos, que pretende realizar. O atelier do mestre é para ele o reduto mais sagrado, onde muito tem sofrido e também onde muitas glórias conseguiu para seu nome e para nosso querido Amazonas; suas criações e seus belos quadros são a razão mais sublime de sua vida.

Abracemos ao mestre no recinto sagrado de suas criações, e também sua esposa, Dona Orientina Ruas da Silva, a querida e inesquecível professora de nossa primeira infância, a companheira indormida do estimado Branco Silva, em todas as alegrias ou tristezas, dizendo-lhes... parabéns, mestres... pelo muito que tendes feito pelo Amazonas e pela glorificação de seu nome, tornando-o conhecido até no exterior.

A Branco Silva e Dona Orica (sic), o nosso sincero abraço. 

(*)O Jornal. Manaus, 8 de novembro de 1958

quarta-feira, outubro 10, 2012

Polícia Civil do Amazonas



Mavignier de Castro
O relato sobre esta instituição pertence ao saudoso acadêmico Mavignier de Castro (1891-1970), que o publicou em seu livro Síntese histórica e sentimental da evolução de Manaus, lançado em Manaus, em 1948.
O texto, que presumo escrito sem anotações prévias apenas com “sentimentos”, apresenta algumas distorções. Por isso, acrescentei pequenas notas à fala do autor, a fim de atualizar e facilitar o entendimento. Há muito este “roteiro” deveria ter sido reeditado. Quem sabe possamos vê-lo em breve.

Um detalhe final, a Polícia Civil era dirigida pelo Chefe de Polícia, consoante menciona De Castro. Ainda alcancei esse personagem, que reunia forte domínio, pois se ligava ao governador e possuía as atribuições de prender, de investigar e, durante décadas, de dirigir a penitenciária. Essa figura, que foi substituída pelo secretário de Segurança, deixou-nos muitos causos e incontáveis lembranças, nem sempre afortunadas.
*   *   *


Capa do livro de Castro, trabalho do
artista Branco Silva
No espaço de um século a Polícia Civil ocupou três prédios em ruas diferentes. A instalação da Província, em 1852, a encontrou situada na atual praça Pedro II, em  um casarão assobradado que também servia de cadeia pública e delegacia, precisamente no local onde hoje se ergue o Palácio Rio Branco [atualmente centro cultural].  

Em 1875, não mais oferecendo segurança suas vetustas paredes, determinou o governo a transferência da Chefatura para a casa que ocupa atualmente a marcenaria Leo  fazendo canto com a rua Dr. Moreira e a praça Roosevelt, antigo largo da Constituição [hoje praça Heliodoro Balbi ou da Polícia].   

Muitos anos se passaram antes que a sede da Polícia Civil fosse instalada no amplo palacete em que ora funciona, à rua Marechal Deodoro. Em 1934, quando Chefe de Polícia o Dr. Rui Araújo, o prédio ficou acrescido por um andar permitindo melhor funcionamento à seção de datiloscopia.
 
Chefatura de Polícia, na rua Marechal Deodoro,
antes da reforma de 1934

Também na gestão do Dr. Sady Tapajós de Alencar [1940-41], a repartição policial recebeu notáveis melhoramentos, sendo adquirido o primeiro carro celular para transporte de presos.

Na administração governamental do Dr. Pedro Bacelar [1913-17] contava a cidade com dois distritos policiais cada um obedecendo à respectiva delegacia. A primeira funcionou no prédio da rua Joaquim Sarmento agora pertencente à Tipografia Fenix e a segunda, na esquina da avenida Eduardo Ribeiro com a rua 10 de Julho.

Apesar de tecnicamente desaparelhada, não contando entre os seus investigadores nenhum detetive de curso especializado, a Polícia Civil de Manaus tem se distinguido em inúmeras ocasiões ao demonstrar argúcia na pista de salteadores e bravura no capturar indivíduos facinorosos quase sempre foragidos de outros Estados.  

Quando chefiava a repartição o Dr. Marcionílio Lessa, no mês de fevereiro de 1934, em consequência de um conflito entre militares e elementos da Guarda Civil, o próprio da rua Marechal Deodoro foi invadido, desarmada a sua guarda e desacatados os comissários e escrivães de serviço que foram recolhidos à Penitenciaria do Estado. [A chefia de Lessa durou de 20.02 a 06.03.1935, que deve ter sido exonerado em decorrência desse conflito].

Anexa à Chefatura funciona a Comissária da Polícia do Porto. No prolongamento do mesmo prédio, mas de fachada para a rua Dr. Moreira [o correto é rua Guilherme Moreira, onde se encontra o Banco do Brasil], tem o seu quartel a Guarda Civil [desativada no início do Governo Militar], montando um efetivo de sessenta homens. Sua fundação data de 1917.

Pelo Dr. Rui Araújo, em 1934, foi organizada a Guarda Noturna, a qual juntamente aos guardas civis vem prestando eficiente serviço no policiamento central e suburbano da capital.