CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

18 de julho de 2013

FRANCISCA, SAUDOSA MÃE

Renato Mendonça (*)

Francisca Lima, final
dos anos 1930
Remexi no baú de recordações todos os documentos que dispunha e que ainda disputavam a minha curiosidade; busquei nesse relicário também todas as fotos antigas, que fazem parte do acervo que ajuda a restaurar a memória.

Foi como uma viagem ao passado, um curta em preto-e-branco; de olhos fechados, revi a trajetória de uma migração para o Amazonas, para a extração de borracha no primeiro período — compreendendo as duas décadas finais do século XIX e a primeira década do século seguinte —, quando aconteceu um êxodo de nordestinos, notadamente do Ceará, que sofria as consequências das secas do final do século.

Residência da família no Anveres,
Francisca (no colo da mãe), 1917
Nesta leva, a família Pereira Lima, provavelmente, estava incluída. Como pobres retirantes não chegaram até Manaus, talvez temendo o fantasma da modernidade e da pujança adquirida com a valorização do bem extrativista.  Ou porque não era exatamente na capital que ficavam os seringais. Dá para intuir que uma família sem recursos, sem uma formação cultural necessária para enfrentar uma metrópole, prefere um lugar simplesmente rural. E aí, se instalaram no Anveres, um distrito do Careiro.

Neste humilde lugarejo nasceu Francisca, a caçula de uma enorme prole. Com as dificuldades finaceiras advindas do fim do período fértil da borracha, ela tomou coragem e resolveu buscar alternativas de ajuda aos pais, atravessando o Rio Negro. Foi em busca de documentos e de trabalho. Adquiriu Titulo de Eleitor aos 20, Carteira Sanitária e Carteira Profissional aos 22, para finalmente começar um trabalho remunerado.

No seu único emprego, na Fábrica Rosas Ltda., ficou por quase três anos.  Aproveitou para fazer outros cursos de prendas domésticas, como Corte e Costura por exemplo, preparando-se para a vida conjugal, como era praxe nestes anos dourados da década de 40. 

Neste ambiente da padaria (hoje panificadora) conheceu Seu Mendoza, um peruano que também fugiu de sua terra natal, aos 15 anos, acompanhado do irmão mais novo (Francisco) e sob a tutela da mãe, Dona Victoria, peruana emancipada, destemida e arrojada. Assim, dentro das mesmas castas sociais e no mesmo ambiente de trabalho, o desenlace tinha que acontecer.

O casal perambulou por vários cantos e em vários endereços. Como nômades viajaram até Iquitos-Perú, onde ocorreu o casamento. Depois do nascimento dos dois primeiros filhos, navegaram para o Rio de Janeiro em busca do  pote de ouro no final do arco íris. A construção do Maracanã faz parte do currículo do Seu Mendoza, onde trabalhou junto com o irmão.

Desavenças e dificuldades de relacionamento entre familiares acabaram por virar pó essa jornada carioca. Dona Francisca já não tinha mais a saúde em dia. O mal do meado do século, a tuberculose, era um temor e uma ameaça. A família tentou, numa guinada de 180 graus, a cura para tão desastrosa doença, talvez apostando no clima tropical.

Não deu, em Manaus, Dona Francisca teve uma  piora e o desfecho era inevitável. Às 20 horas do dia 18 de julho de 1952, sexta-feira, Dona Francisca Pereira Lima encerrou sua obstinada luta pela vida. Uma caquexia foi diagnosticada, talvez resultado da pneumonia aguda que contraiu. Deixou um legado e uma história, curta, exata e de superação. Os três filhos não puderam, nos últimos meses, receber o seu carinho e seu afeto, em face da doença contagiosa. Mas, com certeza, estão plasmados pelas bençãos que ela envia do seu lugar de luz e de paz.
 
(*) Renato, meu irmão caçula, escreve com o imenso afeto que se encerra em seu peito sempre juvenil, imensamente filial, mas sofrido, porque devido a saúde de nossa mãe, ele pouco desfrutou do convívio dela.