CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

16 de julho de 2013

MANAUS: HISTÓRICO E SENTIMENTAL (1)


Capa do livro
Com objetivo de montar um Guia para os visitantes de Manaus, Luiz Miranda Corrêa (hoje da Academia Amazonense de Letras) publicou, em 1969, Manaus: roteiro histórico e sentimental da cidade do Rio Negro. Conta com o prefácio do finado ex-governador Arthur Cesar Ferreira Reis, que o estimulou a concluir este trabalho.
Deste roteiro copiei e colei o texto abaixo, repetindo que a publicação data de 1969, escrito para comemorar o tricentenário da capital do Amazonas.
 
 
A BORRACHA
 
A Borracha foi revelada à Europa logo após a descoberta da América. Em sua segunda viagem, Colombo viu os índios de o Haiti utilizar vários artigos de borracha.
Os cronistas espanhóis e portugueses referem-se, também, ao produto nativo do
novo continente, e Alexandre Rodrigues Ferreira conta como as diversas tribos amazônicas aprenderam com os Cambebas a "fabricarem a célebre goma ou resina elástica chamada vulgarmente de leite de seringa, porque daquela goma se fazem botas, sapatos, chapéus, vestidos e etc., tudo impenetrável a água".
La Condamine se ocupou longamente da borracha e outro francês, François Fresnau, em comunicação à Academia de Ciências de Paris, escreveu que "pode-se aplicar sobre qualquer superfície desejada desde que, nem o sol nem a água podem alterar", sugerindo sua utilização na manufatura de guarda-chuvas, protetores de munição, capas, botas e armas de guerra.
Antes da invenção da roda pneumática por Dunlop, a borracha servia, principalmente, para impermeabilizar peças de vestuário, e já no Consulado Pombalino o rei e o ministro de Portugal tinham recebido roupas impermeabilizadas fabricadas em Belém do Pará. Após a invenção da bicicleta e do automóvel a hévea brasiliense ascenderia ao lugar de elemento imprescindível à civilização moderna.
As indústrias, que sucessivamente foram sendo criadas, na Europa e nos Estados Unidos, começaram a necessitar cada vez mais da goma elástica, e, como não podia deixar de ser, Belém e Manaus passaram a ser beneficiadas por um surto vertiginoso de progresso. Suficiente para transformar toda uma sociedade. Modificava-se a aparência dos burgos amazônicos, rapidamente transformados em centros atualizados e confortáveis, igualando-se em facilidades às mais modernas capitais europeias.
Em excelente monografia editada pelas coleções do Governo do Estado do Amazonas, o professor Bradford Burns, da Universidade de Miami, escreve que "em 1910, Manaus reinava como a capital mundial da borracha. Mais de vinte anos de produção crescente, exportação contínua e de preços em elevação, haviam criado a prosperidade da qual a cidade era a evidência mais ampla". E diz mais adiante: "Manaus alardeava com orgulho todas as civilidades de qualquer cidade europeia de seu tamanho ou mesmo maior. Um excelente sistema portuário, um sistema de coleta e disposição de lixo eficiente, eletricidade, serviço telefônico, belos edifícios públicos, residências confortáveis, atestavam o serviço de modernização da cidade."
Uma verdadeira revolução sacudia a vida manauense. Não eram apenas os trabalhos de urbanismo e a construção de monumentais prédios públicos que atestavam o progresso repentino da capital. Esse enriquecimento também se evidenciava nos serviços públicos instalados pelos capitais e técnicas inglesas, desde os sistemas de águas, esgotos, luz elétrica até às instalações portuárias que os irmãos Booth tomaram a seu encargo.
Os novos estabelecimentos bancários, as lojas europeias como o Louvre, Bon Marché, A La Ville de Paris, as casas aviadoras financiando os seringalistas do interior e, por último, as belas residências, vilas ou palacetes, faziam as delícias do pacato e provinciano manauense, que começava a desejar mais e mais produtos importados: conservas exóticas, joias bizarras, roupas de alto preço, móveis
de estilo e bebidas finas
.
A cidade crescia rapidamente. Eduardo Ribeiro e os governadores que lhe sucederam, principalmente Ramalho Junior e Silvério Nery, davam-se ao luxo de projetar ruas e avenidas para uma cidade muitas vezes maior, iniciativa
lógica de administradores de visão. Os europeus, e brasileiros de todos os quadrantes, principalmente do Maranhão, Pará e Ceará, chegados diariamente, contavam-se às centenas ou milhares, em busca de fortuna nos seringais ou no comércio da capital. Além de brasileiros e europeus, desembarcavam imigrantes, vindos da Síria e do Líbano, do Peru
, da Colômbia, da Bolívia, das Guianas e das ilhas do Caribe.
Houve tempo em que nas casas ricas o pessoal doméstico provinha quase que inteiramente da ilha britânica de Barbados. Era um especulo digno de nota ver-se as cozinheiras negras - as famosas barbadianas - com seus vestidos à inglesa e usando chapéu a qualquer hora do dia, irem ao Mercado Municipal, arengar o preço da carne ou do peixe em um dialeto especial, misturando o português mal falado com expressões inglesas. Uma delas chegou a ser eleita "Miss Cozinheira", famosa pelos pastéis e empadas oferecidos por molecotes nas casas grandes dos novos ricos.
Uma sociedade inteira passava de um estágio primitivo para os requintes da civilização europeia, sem etapas intermediárias. Do tamanco de madeira, muitas vezes, à ascensão violenta, levava o seringalista ou o comerciante às elegâncias do solar português ou do palacete francês, onde os tapetes europeus, os pianos alemães, as jarras de Sévres, o cristal St. Louis ou Bacarai, as louças de Limóges, Wedgwood, ou Vista Alegre, passavam a substituir a casa de chão batido e os pratos de pó de pedra ou de esmalte, importados dos Estados Unidos.
As famílias mais antigas do Amazonas, o pequeno número de privilegiados do Império, diplomados em Coimbra, bacharéis de anel de brasão no dedo, ostentando comendas ou mesmo títulos nobiliárquicos, acostumados aos formalismos da Corte austera de Pedro lI, sentiam-se chocados com aquela onda avassaladora de modernidade que, em menos de dez anos, tinha destruído um Amazonas tranquilo, acostumado ao seu domínio social e político por várias décadas.
Eram, n
o entanto, impotentes para conter as transformações. Ou se adaptavam às novas condições de vida da região ou seriam, como vários o foram, tragados pelo redemoinho dos interesses da borracha.
Um novo mundo nascia e impunha seus padrões com violência. A pacata cidadezinha acostumada aos longos serões à porta das casas, em que a leitura e o jogo do gamão ou do xadrez constituíam o divertimento maior das camadas mais altas da populão, via bares, restaurantes, hotéis e cabarés se multiplicarem, atraindo uma romaria de homens ávidos de aprender a se embriagar com os melhores cognacs e licores, a conhecer as boas safras do vinho de França, de Espanha ou de Portugal, a exigirem as etiquetas das champagnes mais refinadas.
A orgia do dinheiro fácil tornou-a barulhenta, e da Europa e do Sul do Brasil as aventureiras começaram a chegar em número assustador, conseguindo apavorar as boas mães de família, tementes pela saúde dos filhos e mesmo dos maridos. Saúde física e saúde financeira. Ah, as francesas dos cabarés e pensões de Manaus! E mais do que as francesas, as polacas, na cidade do Rio Negro! Louras, elegantes, vestidas em Paris, usando joias e perfumes raros, falando francês com um acento forte e sensual. Buliram tanto com os homens, solteiros e casados, ao ponto de virarem sinônimo de rapariga, que no Amazonas significa mulher de vida fácil.
E Manaus passou a dormir mais tarde, cada vez mais tarde, cantando junto com Paris as árias da última opereta, da canção mais em voga, porque Paris para o manauense virou o ponto de encontro, o centro de férias, o local onde educar seus filhos ou apenas a cidade onde se devia esbanjar as esterlinas inglesas ganhas às custas do suor dos seringueiros, esquecidos e explorados, apodrecendo nos seringais perdidos na floresta.